Nunca Aconteceu


Boa parte de suas lembranças é falsa. Jamais aconteceu. Não passa de mentiras inventadas pelo seu cérebro. Saiba por que lembrar é imaginar, e imaginar é distorcer.

Revista Superinteressante - por Gisela Blanco

No início dos anos 80, uma série de crimes chocou os EUA. Dezenas de mulheres começaram a relatar abusos sexuais sofridos na infância. Essas lembranças sempre afloravam no consultório de algum psicólogo, depois que as moças tinham passado por sessões de terapia com técnicas de hipnose e regressão. O FBI resolveu investigar o caso e descobriu que os abusos eram falsas memórias, que haviam sido acidentalmente induzidas por psicólogos durante sessões de hipnose. Além de acusar outras pessoas, a sua memória também pode se voltar contra você mesmo. Foi o caso do americano Paul Ingram, acusado de abuso sexual pelas filhas de 18 e 22 anos. Ele negou tudo. Mas, depois de ser indagado várias vezes sobre o assunto, começou a dizer que, sim, se recordava de ter estuprado as garotas. Aí o psicólogo Richard Ofshe, especializado em memórias falsas resolveu testá-lo: elaborou uma série de incidentes fictícios, sobre os quais conversou com Ingram. Ele se lembrou de todos. Conclusão? Paul não estava lembrando, e sim imaginando, as cenas.

Mas nem é preciso de crimes ou sessões de hipnose para colocar nossas memórias em xeque. Imagine acordar certo dia e descobrir que parte das suas lembranças é pura imaginação. Isso porque a memória não é um registro da realidade - é uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informacões antes de gravá-Ias, explica o psicólogo cognitivo Martin Conway, da Universidade de Leeds. Cientistas da Universidade Harvard pediram a voluntários que se lembrassem de uma festa em que tinham estado. Em seguida, eles deviam imaginar uma festa que ainda não havia acontecido. Os pesquisadores monitoraram as cobaias durante todo o experimento e descobriram que, nos dois exercícios, sua atividade cerebral foi praticamente a mesma. Ou seja: os mecanismos que usamos para acessar nossas memórias são os mesmos que usamos para imaginar as coisas. Uma pessoa pode ter lembrancas erradas ao ler o que está gravado corretamente na sua memória explica Daniel Schaeter, psicólogo da Universidade Harvard e autor de vários livros sobre memória.

Todos nós temos lembranças falsas ou distorcidas. Tente se lembrar de algum evento que lhe aconteceu no ano passado e responda: quem estava lá? Quais eram os nomes das pessoas? Que roupas vestiam? Como estava o clima no dia? Depois, faça essas mesmas perguntas a outra pessoa que viveu o mesmo evento. As respostas dificilmente vão coincidir. Vocês podem até se lembrar do principal, mas todo o resto será distorcido - com direito a várias informações criadas pelo cérebro. Já que a memória e a imaginacão usam os mesmos mecanismos, a mente não vê problema em dar uma inventadinha para completar as lacunas.

Essa tendência é tão forte que a Justiça possui artifícios para se defender disso, e ver se os relatos de testemunhas estão contaminados pela imaginação. Além de propor situações que não aconteceram (como no caso do americano Paul Ingram), os interrogadores evitam perguntas indutivas ("ele estava usando um boné, certo?") ou que envolvam raciocínio neo-ativo ("isso não está certo, né?") , pois elas acabam levando o cérebro a distorcer as memórias. Mas não há uma maneira de determinar, cientificamente, se uma lembrança é real. Nem mesmo o detectar de mentiras consegue desmascarar falsas memórias, e por um motivo simples. Sabe aquela máxima que diz: uma coisa não é mentira quando você acredita nela? Pois é.

Apesar de tudo isso, é difícil imaginar uma sociedade que não acreditasse na memória das pessoas. Não existiria verdade nem realidade coletiva, pois cada indivíduo viveria isolado em seu próprio mundo de lembranças. "A crença na memória é fundamental para várias instituições da sociedade, como a Justiça e as escolas", afirma Schaeter. Ainda bem. Pois, no futuro, nossas memórias serão totalmente diferentes.

  • O futuro da memória

Já está provado que é possível implantar um chip de lembranças no cérebro. E vêm aí os remédios que turbinam a memória. Você usaria?

Imagine se você pudesse se lembrar de tudo o que quisesse. Em vez de decorar as lições da faculdade ou da aula de inglês, pudesse implantar as memórias delas no seu cérebro e recordá-Ias numa fração de segundo sempre que precisasse. Se você passasse por um trauma, poderia simplesmente apagá-lo. E, quando a vida chegasse ao fim, descarregaria todas as suas experiências num imenso arquivo digital, para compartilhá-Ias com seus descendentes ou toda a humanidade. Pode parecer futurista demais para ser verdade. Mas já existem cientistas trabalhando nisso.

A Universidade da Califórnia conseguiu desenvolver um chip que reproduz as funcões do hipocampo, área do cérebro que coordena a formação das memórias. Ratos tiveram seu hipocampo substituído pelo chip e conseguiram usá-Io para formar novas memórias. Isso significa que deciframos os códigos que a mente usa para transformar informações em memórias, conseguimos convertê-Ios em linguagem de computador, criamos um chip que processa essa linguagem - e conseguimos fazê-Io funcionar conectado ao cérebro. Essas façanhas provaram que, tecnicamente, é possível fazer o upload de mem&o oacute;rias. E também o download delas. "Quem sabe um dia a gente consiga baixar nossas experiências, para que nossos descendentes possam saber como foi a vida para cada um de nós. Não é viagem dizer que os meus bisnetos vão deixar, literalmente, suas memórias para a posteridade", sonha o neurocientista Miguel Nicolelis, um dos maiores especialistas do mundo na interação cérebro-computador. Enquanto esse dia não chega, a Ciência procura outros caminhos. Cientistas canadenses descobriram que, dando pequenos choques em determinadas partes do cérebro, é possível fazer uma pessoa se lembrar em detalhes de cenas vividas 30 anos antes. E os EUA acabam de aprovar um tratamento à base de campos magnéticos, que alteram o fluxo de eletricidade no cérebro e são usados para tratar depressão profunda. "No futuro, esperamos usar esse método para melhorar a memória de pacientes saudáveis. Já está provado que funciona" afirma a neurocientista Gavatri Devi da Universidade de Nova York, que já está testando a terapia. E o oposto também está comprovado: um estudo publicado nos EUA mostrou que, manipulando certas proteínas do cérebro, é possível apagar de vez certas lembrancas da mente.

Mas a novidade mais esperada, e mais próxima, e a pílula da supermemória. Ela deve chegar às farmácias nos próximos anos, e é baseada em versões mais fracas de remédios desenvolvidos para tratar Alzheimer. Esses medicamentos estimulam a acetilcolina, um neurotransmissor fundamental para a formação e fixação da memória. Como as drogas supostamente não têm efeitos colaterais os laboratórios pretendem vendê-Ias sem receita.

Ou melhor: há, sim, um efeito colateral. A suplementação artificial da memória poderia criar uma sociedade dividida em duas castas. Quem puder (e quiser) tomar os remédios terá uma memória mais potente, e por isso levará sempre a melhor na escola, nos vestibulares e nos empregos. As pessoas normais, que não se adaptassem a esse admirável mundo novo, ficariam cada vez mais marginalizadas. Mas talvez não seja assim. As pílulas da memória podem se tornar ajudantes cerebrais tão banais, e tão aceitas pela sociedade, quanto a cafeína.

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus