Nas Entrelinhas do DNA


Ninguém duvida que certos traços de personalidade são hereditários, mas só nos últimos anos a ciência passou a entender como variaçoes genéticas explicam, por exemplo, a curiosidade, a violência e a resistência ao stress.

Revista Sientific Americam - por Turhan Canli

Há pessoas que, mesmo nas situações mais críticas, não perdem o bom humor, a serenidade e a compostura. Outras, porém, exaltam-se ao menor sinal de que os acontecimentos - no plano emocional ou material - tomam rumo indesejado. Cada um de nós se situa em algum ponto desta escala que representa a forma como reagimos ao stress e em cujos extremos estão o impassível e o hiper-reativo. Em geral, quanto mais vivemos, mais aptos nos tornamos a lidar com as adversidades, mas não é difícil reconhecer - em nossos pais e avós - de quem herdamos determinadas características.

As influências afetivas, sociais e ambientais no desenvolvimento psíquico já são estudadas há muito tempo, mas só na última década as bases biológicas do comportamento e da personalidade começaram a ganhar consistência.

Com ferramentas mais sofisticadas, geneticistas e biólogos moleculares estão se aproximando de certos segredos da mente inscritos nas linhas do DNA.

Depois do Projeto Genoma Humano, a seqüência de nucleotídeos que formam o código da vida está sendo exaustivamente estudada. Embora estejamos longe de decifrá-lo completamente, os cientistas já conhecem a função de diversos genes, muitos dos quais dão origem a traços comportamentais. Com isso, as neurociências, a psicologia e a psiquiatria apresentam cada vez mais pontos de intersecção com a biologia molecular.

Mas enquanto a decodificação do genoma nos fornece uma visão geral das peculiaridades genéticas da espécie humana, a psicologia molecular, como vem sendo chamada, concentra-se nos genes de cada pessoa, buscando justamente nas diferenças individuais a relação entre herança genética e características básicas do funcionamento psíquico.

    Conceitos-chave

    - Variações em genes que modulam a ação de neurotransmissores afetam a forma como as pessoas respondem ao stress e podem aumentar ou diminuir o risco de depressão.
    - Polimorfismos genéticos parecem explicar a hereditariedade de certos traços da personalidade. As bases biológicas do psiquismo são a mais nova fronteira da chamada psicologia molecular.
    - O estudo do papel dos genes na personalidade e no comportamento leva em conta as influências afetivas, sociais e ambientais que, por sua vez, parecem exercer efeitos também na regulação da expressão gênica.

  • Infinidade de tons

    Embora todos os seres humanos compartilhem o mesmo número de genes, organizados em 23 pares de cromossomos, a seqüência exata de nucleotídeos que formam o DNA varia de pessoa para pessoa. Assim, pode haver diferentes versões de um mesmo gene na população, fenômeno que é chamado polimorfismo e pode ser facilmente exemplificado pelo gene que confere a pigmentação dos olhos - verde, azul e uma infinidade de tons de castanho.

    Os polimorfismos são resultado de mutações ancestrais que, por conferirem alguma vantagem aos organismos ou simplesmente não trazerem desvantagem alguma, foram positivamente selecionadas ao longo da evolução. Por outro lado, sempre que uma variação de algum gene é encontrada em menos de 1 % da população estamos diante de uma mutação nova. Acredita-se que os polimorfismos genéticos sejam responsáveis por muitas características comportamentais inatas.

    Em 1996 os cientistas conseguiram relacionar, pela primeira vez, um polimorfismo genético a um traço comportamental específico. O gene em questão é o que codifica a proteína transportadora do neurotransmissor serotonina, conhecido como 5-HTT. Essa molécula tem uma função importante no sistema nervoso: bombear o resto de serotonina que sobra nas sinapses, de modo a reduzir a estimulação neuronal. Quando esse transportador falha, o excesso de excitação elétrica nos neurônios que recebem influência serotonérgica pode levá-los ao colapso.

  • Longos e curtos

    Para alguns pesquisadores, a psicologia molecular teve início quando ,o biólogo Klaus-Peter Lesch, da Universidade de Würzburg, Alemanha, e colegas dos Institutos Nacionais de Saúde em Bethesda, Estados Unidos, descobriram um polimorfismo no gene 5-HTT que tem efeito sobre a maneira como seus portadores lidam com situações estressantes. São duas variantes possíveis: uma longa, que resulta em maior expressão do transportador de serotonina na membrana dos neurônios, e outra mais curta, em que esta molécula aparece em menor quantidade no cérebro.

    Lesch e sua equipe pediram a mais de 500 participantes que preenchessem questionários de personalidade, além de analisar que tipo de gene 5-HTT cada um deles tinha. Os resultados mostraram que as pessoas que haviam herdado pelo menos uma variante curta (do pai ou da mãe) eram visivelmente mais ansiosas que aqueles que receberam dos progenitores duas versões longas do mesmo gene. Embora o caráter hereditário de traços da personalidade não seja exatamente uma novidade, a descoberta do pesquisador alemão forneceu a primeira prova concreta para tal fenômeno.

    É claro que o polimorfismo do gene 5-HTT representa apenas uma influência, e está longe de definir a personalidade de alguém. Outros fatores estão em jogo, por exemplo, o funcionamento da amígdala, estrutura-chave no processamento das emoções e ex xtremamente importante para a compreensão dos transtornos de ansiedade. Não demorou muito para que os cientistas se perguntassem se o gene 5-HTT poderia influenciar a ativação da amígdala. Em 2002, o neurobiólogo Ahmad Hariri, do Instituto Nacional de Saúde Mental em Bethesda, resolveu tirar essa questão a limpo. Primeiro ele mostrou aos voluntários da pesquisa uma série de faces expressando diverrsas emoções, enquanto a ressonância magnética monitorava o que acontecia na amígdala de cada um. Depois examinou o genótipo dessas pessoas. Os resultados mostram que quem tinha uma ou duas cópias da versão curta do 5-HIT reagia com mais intensidade a expressões de fúria e ansiedade.

    Muitos psicólogos ficaram surpresos com a força dessas evidências. Eles estão acostumados a avaliar respostas de centenas ou milhares de questionários, para extrair daí números estatisticamente significativos. No entanto, Hariri só precisou de algumas poucas dezenas de pessoas para mostrar uma potente correlação entre dados genéticos, respostas subjetivas e neuroimageamento. Ficou provado, portanto, que polimorfismos funcionais têm efeito direto no cérebro e no comportamento.

    Pouco depois, outros estudos demonstraram que a amígdala dos portadores de gene 5-HTT curto reage com mais violência a estímulos emocionais negativos. Houve críticas a esse tipo de experimento porque os autores não usaram um grupo-controle que mostrasse o que o cérebro faz quando não tem o que fazer. Afinal, não estamos constantemente respondendo a estímulos externos; na maioria do tempo estamos ocupados com nossos próprios pensamentos.

      Genes que influenciam o comportamento

      O 5-HTT é o primeiro gene identificado que exerce influência na personalidade, mas não é o único. Em 1996, o neurocientista Richard Ebstein, do Herzog Memorial Hospital em Jerusalém, encontrou indícios de diferentes versões do gene que codifica o receptor do neurotransmissor dopamina, conhecido como DRD4, podem estimular o interesse das pessoas por novidades e desfios. Esse "gene da curiosidade" parece não estar presente somente em seres humanos. Em 2007, pesquisadores de Instituto Max Plank de Ornitologia em Seewiesen, Alemanha, encontraram uma relação entre o comportamento investigativo em chapins (espécie de ave) e diferentes polimorfismos desse gene.

      O DRD4 provavelmente também desempenha papel em crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Variantes do receptor de dopamina, bem como o gene DAT1, que codifica o transportador desse neurotransmissor, estão diretamente relacionadas a esse distúrbio infantil. Além disso, as crianças afetadas costumam ter um polimorfismo típico no gene do transportador de noradrenalina, o NET, como relataram em 2006 pesquisadores da Universidade Harvard.

      Em 2002, o neurocientista Avshalom Caspi, do King"s College em Londres, demonstrou que uma variação do gene que codifica a enzima monoamidoxidase-A (MAO-A) aparece com maior freqüência em homens violentos. Obviamente, o gene não é o único culpado. Ele descobriu que a maioria desses indivíduos também havia sofrido maus-tratos na infância, o que só reforça a idéia de que a violência quase sempre é resultado da combinação de experiência pessoal com predisposição genética. Segundo o psiquiatra Andreas Meyer-Lindenberg, do Instituto Central de Saúde Psiquica em Mannheim, Alemanha, os portadores desse polimorfismo no gene MAO-A reagem com mais intensidade a emoções, negativas, de forma semelhante aos que herdaram a versão cursta do 5-HTT.

  • Chacoalhões da vida

    Em 2005, eu e o neurocientista Klaus-Peter Lesch investigávamos se a amígdala com a variante curta do 5 - HTT era mais ativa mesmo quando a pessoa não tinha nada especial para fazer. De fato, foi justamente isso o que observamos. Esse dado nos permitiu supor que o gene 5-HTT influencia a atividade da amígdala de maneira geral, não apenas quando ela responde a estímulos negativos. Essa hiperativação crônica parece estar na base de alguns traços básicos de personalidade, como a tendência à ansiedade ou distúrbios psíquicos, que são fatores de risco para depressão. Assim, quem tem predisposição genética e ainda precisa lidar com situações estressantes tem maior tendência de ficar deprimido.

    A relação entre risco de depressão e o polimorfismo do gene 5-HTT foi demonstrada por pesquisadores do King"s College de Londres, num estudo longitudinal que durou mais de 20 anos. A cada dois anos, cerca de 100 voluntários responderam a questionários sobre todas as possíveis fontes de stress, como desemprego, doenças graves, problemas financeiros e sofrimento afetivo. Como esperado, a depressão foi mais freqüente naqueles que levaram grandes chacoalhões da vida. Alguns indivíduos, porém, manifestaram sintomas mais graves, apesar de terem de lidar com um volume semelhante de stress. A diferennça estava, claro, no gene 5-HTT.

    Os voluntários com duas versões longas do gene transportador de serotonina tendiam a reagir com menos intensidade às intempéries da vida. Mesmo depois de mais de quatro eventos gravemente estressantes, apenas 17% desenvolveram sintomas de depressão. Entre os heterozigotos, isto é, portadores de uma variante longa e outra curta, o índice aumentou para 34%. Nos homozigotos para o 5-HTT curto, a incidência de depressão chegou a 43%. Portanto, a versão longa do 5-HTT aparentemente oferece proteção contra distúrbios depressivos depois de graves crises.

  • Ruminar pensamentos

    A forma como as pessoas reagem a adversidades foi outra vez investigada por mim em 2006, novamente em parceria com Klaus-Peter Lesch de Würzburg. Conseguimos demonstrar que a atividade de diferentes regiões do cérebro após experiências estressantes realmente depende fortemente do genótipo. E não apenas a amígdala é afetada, mas também o hipocampo - área fundamental para a formação da memória.

    Cada tipo de 5-HTT está relacionado a uma forma diferente de reagir ao stress: a amígdala e o hipocampo dos sujeitos com uma ou duas versões curtas desse gene, e que já haviam passado por várias experiências de stress, trabalhavam de modo muito intenso enquanto eles estavam deitados quietos no aparelho de ressonância.

    Também percebemos que essas pessoas tendem a ser mais introspectivas - mais um fator de risco para a depressão. Entre os indivíduos com dois genes 5-HTT longos, por sua vez, ocorreu o contrário: quanto mais adversidades enfrentadas ao longo da v atividade de diferentes regiões do cérebro após experiências estressantes realmente depende fortemente do genótipo. E não apenas a amígdala é afetada, mas também o hipocampo - área fundamental para a formação da memória.

    Cada tipo de 5-HTT está relacionado a uma forma diferente de reagir ao stress: a amígdala e o hipocampo dos sujeitos com uma ou duas versões curtas desse gene, e que já haviam passado por várias experiências de stress, trabalhavam de modo muito intenso enquanto eles estavam deitados quietos no aparelho de ressonância.

    Também percebemos que essas pessoas tendem a ser mais introspectivas - mais um fator de risco para a depressão. Entre os indivíduos com dois genes 5-HTT longos, por sua vez, ocorreu o contrário: quanto mais adversidades enfrentadas ao longo da vida, mais calmos estavam sua amígdala e seu hipocampo. Além disso, eles passavam menos tempo ruminando pensamentos. Essas diferenças genéticas podem expliicar por que algumas pessoas reagem de forma exacerbada e muitas vezes acabam se desesperando, até mesmo por razões insignificantes. Outros parecem que seguem o velho ditado: "O que não me mata me fortalece".

    Se o genótipo tem participação importante no desenvolvimento psíquico, o que se pode dizer do inverso? Será que o stress pode alterar nossa constituição genética? Esta parece ser uma das questões-chave da próxima década. Já existem evidências mostrando que a experiência pode influenciar a expressão de certos genes, o que, aliás, tem provocado certa polêmica entre os biólogos evolutivos, que temem o retomo da teoria de Lamarck.

    Cada vez mais as ciências da mente se embrenham nas hélices do DNA, e isso deve trazer, nas próximas décadas, novas interpretações sobre os aspectos hereditários e as bases moleculares do pensamento, da personalidade e do psiquismo. Quanto mais entendermos a combinação entre predisposição genética e influências ambientais, mais perto estaremos da compreensão da individualidade do ser humano.

    Para conhecer mais

    - Neural correlates of epigenesis. T. Canli et al., em PNAS, vol. 103, nº 43, págs. 16.033-16.038, 2006.
    - Serotonin transporter genetic variation and the response of the human amygdala. A. R. Hariri et al., em Scíence, vol. 297, nº 5580, págs. 400-403, 2002.
    • Administração do Tempo

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