O Contágio do Sorriso


Ainda que de forma involuntária, e às vezes imperceptível, espelhamos gestos de nossos semelhantes; esses movimentos são captados por sofisticadas técnicas de neuroimagem.

Revista Scientific American - por Katja Gaschler

Conceitos-chave 

- Quando vemos imagens de rostos sorridentes, costumamos repetir a expressão facial, mesmo sem perceber; da mesma maneira, se há empatia entre duas pessoas, elas tendem a modular o tom de voz, até atingir um timbre similar e, por meio da mímica corporal, transmitir sinais de compreensão.

- Na maioria das pessoas, o espelhamento físico é sutil; em geral reprimimos muito bem a imitação de sequências de movimentos. Só alguns pacientes com grave comprometimento mental apresentam o gesto às vezes.

- Ao observar uma pessoa com expressão angustiada, o cérebro simula a atividade neuronal que nos leva também a demonstrar tristeza.

Você provavelmente já viveu isso: acha determinada pessoa insuportável. Mas, um belo dia, quando ela o cumprimenta com um grande sorriso e delicadamente lhe pede uma informação, sua boca também se abre em um sorriso, e você lhe responde no mesmo tom e voz gentil. Em seguida, ela se afasta e você se pergunta: o que aconteceu comigo? Para a ciência, a situação é bastante compreensível: nós, humanos, involuntariamente imitamos gestos e expressões das pessoas à nossa frente. O psicólogo Ulf Dimberg, da Universidade de Upsala, demonstrou há poucos anos que esse mecanismo refletor está extremamente presente, embora às vezes de forma sutil. Ele propôs um experimento no qual apresentou aos voluntários uma série de retratos de rostos humanos com a instrução de que não demonstrassem nenhuma expressão ao observá-Ios. À primeira vista, os participantes do teste realmente mantiveram seus rostos impassíveis. Porém, finos cabos controlavam o estado de tensão dos músculos faciais: sempre que, em uma sequência de retratos neutros, surgia um rosto feliz, eles soavam o alarme. Os sujeitos tinham sorrido, mesmo que apenas de leve, de maneira breve e quase imperceptível a um observador comum. Curiosamente, tais resultados aparecem mesmo quando uma imagem é exibida por apenas 40 milissegundos, ou seja, por um período de tempo tão curto que a pessoa nem se dá conta conscientemente.

Essa "falta de controle" por trás de processos dos quais nem sempre nos damos conta trazem indiscutíveis vantagens. Por exemplo, ao conversarrmos de maneira Íntima com alguém, transmitimos a sensação de que o compreendemos por meio do espelhamento involuntário de sua mímica corporal. Quando há uma relação empática, tendemos até mesmo a modular nosso tom de voz ao do interlocutor, mesmo sem percebermos esse ato. Também notamos, intuitivamente, o que podemos esperar de uma pessoa e do encontro com ela. Junto com o que é dito, construímos em grande velocidade uma imagem desse semelhante.

Contrariamente ao que ocorre com o espelhamento de sentimentos, conseguimos reprimir muito bem a imitação de sequências de movimentos: se alguém se abaixa para amarrar os sapatos, não fazemos o mesmo automaticamente - afinal, para que isso serviria? Apenas em alguns pacientes com grave demência, o gesto ocorre vez ou outra. Eles imitam os movimentos dos outros quase como um reflexo, independentemente de a ação ter algum sentido, ser útil ou, eventualmente, perigosa. Esse fenômeno, denominado ecopraxia, não é apenas um sintoma da doença cerebral degenerativa, mas também um forte indício de que, de fato, imitamos internamente movimentos observados, mas conseguimos, de alguma forma, impedir a sua realização concreta.

Se o sistema de neurônios motores está relacionado à capacidade de empatia, então deveria ser possível detectar distúrbios funcionais neurofisiológicos correspondentes em pessoas com grande dificuldade para se colocar no lugar do outro. Isso poderia se aplicar a doenças psíquicas como alexitimia (a falta de capacidade de reconhecer sentimentos em si mesmo e nos outros), esquizofrenia e autismo. Em pacientes esquizofrênicos, por exemplo, chama a atenção o fato de eles normalmente não serem "contaminados" por um grande bocejo.

• O córtex mudo

Em 2005, o pesquisador Hugo Théoret, da Universidade de Montreal, apresentou um filme de dez segundos, no qual podiam ser vistos movimentos de polegares, a dois grupos de adultos: um de não autistas e outro de autistas. Enquanto o córtex motor das pessoas saudáveis começou a funcionar assim que o filme teve início, a mesma região do cérebro permaneceu "muda" nos participantes com o transtorno. Avaliando os resultados, o diretor no Instituto Neuropsiquiátrico da Escola de Medicina em Los Angeles (UCLA), Marco lacoboni, lançou a hipótese de que esse déficit poderia ser responsável, entre outras coisas, pelo atraso no desenvolvimento intelectual frequentemente observado em crianças autistas. Afinal, normalmennte aprendemos muito por imitação e, se uma pessoa é privada dessa habilidade, fica obviamente sujeita a uma considerável"desvantagem cognitiva".

No início de 2006, a pesquisadora MireIla Dapretto, do grupo de trabalho de lacoboni, investigou como adolescentes autistas - e não autistas, de um grupo de controle - reconhecem expressões faciais. Os jovens deviam estudar 80 rostos - felizes, tristes, amedrontados, irritados e neutros. Mais uma vez, diferentemente do que aconteceu com as pessoas saudáveis, os autistas não apresentaram atividades no córtex pré-motor. Em compensação, áreas do córtex associativo visual direito e do lobo parietal esquerdo anterior se tomaram mais ativas neles.

Quando se tratava de imitar os rostos, os adolescentes autistas s tiveram resultados similares aos do outro grupo. lacoboni tem uma explicação simples para isso: enquanto pessoas, em geral, acompanham as emoções observadas por meio do seu sistema de células-espelho e se solidarizam com os demais, os adolescentes autistas teriam desenvolvido uma espécie de estratégia alternativa de imitação. "Quando a maioria de nós vê uma pessoa com expressão facial angustiada, nosso cérebro simula a atividade neuronal que nos leva também a demonstrar tristeza. Se nos detivermos olhando esse rosto, nossos neurônios motores logo se comunicarão com os centros de emoções e, em pouco tempo, também estaremos nos sentindo um pouco tristes", diz Iacoboni. "Pessoas autistas, no entanto, não podem realmente "experimentar" o significado emocional da mímica, mas podem simplesmente imitar expressões faciais", afirma. Aqui, no entanto, o pesquisador esbarra em uma questão teórica, pois os estudos cerebrais não conseguem ainda resolver o problema qualia; em outras palavras, a "qualidade subjetiva" de uma experiência simplesmente não pode ser captada por métodos científicos: como alguém se sente somente ele próprio pode saber.

Não se sabe, até agora, por que justamente o sistema de espelhos seria prejudicado em autistas. Danos genéticos, traumas no início da infância ou mesmo durante a gravidez? O psicólogo Andrew MeItzhoff, da Universidade de Washington, em Seatle, já havia observado, no final dos anos 70, que bebês imitam mímicas de adultos já no primeiro mês de vida: se lhe mostrarmos a língua, eles repetem o gesto em seguida. "Porém, esse equipamento básico não é garantia de que os sistemas biológicos vão funcionar mais tarde", diz o psiquiatrajoachim Bauer do Hospital Universitário de Freiburg, Alemanha, que estuda o tema. "Os mecanismos especulares inatos do bebê só podem ser ativados e continuar a se desenvolver se forem estimulados por interações sociais adequadas", assegura. Mesmo que essa suposição não seja diretamente corroborada experimentalmente, ela parece plausível: conexões neurais que não são utilizadas simplesmente se perdem, garantem os estudiosos do cérebro.

Entre 12 e 14 meses, uma criança é capaz de prever e compreender as intenções de ações das pessoas que observa. Por volta de um ano e meio, ela já se desenvolveu a ponto de acompanhar objetivamente as ações e treiná-Ias conscientemente por imitação. Pouco a pouco, porém, também se tornam ativos os sistemas neurobiológicos que inibem a imitação, segundo Bauer. Presumivelmente, essa inibição surge no córtex pré-frontal que, assim como outras partes do córtex cerebral, precisa amadurecer com o passar dos anos. Essa área é considerada, de maneira geral, como instância controladora de impulsos ou decisões, e experimenta na puberdade, mais uma vez, grandes mudanças.

Se não houver nenhum percalço, são grandes as chances de se desenvolver uma personalidade madura e empática - o que significa que caso alguém tenha a péssima idéia de maltratar uma pessoa que amamos, não vamos aceitar isso friamente. Um experimento com casais, coordenado pela pesquisadora Tania Singer e publicado na revista Science, comprova por meio de exames de neuroimagem, que quando vemos uma pessoa querida exposta a algum sofrimento, nosso cérebro reage como se a dor fosse infligida diretamente em nós. A conclusão corrobora a tese de que empatia significaria "sentir junto" ou "sentir do mesmo modo". Os pesquisadores testaram 16 mulheres cujos parceiros receberam choques de baixa voltagem - nada que deixasse sequelas, mas provocava desconforto. Quando as participantes julgavam que seus amados estavam sendo "torturados", algumas regiões cerebrais responsáveis pela avaliação emocional da dor (em especial células neurais da ínsuIa anterior e do giro cingular) se tomavam ativas. Quanto mais empática a participante, mais forte sua reação cerebral.

No experimento de Singer, pelo menos, as voluntárias não viam o rosto de seus parceiros, nem os ouviam gritar. As mulheres, na verdade, só percebiam que eles estavam recebendo choque por causa de símbolos mostrados em uma tela - era preciso refletir um instante para chegar a essa conclusão. Isso nos leva a crer que o uso da racionalidade, não leva, obrigatoriamente, à perda de empatia: apenas proporciona um pouco mais de liberdade de escolha. 

Para conhecer mais

Reflexo revelador. David Dodds, Mente&Cérebro nº161, págs. 46-51, junho de 2006.

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