Ninguém é de Ferro


Por séculos, algumas classes sociais viam o trabalho com aversão; hoje, estudo e lazer conjugam-se a ele para satisfazer necessidades humanas.

Revista Scientific American - por Moacir Scliar

O poeta pemambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) era conhecido pelo humor e pela irreverência. Nada o comprova mais do que seu poema "Filosofia": "Hora de comer, - comer!/ Hora de dormir, - dormir!/ Hora de vadiar, - vadiar!/ Hora de trabalhar? - Pernas pro ar que ninguém é de ferro!". Alguém poderia dizer que esta é uma genuína expressão do caráter brasileiro, tal como o famoso "Ai, que preguiça!", que o personagem Macunaíma de Mário de Andrade repete a todo instante. Mas o que o brasileiro comum está longe de ser é preguiçoso. Gente que acorda às 4 da manhã para ir ao trabalho, dá duro em troca de um salário ínfimo, envelhece e adoece trabalhando, jamais poderia ser acusada de preguiçosa. De outra parte, a aversão ou o desprezo ao trabalho é algo frequente e antigo em determinadas classes sociais. A palavra "negócio" vem do latim nec otium (não ócio). E era um termo pejorativo. O ócio era um direito de gente influente, superior; negócio era para a ralé, para os ambiciosos.

O trabalho físico e manual era particularmente despre­zado. Isso se tornava evidente no exercício da medicina. Durante muito tempo os médicos consideraram que diagnosticar e tratar era uma ação que deveria ser feita com a cabeça, não com as mãos. Médicos não faziam incisões em abscessos, por exemplo. Quem cuidava disso era o barbeiro. Na era moderna, por causa dos ferimentos de guerra, a cirurgia passou a ser respeitada, mas até há pouco tempo, na Inglaterra, o título "doctor" se aplicava ao clínico; o cirurgião era "mister".

No Brasil colônia trabalho era coisa para escravo e havia um costume muito curioso entre certos homens: deixavam crescer a unha do dedo mínimo, que atingia enormes dimensões. Tratava-se de uma mensagem: "Esta unha prova que eu não trabalho com as mãos". Igualmente desprezado era o imigrante, o colono, que labutava no campo ganhando muito pouco. Gente inteligente, gente fina, ganhava dinheiro sem trabalhar.

Mas, por incrível que pareça, a crítica ao trabalho também podia vir da esquerda. O escritor cubano Paul Lafargue (1842-1911) trata desse tema. Filho de um francês com uma judia e neto de uma mulata. Lafargue es­tudou medicina na França, tornando-se um resoluto militante socialista (não por acaso casou-se com Laura, filha caçula de Karl Marx). Lafargue escreveu O direito à preguiça (1880), um pe­queno livro, quase um panfleto, no qual contesta a visão liberal, conservadora ou mesmo esquerdista, do trabalho. É preciso lembrar que nessa época a jornada podia facil­mente chegar a 16 horas. Diz Lafargue: "Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há séculos, torturam a nossa triste humanidade. Esta loucura é a paixão doentia pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole.( ... ) Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica".

A pregação de Lafargue teria continuidade com a obra O elogio ao ócio (1932) do contestador filósofo inglês Ber­trand RusseI. "A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha 15 horas e algumas crianças cumpriam. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-Ihes dito que o trabalho mantinha os adul­tos longe da bebida, e as crianças, afastadas do crime."

Mais recentemente, o italiano Domenico de Masi lançou o conceito do ócio criativo: trabalho, estudo e lazer conjugam-se para satisfazer melhor as necessi­dades humanas. Pensando bem, Ascenso Ferreira não estava tão errado.

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