No Alvo


Stress, ansiedade e medos irracionais podem fazer com que atletas tecnicamente bem treinados percam a concentração. Manter a tensão sob controle é decisivo para vencer competições ou se sair bem em situações cotidianas.

Revista Scientifc American - por Marco Dieci

Todos os atletas o temem. Geralmente não sabem como enfrentá-lo, nem em que momento vai aparecer, mas estão certos de que ele pode arruinar seu desempenho numa competição. Não se trata de um adversário perigoso, nem de uma situação que pode interferir na capacidade de concentração, mas de um mecanismo mental que se expressa de forma mais dramática naqueles que praticam o tiro esportivo.

Diferentemente de outros esportes, no tiro esportivo a pressão psicológica não encontra vazão no esforço físico exigido pelo próprio exercício. O atirador não tem essa oportunidade ele tem consciência de que qualquer tremor, por menor que seja, pode acabar com seu objetivo de acertar o alvo.

Um tiro mal dado pode comprometer a concentração do atirador. Além de perder pontos, o nível de ativação psicofísica aumenta significativamente - o que é péssimo para a boa pontaria. Os pensamentos que atormentam a mente do atirador quase sempre comprometem decisivamente o resultado. Somente alguns conseguem superar esse mecanismo psicológico involuntário que, no decorrer do tempo, pode se tornar automático e incontrolável.

"0 meu adversário está mais bem preparado que eu:", "Não consigo me concentrar!", "0 tempo estipulado para mim será suficiente para disparar os 60 tiros:". Esses são alguns dos pensamentos que, durante a competição, podem surgir na mente de um praticante de tiro esportivo, modalidade olímpica desde os tempos da antiga Atenas. Técnicas específicas, no entanto, permitem que os praticantes do esporte superem tais obsessões, alcancem a tensão considerada ideal e a concentração necessária nos momentos cruciais de uma apresentação esportiva.

Embora as situações vividas por esportistas sejam bastante emblemáticas e adequadas para exemplificar a importância de perceber - e refrear - os "auto-ataques" em momentos decisivos, não só esses profissionais estão sujeitos a esse problema. Em ocasiões decisivas - como uma entrevista de emprego, uma prova de vestibular ou outro concurso - a pessoa também pode ter seu desempenho prejudicado (apesar do preparo e da competência) em razão do descontrole emocional.

O fato é: quanto mais importante para a vida de forma geral parece ser aquele momento, maiores são as exigências que nos impomos. A possibilidade de não termos uma "segunda chance", em caso de erro, também agrava a tensão - seja numa Olimpíada ou numa reunião de trabalho. E, nessas situações, manter a atenção nos próprios objetivos costuma ser um diferencial significativo.

  • • Círculo vicioso

    Embora em todo esporte a concentração seja muito importante, no tiro esportivo ela é crucial. Para esses atletas, a principal dificuldade é manter a mente sob controle, não ser perturbado por pensamentos intrusivos que não raro podem tomar dimensão maior e prejudicar o desempenho na competição. Esse tipo de tensão afeta implacavelmente a firmeza das mãos, e qualquer milímetro de desvio pode levar a bala para bem longe do alvo. Trata-se de um círculo vicioso que afeta o corpo e principalmente a mente. É nesta última que surgem todas as preocupações do atirador, que irremediavelmente definem o melhor ou o pior rendimento. Se a pessoa não estiver atenta a essas distrações que a afetam emocionalmente, logo surgirão o medo de não ser boa o suficiente ou a consciência de ter ao seu lado um adversário difícil de vencer.

    Tais pensamentos levam o cérebro a criar continuamente sensações irracionais, interpretadas como perigosas, que podem dominar até mesmo um campeão mundial, como o italiano Roberto Vecchi. "Vivi algo assim em 2004. Depois de ter perdido duas finais, minha cabeça não estava tão lúcida e fresca como no início da competição. Então parei por um minuto e avaliei a situação de modo objetivo. O trabalho feito para fortalecer minhas habilidades mentais me ajudou a reagir, resultando numa mudança positiva na competição. Dialoguei bastante comigo mesmo, adotando uma postura estratégica, motivada por um refrão que remoía na minha cabeça: "Quero vencer"."

  • • Diálogo interior

    Para alcançar a concentração adequada, o atleta deve trabalhar constantemente suas próprias habilidades mentais, principalmente a atenção e a motivação. Para conquistar esse objetivo, é indispensável uma preparação mental cuidadosa e, sobretudo, estabelecida sob medida, com base nas características de cada atleta, por um psicólogo do esporte. A boa concentração não é uma capacidade inata, embora alguns tenham mais facilidade para aprofundá-la; pode- se desenvolvê-la utilizando diversas estratégias criadas pela psicologia esportiva, voltada para a promoção das condições mentais ideais para o desempenho nos esportes.

    Atenção e autoconfiança são dois elementos fundamentais para chegar a uma boa concentração mental na competição. A focalização da atenção é a característica essencial para desenvolver a tensão necessária e equilibrada. Conseguir canalizar todas as energias e as capacidades perceptivas para a mesma direção, sem exaurir as forças mentais, é fundamental para atingir o objetivo de vencer. A idéia parece óbvia, mas durante muito tempo os profissionais do esporte se preocuparam apenas com a prepaaração do corpo, deixando a mente em segundo plano. Nos últimos 20 anos, porém, a psicologia do esporte vem se consolidando no cenário esportivo.

    Visualização, diálogo interior, controle da motivação, definição dos objetivos e gestão do stress são habilidades que qualquer atleta e principalmente os atiradores devem treinar constantemente para atingir a concentração adequada. E o primeiro ensinamento é: uma ótima prova não significa ótimo resultado.

    Como no tiro esportiivo o preparo psicológico geralmente prevalece sobre a técnica e a tática, é indispensável trabalhar todas as habilidades mentais. O atirador tem de saber dialogar consigo mesmo e, com a ajuda de técnicas mentais específicas, eliminar pensamentos inúteis ou nocivos que tendem a se tornar cada vez mais freqüentes ao longo da competição.

    O atirador deve aprende a identificar e controlar tudo o que se interpõe entre ele e o alvo, de maneira positiva e estimulante, deixando o caminho rumo ao objetivo mais direto e menos estressante. Para amenizar a pressão psicológica, o atleta precisa se concentrar no objetivo da competição, isto é, em tudo que se refere à prova em si, mas sem a fixação de obter determinado resultado, que deve ser visto como conseqüência.

    Outra capacidade mental essencial a ser treinada no atleta é a imaginação, pois ela permite aumentar a concentração e a precisão do tiro. A pessoa tem de ser capaz de visualizar internamente o gesto técnico como se fosse uma espectadora de si mesma. Praticado diariamente, esse exercício deixa o ato de atirar cada vez mais automático. A visualização também ajuda a gerenciar a ansiedade que deriva de diversos obstáculos, reais ou irracionais, que se apresentam no percurso do atleta.

      Psicologia do esporte

      Os primeiros estudos na área da psicologia do esporte foram feitos no início do século XX nos Estados Unidos e na Rússia. No Brasil, o marco inicial da especialidade foi a participação do psicólogo João Carvalhaes, especialista em psicometria, na comissão técnica da seleção brasileira de futebol que foi à Copa do Mundo na Suécia em 1958, de onde voltou com o primeiro título mundial. No entanto, a especialidade, reconhecida em 2000 pelo Conselho Federal de Psicologia, ainda é pouco divulgada.

      Como disciplina acadêmica, a psicologia do esporte tem como objetivo o estudo do ser humano envolvido com atividades físicas e esportivas competitivas e não-competitivas. Isso inclui processos de avaliação, intervenção e análise do comportamento social em situação esportiva. Na prática profissional, os psicólogos do esporte fazem a transposição da teoria e da técnica de várias especialidades e correntes da psicologia para o contexto esportivo, seja na avaliação e construção de perfis, seja no uso de técnicas de intervenção para a maximização do rendimento esportivo.

  • • Do treino à prova

    As técnicas de treinamento mental ajudam a revelar as potencialidades latentes de cada atleta", conta Roberto Vecchi. A visualização, por exemplo, consiste em reviver todas as fases do gesto esportivo com um pensamento positivo. É como observar e analisar detalhadamente a si mesmo.

    Um dos problemas recorrentes do tiro - e também de outras modalidades esportivas - é a diferença que sempre se verifica entre o treinamento e a competição. Nesta última, o atirador nunca consegue atingir seu potencial máximo, embora isso seja comum nos treinos. A explicação é a ansiedade da prova. Por isso o atleta precisa aprender a combatê-la com estratégias específicas que incluem, por exemplo, técnicas de relaxamento adequadas a sua personalidade. Controlar a ansiedade em situações difíceis é indispensável para estabelecer um bom plano de competição. As estratégias usadas devem ser fundamentadas em objetivos de curto, médio e longo prazo combinados entre o atleta, o treinador e o psicólogo.

    Para praticar o tiro esportivo, o indivíduo deve necessariamente ter uma motivação importante. O esporte que ele escolheu o coloca permanentemente em contato consigo mesmo e com seus próprios medos. Essa modalidade esportiva em particular requer uma preparação mental que não é comparável à de nenhum outro esporte. No final, esse mesmo treinamento que faz um atirador vencedor lhe permite ainda melhorar habilidades cognitivas como concentração, atenção e autocontrole ˜todas elas muito úteis também fora dos limites do esporte.

    Para conhecer mais

    - Psicologia do esporte - Interfaces, pesquisa e intervenção. K. Rubio. Casa do Psicólogo, 2000.
    - Psicologia do esporte - Histórico e áreas de atuação e pesquisa. K. Rubio, em Psicologia, Ciência e Profissão, vol. 19, nº 3,págs. 60-69, 1999.

    - . K. Rubio. Casa do Psicólogo, 2000.- K. Rubio, em Psicologia, Ciência e Profissão, vol. 19, nº 3,págs. 60-69, 1999.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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