O alcance real da meditação


Além de melhorar nossa saúde e concentração, as técnicas de meditação podem nos ajudar a explorar o nosso mundo. Nenhuma delas, porém, é capaz de nos fazer experimentar a totalidade.

Revista Planeta - por steven Harrison*

A meditação é definida no dicionário como ato de reflexão e contemplação que focaliza os nossos pensamentos ou os projeta na mente, mas, coloquialmente, o termo é usado de maneira muito ampla e descreve tudo, desde as práticas de neoxamanismo até as preces cristãs.

Não importa o contexto, existem amplas e variadas categorias de treinamento de meditação. As técnicas de concentração treinam a mente para se focalizar em um som, uma imagem, uma palavra (mantra), um objeto externo, ou alguma sensação do corpo. Esses métodos acalmam a mente engajando-a em repetição. Aqueles que praticam essas técnicas relatam que os seus efeitos incluem estados de tranqüilidade e estados de expansão de consciência.

As técnicas de meditação que têm o objetivo de aumentar a consciência dão um enfoque diferente sobre a mente. Essas técnicas freqüentemente combinam métodos de concentração com sugestões para aumentar a atenção em relação aos fenômenos corpo/mente e aos estímulos sensoriais. Isso pode significar aquietar o ambiente externo ou diminuir a carga de atividades de forma que haja menos para fazer, como também treinar a mente para prestar atenção, mas não para analisar o que experienciamos.

A meditação e a oração devocional não se referem à reestruturação do relacionamento entre nós e nossas mentes, mas enfocam a nossa relação com uma deidade ou com o cultivo de qualidades de amor, devoção e entrega. Os devotos podem simplesmente adorar ou pedir por intercessão, ajuda ou curas. Todas as religiões no mundo têm rituais relacionados com a sua deidade e a sua teologia, e práticas direcionadas para criar o estado mental apropriado para seus devotos.

Cada um desses tipos de meditação - de concentração, de consciência e de devoção - tem uma estrutura de ideologia para sustentá-los, instruções, práticas e resultados esperados. Dentro da limitação do tipo de técnica, as meditações freqüentemente funcionam da seguinte forma: a meditação de concentração tende a focalizar a mente; a meditação de atenção tende a aumentar a atenção; as práticas de devoção criam sentimentos de amor. Cada tipo de meditação produz os seus resultados. Mas sempre trazem condicionamentos nos resultados e também efeitos colaterais.

É bom lembrar, uma vez que viajamos no vasto universo da meditação e em tudo que ela pode nos revelar, que estamos freqüentemente caminhando em terreno bastante palmilhado. Podemos perder a nossa perspectiva e esquecer esse fato. Podemos utilizar a descrição de uma outra pessoa para nossa experiência. Podemos confundir o nosso potencial em relação à nossa realidade atual.

Esse problema é exacerbado não somente pelo romantismo da literatura espiritual e da mitologia de instrutores falecidos há muito tempo, mas particularmente por instrutores vivos que se sentem felizes em nos guiar com base nas suas experiências e nos seus objetivos - e freqüentemente para seus objetivos e benefícios. Nós podemos seguir essa jornada interna e concebê-la como se fosse nossa. A mente humana adora seguir, especialmente quando será recompensada por sua sujeição ao poder, à certeza ou à segurança.

Se estamos interessados em uma vida de descoberta e se estamos interessados na meditação como uma expressão daquela vida, então a experiênncia de uma outra pessoa, não importa o quanto fantástica seja, é útil somente como uma referência de transição para a nossa própria experiência. Como co-exploradores do universo, podemos comparar notas, checar espécimes e amostras que coletamos e examinar os mapas e diários que reunimos.

Mas olhar para o mapa não é o mesmo que atravessar o rio. Examinar um espécime não é o mesmo que observar essa forma de vida em seu habitat, o ouvir as experiências de aventura de outros exploradores e até mesmo acreditar nelas não é o mesmo que ter as nossas próprias experiências.

Nós temos a nossa própria aventura para empreender.

Então quando lemos ou ouvimos qualquer descrição de meditação ou de experiência espiritual, a primeira coisa que precisamos entender é que temos de encontrar o que é verdadeiro através da nossa percepção direta.

Às vezes um ensinamento espiritual não é nem mesmo a experiência do instrutor, mas de um outro ou mesmo de um livro que o instrutor encontrou casualmente. O instrutor usou esse conhecimento de segunda mão para substituir a sua própria experiência e começou a ensiná-lo. Esse ensinamento pode referir-se a infindáveis correntes de plágio espiritual, sem que ninguém saiba realmente quem ensinou tudo aquilo. O ensinamento prossegue como se viesse da experiência do instrutor, mas, de fato, essas experiências são imaginárias.

A mente pode criar uma realidade virtual quase indistinguível da realidade. Como estudantes de um tal instrutor, nós somente podemos aprender uma realidade virtual. Se o que estamos procurando é a realidade, estamos profundamente perdidos.

As roupagens culturais dos ensinamentos espirituais - Um estudante espiritualista tem a tendência a aceitar inconscientemente as roupagens culturais que a maioria dos ensinamentos espirituais trazem. Existem muito poucos instrutores q que compreenderam plenamente esses efeitos culturais neles mesmos. As suas personalidades e expressões são determinadas culturalmente. A sua espiritualidade está ligada a um contexto e é lugar comum em sua própria sociedade, enquanto para nós ela é exótica e tremendamente mais interessante que a nossa herança espiritual ou religiosa.

A questão aqui não é pelo fato de ser exótica. O problema é que nós inconscientemente assumimos o paradigma cultural do instrutor com suas incoerências quando aceitamos os ensinamentos. De repente estamos utilizando uma outra linguagem, uma outra dieta, uma outra maneira de vestir e interagir. Estamos observando feriados que não têm nenhum significado histórico para nós, aceitando deidades que não têm qualidades inerentes a nós, adotando nomes que são muitas vezes absolutamente absurdos e aceitando comportamentos em nossa cultura recentemente adotada que nós jaamais empregaríamos antes. Nós não temos nenhuma idéia sobre o motivo pelo qual estamos fazendo isso e até mesmo sobre o que estamos fazendo. Ou sabemos o que estamos fazendo, mas decidimos ver de outra forma?

Nós substituímos uma série de condicionamentos sociais por outros. Trocamos uma série de amigos por outros. Não estamos assimilando um ensinamento espiritual. Estamos assimilando modificações comportamentais.

Se um ensinamento não está livre de suas prórpias roupagens culturais, como pode dar expressão à liberdade, ao universal?

A limitação dos sistemas de meditação - A tecnologia da meditação, em si mesma, é um aspecto tremendamente importante e maravilhoso do nosso conhecimento coletivo. Essa informação de como acessar e modificar áreas da nossa mente tem sido desenvolvida e refinada por milhares de anos e incontáveis horas de exploração e experimentação internas.

As técnicas de meditação podem nos colocar em contato com partes de nossa realidade e podem aumentar o nosso sentido de estabilidade, espaço e concentração. Essas técnicas podem mudar o modo de funcionamento de nossos corpos e podem aumentar a nossa saúde e vitalidade. Podem trazer ordem e sentido para as nossas vidas.

Isso já é alguma coisa. Mas não é o suficiente.

As técnicas de meditação não podem conduzir-nos além de nós mesmos, além da identidade autocentrada que distorce os beneficios que resultam de nossas prática. Um "eu" melhor, mais ampliado, mais consciente e concentrado continua sendo uma entidade que existe para si mesma e por si mesma. Um "eu" melhor continua existindo em isolamento, divisão e conflito.

O centro dessa questão não pode ser alcançado ou resolvido por meio de técnicas de meditação, que, no final, estão sendo praticadas em seu próprio centro, pelo "eu".

Nós não podemos fazer absolutamente nada com relação a esse "eu". Não fazer nada não é uma técnica. Não pode ser ensinado ou aprendido. Não pode ser praticado. A desesperança paradoxal desse "eu", constatando a sua própria natureza, nos deixa sem uma opção, sem uma resposta, sem um método. Essa quietude, sem a possibilidaade de ação, sem a esperança de redenção, é a constatação espontânea da verdade da vida.

Nós não podemos fazer com que isso aconteça. Não podemos nos preparar para isso. Não podemos aprender isso.

Não há necessidade de nenhuma meditação, nenhuma interpretação. Nós já estamos lá, todo o tempo, sem esforço.

Nenhuma técnica de meditação irá ajudar, não importa quão poderosa ela seja, não importa o quanto sejamos diligentes em nossas práticas. A questão é: quanto de ajuda precisamos para chegar aonde estamos?

Desde onde estamos, do silêncio do momento, podemos utilizar as técnicas de meditação. Agora não estamos tentando chegar a algum lugar. Não estamos tentando nos tornar melhores. Não estamos buscando o poder.

Podemos utilizar as técnicas de meditação como instrumentos de investigação, como meios para investigar as estruturas do nosso universo. As técnicas têm as suas utilidades como também as suas limitações.

Explorando a mente - Para utilizar as técnicas da meditação como instrumentos de investigação, mais do que rituais religiosos ou sistemas de crenças, é preciso humildade.

Estamos fascinados pela idéia de compreender. Estamos certos de que o conhecimento que acumulamos durante uma vida de aprendizado é muito, muito importante.

Não é.

É muito, muito importante no sentido da percepção direta. O que nós já sabemos é estático, mas a vida que procuramos entender não é.

A arrogância do conhecimento é a primeira coisa que deve ser sacrificada.

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