Novas aplicações da IOGA


A técnica ganha o respeito da medicina e é usada para ajudar no tratamento de câncer, obesidade, dor crônica e doenças cardíacas, respiratórias e psiquiátricas.

Revista Istoé - por Cilene Pereira e Mônica Tarantino

Nesta semana, o mundo acompanha, como de costume, as novidades divulgadas durante o con­gresso da Sociedade Americana de On­cologia Clínica, conhecido como As­co, o maior e mais importante encon­tro mundial sobre câncer. Neste ano, entre os destaques mostrados no cen­tro de convenções, em Chicago, um, especialmente, chama a atenção não só pela importância de seus resultados co­mo também pelo simbolismo que car­rega. Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center - uma das principais instituições do planeta para o trata­mento da doença - apresentarão um trabalho no qual relatam como a ioga ajuda a tratar o câncer.

No estudo, realizado com portadoras de tumor de mama submetidas a sessões de radioterapia, ficou comprovado que o método, além de reduzir os níveis de cortisol (hormônio liberado em situa­ções de estresse), melhora o funciona­mento do corpo em geral. Entre outros ganhos, as participantes demonstraram maior capacidade de execução de tare­fas cotidianas, mas difíceis de ser efetuadas por causa da doença, como subir escadas ou dar uma volta no quarteirão. Também sentiram menos cansaço, dor­miam melhor e ainda encontraram uma forma menos doída de lidar com seu drama particular. "Elas dão mais foco à espiritualidade, na conexão consigo mesmas e com as outras pessoas", disse à ISTOÉ Lorenzo Cohen, diretor do Pro­grama de Medicina Integrativa do MD Anderson e responsável pela pesquisa. "Dessa maneira, fica mais fácil perceber o que realmente preci­sam e como alcançar essa meta."

A apresentação de uma pesquisa so­bre ioga em um evento mundial no qual a tônica, historicamente, sem­pre foi a divulgação de novidades que giram em torno da medicina tradicional - novos remédios ou aparelhos, por exemplo - é emble­mática. O fato é a evidência mais concreta de que a medicina ocidental está incluindo a ioga na sua lista de re­cursos contra as doenças. Criada há cer­ca de cinco mil anos no lugar onde ho­je é a Índia, a ioga é uma filosofia de vi­da. Seu princípio fundamental é o de facilitar a conexão do corpo com a mente, enten­didos como uma coisa única, indissoci­ável. Não é por outra razão que, em sâns­crito, a língua usada em rituais do hinduísmo, a palavra ioga remete ao signi­ficado de atrelar. Para que isso seja pos­sível, ela se apoia em recursos como a meditação, a respiração profunda e a execução dos ásanas, posturas corporais inspiradas em animais ou em outras referências da natureza.

Depois de desembarcar no Ocidente como mais uma excentricidade do Oriente, a prática hoje ga­nhou o respeito da ciência e recebeu o direito de en­trar pela porta da frente em alguns dos mais reno­mados serviços de saúde do planeta. O método fi­gura entre as terapias complementares disponíveis no MD Anderson, no Massachusetts General Hos­pital, em Boston, e no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, por exemplo.

Na Clínica Mayo, outro respeitado serviço de saú­de, localizado também nos EUA, ela é ofertada a por­tadores de doenças diversas. O pneumologista Ro­berto Benzo, por exemplo, a aplica no tratamento de insuficiência cardíaca (o coração perde a capaci­dade de bombear o sangue para o corpo) e de doen­ça pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), mal carac­terizado pela destruição progressiva dos alvéolos pul­monares. "Os principais benefícios são a redução da dificuldade respiratória e a melhora do condiciona­mento físico", explicou Benzo à ISTOÉ.

No Brasil, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, um dos mais importantes da rede priva­da do País, prepara-se para oferecer a prática como mais uma opção de seu departamento de terapias complementares. No Hospital A. C. (amargo, também na capital paulista e especializado no atendimento a pacientes com câncer, aulas de ioga começaram a ser adotadas recentemente. "Elas ocorrem uma vez por semana", informa a professora Aline Chrispan. "As participantes controlam melhor a ansiedade que aparece durante o tratamento."

O mesmo movimento de incorporação da ioga pela medicina vem sendo registrado nos consultórios. "Indico para alguns pa­cientes, como os portadores de artrose", diz o médico Mário Sérgio Rossi, coor­denador do comitê de terapias comple­mentares do Hospital Albert Einstein. "A prática ajuda na lubrificação das ar­ticulações, sem causar traumatismo", diz. Doença inflamatória crônica, a ar­trose se caracteriza pela ocorrência de dor e deformações nas articulações. Por isso, além dos remédios específicos, é importante que os pacientes mante­nham a funcionalidade das articulações por meio de exercícios corretos, que não agridam ainda mais essas estruturas. Por isso a ioga, com seus movimentos sua­ves e alongados, é uma boa opção.

Na clínica do dentista Fausto Ito, espe­cialista em apneia do sono e ronco, do Rio de Janeiro, os pacientes são orientados a praticá-Ia, de preferência, em ambientes com pouca ou nenhuma iluminação. "A ausência da luz ajuda na produção da melatonina a, um indutor natural do so­no", explica. "Os efeitos da ioga são po­tencializados e o resultado é a melhora na qualidade do sono."

Uma pesquisa que acaba de ser pu­blicada no Archives of Internal Mediei­ne dá uma ideia da importância que a terapia vem ganhando. De acordo com o trabalho, 30% dos americanos fazem uso do método, assim como de outros do gênero, como acupuntura e medita­ção. E um em cada 30 pacientes recebeu a recomendação da prática de seus pró­prios médicos. "Há boas evidências da eficácia dessas técnicas, mas não esperá­vamos que o índice de aceitação pelos médicos fosse tão alto", afirmou Aditi Nerurkar, da Harvard Medical School (EUA), autor do levantamento.

Ao mesmo tempo que sua indicação se consolida, proliferam pelos centros de pesquisas estudos para investigar o al­cance de seus benefícios. Aqui no Bra­sil, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) atestaram o efeito do método contra a hipertensão após a realização de um trabalho que acompanhou executivos com o perfil clássico desses profissionais: estressados, ansiosos e com pressão fora de contro­le. "Após oito meses, houve mudanças no estilo devida e resgate da saúde", con­tou o médico Femando Bignardi. "E dei­xaram de ser hipertensos."

Nos EUA, na Boston University School of Medicine, verificou-se que a ioga apresenta resultados mais eficazes no controle de distúrbios de humor, de­ pressão e ansiedade em comparação a outros exercícios, como a caminhada. "Em exames posteriores à realização dos exercícios, os participantes exibiam ta­xas mais elevadas do Gaba, uma subs­tância cerebral cujo nível, se estiver bai­xo, está associado a desequilíbrios de or­dem emocional", disse à ISTOÉ Chris Streeter, professora de psiquiatria e co­ordenadora do trabalho.

Essa característica - a de ajudar a li­dar com os sentimentos - também está fazendo da ioga uma aliada contra a obe­sidade. É verdade que a própria execução dos exercícios já auxilia na queima de calorias. No entanto, a ciência está cons­tatando que o impacto é mais profundo. Um claro indicativo foi registrado em uma pesquisa da Fred Hutchinson Cancer Research Center (EUA). Os cientistas acompanharam as respostas de mulheres que estavam magras ou com sobrepeso. "Em dez anos, as prati­cantes ganharam menos peso do que aquelas que não faziam ioga", explicou à ISTOÉ Alan Krystal, responsável pe­la pesquisa. "E isso ocorreu indepen­dentemente do nível de atividade físi­ca e dos padrões de alimentação de ca­da uma", disse. Na avaliação do cien­tista, o que está por trás do resultado é a consciência, despertada pela ioga, do tamanho real do apetite. O método aju­da o indivíduo a perceber por que está comendo e a parar quando satisfeito.

De fato, quando usada em doenças permeadas por forte conteúdo emocio­nal - caso da obesidade -, a ioga mani­festa uma particular eficácia. Pacientes com fibromialgia, por exemplo, estão entre os mais beneficiados. A enfermi­dade manifesta-se pela ocorrência de dor crônica e generalizada pelo corpo. Com o passar do tempo, toma-se um in­ferno na vida do portador. Debilitado pela dor constante, aos poucos ele se isola, de­prime-se.

Uma iniciativa da Oregon Health & Scien­ce University (EUA) revelou como o méto­do pode ajudar. Foram recrutadas 53 mulhe­res com fibromialgia. As voluntárias foram avaliadas depois de ser submetidas a um pro­grama de ioga dese­nhado para suas necessidades - contem­plando mais forte­mente aspectos como dor, fadiga, problemas com o sono e dificuldades emo­cionais acarretadas pela doença. Todos os pontos apresentaram melhora. Um deles chamou a atenção. "Elas ficaram mais dispostas para a vida, apesar do so­frimento", disse Iames Carson, coorde­nador do trabalho. "E aprenderam a não dar tanto espaço a tendências ruins, co­mo a de supervalorizar a dor."

Na opinião de Marcos Rojo, profes­sor e pesquisador da técnica na Univer­sidade de São Paulo, uma das explica­ções para modificações como essa é justamente o estabelecimento da conexão ­mente-corpo perseguida pela ioga. "Ela trabalha mecanismos que têm alguma relação um com o outro." Por exemplo, se você passa por um período de muita ansiedade, pode ter alterações no siste­ma digestivo ou cardiorrespiratórío", diz. "Um dos objetivos da ioga é fazer o caminho inverso: trabalhar o corpo pa­ ra interferir nas emoções", afirma.

É sabido que a atuação também se dá no nível físico propriamente dito. Um exemplo é o que proporciona no caso da dor. "Quando a pessoa sente o sintoma, se contrai. Com a ioga, aprende a rela­xar profundamente", explica Luciana Brandão, do Estúdio Ioga na Cidade, de São Paulo, e pós-graduanda na Unifesp em terapias complementares. "O sangue circula mais, ajudando a reduzir a sen­sação", complementa.

No caso das doenças respiratórias, o efeito produzido pelos exercícios de res­piração aumenta a eficiência dos músculos que integram o sistema responsável pela oxigenação do organismo. Em uma análise realizada por médicos da Chica­go Medical School (EUA), o benefício foi constatado após acompanhamento de 22 pacientes que fizeram aulas de uma hora, três vezes por semana, duran­te um mês e meio.

Há dois pontos ainda não completa­mente esclarecidos no que se refere ao uso terapêutico da ioga. O primeiro diz respeito ao formato das aulas. O segun­do, à frequência com que devem ser fei­tas. Em relação ao tipo de aula, a ten­dência é criá-Ias para ser mais específi­cas. Na Escola Narayana, uma das mais tradicionais de São Paulo, os responsá­veis recebem alunos interessados no au­xílio que a ioga pode trazer para males distintos. "Desenvolvemos aulas de acordo com a questão de saúde de cada um", afirma Luzia Rodrigues, coorde­nadora da escola. Quanto à frequência ideal, restam dúvidas. "Ninguém ainda sabe dizer ao certo", disse à ISTO É Brent Bauer, da Clínica Mayo. O médi­co orienta seus pacientes a praticar pe­lo menos 30 minutos todos os dias.

• A história da filosofia

Uma aura de mistério envolve as ori­gens da ioga. Acredita-se Que a filosofia tenha surgido há cerca de cinco mil anos, no território onde atualmente se localiza a índia. Para os hindus, os ensinamentos foram dados por Shiva - deus da trans­formação. Durante muitos séculos não houve registro escrito da técnica: os mestres passavam os conhecimentos aos seus discípulos por meio da tradição oral. O primeiro registro data de pouco mais de dois mil anos, com o livro Que ficou conhecido como "Voga Sutra".

A produção científica em torno do tema é ainda mais recente. Começou na década de 1920, com a criação de um instituto governamental na índia para pesqulsar os efeitos da ioga sobre o corpo. "À época essa iniciativa não foi vista com muita felicidade pelos indianos, pois a eles a tradição bastava, não era necessária a preocupação
científica", diz Mar­cos Rojo, professor e pesquisador de ioga na Universidade de São Paulo.

Foi, todavia, a busca pelo cientifi­cismo Que impul­sionou a vinda da prática para o Ocidente. Deste lado do mundo, a ioga ganhou também outros ares, com foco maior na parte física. "A visão original da ioga entende o corpo como um meio para se experimentar sensações impor­tantes para a evolução espiritual", fala Rojo. A filosofia inclui princípios, como o respeito à natureza, a não violência, o controle dos impulsos e dos sentidos e o desapego de pessoas e objetos. A preo­cupação com o alinhamento e o tônus muscular - questões relacionadas com a parte física - foram acrescentadas após a ocidentalização da prática. 

- Os tipos de ioga

Hata ioga

(pronuncia-se "ráta") "Hatha" quer dizer esforço físico. A base dessa prática é o corpo, ferramenta usada para se atingir a mente. Para isso, os praticantes realizam várias posições corporais.

Iyengar ioga

(pronuncia-se "aiêngar") Levqa o nome de seu criador, que trabalhou os movimentos dando ênfase ao alinhamento postural.

Ashtanga vinyasa ioga

Força, flexibilidade e fôlego são essênciais para acompanhar o método. Os movimentos são constatnes, intensos e devem estar sincronizados à respiração, formando uma sequência fluida de posições. Não é recomendado para iniciantes.

Vinyasa ioga

Mais livre que o ashtanga. Não há séries e os movimentos praticados podem variar de acordo com o professor. Ainda assim, tem ênfase no esforço físico e na sincronia entre os movimentos e a respiração.

Power ioga

É bem semelhante ao vinyasa ioga, com aposta no esforço físico.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus