Nas asas do sonho


Descobertas recentes vêm permitindo conciliar concepções psicanalíticas, psicológicas e neurofisiológicas numa única teoria da função onírica.

Revista Scientific American - por Sidarta Ribeiro e Miguel Nicolelis

No mundo ocidental contemporâneo, os sonhos costumam ser relegados a um lugar secundário na vida das pessoas. Algumas nem chegam a sonhar, presas das preocupações e do stress. Entre os sonhadores, muitos não se lembram do que sonham. E é comum os que se lembram considerarem o sonho um fenômeno bizarro, confuso e mesmo irrelevante para o que realmente importa: a vigília.

Mas nem sempre foi assim. Durante a maior parte da história, os sonhos foram considerados um instrumento poderoso e eficaz de previsão do futuro. Na Antigüidade, Macróbio e Artemidoro diferenciaram ao menos cinco tipos de sonhos segundo seu conteúdo subjetivo: insomnia (fixação num único pensamento), fantasmata (pesadelos), oneiros (sonho enigmático que requer explicação), visio (possível premonição de eventos) e oraculum (profecia realizada). A crença na clarividência onírica persiste até hoje em inúmeras culturas. Muitos povos acreditam que soluções engenhosas para grandes problemas podem ser recebidas em sonhos, como presente dos deuses e espíritos.

Se as preocupações com o futuro foram reconhecidas há milênios como ingrediente importante dos enredos oníricos, é evidente que uma parte substancial dos sonhos se refere ao passado, seja na forma de evento recente, seja na de fato ocorrido muitos anos antes. Freud descreveu o sonho como um "conglomerado de formações psíquicas" moldado pela história pregressa do indivíduo, com múltiplos significados parciais, que tem por função proteger contra a dor e satisfazer desejos. Por outro lado, décadas de experimentação demonstraram que o sono e os sonhos são importantes para a consolidação de vários tipos de memória, desempenhando papel crucial no aprendizado. No limiar do novo milênio, uma série de descobertas moleculares, celulares e psicológicas vem permitindo conciliar essas diferentes concepções numa única teoria biológica da função dos sonhos.

O sono é um processo polifásico, isto é, composto por subestados com diferentes propriedades neurofisiológicas. Em mamíferos e aves, apresenta duas fases principais que se sucedem ciclicamente: o sono de ondas lentas e o sono REM. O sono de ondas lentas antecede o sono REM e é muito mais abundante. A ausência de sono REM em grande parte dos répteis sugere que essa fase é, em termos evolutivos, mais recente que o sono de ondas lentas. Experimentos realizados em humanos mostram que o sono REM é normalmente acompanhado da experiência subjetiva do sonho, uma construção mental dinâmica e vívida,porém instável e imprevisível. O sono de ondas lentas, ao contrário, é em geral caracterizado por pensamentos com lógica semelhante à da vigília, mas desprovidos de imagens intensas e enredo complexo.

Em 1989, Constantine Pavlides e Jonathan Winson, da Universidade Rockefeller, realizaram uma descoberta fundamental para elucidar a função cognitiva do sono e dos sonhos. Eles demonstraram que neurônios do hipocampo, região cerebral envolvida na aquisição de memórias espaciais, se reativam durante o sono segundo a atividade observada durante a vigília. Utilizando dezenas de microfios metálicos implantados cirurgicamente em várias áreas do cérebro de ratos expostos a novos estímulos táteis e espaciais, nosso grupo de pesquisa da Universidade Duke aprofundou os achados originais de Pavlides e Winson.

Verificamos que a reverberação é uma propriedade de múltiplas regiões cerebrais além do hipocampo, provavelmente refletindo propriedades celulares compartilhadas por muitos tipos de neurônio. A comparação das duas fases revela que o sono de ondas lentas reverbera memórias de forma mais constante que o sono REM. Sabemos também que a atividade neuronal durante o sono REM é maior que no sono de ondas lentas em quase todo o cérebro. Tomadas em conjunto, essas observações parecem explicar as diferenças de grau de vivi dez e tipo de lógica narrativa que caracterizam a atividade mental no decorrer do sono de ondas lentas e REM. Parecem também apoiar a noção de que o sono e os sonhos facilitam o processamento de memórias de eventos passados.

  • Reverberação neuronalPara que uma memória se torne permanente, é preciso que a reverberação neuronal deflagrada por sua aquisição dê origem a alterações morfológicas duradouras dos circuitos neuronais envolvidos. Em geral, tais alterações exigem mudanças na expressão de genes capazes de induzir a remodelagem sináptica. Utilizando a técnica de hibridização in situ, demonstramos em 1999 que o gene zif-268, induzido por atividade neuronal e relacionado à produção de proteínas sinápticas, tem sua expressão aumentada durante o sono REM quando este se segue a uma experiência sensorial inédita para os ratos. O mesmo não ocorre em animais expostos apenas a experiências familiares, nem durante o sono de ondas lentas, que provoca uma queda da expressão do gene zif-268. Os resultados sugerem que o sono REM abre uma janela de remodelagem sináptica capaz de perenizar memórias recém-adquiridas.

    Chamou nossa atenção que as regiões onde o gene zif-268 é mais fortemente induzido pelo sono REM são o hipocampo e o córtex cerebral, pois uma importante propriedade da consolidação das memórias ainda sem explicação é o fato de que memórias episódicas (de lugares, pessoas e eventos) se tornam progressivamente independentes do hipocampo e dependentes do córtex para sua estocagem. É como se e o hipocampo fosse apenas a porta de entrada das memórias, que com o tempo vão se aprofundando pelo córtex de forma a adquirir robustez de evocação e riqueza de associações.

    A fim de investigar a dinâmica de processamento de memórias entre o hipocampo e o córtex durante o sono REM, implantamos uma memória artificial no hipocampo de atos de laboratório por meio de estimulação elétrica de alta freqüência. Descobrimos que a indução do gene zif-268 após a estimulação elétrica se propaga para fora do hipocampo em direção ao córtex, à medida que episódios de sono REM se sucedem. Esses resultados, publicados em 2002, constituíram a primeira evidência experimental de que o sono REM pode ser a causa da migração de memórias para fora do hipocampo. Nossa hipótese atual é a de que a migração de memórias deflagrada pelo sono REM é conseqüência direta das propriedades moleculares do gene zif-268, que acopla mudanças nos dendritos de um neurônio (input) a modificações nos terminais axonais (output). Essas mesmas propriedades seriam responsáveis pela propagação das memórias pelo vasto espaço cortical, configurando autênticas ondas de expressão gênica que se repetem à medida que o ciclo sono-vigília transcorre.

    Embora a expressão do gene zif-268 durante o sono dependa crucialmente da entrada na fase REM, não encontramos uma relação forte entre os níveis de expressão gênica e o tempo total despendido em sono REM. Bastam alguns segundos de sono REM para que a transcrição do gene zif-268 seja iniciada, sugerindo que o papeldo sono REM na indução de genes ligados à remodelagem sináptica é basicamente permissivo. Essa pode ser a explicação para o fato de que as aves apresentem centenas de episódios de sono REM em uma única noite, cada um deles com a duração de alguns segundos. Nossa hipótese atual é a de que esse padrão de micro-REM representa uma forma ancestral da relação entre as fases do sono, na qual o sono de ondas lentas reverbera e amplifica as memórias adquiridas durante a vigília, que são em seguida consolidadas por meio da expressão gênica disparada após poucos segundos de sono REM.

    Essa hipótese dá resposta à crítica de Jerome Siegel de que o papel cognitivo do sono REM seria filogeneticamente inconsistente, pois animais "muito inteligentes" como o golfinho deveriam ter mais sono REM que animais "pouco inteligentes", como o ornitorrinco - exatamente o oposto do observado. Ora, se a função primordial do sono REM é a estocagem e propagação de memórias através da ativação gênica, e se essa ativação ocorre rapidamente após a entrada no sono REM, é fácil compreender que diferenças na quantidade de sono REM entre espécies devem ser menos influenciadas por fatores cognitivos que por outros fatores ecológicos e fisiológicos. Por outro lado, considerando que os mamíferos apresentam um padrão de sono bastante distinto do das aves, com episódios de sono REM muito mais longos e bem menos numerosos, seria natural supor a existência de alguma outra função do sono REM, evoluída mais recentemente e relacionada com a duração dessa fase. Que função seria essa?

    Uma possível resposta talvez esteja na relação do sonho com a criação de novas idéias. Trata-se de um efeito cognitivo diferente do simples fortalecimento de memórias discutido até aqui, pois requer uma reestruturação das memórias preexistentes capaz de formar novas memórias, novos pensamentos, soluções súbitas que a língua inglesa chama de insights. Há inúmeros exemplos famosos na história, invariavelmente envolvendo a resolução em sonho de problemas de grande importância social. A máquina de fiar, de imenso impacto econômico, foi inventada em 1844 por Elias Howe a partir de um sonho. O grande líder Gandhi usava os sonhos para orientar seus movimentos políticos.

    Os casos mais bem documentados encontram-se na ciência e na arte. Em 1861, o químico alemão August Kekulé lutava para desvendar a estrutura do benzeno, pois o número observado de carbonos e hidrogênios não se encaixava em nenhum arranjo linear conhecido. Certa noite, exausto após mais uma tentativa de resolver o problema, Kekulé adormeceu em frente à lareira. Sonhou com uma serpente engolindo a própria cauda, um famoso símbolo alquímico chamado "uróboro". Ao despertar, Kekulé formulou a hipótese correta de que os seis carbonos do benzeno formam um anel, abrindo as portas para o desenvolvimento da química dos compostos aromáticos, ou seja, com estrutura circular.

  • Insights noturnosDescoberta onírica ainda mais relevante foi a tabela periódica, que imortalizou Dimitri Mendeleiev como um dos fundadores da química moderna. Segundo o relato de Mendeleiev, a tabela foi visualizada em sua íntegra durante um sonho, e apenas uma única correção foi necessária ao despertar. A tabela não apenas organizava os elementos químicos conhecidos, como também previa corretamente as propriedades de elementos químicos que só posteriormente foram descobertos.

    Na arte, os exemplos são ainda mais abundantes. De Dürer a Duchamps, de William Blake a Stephen King, de Stravinsky a Paul McCartney, de Fellini a Kurosawa, o sonho é freqüentemente colocado a serviço da criação artística. O movimento surrealista de André Breton, Luis Buñuel e Salvador Dalí chegou a postular que sonhar é o instrumento artístico por excelênncia, pois sonhando é possível obter uma grande quantidade de imagens "super-reais", isto é, livres das amarrras da realidade. Os surrealistas foram os primeiros a tentar filmar sonhos, acreditando na concepção freudiana do sonho como porta principal do inconsciente. Dalí desenvolveu diferentes métodos para a obtenção de imagens oníricas. Preconizava, por exemplo, que o artista cochilasse sentado com uma colher pesada entre os dedos e um prato de metal abaixo. Ao iniciar o sono, a colher cairia, e o ruído do choque de metais despertaria o artista, que deveria então registrar as imagens sonhadas. O método se apóia no fato de que a transição da vigília para o sono sempre envolve uma curta fase semelhante ao sono REM, com muitas imagens mentais (sono hipnogógico).

    Apesar da sua relevância para tantos campos do conhecimento, a função criativa dos sonhos é fugida. Como replicar em laboratório um processo tão idiossincrático? O primeiro avanço ocorreu em 2002, quando Matthew Walker, Robert Stickgold e outros colaboradores da Universidade Harvard relataram resul onho como porta principal do inconsciente. Dalí desenvolveu diferentes métodos para a obtenção de imagens oníricas. Preconizava, por exemplo, que o artista cochilasse sentado com uma colher pesada entre os dedos e um prato de metal abaixo. Ao iniciar o sono, a colher cairia, e o ruído do choque de metais despertaria o artista, que deveria então registrar as imagens sonhadas. O método se apóia no fato de que a transição da vigília para o sono sempre envolve uma curta fase semelhante ao sono REM, com muitas imagens mentais (sono hipnogógico).

    Apesar da sua relevância para tantos campos do conhecimento, a função criativa dos sonhos é fugida. Como replicar em laboratório um processo tão idiossincrático? O primeiro avanço ocorreu em 2002, quando Matthew Walker, Robert Stickgold e outros colaboradores da Universidade Harvard relataram resultados que permitem compreender melhor a diferença entre as atividades mentais do sono de ondas lentas e do sono REM. Os participantes foram despertados durante uma das fases do sono e imediatamente testados na resolução de anagramas (grupos de palavras compostas pelos mesmos pedaços rearranjados). Quando despertados durante o sono REM, eles apresentaram muito mais facilidade para resolver os anagramas que quando acordados durante o sono de ondas lentas. O experimento sugere que o sono REM favorece um processamento cognitivo mais flexível que o sono de ondas lentas.

    Em 2004 mais um importante passo foi dado para compreender cientificamente a função criativa que parece operar durante o sono e seus sonhos. No experimento realizado por Ulrich Wagner, Jam Born e colaboradores da Universidade de Lübeck, Alemanha, pessoas foram submetidas a uma tarefa psicológica conhecida como teste de redução numérica, cujo objetivo é resolver rapidamente uma curta seqüência de números. Apenas três números diferentes compõem a seqüência, que se transforma em outra seqüência segundo duas regras explícitas bastante simples: 1) números adjacentes idênticos resultam no mesmo número e 2) números adjacentes diferentes resultam no terceiro número. A cada redução, o número obtido é comparado ao número que se segue na seqüência original, e assim até o último número. Por exemplo: a série 14911119 se transforma na série 9949499. Neste caso, a solução da série é o último número, 9.

    No entanto, em um truque engenhoso, as seqüências foram desenhadas de forma que o segundo número de cada série reduzida fosse sempre igual ao último número, isto é, à solução final. O truque foi o uso de trincas especulares, simétricas, como se refletidas num espelho, resultando numa importante informação implícita: não é necessário cumprir a tarefa até o fim, basta chegar ao segundo número, Os participantes foram apresentados à tarefa duas vezes, à noite e no dia seguinte pela manhã. Pessoas que se mantiveram despertas durante a noite mostraram uma pequena melhora na velocidade de resolução da tarefa, mas 60% das pessoas que puderam dormir passaram a resolver a tarefa em um tempo cinco vezes menor. A explicação: elas compreenderam a regra subliminar e passaram a apresentar como solução da série reduzida o segundo número obtido. Ao demonstrarem que o sono facilita a melhora abrupta na velocidade de resolução da tarefa, os autores ligaram o sono à reestruturação de representações mentais necessária para a "descoberta" de soluções novas para uma tarefa cognitiva.

    As investigações continuam para determinar qual das fases do sono está mais envolvida nessa reestruturação de memórias. As apostas recaem sobre o sono REM, dada sua maior flexibilidade cognitiva e o fato de que a reverberação de memórias é menos estável durante esse período que durante o sono de ondas lentas. Ao se confirmar essa suspeita, chegaremos à conclusão de que as duas fases do sono realizam tarefas cognitivas distintas e complementares: durante o sono de ondas lentas, as memórias são fortalecidas por repetição. Nos primeiros segundos do sono REM, as memórias recém-fortalecidas são consolidadas via expressão gênica. Finalmente, no decurso de vários minutos de sono REM, as memórias são reestruturadas de forma a criar novos comportamentos.

    Embora o fortalecimento e a reestruturação de memórias pareçam ser funções cognitivas do sono e dos sonhos, apenas esses conceitos não dão conta da complexidade simbólica que caracteriiza a narrativa onírica. Afinal, não é comum sonhar com a repetição de tarefas difíceis, nem com imagens estáticas e isoladas, e muito menos é usual sonharmos apenas com a resolução de charadas. Recorrendo à metáfora cinematográfica, pode-se dizer que os sonhos em geral são enredos centrados no sonhador, porém com diversos personagens auxiliares, em locações variadas e com reviravoltas desconcertantes. Para usar os termos de Freud, os "conglomerados de formações psíquicas" que dão corpo aos sonhos não são retalhos isolados tampouco roteiros lineares, mas sim grandes amálgamas de memórias sensoriais e motoras que se agrupam segundo as emoções dominantes para o sonhador.

    Com um pouco de introspecção, é fácil constatar que situações de medo e angústia na vigíla freqüentemente provocam a ocorrência de pesadelos. Com base no estudo dos sonhos de crianças submetidas a diferentes graus de risco, o psicólogo Antti Revonsuo, da Universidade de Turku, Finlândia, formulou a teoria onírica da simulação de ameaças. Segundo essa teoria, o sonho tem como função simular ameaças de forma a permitir o treinamento da percepção do risco e da fuga.

    O grupo de pesquisa de Revonsuo coletou sonhos de crianças que habitam regiões conflagradas como o Curdistão, onde pessoas de todas as idades foram sistematicamente massacradas com armas convencionais e químicas. Os conteúdos emocional e simbólico desses sonhos foram comparados aos conteúdos oníricos observados em crianças finlandesas, que não se encontram expostas a nenhum grande risco de agressão. Os resultados mostram que a incidência de pesadelos em crianças curdas é muito mais alta que nas finlandesas, envolvendo contextos violentos semelhantes aos vividos na vida real por toda a comunidade. Os dados demonstram que os sonhos refletem as situações vividas pelos sonhadores tanto no nível emocional quanto no simbólico e sugerem que o enredo onírico por excelência é o pesadelo, na medida em que simula perigos a serem evitados na vida real.

  • Consumação de apetitesUma abordagem ecológica da simulaç&a
    • Leitura Dinâmica e Memorização

      Preencha aqui seus dados

    © Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus