O Cérebro em Pane


Principal causa de queda na produtividade profissional no mundo, a depressão já vem sendo chamada de "o mal do século 21"". Mas uma nova geração de medicamentos pode mudar essa realidade.

Revista Você S/A - por Mauro Silveira

O ano era 1994. O consultor José Augusto Minarelli, da empresa de outplacement Lens & Minarelli, de São Paulo, enfrentava mais um dia atribulado de trabalho quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a esposa de um de seus clientes, um executivo recém-demitido, pedia ajuda. O marido estava trancado no quarto com um revólver· nas mãos e ameaçava se matar. Desempregado há vários meses e completamente abatido, ele dizia que não tinha mais forças para continuar lutando. Minarelli teve de agir rápido. Como havia uma extensão de telefone no quarto, orientou a mulher para dizer ao marido que eles precisavam conversar. Depois de alguns minutos de completo silêncio, finalmente o executivo resolveu atendê-Ia. O diálogo entre os dois foi dos mais tensos. "Cara, eu vou embora", disse o executivo assim que ouviu a voz de Minarelli. "Ele me contou que estava com duas listas nas mãos, uma com as razões para continuar vivendo e outra com os motivos para desistir de tudo", diz o consultor. "O pior é que ele insistia em dizer que a primeira folha estava completamente vazia". Com muita habilidade, Minarelli foi pouco a pouco controlando a situação, até que finalmente o executivo concordou em abrir a porta do quarto e entregar a arma para a mulher.

Num julgamento precipitado, algumas pessoas podem pensar que o desespero que se apossou desse executivo foi uma demonstração de fraqueza diante de sua dura realidade. Mas na verdade ele é uma das faces mais dramáticas de uma doença que, atualmente, afeta cerca de 15% da população mundial: a depressão. São aproximadamente 900 milhões de pessoas sofrendo de um mal que tem sido chamado de doença da alma. Trata-se, também, de uma complexa doença do cérebro. Um indivíduo com crise depressiva precisa de cuidados médicos tanto quanto uma pessoa com problemas cardiacos ou com pneumonia. Como qualquer outra enfermidade, se não for tratada adequadamente pode provocar muito sofrimento e, em alguns casos, culminar com a morte do paciente. A Organização Mundial da Saúde prevê que dentro de 20 anos a depressão saltará do quarto para o segundo lugar do ranking de doenças mais dispendiosas, perdendo apenas para as enfermidades cardíacas. Estima-se que só nos Estados Unidos os custos para o controle e tratamento da doença atinjam a casa dos 47 bilhões de dólares. A depressão é também a principal causa de incapacitação profissional no mundo, respondendo por 10,7% dos casos. No Brasil, apesar das estatísticas alarmantes, somente em 1999 um decreto passou finalmente a classificar a depressão como uma doença do trabalho.

Um profissional deprimido raramente consegue desempenhar suas funções de trabalho de acordo com as expectativasda organização. O ambiente altamente competitivo e a pressão constante por resultados são para a pessoa com predisposição à doença uma espécie de barril de pólvora. A qualquer momento pode haver uma explosão detonadora da crise. "No passado, as empresas tinham uma preocupação maior em manter praticamente inalterado o seu quadro de funcionários"",afirma o psicólogo e consultor de carreira, Valdir Biscaro. "Hoje, o medo de perder o emprego é uma ameaça constante, pois até companhias consideradas sólidas como uma rocha estão quebrando ou se fundindo com outras. E esse temor é um dos fatores que podem desencadear a crise".

Para piorar a situação, o indivíduo também se sente incapaz de cumprir suas metas e objetivos e de se relacionar com os colegas da equipe. As faltas ao trabalho são constantes. Daí para a perda do emprego pode ser apenas uma questão de tempo. "Muitos pacientes dizem que estão deprimidos porque perderam o emprego, quando na verdade a demissão foi uma consequência da depressão", afirma Ricardo Alberto Moreno, professor de pós-graduação do departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. A pessoa que apresenta um episódio depressivo, segundo Moreno, tem 50% de possibilidade de vir a ter uma nova crise no futuro. O risco aumenta para cerca de 90% para quem já teve dois ou mais episódios.

Uma maneira eficiente de compreeender o que é a depressão é dizer justamente o que ela não é. Em primeiro lugar, não é um estado de tristeza profunda. É normal, por exemplo, nós nos sentirmos tristes com a perda de um familiar próximo e querido. Podemos até permanecer algumas semanas abatidos, mas aos poucos a vida acaba por retomar seu curso normal. Somos capazes de trabalhar, cuidar da casa e enfrentar os problemas do dia-a-dia. O depressivo simplesmente não encontra forças para reagir. Por mais que tente, não consegue identificar um único motivo que justifique o seu abatimento. A depressão tem sido confundida também com desânimo, preguiça, estresse e mau humor. É outro engano. Para que um indivíduo desenvolva um processo depressivo é preciso que ele tenha predisposiição. Isso significa que fatores genéticos têm uma grande influência no processo. Fatores psicológicos, como ansiedade, angústia e medo, entre outros, são em boa parte dos casos consequência, e não causa, da depresssão. O mesmo vale para os chamados fatores sociais, como conflitos familiares, estresse persistente, uma demissão inesperada, uma discussão com o colega de trabalho, uma separação conjugal.

Profissionais deprimidos têm dificuldade redobrada na hora de encontrar um novo trabalho. "Não posso indicar um executivo com depress&atild de;o para os meus clientes", afirma Alfredo Assumpção, headhunter da Fesa, empresa especializada na seleção de executivos para o setor financeiro. "Nós buscanlos no mercado pessoas que, além dos requisitos técnicos necessários para o cargo, sejam vibrantes e motivadas, pois é essa a necessidade das organizações que nos contratam."

A realidade é que, embora a medicina tenha conquistado grandes avanços na pesquisa e no tratamento da depressão, ainda hoje existem dúvidas sobre ela. Não se sabe, por exemplo, por que a doença afeta mais as mulheres do que os homens, numa proporção de dois para um. O mais provável é que fatores hormonais tenham uma participação importante no processo. Mas não é uma certeza absoluta. Sabe-se que a principal causa da doença são as alterações neuroquímicas ocorridas no cérebro. Os pacientes depressivos apresentam uma sensível redução de neurotransmissores, entre eles a serotonina, a noradrenalina e a dopamina, responsáveis, entre outras coisas, pelo humor e pela sensação de bem-estar. Esse processo químico faz com que a pessoa perca a capacidade de sentir prazer. E é aí que entram em ação os medicamentos antidepressivos, que agem no cérebro reequilibrando o sistema de recaptação dos neurotransmissores. "O indivíduo com depressão tem uma distorção da percepção do mundo e de si mesmo", afirma o psiquiatra Wagner Gattaz, professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e professor livre-docente da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. "Num desses moment.os de fragilidade, ele pode praticar atos que, em condições normais, jamais adotaria". Por essa razão, os psiquiatras orientam seus pacientes a nunca tomar decisões importantes (como pedir demissão, por exemplo) durante a fase crítica do tratamento.

Uma crise depressiva pode durar apenas algumas horas do dia ou se estender por semanas, meses ou até anos. Para tentar driblar a doença e seus sintomas, muitos profissionais entregam-se de corpo e alma ao trabalho. É um jogo bastante perigoso, já que, se por algum motivo a pessoa é desligada da empresa, tudo parece desmoronar num abismo profundo. "O deprimido reage às situações estressantes com sofrimento maior, mais prolongado e desproporcional ao estímulo", afirma o psiquiatra Moreno. Cerca de 70% das pessoas com depressão pensam em algum momento em praticar o suicídio. Desse total, 15% chegam realmente a cometê-Io.

Foi o que aconteceu em 1998 com o jovem estudante brasileiro L.M.T., de 30 anos, que tinha acabado de concluir seu curso de mestrado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) , nos Estados Unidos. Ao longo dos dois anos em que permaneceu por lá, levou uma vida normal e sem maiores incidentes. Suas notas estavam sempre entre as melhores da classe. No último semestre, no entanto, começou a apresentar sintomas de depressão. "O ritmo dos estudos, a discriminação dos alunos americanos em relação aos estrangeiros e a cobrança excessiva da instituição certamente contribuíram para desencadear a crise depressiva"", diz o padrasto do estudante, que não quer se identificar. No dia 30 de junho daquele ano, L.M.T. desembarcou no Brasil trazendo na bagagem não só um invejável histórico de notas mas também um emprego certo num grande banco nacional. Sua carreira estava pronta para decolar. O abatimento, no entanto, permanecia. A família procurou dar todo o apoio e carinho necessário. Para enfrentar a doença, ele começou a fazer psicoterapia e a tomar antidepressivos. "Eu não o abandonava um minuto sequer", diz o padrasto. "Sabíamos que ele não estava bem." Na manhã do dia 3 de agosto, num dos raros momentos em que ficou sozinho em casa, o estudante atirou-se do quinto andar do prédio onde a família morava. "Ele tinha acabado de colocar o terno e a gravata para ir trabalhar",diz o padrasto. Coincidentemente, em novembro do ano passado outra estudante brasileira, Lucy Crespo da Silva, de 22 anos, saltou do 14º andar de um dos alojamentos do MIT. Faltavam poucas semanas para sua formatura. Lucy foi o quarto caso de suicídio envolvendo alunos do MIT desde março de 1998. O episódio desencadeou no campus uma polêmica sobre o que estaria levando os estudantes a tentar o suicídio.

A família e os amigos têm um papel importante na recuperação do deprimido. O mais importante é compreender e aceitar o fato de a pessoa estar doente. Se ela quiser ficar na cama o dia todo ou sozinha, esse desejo precisa ser respeitado. Dando ao deprimido a condição de doente, ele se sentirá mais confortável e menos culpado. Jamais deve-se duvidar do seu sofrimento. Acredite: ele é real. Outra importante contribuição é saber o que não se deve fazer ou falar. Evite comentários do tipo "você não tem nada" ou "força, tenha coragem" ou, ainda, "você está precisando de umas férias." Frases desse tipo só contribuem para piorar ainda mais o estado da pessoa. A compreensão é uma das mais importantes aliadas do deprimido na sua luta para voltar a ter uma vida normal. Foi com o apoio da família e dos amigos, aliás, que o executivo salvo do suicídio pelo consultor José Augusto Minarelli encontrou forças para continuar vivendo. Hoje, ele é um bem-sucedido consultor de empresas. 

• Pílulas da felicidade

Um dos maiores desafios dos laboratórios farmacêuticos na pesquisa e produção de medicamentos antidepressivos tem sido tentar minimizar seus efeitos colaterais. A primeira geração de medicamentos, os chamados tricíclicos, são ainda hoje drogas eficazes no controle da depressão, mas impõem ao paciente uma série de padecimentos: ganho de peso, tremores, tonturas, sonolênncia, disfunção sexual, queda de pressão e problemas cardíacos, entre outros. O surgimento do Prozac, droga desenvolvida pelo laboratório americano Eli Lilly há cerca de dez anos, foi um verdadeiro divisor de águas. Seu princípio ativo, o cloridrato de fluoxetina, atua diretamente sobre a serotonina, inibindo seletivamente a sua recaptação. ""A eficiência do Prozac, na verdade, não difere muito da dos medicamentos mais antigos, mas a grande diferença está na redução dos efeitos colaterais",afirma o psiquiatra Wagner Gattaz. Não foi à toa que o medicamento ficou conhecido como a pílula da felicidade.

Depois dessa importante descoberta, começou a surgir uma série de antidepressivos que inibem seletivamente a recaptação da serotonina e da noradrenalina, mantendo estabilizada a função dos neurotransmissores. Essa nova safra de medicamentos de última geração não só prod to do Prozac, droga desenvolvida pelo laboratório americano Eli Lilly há cerca de dez anos, foi um verdadeiro divisor de águas. Seu princípio ativo, o cloridrato de fluoxetina, atua diretamente sobre a serotonina, inibindo seletivamente a sua recaptação. ""A eficiência do Prozac, na verdade, não difere muito da dos medicamentos mais antigos, mas a grande diferença está na redução dos efeitos colaterais",afirma o psiquiatra Wagner Gattaz. Não foi à toa que o medicamento ficou conhecido como a pílula da felicidade.

Depois dessa importante descoberta, começou a surgir uma série de antidepressivos que inibem seletivamente a recaptação da serotonina e da noradrenalina, mantendo estabilizada a função dos neurotransmissores. Essa nova safra de medicamentos de última geração não só produz menos efeitos colaterais como pode ser administrada em uma dose única diária. Isso representa também uma maior adesão do paciente ao tratamento.

Os antidepressivos normalmente são recomendados para o tratamento de todos os níveis de depressão, seja ela leve, moderada ou grave, bipolar (que alterna momentos de profundo abatimento com outros de euforia), psicótica (manifestação de delírios e alucinações) ou sazonal (relacionada com a época do ano, normalmente no outono e no inverno). Os efeitos da terapia começam a ser percebidos logo na primeira semana. O paciente consegue dormir melhor e o desconforto fisico e as dores diminuem. Na segunda semana, ele já se sente mais animado e disposto. Dessa forma, lentamente vai voltando ao convívio social. "O medicamento é mantido por um período de pelo menos seis meses", diz o psiquiatra Wagner Gattaz. "É a fase em que há um risco maior de recaída. Passada essa etapa, reduz-se pouco a pouco a dosagem até a liberação total da pessoa:."

Paralelamente ao tratamento com antidepressivos, é aconselhável que o paciente tenha também um acompanhamento psicológico. "Isso fará com que o paciente mergulhe em suas raízes e mude, entre outras coisas, seus paradigmas de relacionamento", diz o psicólogo Waldir Bíscaro. "É por isso que precisamos ter cuidado na hora de vestir a camisa da empresa, pois ela pode se revelar uma camisa-de-força e fazer com que abandonemos o convívio com as pessoas de que realmente gostamos". Uma das etapas mais importantes no processo de recuperação, segundo ele, é a retomada dos relacionamentos humanos: reencontrar velhos amigos de rua, os colegas de escola, reaproximar-se dos familiares. Nessas horas, o que o depressivo mais necessita é de calor humano.

• Dose certa

 executivo de marketing E.M.C, 47 anos, submete-se a sessões de análise há mais de uma década, A terapia o ajudou a lidar com recorrentes estados depressivos. Mas ele só superou isso quando um psiquiatra lhe receitou um novo medicamento. Seu depoimento:

"Jamais imaginei que uma pílula diária de Efexor, um medicamento de última geração, pudesse fazer por mim, em poucos dias, tanto quanto 13 anos de análise. Sou de uma geração para quem a psiquiatria sempre esteve associada a palavras feias, como lobotomia. Ignorava os avanços recentes da bioquímica. Preferia confiar nas técnicas de Freud e nos seus discípulos, Afinal, fizera avanços extraordinários no caminho do autoconhecimento: tornei-me, com o tempo, menos ansioso, de bem com a vida. Já não me desesperava com estados depressivos. Conhecia algumas de suas causas psicológicas, Mas, recentemente, algo ocorreu, A empresa onde trabalho havia decidido me confiar novas responsabilidades. O desafio de um projeto decisivo para a minha carreira fez crescer o nível de ansiedade e de insegurança. Estava me sentindo sem energia para tocá-Io, mesmo sabendo que eu tinha capacidade para tanto. Foi então que decidi procurar um psiquiatra, contrariando a orientação de meu analista. Pelos sintomas que descrevi, ele diagnosticou uma depressão moderada de fundo orgânico. Deu explicações sobre pesquisas e drogas descobertas nesse campo, Concordei em experimentar o tratamento com o Efexor. Nos três primeiros dias senti um pouco de tontura e, por vezes, ânsia. Estranhei. Mas mesmo nesses dias subsequentes experimentei uma sensação de ânimo que há muito não tinha. Senti firmeza em minhas decisões. Ganhei segurança. Sentimentos negativistas que me perturbavam simplesmente desapareceram. Dei conta do tal projeto e até fui promovido. Nem por isso abandonei as sessões de análise. Meu analista, surpreso com as mudanças, reconheceu que fiz a coisa certa".

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