O comandante desconhecido


Responsável pela origem, desenvolvimento e conclusão de todas as nossas ações, o cérebro é pouco conhecido, em comparação com qualquer outro órgão humano. Contribui para isso a sua complexidade que supera os mais avançados computadores.

Revista Viver - por Pedro Yves e Rose Campos

Formado por um trilhão de células que comandam a nossa existência, o sistema nervoso humano é o mais complexo objeto do universo. Comparados à rede de mais de 100 bilhões de neurônios em seu interior responsáveis por nossa inteligência, criatividade, emoção, consciência, e memória, os circuitos do mais sofisticado computador tornam-se pré-históricos. Mas, estudados desde os tempos dos faraós do Egito, suas grandiosas engrenagens ainda hoje permanecem um mistério.

No mundo todo, os cientistas vêm se esforçando para desvendar os segredos do cérebro. Denominada a "década do cérebro", os últimos dez anos registram uma evolução no seu conhecimento como nunca se viu. No Brasil, uma inicicativa do médico psiquiatra Wagner Gattaz, chefe do departamento de psiquatria da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), pretende colocar o país na vanguarda dasa pesquisas na América Latina. Trata-se do Laboratório de Investigações Médicas em Neurociências - LIM27 - que está sendo montado nas dependências do Instituto de Psiquiatria - IPq.

Motivados pela necessidade de diálogo interdisciplinar sentido em sua prática profissional, um grupo de médicos capitaneados pelos psiquiatras João Augusto Bertuol Figueiró e Carlos Laganá de Andrade, pelo médico e doutor em neuropsicologia Claudio L. N. Guimarães dos Santos e pelo professor e neurocirurgião Manoel Jacobsen Teixeira, organizou o I Curso Básico de Neuropsiquiatria, Neuropsicologia e Neurociência Clínica. Destinado a profissionais de diferentes áreas ligadas à saúde mental, o curso se ampliou de tal forma que se transformou no evento Cérbro x Mente: uma Visão Contemporânea que acanotece em encontros mensais no SESC Vila Mariana. o conteúdo dessas palestras será editado aqui mensalmente.

Seu principal objetivo, segundo João Figueiró, um dos idealizadores do projeto, "é diminuir a grande lacuna de conhecimento que exite entre poucos experts do assunto e a grande maioria dos profissionais sem acesso à s pesquisas e descobertas mais recentes".

  • Escovas de dentesApesar dos esforços empreendidos pela ciência, faltam estudos ou trabalhos científicos que unam ou ao menos deêm uma convergência mínima às várias teorias díspares sobre o cérebro. " Não há pontes teóricas bem estabelcidas como existem em outras ciências como a física ou a química. Para essas, existem paradigmas, o mesmo não ocorre com as neurociências", compara Claudio Guimarães.

    De acordo com o psiquiatra Luís Fernando Hindi Basile, pesquisador do LIM27, a palavra neurociência tem funcionado mais como um sacolão de teorias e uma tentativa de se agrupar métodos, o que não significa que esse objetivo tenha sido atingido, " um comentarista do conceituado jornal Beahavioral & Brain Sciences comparou teorias da área com escovas de dentes. Elas podem ser muito interessantes, mas cada um tem a sua. E o que determina a escolha é mesmo o gosto pessoal".

    Até a definição de neurociência ainda está em discussão. Por enquanto, dispomos de uma série de sinônimos: neurociência cognitiva, neuropsicologia, psicofisiologia ou psicologia da fisiologia, neurolingüística cognitiva, neurociência do comportamento, neurologia do comportamento ou neurolingüística.

    Existe também uma grande confusão quanto ao uso da palvra cérebro. Na maioria das vezes que a usamos, estamos nos refereindo ao encéfalo. o encéfalo é mais abrangente que o cérebro. Envlove os hemisférios cerebrais , o córtex, o cerebelo e o tronco encefálico.

    O cerebelo do homem é muito parecido com o dos outros mamíferos superiores, embora haja uma grande diferença entre o encéfalo do homem e dos outros animais, visível pricipalmente no volume do córtex cerebral. O cálculo é feito proporcionalmente ao corpo. Uma baleia possui um cótex cerebral bem maior que o do homem, mas seu corpo também é bem maior. E se o córtex é comum a todos os animais, verifica-se que o neocórtex só está presente no homem e em primatas. Sua dimensão aumenta de acordo com a escala evolutiva.

  • A alma está no cérebroAlgumas regiões cerebrais e do resto do encéfalo estão muito relacionadas com determinadas funções do indivíduo. mas, ao contrário do que tradicionalmente se considerava, tais funções não estão restritas a estas regiões. Lesar detereminada região do cérebro produz alterações no comportamento. Com isso podem-se estabelecer relações, mas não se afirmar que a região afetada é a única responsável pelo funcionamento normal daquela capacidade que foi perdida. Sabe-se que é da ação coletiva de várias regiões do encéfalo que emerge o mais fascinante fenômeno neurológico de todos: a mente.

    Uma das grandes questões da neurobiologia é a relação entre mente e cérebro. Seu mais misterioso aspecto é a consciência, que pode tomar muitas formas, desde a experiência da dor até a autoconsciência.

    No passado a mente, ou alma, era considerada algo imaterial, como acreditava Descartes, separado do cérebro mas interagindo com ele de alguma forma. Hoje, poucos cientistas acreditam que a alma seja distinta do corpo. Mas a maioria dos neurocientistas crê que todos os aspectos da mente, incluindo seus intrigantes atributos, estão na iminência de serem explicados de uma maneira mais materialista, como uma interação de neurônios. William James, pai da psicologia norte-americana, disse há um século: "consciência não é uma coisa, mas um processo". É exatamente esse processo que precisa ser descoberto.

    Com o surgimento da ciência cognitiva, nos anos 50, tornou-se possível para a psicologia considerar o processo mental em oposição à simples observação do comportamento. Apesar dessa mudança, até recentemente a maioria dos cientistas cognitivos ignorou a consciência, assim como os neurocientistas fizeram.

    "Existe uma discussão histórica e antiga sobre a correlação cérebro-mente. Na minha opinião, a mente está no corpo todo. Tudo o que há no mundo externo passa por uma avaliação, pessoal e subjetiva, de cada indivíduo. A mente está nesse processo. O mundo externo é feito dos objetos reais, palpáveis. O mundo subjetivo é tudo aquilo que, ao longo do desenvolvimento, formou nossa mente. Existe um terceiro mundo, do imaginário, que a gente constrói. Nessa interação, passa-se de um para outro com facilidade e é nisto que consiste a elaboração da mente", resume a psicóloga e psicossomatista Maria Rosa Maria Spinelli.

  • Programa biológicoSão as conexões entre os mais de 100 bilhões de neurônios do cérebro humano que tornam possível a memória, a visão, o aprendizado, a consciência e as outras propriedades da mente. Tal complexidade já está presente nas primeiras semanas de vida de um feto. Durante o desenvolvimento fetal, os neurônios devem se desenvolver na quantidade e local certos. Os axônios que se propagam a partir dos neurônios devem escolher o sentido correto de seu trajeto para fazer a conexão certa.

    Como essas ligações precisas se formam? Uma teoria afirma que o cérebro se desenvolve de uma maneira análoga à construção de um computador, onde os chips e os componentes se conectam segundo um diagrama prescrito. De acordo com essa analogia, em algum momento da vida pré-natal um botão é apertado e "liga" o cérebro. A estrutura completa do cérebro estaria gravada em um "programa biológico", provavelmente o DNA, e ele começa a trabalhar depois que sua estrutura está completamente formada.

    Pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que o desenvolvimennto do cérebro segue regras bastante diferentes. Embora os humanos nasçam com a maioria dos neurônios que eles sempre terão, a massa do cérebro ao nascer é menor que a de um cérebro adulto. O que cresce são os neurônios e o número de axônios e dendritos, assim como a extensão de suas conexões.

    São imprescidíveis os estímulos externos para o bom desenvolvimento do cérebro. Estudos mostram que bebês que passaram a maior parte do seu primeiro ano de vida deitados no berço tiveram dificuldades motoras. Alguns deles não conseguiram sentar antes dos 21 meses de vida e menos de 15% conseguiram andar com três anos de idade. As crianças devem ser estimuladas através do toque, fala e imagens.

    A partir de um estímulo externo, o neurônio transmite informações a outro neurônio por impulsos conhecidos como potenciais de ação. Os sinais se propagam como ondas através do axônio da célula e são convertidos em sinais químicos na sinapse, o ponto de contato entre os neurônios. Quando o neurônio está descansando, sua membrana mantém uma diferença de potencial elétrico de cerca de -70 milivolts (a face interna é negativa em relação a outra face).

  • Aprendizado e memória Aprender é o processo pelo qual adquirimos novos conhecimentos. E memória é o meio pelo qual retemos esse conhecimento durante certo tempo. A maior parte do que sabemos nós aprendemos, portanto aprender e memorizar nos são fundamentais. Até a metade do século XX, a maioria dos pesquisadores de comportamento não acreditava que a memória era uma função mental independente do movimento, percepção, atenção e linguagem. Recentemente essa funções foram localizadas em diferentes regiões do cérebro. Mesmo assim os pesquisadores continuaram duvidando que a memória poderia estar associada a uma região específica.

    O neurocirurgião canadense Willder G. Penfield foi o pioneiro em aceitar essa teoria. Nos anos 40, ele começou a usar estímulos elétricos para mapear as funções motoras, sensoriais e de linguagem no córtex de pacientes que sofriam de epilepsia. Como o cérebro não possui receptores de dor, a cirurgia pode ser feita com anestesia local, com o paciente consciente podendo descrever a região do cérebro que respondia a cada estímulo diferente. Ele repetiu essa experiênncia com mais de mil pacientes e percebeu que seu teste produzia respostas coerentes. Elas invariavelmente vinham dos lóbulos temporais. Nos anos 50, um paciente que perdeu o lóbulo temporal dos dois hemisférios do cérebro não conseguiu mais formar novas memórias longas. Mas manteve suas memórias passadas e a capacidade de preservar a memória curta. Em conseqüência disso, perdeu também a capacidade de aprendizado.

    O médico psiquiatra e pesquisador da USP Henrique Shützer Del Nero inicia uma definição lembrando o que diz uma das maiores autoridades sobre o assunto, o neurocientista Ivan Isquierdo: memória é um mau termo. "Está-se dando o nome de memória para muitas coisas. Memória e aprendizado são gêmeos fraternos, não univitelinos, mas têm coincidências marcantes. E nós devemos distinguir os processos", diz DeI Nero. Ainda segundo sua definição, memória e aprendizado são duas modalidade de sistema que se adaptam. Em geral se pensa em memória como informação estocada.

  • Longa e curta duração Até mesmo os bebês já nascem com algum tipo de informação pré-programada. As informações podem ser fatos ou procedimentos. E, seja por experiência direta ou relatada, nós temos possibilidade de criar novos bancos de informações intercambiáveis. É possível também, de fatos extrair procedimentos e de procedimentos extrair fatos. Por exemplo, se alguém comenta que está havendo uma manifestação perigosa em São Miguel Paulista, com troca de tiros, o ouvinte não precisa ir pessoalmennte conferir a situação para concluir que deve evitar a área.

    É preciso interagir com o meio e transformar suas reações de acordo com o aprendizado. A memória estoca e o aprendizado transforma. Existem também mecanismos temporais que funcionam de acordo com a necessidade da informação p>Até mesmo os bebês já nascem com algum tipo de informação pré-programada. As informações podem ser fatos ou procedimentos. E, seja por experiência direta ou relatada, nós temos possibilidade de criar novos bancos de informações intercambiáveis. É possível também, de fatos extrair procedimentos e de procedimentos extrair fatos. Por exemplo, se alguém comenta que está havendo uma manifestação perigosa em São Miguel Paulista, com troca de tiros, o ouvinte não precisa ir pessoalmennte conferir a situação para concluir que deve evitar a área.

    É preciso interagir com o meio e transformar suas reações de acordo com o aprendizado. A memória estoca e o aprendizado transforma. Existem também mecanismos temporais que funcionam de acordo com a necessidade da informação estabelecendo a memória de longa ou curta duração.

    E há formas diferentes de estocagem da memória. "Algumas pessoas são capazes de guardar fatos isolados, tais como nomes, telefones, datas etc. Outras formam uma espécie de "filme" com as associações de idéia, criando um contexto. A primeira é denominada memória semântica, a outra, episódica", diz Del Nero.

    Há ainda um outro modo de se pensar em memória. Podemos commpará-la a um computador, que tem um "ambiente de trabalho" e a chamada memória de disco, ou memória ram (que abre os arquivos e programas). A memória funciona como um gerenciador de arquivos trabalhando com a apreensão, retenção, gravação e recuperação desses dados. É difícil localizar onde ocorre cada uma dessas funções pois às veezes uma mesma célula pode fazer estes diferentes processos.

    As emoções modulam a memória, amplificando ou descrescendo a permanência de determinada informação. Alguns transtornos mentais como depressão, ansiedade e déficit de atenção prejudicam a memória. Tratada a doença, a memória volta ao normal.

      Três estruturas

      Alguns cientistas acreditam que o processo de linguagem do cérebro se dá pela interação de três estruturas: primeiro um grande sistema neural em ambos os hemisférios que representam a interação entre o corpo e seu meio como mediado por uma variedade de sistemas motores e sensoriais. O cérebro não só categoriza essas representações, como também cria outro nível de representação para o resultado de sua classificação. Assim, pessoas organizam objetos, eventos e relações.

      Sucessivas organizações de categorias e representações simbólicas formam a base para abstração e metáfora; segundo, o menor número de sistemas neurais, geralmente localizados no hemisfério esquerdo do cérebro, representam fonemas, combinações de fonemas e regras sintáticas para combinar palavras. Quando estimuladas pelo próprio cérebro, este sistema forma sentenças para serem escritas ou faladas. Um terceiro conjunto de estruturas, localizado nos dois hemisférios, pode formar um conceito e estimular a produção de palavras ou pode receber palavras e buscar o conceito correspondente no cérebro.

  • PneumoeletrografiaSegundo Hélio Elkis, professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, os métodos de neuroimagem não são novos. "Já se fazia pneumoeletrografia décadas atrás. Injetava-se ar nos ventrículos cerebrais (para ficarem escuros e propiciarem o contraste), Isso foi utilizado até os anos 70", ele conta. Mas a tomografia computadorizada começou a ser usada em psiquiatria, no mundo todo e, no Brasil, com aparelhos menos sofisticados, só a partir de meados dos anos 80.

    Os tomógrafos têm esse nome porque registram a imagem em cortes do encéfalo, como se fossem lâminas (tomos, na nomenclatura, são esses cortes, essas lâminas).

    Com a tomografia computadorizada pôde se chegar, através de vários estudos comparativos, à conclusão de que existe um aumento dos ventrículos laterais no cérebro de pessoas com comportamento equizofrênico em relação ao das pessoas sadias.

    A ressonância magnética surgiu na mesma década e tem o mesmo princípio da tomografia. A diferença é que, ao invés da emissão e raio-x emite prótons e hidrogênio (molécula encontrada em abundância no cérebro), criando um campo magnético. "No que diz respeito à resolução espacial, é infinitamente melhor que a tomografia", avalia Hélio Elkis.

    Todos os métodos disponíveis são constantemente aprimorados. Ainda assim, os exames que realizam servem apenas como recurso auxiliar. "O diagnóstico é independente desses exames. A avaliação clínica é soberana. E esse é um princípio da medicina, não só da psiquiatria. Por exemplo, certos exames de sangue podem apontar anemia ou reumatismo, mas se o exame clínico apresentar esses diagnósticos é o que vale. Ocorre o mesmo em alguns casos de lupus. Há casos em que existe clinicamente a doença mas não se encontra nos exames a célula do lupus", afirma Elkis.

    As técnicas de neuroimagem estruturais funcionam então como exames subsidiários. Os resultados mais significativos vêm de estudos comparativos, ou metanálise. Como o que identificou aumento dos ventrículos cerebrais em pacientes com transtorno de humor. A questão é que o sintoma não é específico, por isso o que definirá o quadro será mesmo o diagnóstico clínico.

    Essas tecnologias também permitiram saber que certos transtornos mentais tais como as psicoses e anorexia nervosa geram modificações na anatomia cerebral. "A doença modifica a função e também a forma. Só que nem sempre um cérebro muito alterado do ponto de vista anatômico está também muito alterado do ponto de vista clínico. Isso se verifica até em alguns casos de Alzheimer, provavelmente em razão dos mecanismos de adaptação cerebral", diz o médico.

    Tão importante quanto as constatações que os resultados desses exames permitem são as interpretações que propiciam. Tempos atrás a frenologia, surgida com os positivistas, preocupava-se em associar cada função a áreas específicas do cérebro. Hoje, embora se reconheça que certas regiões do encéfalo estão de fato envolvidas na realização de determinadas funções, não se pode identificá-la como a única responsável. "Seria o mesmo que, após verficiar que a tel

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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