Neurônios em Ação


Neurobiologia fornece elementos que aprimoram diagnóstico e dão explicações mais precisas sobre distúrbios cognitivos.

Revista Scientific American - por Ralph Schumacher

Para conhecer profundamente o intelecto humano, o melhor é examinar diretamente o cérebro em atividade. É nisso que apostam os neurologistas desde que procedimentos por imagens como a tomografia por emissão de pósitrons ou a ressonância magnética funcional passaram a permitir o estudo do funcionamento cerebral.

Grandes esperanças frequentemente acompanham os métodos dos pesquisadores em neurologia. Quando as bases biológicas do pensamento, cognição e memória forem compreendidas, eles poderão sugerir soluções novas para as dificuldades de aprendizado e para o planejamento das disciplinas e de aulas mais eficientes. Para pais e professores, a "neurodidática"- ou pedagogia neurocientífica - é uma promessa de novos caminhos rumo a uma melhor formação educacional.

O mesmo objeto pode ser examinado de diferentes ângulos. É possível investigar um computador que joga xadrez, por exemplo, pelo menos de três ângulos: físico, funcional e intencional.

No primeiro caso, é considerada a variação da tensão elétrica do aparelho, que ocorre de acordo com as leis da física. Funcionalmente, os movimentos de elétrons cumprem determinadas atividades - como as conexões lógicas ao calcular o melhor movimento durante o jogo. A observação intencional, por fim, baseia-se em outras questões: que estratégia cognitiva deve ser adotada por um grande mestre para enganar o computador, dotado de maior capacidade matemática?

Nenhum desses ângulos de observação é o melhor individualmente. Dependem muito do objeto de nosso interesse. O computador pode ser utilizado como aparato técnico, como máquina de calcular capaz de participar de um jogo ou como adversário num duelo no xadrez - todas essas descrições necessitam de conceitos próprios, são bastante autônomas e independentes entre si.

Aplicado ao aprendizado humano, isso significa que, se quisermos relacionar um nível, como a intensidade da atividade cerebral, a outro, uma capacidade intelectual específica, serão necessários conceitos mais amplos relativos a ambos os níveis. Primeiro, devemos saber o que significa "calcular" ou "aprender" antes de conseguir identificar processos cerebrais como o trabalho com números ou memorização. Caso contrário, permanecem indecifráveis.

Aqui entra outro ponto importante: todo processo mental é realizado, em princípio, de variadas formas. Portanto, o conhecimento sobre determinada regra de xadrez pode ser um modelo de atividade de vários transistores, um comando na linguagem de programação ou até o estado mental de uma pessoa.

É verdade que toda situação concreta gera fenômenos intelectuais no nível dos neurônios, mas esses eventos não podem ser totalmente classificados em categorias neurofisiológicas justamente por causa da possibilidade de se realizarem de forma múltipla. É por isso que os filósofos dizem que os fenômenos intelectuais superam os físicos.

Várias crianças com deficiência de leitura e escrita têm dificuldade de reconhecer e pronunciar os fonemas complexos nas palavras. Como o neuropsicólogo Panagiotis Simos, da Universidade de Creta, descobriu, algumas crianças apresentam atividade neuronal mais baixa em determinadas regiões do córtex dos lobos lateral e anterior - por exemplo, quando têm de decidir se as sílabas rimam ou não. Inversamente, quanto melhor conseguem ler, mais essas áreas se destacam no imageamento cerebral.

• Um problema, várias causas  

A causa do distúrbio estaria relacionada a pouca atividade cerebral em determinada região? Não necessariaamente. Descrições neuropsicológicas não bastam.A dificuldade de leitura e escrita tem origens variadas.

O problema pode estar relacionaado, por exemplo, a uma deficiência no processamento de estímulos visuais ou em uma falha na associação de fonemas com a escrita. Para ajudar as crianças afetadas, são utilizadas duas estratégias: no primeiro caso, deve-se exercitar o reconhecimento de letras e palavras, no segundo, a capacidade auditiva e o aprendizado de fonemas.

A maior parte dos diagnósticos são impossíveis sem o auxílio de conceitos psicológicos, pois o mesmo problema pode ter origem em processos cerebrais totalmente diferentes. Somente quando os distúrbios comportamentais são reconhecidos e analisados com exatidão é possível buscar suas causas neuronais.

No entanto, o estudo do cérebro abre novas possibilidades: se a teoria A explica os distúrbios de leitura e escrita como um problema de concentração visual, e a teoria B, por sua vez, como uma deficiência na compreensão da língua, então uma análise do cérebro pode ajudar na escolha entre as duas explicações, na medida em que fornece informações sobre o funcionamento das áreas cerebrais correspondentes.

O mesmo vale para um diagnóstico precoce de déficits cognitivos. A fim de identificar possíveis distúrbios antes que eles se manifestem no comportamento das crianças, certas condições cerebrais teriam de estar claramente relacionadas a problemas futuros num período determinado, mas é bastante difícil comprovar tal relação. E mesmo que os pesquisadores pudessem explicar por que certas habilidades falham e em que momento seria aconselhável um acompanhamento pedagógico, isso não esclarece como deveria ser tal acompanhamento. Para tanto, são necessários modelos da psicologia. .

Reconhecer e explicar distúrbios cognitivos é uma coisa - construir um modelo otimizado de ensino "normal" é algo bastante diferente. Tomemos como exemplo o aprendizado de números: como descobriu o estudioso da cognição Stanislas Dehaene, as regiões cerebrais que, nos adultos, são responsáveis pelos cálculos matemáticos tornam-se especialmente ativas nas crianças quando elas usam os dedos para contar. Será essa, então, uma habilidade matemática inata que, se estimulada, pode melhorar a capacidade de fazer cálculos?

• Pão com manteiga

Não necessariamente. Mesmo que usemos nossas mãos tanto para passar manteiga no pão como para escrever, ninguém chegaria à conclusão de que passar manteiga no pão é a melhor forma de se preparar para escrever. O fato de os mesmos processos cerebrais serem responsáveis pela realização de duas habilidades diferentes não signiifica que podemos tirar conclusões a respeito de como estimulá-los.

No cérebro infantil, contar nos dedos exige a participação de regiões que realizam operações matemáticas complexas nos adultos. Isso é muito interessante do ponto de vista dos pesquisadores, mas somente estudos adequados sobre desenvolvimento poderiam comprovar se usar na innfância os dedos para contar ajuda a melhorar habilidades matemáticas no futuro. Resultados obtidos por um grupo de psicólogos de Freiburg, Alemanha, coordenados por Burkhart Fischer, sugerem que crianças que contam nos dedos provavelmente possuam dificuldade apenas em conceituar quantidades.

Quando se trata de bom aproveitamento escolar, o cérebro representa só um tijolo entre vários outros - um tijolo indispensável, é verdade, mas não suficiente para compreender todos os aspectos do aprendizado. Assim, por exemplo, a habilidade de fazer cálculos está inserida em um contexto cultural, o que não é levado em consideração quando se mede a atividade neuronal.

O sistema linguístico influencia o aprendizado matemático: como os números em chinês ("dez-um", "dez-dois" e assim por diante) são formados de maneira geralmente mais regrada que em inglês, as crianças orientais aprendem a trabalhar com quantias a partir de dez mais cedo que americana. Essa foi a conclusão de estudos comparativos realizados pelo psicólogo Kevin Miller, da Universidade de Illinois, Estados Unidos. E de acordo com a forma como os números são nomeados - se primeiro as dezenas e depois as unidades, como em 80 e dois ou, ao contrário, como em alemão zweiundachttzig (dois e 80), ou quando expressões mais complicadas como o francês quatre-vingt-deux devem ser aprendidas - os professores se valem de diferentes ferramentas pedagógicas.

O domínio da própria língua materna ou mesmo a capacidade de andar ereto são resultados de uma aprendizagem privilegiada, à qual o homem está predestinado. Ela ocorre segundo programas biológicos relativamente fixos em fases sensíveis do desenvolvimento. Por outro lado, no caso da aquisição de conhecimentos escolares, o chamado aprendizado não privilegiado está em primeiro plano: aqui, são os fatores sociais e culturais que definem em primeira instância quando os processos de aprendizagem devem ser iniciados e como devem ocorrer.

Para práticas como a leitura, a escrita ou o cálculo, o cérebro humano não possui nenhum módulo de aprendizagem automático. Aprender requer conhecimentos pre-xistentes. Para que as crianças se apropriem do conceito físico de densidade, por exemplo, precisam, antes, saber lidar com idéias como peso e volume. Para aprender que as baleias não são peixes, mas mamíferos, antes devem compreender que os animais não são classificados de acordo com a sua aparência nem seu hábitat, mas sim de acordo com a forma de reprodução.

Quanto mais bem organizada for a base de conhecimentos prévios, mais fácil será o aprendizado não privilegiado. Portanto, para melhorar suas aulas, os pedagogos devem saber quais conhecimentos anteriores os alunos devem ter para que os objetivos didáticos sejam atingidos. Também é necessário considerar quais informações as crianças usam para solucionar novos problemas: por exemplo, de que conceitos intuitivos dispõem para lidar com quantidades e números e como eles podem ser utilizados? Tais questões não podem ser descritas neurofisiologicamente. Os métodos e conceitos da psicologia são aqui insubstituíveis.

Assim, a contribuição dos pesquisadores do cérebro para os estudos do ensino e do aprendizado não se compara à dos físicos para a engenharia. A neurobiologia, porém, fornece elementos para um melhor diagnóstico e explicação de distúrbios cognitivos e para uma correta identificação de habilidades inatas - contanto que ela trabalhe também com análises comportamentais baseadas em conceitos psicológicos.

Para conhecer mais

Neuroscience and education. U. Goswami, em British Journal of Educational Psychology, 74, págs. 1-14,2004.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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