Novo guru da meditação


Moda entre os jovens brasileiros, o indiano Ravi Shankar desaconselha fumo, bebida e carne vermelha. Mas sexo pode.

Revista Época - por Martha Mendonça

Produtora de cinema e televisão, a carioca Júlia Ramil, de 23 anos, vive sob forte estresse. Pela profissão e também, ela admite, por temperamento. No começo do ano, havia engordado mui­to, terminou um namoro e sentiu-se de­primida. "Perdi o controle de tudo. Estava sem crença nas pessoas e no meu próprio valor", diz. Em abril, foi levada por uma amiga para um curso de meditação india­na na Fundação Arte de Viver. Aprendeu sobre respiração, alimentação e fontes de energia para o corpo. Garante que saiu dali melhor: reduziu o estresse, ganhou amigos, renovou a fé nas pessoas. Agora, organiza a vida e o bolso para ir a Berlim, na Alema­nha, em julho, para o encontro mundial da Arte de Viver. Essa fundação, que existe em 150 países e foi criada pelo guru indiano Sri Sri Ravi Shankar, virou mania recente entre os jovens brasileiros, embora esteja no Brasil há 20 anos. Centenas deles estão lotando os cursos de respiração em busca de equilíbrio e controle da ansiedade.

"Quando fiz o curso, há dez anos, era a única que não tinha mais de 40 anos. Hoje, os jovens são maioria", afirma Renata Baldi, diretora dos Programas de Jovens da Arte de Viver. "A nova geração está mais preo­cupada com bem-estar, equilíbrio e saúde emocional." Os jovens estão na linha de frente da organização. Eles fazem trabalhos voluntários, encontros nos fins de semana e estão em contato ininterrupto por meio das redes sociais. Só no Facebook, há mais de 50 páginas brasileiras relacionadas à Arte de Viver. Os cursos direcionados aos jovens têm as vagas esgotadas imediata­mente depois de seu lançamento, embora os professores desaconselhem álcool, taba­co e carne vermelha. Sexo pode.

A estudante paulistana Bettina Leme, de 19 anos, diz que fazer o curso mudou sua vida. Em 2010, ela passou no vestibular para Direito e gastronomia, mas não começou nenhum deles. Estava desorientada, não sabia o que queria de verdade. No mês passado, fez o curso de respiração. A mente clareou. No último fim de semana, fez pro­va para a faculdade de produção cultural. "Consegui focar em mim mesma, nos meus desejos", diz. Segundo Bettina, as aulas e a prática diária dos exercícios fazem com que esse foco não se perca na correria do dia a dia. A estudante conheceu a Arte de Viver no Facebook de uma amiga. Assustou-se com os horários puxados, mas, já no pri­meiro dia, adorou. Agora repete o curso, com duas amigas. "Elas amaram", afirma.

Lulli Millman, psicóloga do Rio de Janeiro especializada em adolescentes e jovens, percebe um momento de transi­ção do interesse pelo corpo - malhação, força, emagrecimento - para um equilí­brio entre corpo e mente. "É um passo que une forma física, controle mental e a espiritualização", afirma. Ela diz que a maior parte de seus pacientes jovens faz ou já fez ioga. "Que adolescente fa­zia ioga na geração anterior? Nenhum", diz. "A ideia de equilíbrio entre corpo e mente certamente trará benefícios." Os cursos da Arte de Viver não são baratos.

O básico, que dura 29 horas e é feito em seis dias consecutivos, custa R$ 400. O avançado R$ 600. O curso para jovens é mais em conta: R$ 290. A estudante de le­tras Mariana Paraizo Borges, de 18 anos, diz que conseguiu "harmonia e humani­dade": Ela já fez três cursos. "Ganhei uma espiritualidade não religiosa", diz ela. "Fico menos irritada, mais concentrada nos estu­dos:" Mariana levou as amigas da faculda­de, a mãe e o irmão de 10 anos para a Arte de Viver. Agora tenta convencer o pai.

Em todas as salas de curso, há fotogra­fias do rosto moreno e sorridente de Sri Sri Ravi Shankar, de 55 anos. Conhecido como o "guru da Era Corporativa", por conta dos exercícios de controle de estresse que cos­tuma aplicar a executivos, Shankar é uma celebridade em seu país. Aos 27 anos, ele criou uma técnica de respiração rítmica chamada Sudarshan Kriya, que promete aliviar o sofrimento. "Ela permite um re­ pouso mais profundo que o sono", afirma seu criador. "É perfeitamente adequada à agitação dos dias atuais." Em suas palestras, o guru repete uma espécie de mantra: rea­lizamos, por dia, 20 mil movimentos res­piratórios, sem nos dar conta. Essa falta de consciência faz com que usemos, em média, apenas 30% de nossa capacidade pulmo­nar. Um desperdício terrível, uma vez que a respiração é, além da forma essencial de absorção de energia, uma maneira de eli­minar toxinas. Respirar melhor resultaria em incremento das funções cerebrais e seria capaz de alterar o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Isso teria efeitos po­sitivos também sobre o sistema imune.

Em 1982, o guru fundou em Bangalore a Arte de Viver, uma ONG humanitária que trabalha com caridade e educação. "Nós fazemos qualquer coisa para nos manter­mos vivos, mas não conseguimos apreciar a vida. A arte a que me refiro é a capacidade de apreciar o dom da vida", diz ele. A ONG consegue dinheiro com a nova - e estressada - classe média global para abastecer projetos assistenciais. Em seu país, além de promover meditação e ativismo social, ele está engajado num movimento contraa corrupção que atraiu milhões de jovens. "O que cabe a você virá naturalmente", diz ele. "Não dê nem aceite subornos." Talvez Ravi Shankar devesse ter falado sobre isso quando esteve no Brasil, em 2008.

O empresário Oskar Metsavaht, cria­dor da marca Osklen, &e eacute; um dos adeptos e apoiadores da Arte de Viver. Já fez camise­tas comemorativas e participou dos eventos na vinda do guru ao Brasil. Médico de formação, diz que o método criado por Shankar melhora seu autoconhecimento e sua criatividade. O empresário acredita que a atual geração de jovens, alvo de seu negócio, está descobrindo valores que vão além da competitividade e do dinheiro. "Os hippies, avós deles, imaginaram um novo mundo. Os filhos dos hippies viraram yuppies, viciados em trabalho", afirma. ""A nova geração está conseguindo promover a complementaridade desses valores.

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