Nunca parar de descobrir o mundo


Durante muitos anos cientistas e leigos acreditaram que o declínio mental era inevitável; hoje se sabe, porém, que com o passar do tempo algumas áreas do cérebro tendem a funcionar até melhor - mas para obter esse resultado é fundamental exercitar o órgão mais sofisticado do corpo.

Revista Scientific American - por Selma Corrêa

Exercitar o cérebro faz bem. Cada vez mais estudos comprovam que o aprendizado estimula o cérebro a continuar funcionando bem por mais tempo, o que é fundamen­tal, considerando que a expectativa de vida tem aumentado significativamente. Há apenas um século a média nos países desenvolvidos era de 47 anos e agora está em 78; dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (I BG E) mostram que em três décadas o tempo médio de vida no país cresceu 11 anos. Por conta dessa mudança, a meia-idade tem sido reconhecida como um período extrema­mente produtivo. Talvez a melhor notícia nesse contexto seja a de que a maioria das funções cerebrais podem ser preser­vadas por 80,90 anos ou mais, principal­mente se atitudes e hábitos contribuírem para que se mantenham saudáveis.

E, ao contrário do que os cientistas (e as pessoas em geral) acreditavam, o envelhecimento não é, necessariamente, sinônimo de decadência. De fato algu­mas funções, como a área da memória responsável por recordar nomes, entram em declínio. Mas, ao mesmo tempo, a habilidade de formar juízos mais exatos sobre as pessoas e situações relaciona­ das a finanças, por exemplo, fica mais aguçada. Isso acontece porque, com o passar do tempo, as redes neurais cons­troem padrões de ligação que podem ser comparados a camadas entrelaçadas de conhecimentos que nos permitem aces­sar instantaneamente as semelhanças entre situações e, na maioria dos casos, discerni-Ias com mais precisão do que teríamos na juventude.

Recentemente, com a comprovação de que neurônios continuam a surgir até a meia-idade (um processo denominado neurogênese), mui­tos conceitos sobre a dinâmica e a plasticidade neurológicas se transformaram. Descobertas a respeito da estrutura e das funções do cérebro também trouxeram perspectivas animadoras. Hoje, por exemplo, sabemos sobre a impor­tância da mielina, um revestimento branco e gorduroso que, à medida que aumenta, esta­belece conexões que nos ajudam a processar informações e a compreender o mundo que nos cerca. Esse acréscimo da massa branca talvez explique, do ponto de vista neurocientífico, o que muitos identificam como "sabedoria da meia-idade", uma vez que essa estrutura ajuda a entender de que modo o acúmulo de vivências altera anatomicamente o cérebro. Estudos reali­zados nos últimos anos em centros de pesquisas de vários países têm mostrado que o cérebro de pessoas de meia-idade está mais para se adaptar a situações que, na juventude, poderiam ser consideradas intransponíveis pelo mesmo indivíduo. "À medida que envelhecemos, ele se torna mais ativo e áreas maiores são alocadas para solucionar problemas", afirma a jornalista Barbara Strauch em seu livro O melhor cérebro da sua vida (Zahar, 2011). "Nesse momento, aque­les que mais exercitam as aptidões cognitivas le­vam vantagem: são elas que melhor conseguem "reaprender" a usar suas habilidades", ressalta a editora de ciência do The New York Times. Para escrever o livro, realizou uma extensa pesquisa sobre as pesquisas mais recentes nessa área. Pesquisadores da Universidade Duke consta­taram que, com o passar dos anos, as pessoas começam a usar de forma mais frequente os dois hemisférios cerebrais, em vez de "privilegiar" um deles - um recurso chamado bilateralização. "Especialmente aqueles que recrutam a força do poderoso córtex cerebral frontal desenvolvem o que os cientistas chamam de "reserva cognitiva", uma proteção contra os efeitos do envelhecimen­to", salienta Barbara.

Esse recurso fornece, por exemplo, a capaci­dade de chegar mais depressa ao ponto central de uma discussão, ou seja: captar a essência, avaliar a situação, sem agir de maneira precipi­tada. Essa reserva cerebral também pode afastar os primeiros sintomas externos de doenças neurodegenerativas como Alzheimer. Em seu livro, Barbara ressalta que há fortes indícios de que algo simples como a educação - ou mesmo  trabalho - pode ser a chave para construir essa proteção cerebral para a vida inteira. Ela explica que a maioria das pesquisas mais antigas sobre o envelhecimento foi conduzida, sobretudo, em asilos e hospitais, o que apresentou uma visão exagerada mente negativa do que significa envelhecer. "Por muitos anos, até os médicos, em sua maioria, julgaram que a demência era inevitável; mas agora sabemos que, embora certamente tenha seus riscos aumentados com a velhice, a demência é uma doença específica. Se mantivermos um caminho normal de enve­lhecimento, sem grandes enfermidades, nosso cérebro poderá permanecer em condições rela­tivamente boas", afirma. "Agora que a ciência sabe que não perdemos milhões dessas células ao envelhecer, de repente parece plausível que, se olharmos com bastante atenção, encontre­mos maneiras mais fáceis de manter nossos neurônios em boa forma."

• Tarimba social

Pela primeira vez na história vivemos um tem­po em que há indícios científicos de que com o passar do tempo ficamos mais hábeis para lidar com outros e fazer melhores escolhas, uma capacidade enraizada na biologia cerebral.
Já é possível detectar e até observar o crescimento do "discernimento maduro" em nosso cérebro. As ligações que ajudam a identificar o "caminho errado" ficam mais fortes e há indícios de que atinjam seu auge em torno dos 50 anos. O psicólogo Thomas Hess, pesquisa­dor da Universidade Estadual da Carolina do Norte, conduziu dezenas de estudos sobre o que chama de "tarimba social", que, segundo sua constatação, chega ao pico na meia-idade, quando as pessoas se tornam muito melhores que os mais jovens (antes dos 40 anos) e que os mais idosos (após os 80) para julgar o cará­ter dos outros. Isto é, as avaliações ardilosas torriarn-se mais fáceis - e acertam o alvo mais em cheio - ao envelhecermos. E é o modo de amadurecimento do cérebro que nos garante essa vantagem.

Há também o fato de que, na meia-idade, como temos mais tempo de experiência com pessoas, os neurônios dedicados a nos conduzir pelo cenário humano revelam-se ex­cepcionalmente mais "espertos". Os estudos de neuroimagem mostram que as partes do córtex frontal que lidam especialmente com a regulação de emoções e afetos atrofiarn-se com menos rapidez do que outras áreas cerebrais. É essa mescla de controle afetivo, destreza mental e experiência de vida que nos ajuda a tomar as decisões corretas na idade madura. Segundo Hess, o fato de adultos de meia-idade parecerem ser os mais hábeis emocionalmente é compatível com as ideias de que o período in­termediário da vida é uma ótima fase: aptidões cognitivas básicas ainda estão relativamente altas e há também uma dose razoável de expe­riência, de modo que elas funcionam em alto nível nas situações do cotidiano.

O economista David Laibson, professor da Universidade Harvard, por exemplo, fez estudos fascinantes no campo emergente da neuroeconomia. Ele estudou o modo como as pessoas tomam decisões financeiras - e também descobriu que somos mais compe­tentes nisso por volta dos 50 anos ou mais. O pesquisador verificou que, ao enfrentarem problemas complexos ligados a dinheiro como dívidas ou taxas de juros, as pessoas mais ve­lhas fazem as melhores escolhas. Em estudos conduzidos com voluntários de vários países, Laibson constatou que pessoas entre 40 e 65 anos apreendem com mais facilidade as conse­quências das decisões financeiras e, de forma geral, têm melhor discernimento.

• O que de fato importa

Analisando estudos longitudinais, os psicólo­gos começam a se dar conta de que a imagem da meia-idade que tivemos durante muito tempo era incompleta e enganosa. Estudos reunidos por Barbara indicam que talvez seja a própria natureza do envelhecimento do cérebro que nos dá uma perspectiva mais ampla do mundo, uma capacidade de discernir padrões e até sermos mais criativos.

Nessa fase da vida as pessoas estão mais ap­tas a avaliar aspectos de problemas complexos e encontrar respostas concretas, em comparação ao próprio desempenho 20 ou 30 anos atrás. Também é possível lidar mais calmamente com emoções e informações - valorizando o que realmente importa e deixando de lado o que pode (e deve) ser ignorado sem grande prejuízo.

Entre todas as habilidades singulares do cérebro maduro, talvez nenhuma seja tão potencialmente promissora quanto o talento para a bilateralização. Essa espécie de "truque" aprendido com o passar do tempo parece ser uma estratégia adaptativa que alguns cérebros adotam para se manter fortes. "Em algum pon­to da meia-idade começamos a desenvolver a capacidade de usar com maior frequência os dois hemisférios cerebrais, em vez de privilegiar um deles", afirma Barbara. Ela salienta que essa descoberta ajuda a entender por que pessoas mais velhas tendem a ter uma visão panorâ­mica das situações e perceber interligações. Embora seja uma característica observada em outras épocas da vida (e obviamente varie de indivíduo para indivíduo), o "talento bilateral" comumente se inicia na meia-idade.

É possível pensar que usar os dois hemisfé­rios para fazer o que um só era capaz quando éramos mais jovens aponta para uma carência que pede compensação. Mas um aspecto intrigante da bilateralização é que não são os cérebros mais hábeis e capazes que passam por esse fenômeno, como se simplesmente se recusassem a "entregar os pontos". Quando as dificuldades começam a surgir, sem grande esforço o cérebro "acostumado a trabalhar"
chama para si a responsabilidade e vai atrás do melhor resultado. "Usamos o que nos resta de melhor e talvez isso tenha seu maior impacto na meia-idade não por estarmos aposentados, mas por ainda estarmos trabalhando e ainda precisarmos muito de nossas faculdades em ordem", afirma o neurocientista Roberto Ca­beza, pesquisador da Universidade Duke que ajudou a desvendar esse truque neurológico. "Os hemisférios esquerdo e direito ficam mais integrados na meia-idade, abrindo caminho para maior criatividade", considerou o psiquia­tra Gene Cohen, pesquisador da Universidade George Washington. Morto em 2009, é autor de The mature mind (não publicado no Brasil). "Os neurônios em si talvez percam parte da xelocidade de processamento com a idade, mas as informações se entrelaçam de maneira cada vez mais enriquecedora", escreveu. Ele estudou os efeitos da arte sobre o cérebro e sustentou que a bilateralização pode favorecer a criatividade, já que facilita a conciliação de percepções intuitivas, afeto e interpretação de sinais faciais e corporais com a fala e o raciocínio lógico, por exemplo.

Na verdade, os cientistas imaginavam des­cobrir o inverso, já que durante muitos anos prevaleceu a convicção de que, ao envelhecer, o órgão mais sofisticado do corpo humano usava uma parcela muito menor dele mes­mo - e não maior. O protótipo da descrição do envelhecimento neural era semelhante ao de uma lesão, e partia-se da crença de que, à medida que envelheciam, as pessoas se tornavam mentalmente mais preguiçosas. Medições anteriores, mais grosseiras, cons­tatavam que a maioria dos cérebros mais velhos seriam cérebros fracos - por isso pa­ravam de se esforçar muito e ativavam menos neurônios. Essa visão, entretanto, foi virada pelo avesso.

A autoimagem também pode ser um fator decisivo na qualidade do amadurecimento. Um estudo desenvolvido pela psicóloga Becca Levy, da Universidade Yale, mostrou que a memória de pessoas idosas melhorava depois da simples visão de palavras positivas associadas a envelhecimento - por exemplo, sensato, alerta, sábio e capaz. Mesmo quando os vocábulos foram exibidos depressa demais para que os participantes se conscientizassem  da leitura, em algum nível el nto neural era semelhante ao de uma lesão, e partia-se da crença de que, à medida que envelheciam, as pessoas se tornavam mentalmente mais preguiçosas. Medições anteriores, mais grosseiras, cons­tatavam que a maioria dos cérebros mais velhos seriam cérebros fracos - por isso pa­ravam de se esforçar muito e ativavam menos neurônios. Essa visão, entretanto, foi virada pelo avesso.

A autoimagem também pode ser um fator decisivo na qualidade do amadurecimento. Um estudo desenvolvido pela psicóloga Becca Levy, da Universidade Yale, mostrou que a memória de pessoas idosas melhorava depois da simples visão de palavras positivas associadas a envelhecimento - por exemplo, sensato, alerta, sábio e capaz. Mesmo quando os vocábulos foram exibidos depressa demais para que os participantes se conscientizassem  da leitura, em algum nível ela surtiu efeito. Já os que viam de relance palavras negativas como declínio, senil, decrépito, demência e confuso se saíam pior nos testes de memória.

O psicólogo Thomas Hess, da Universi­dade Estadual da Carolina do Norte, consta­tou que as atitudes são como profecias que sempre se realizam. Em seus estudos, as pessoas acima de 60 anos apresentavam pior desempenho nos testes de memória quando primeiro Ihes era dito algo negativo sobre a velhice, como informar que o estudo que es­tava para começar era sobre o modo como a idade afeta a aprendizagem e a memória. No entanto, quando primeiro eram apresentadas informações como a de que não há grande declínio da memória com o envelhecimento, o desempenho nos testes melhorava. Consta­tações como essas confirmam que o cérebro maduro é ainda um fascinante mistério - e, talvez, estejamos começando a descobrir que o melhor ainda está por vir.

• Treinamento para aumentar a inteligência

Há duas ou três décadas ainda se acreditava que o quociente de inteligência (QI) - a medida de habilidades mentais para solução de problemas, entre as quais aptidões espaciais como memória e raciocínio verbal - era fixo e, em grande parte, determinado pela genética. Novas descobertas neuropsicológicas não deixam dúvidas de que a ideia está ultrapassada. Pesquisas recentes, realizadas em diversos países, sugerem que uma função cerebral bem básica chamada memória operacional poderia estar na base da nossa inteligência geral, abrindo a intrigante possibilidade de que, se uma pessoa desenvolver essa habilidade, poderá melhorar sua capacidade de encontrar soluções para os mais diferentes problemas.

A memória operacional é o sistema de armazenamento de informações de curto prazo do cérebro. Funciona como uma espécie de "bancada de trabalho" para a resolução dos problemas mentais. Por exemplo, se você calcular 98-23+2, a memória operacional armazenará as etapas intermediárias necessárias para elaborar a resposta. A quantidade de informações que poderá ser guardada está fortemente relacionada à inteligência geral.

Uma equipe coordenada pelo neurocientista Torkel Klingberg, do Instituto Karolinska de Estocolmo, Suécia, encontrou sinais de que os sistemas neurais que fundamentam a memória operacional o podem "crescer" quando estimulados. Com mapeamento cerebral pelo método da ressonância magnética funcional (RMf), o grupo quantificou a atividade cerebral de adultos antes e depois de um programa de treinamento da memória operacional, que abrangeu tarefas como a memorização das posições de uma série de pontos dispostos num gráfico. Depois de cinco semanas de treinamento, a atividade cerebral dos voluntários tinha aumentado nas regiões associadas com esse tipo de memória. A pesquisa foi publicada no periódico científico Nature Neuroscience.

Ao estudarem crianças que tinham completado esse tipo de exercício mental, Klimberg e seus colegas observaram melhoras em várias aptidões cognitivas não relacionadas ao treinamento - e um salto nas pontuações do teste de QI de 8%, segundo artigo veiculado pelo Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. O pesquisador acredita que o treino em memória operacional pode ser fundamental para ampliar o poder do cérebro: "A genética e a vida intrauterina são bastante importantes, mas não podemos desprezar o fato de existir um percentual (embora não saibamos ainda qual é) que pode ser melhorado por estímulos ambientais e pelo treinamento.

Para saber mais

O melhor cérebro da sua vida. Barbara Strauch. Zahar, 2011.

    Administração do Tempo

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