O corpo do pensamento


Usamos exemplos concretos para conferir sentido a ideias abstratas; sensações e ações que parecem triviais como esboçar um sorriso, segurar objetos macios ou ásperos ou fazer o sinal de positivo podem influenciar operações cognitivas complexas, julgamento social, linguagem, percepção e raciocínio.

Revista Scientific American - por Siri Carpenter

Por que olhamos com admiração aqueles que respeitamos, não descemos ao nível daqueles que desdenhamos e pensamos caloro­samente nas pessoas que amamos? Por que escondemos segredos sujos ou lavamos nossas mãos em relação a preocupações? Por que sentimos um peso tirado das costas ao tomarmos uma decisão difícil e voltamos ao passado ou nos projetamos em direção ao futuro? Estas expressões que invocam uma realidade física, substituindo conceitos abstratos, podem parecer apenas metáforas linguísticas. No entanto, um número cada vez maior de pesquisas indica que essas alusões refletem um fato central do nosso mecanismo do pensamento: a mente usa o corpo para dar sentido a conceitos. Sensações e ações aparentemente triviais como imitar um sorriso ou uma careta, segurar objetos lisos ou ásperos, menear a cabeça ou erguer os polegares, podem influenciar processos psicológicos complexos como julgamento social, linguagem, percepção visual e até reflexão sobre noções pouco concretas, como a de tempo.

Os desdobramentos parecem quase absur­dos. Será que segurar uma xícara quente de café torna uma pessoa mais receptiva e empática? Entrar em uma sala aromatizada desperta bons sentimentos? Segurar um objeto pesado enquanto respondo a uma pesquisa dará maior gravidade às questões? Por mais absurdas que possam parecer, as influências sensoriais têm fundamento. "A cognição emerge de aspectos que até pouco tempo costumávamos pensar que eram irrelevantes para ela, como calor, hi­giene e peso, por exemplo", afirma o psicólogo Lawrence Barsalou, professor da Universidade de Emory, nos Estados Unidos.

Pesquisas recentes sugerem, por exemplo, que a flexão dos músculos faciais não apenas reflete nossas emo­ções como é necessária para experimentá-Ias. Aparentemente menos lógico ainda é o fato de que nossas mentes associam a moral idade à limpeza, uma cone­xão que enfatiza como o processamento de abstrações se fia em atributos físicos. Ain­da mais chocante: as pessoas representam conceitos de passado e futuro por meio de códigos corporais que incluem direção cinética e percepção espacial. O conceito de espaço em si depende de simulações mentais de movimentos e distância.

"A ideia de que a mente esteja ancorada nas ações corporais e no ambiente fornece um modo muito interessante para tentarmos entender como funcionam as pessoas, o com­portamento social, emocional e os processos cognitivos. Munido desse novo conceito de como o pensamento opera, agora é possível compreender nossos sentimentos, opiniões e ações ao olhar além de nossas mentes até nossos organismos e o mundo que nos cerca sob uma nova óptica", diz o psicólogo Arthur Glenberg, da Universidade Estadual do Arizona. Em sua opinião, essa perspectiva pode mudar as maneiras de pensar e aprender.

Desde a década de 60, a maioria dos cientistas cognitivos vem comparando a máquina neural responsável pela cognição de alto nível, a um computador autônomo, separado das áreas cerebrais que "administram" sensações ffsicas e ações. De acordo com essa idéia, o cérebro recebe impulsos de visões, aromas, sons etc. da parte sensorial do organismo e dos sistemas motores, mas depois converte essas informações "cruas" em símbolos e regras de­ sincorporados, de forma muito parecida com o computador, que converte cada informação - a cor vermelha, uma fotografia, a palavra "amor" - em zeros e uns. Com base nesses símbolos, destituídos de suas origens físicas, o cérebro promove cálculos mais complexos, que deno­minamos pensamento.

No entanto, desde o fim da década de 80, alguns cientistas desa­fiaram a visão de que o corpo é apenas uma porta de entrada e saída para o cérebro. Sugeri­ram que, em vez disso, dinâmicas cognitivas complexas estão anco­radas em experiências físicas e nos sistemas neurais que governam o organismo. Segundo esse ponto de vista, os circuitos motores e sen­soriais de baixo nível não apenas se alimentam de cognição - eles são a cognição.

Na época, a hipótese teve pouco apoio cien­tífico. "Fomos ridicularizados, as pessoas não nos levaram a sério. Porém, no fim da década de 90, as evidências começaram a pingar - e depois a verter", recorda Barsalou. Apenas nos últimos anos, porém, estudos mostraram que o fato de segurar uma xícara de café quente ou estar em uma sala confortável "aquece" nossos senti­mentos em relação a estranhos; que demonstrar uma "atitude poderosa" e expansiva leva as pes­soas a tomarem decisões mais corajosas; que estar com uma mochila pesada faz a montanha parecer mais íngreme; que temos a impressão de que uma garrafa de água está mais próxima quando temos sede; que movimentar objetos para cima em vez de para baixo acelera a lem­brança de coisas positivas em detrimento de negativas; e que sentar-se em uma cadeira dura transforma universitários de modos afáveis em negociadores implacáveis.

Ninguém deve se surpreender que a mente se fie no organismo para obter informações. Afinal, o corpo é nossa única ligação com o mundo: todos os conhecimentos são obtidos pelos sentidos. As ligações próximas entre o f&iacu ute;sico e o pensamento também fazem senti­do dentro de uma perspectiva evolucionária. Muitos cientistas acreditam que há milhões de anos nossas poderosas aptidões cognitivas cada vez maiores se acumularam em sistemas neurais que se desenvolveram para cumprir tarefas mais simples como a detecção visual ou a navegação espacial.

Seguindo essa linha de pensamento, pen­sar é reviver: não posso refletir sobre minhas últimas férias sem recrutar algumas células cerebrais que registraram a visão de belas paisagens. Não consigo processar o enredo de um romance sem estimular as sensações que o texto descreve nem julgar a altura da montanha à frente sem escalá-Ia mentalmente. O cérebro estimula a experiência real a fim de dar sentido ao mundo. 

• Resposta facial

Qualquer pessoa que alguma vez na vida tenha suado numa en­trevista de emprego ou fechado os punhos de raiva sabe que viven­ciar uma experiência emocional é um acon­tecimento psicológico. Este fenômeno se refle­te nas expressões que usamos para descrever sentimentos: o coração acelerou, o estômago contraiu, pulei de alegria, fiquei louco por você. "Os estados emo­cionais estão associados à tendência de ação, as pessoas não dizem, por exemplo: "Fiquei tão furioso que eu apenas permaneci sentado ali...", observa a psicóloga Paula Niedenthal da Universidade Blaise Pascal, na França. Além dos sistemas fisiológicos que regulam a frequência cardíaca, o suor e os movimentos corporais, o início das emoções envolve a ativação de pelo menos alguns dos 20 e tantos músculos faciais que controlam a
expressão emocional. Este fato faz surgir a questão de como essa fisiologia periférica atin­ge o pensamento: será que a mera mudança da configuração dos músculos do rosto in­fluencia a forma como a pessoa se sente?

Segundo resultados de um estudo já clássico, conduzido pelo psicó­logo Fritz Strack, atualmente na Universidade de Würzburg, na Alemanha, parece que sim: e afeta também a forma como interpretamos a informação emocional. Strack e seus colegas descobriram que as pessoas classificaram os desenhos animados Far side como mais engra­çados quando estavam com uma caneta entre os dentes, sem deixar que ela tocasse os lábios (posição que ativa os músculos usados para sorrir), que quando seguravam uma caneta en­tre os lábios (impossibilitando o sorriso). Essas descobertas indicam que o rosto envia respos­tas importantes para o cérebro, e ele as usa para interpretar informações sobre o mundo.

Muitos estudiosos, incluindo Paula Nieden­thal, acreditam que o cérebro não consegue pensar completamente sobre as emoções sem representar ou estimular fisicamente esse sentimento. Em um estudo de 2009, ela e seus colegas usaram a eletromiografla para medir a atividade muscular do rosto e descobriram que a leitura de palavras com conotação emo­cional, enquanto consideravam seu significado, impulsionava a mesma atividade muscular sutil que as pessoas demonstram ao experimentar os sentimentos. Vocábulos que tipicamente evocam repugnância como "vômito" e "po­dre" estimularam atividade aumentada nos músculos faciais envolvidos no ato de dobrar o lábio superior, enrugar o nariz e franzir a testa. Aqueles com conotação positiva, como "alegria" e "satisfação", estimularam músculos responsáveis por elevar as bochechas e apertar os olhos num sorriso.

• Mãos limpas, coração puro

Os pesquisadores concluíram que raciocinar so­bre conceitos emocionais provoca a simulação de uma experiência corporal da emoção, evidência de que o raciocínio e a atividade muscular estão conectados. Mas o que acontece quando a capacidade de estimular expressões emocionais específicas é bloqueada? Em 2009, o neurologista Bernhard Haslinger e seus colegas da Univer­sidade de Tecnologia de Munique deram injeção de botox na testa dos participantes, paralisando temporariamente o músculo responsável pelo franzir de testa. O tratamento cessou a atividade na amígdala, um centro essencial da emoção, enquanto os voluntários tentavam fazer mímica de expressões de infelicidade. Isso sugere que impedir a atividade muscular de alguma forma confunde os circuitos neurais necessários para processar completamente uma emoção. Um estudo de 2010 conduzido por Glenberg e o estudante de pós-graduação David Havas, da Universidade de Wisconsin-Madison, confirma essa conclusão, demonstrando que as pessoas que passaram pelo tratamento com botox nas linhas da testa foram mais lentas para sentenças sobre tristeza e ira, mas o mesmo não ocorreu com as afirmações referentes a alegria.

O organismo desempenha papel igualmente importante no raciocínio sobre abstrações. Considere, por exemplo, a ligação entre a hi­giene física e a pureza moral - relação que Lady Macbeth de Shakespeare sentiu de forma tão intensa enquanto tentava lavar as mãos, devido à culpa pelos crimes que planejara. Em um es­tudo de 2006, os psicólogos Chen-Bo Zhong da Universidade de Toronto e Katie Liljenquist, da Universidade Northwestern, deram aos participantes a mesma oportunidade (embora em circunstâncias bem menos sangrentas). Primeiro, pediram que eles se lembras­sem de suas próprias ações éticas ou não éticas, depois passaram uma tarefa de completar palavras, totalmente desconectadas. Os que tinham se recordado de comportamentos antiéticos tiveram mais probabilidade de usar palavras relacionadas à limpeza como "lavar" e "sabonete", preferindo vocábulos como "desejo" e "passo", em comparação aos que pensaram em atos éticos. Em uma experiência posterior, 75% das pessoas que se lembraram de ações prejudiciais mais tarde selecionaram um líquido antissép­tico (em vez de um lápis) como presente de participação no estudo, em comparação com 37,5% das pessoas que se lembraram de bons comportamentos.

O fato de a psique humana associar a higie­ne física à pureza moral desafia a lógica - qual­quer pessoa racional sabe que um sabonete não absolve a má ação. No entanto a ligação é mais profunda. Segundo alguns pesquisadores, essa repugnância ancestral expandiu-se até assumir significados culturais mais amplos. Os rituais de purificação com água, por exemplo, fazem parte da maioria das religiões. Zhong e Liljenquist especulam que a conexão pode vir, pelo menos em parte, da necessidade cognitiva básica de alicerçar ra&i , 75% das pessoas que se lembraram de ações prejudiciais mais tarde selecionaram um líquido antissép­tico (em vez de um lápis) como presente de participação no estudo, em comparação com 37,5% das pessoas que se lembraram de bons comportamentos.

O fato de a psique humana associar a higie­ne física à pureza moral desafia a lógica - qual­quer pessoa racional sabe que um sabonete não absolve a má ação. No entanto a ligação é mais profunda. Segundo alguns pesquisadores, essa repugnância ancestral expandiu-se até assumir significados culturais mais amplos. Os rituais de purificação com água, por exemplo, fazem parte da maioria das religiões. Zhong e Liljenquist especulam que a conexão pode vir, pelo menos em parte, da necessidade cognitiva básica de alicerçar raízes abstratas em experiências cor­porais e, por outro lado, de uma repugnância evoluída em relação a alimentos sujos.

A presença dessa conexão é óbvia na ilustra­ção de questões morais - falamos em guardar segredos sujos e em aspirar a uma consciência limpa. A linguagem sugere ainda que a cognição moral está intimamente ligada a partes específicas do corpo responsáveis pela transgressão ética - por exemplo, a boca que pra­gueja e as mãos que furtam. No ano passado, os psi­cólogos Spike Wing Sing Lee e Norbert Schwarz, pesqui­sadores da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, decidiram investigar se as pessoas realmente projetam comportamento imoral em partes específicas do organismo. Para isso, pediram aos participantes do estudo que encenassem uma situação em que deveriam contar uma mentira maldosa usando a caixa postal do celular ou o correio eletrônico. Em seguida deveriam marcar, em uma lista com diversos produtos, quais desejavam consumir. Lee e Schwarz observaram que as pessoas as­sinalavam o item "antisséptico para as mãos" com maior frequência após ter mentido por e-mail que por telefone e marcaram mais vezes a alternativa "antisséptico bucal" depois de mentir pelo telefone. Resultado: os voluntários pareciam fazer uma analogia subconsciente e não verbal entre uma parte do corpo e o tipo específico de ação desabonadora.

Assim como a racionalização moral, por mais ilógica que seja, repousa em sensações ou atitudes corporais, a mesma coisa acontece com nosso conceito de tempo. Em um estudo de 2010 que usou sensores de movimento para detectar ações quase imperceptíveis, o psicólo­go Lynden Miles, da Universidade de Aberdeen, na Escócia, e seus colegas descobriram que re­fletir sobre o passado fazia as pessoas recuarem fisicamente cerca de dois milímetros, enquanto que ao se reportar ao futuro se movimentavam para a frente, de modo quase imperceptível.

Outra pesquisa revela que as pessoas pen­sam no tempo como se ocupasse um espaço físico, com o passado à esquerda e o futuro à direita, uma descoberta consistente com o fato de que membros de culturas ocidentais escrevem da esquerda para a direita. Em um estudo de 2010, o psicólogo Gün Semin, da Universidade de Utrecht, na Holanda, constatou que a mesma associação de esquerda e direita permeava não apenas a visão, mas também a audição. Voluntários que colaboravam com a investigação receberam fones de ouvido e es­cutaram palavras relacionadas a tempo, como "ontem" e "amanhã" e vocábulos neutros como "idêntico" e "armário". O pesquisador pediu para que dissessem se cada palavra era mais alta no ouvido esquerdo ou direito. E mesmo quando eram apresentadas com a mesma altura nos dois ouvidos, os ouvintes as percebiam vin­culadas ao passado como se fossem ditas mais alto no ouvido esquerdo e as relativas ao futuro no ouvido direito. Analisando superficialmente, não há motivo para cultivarmos a ideia de que o tempo flui em determinada direção. No en­tanto, Semin cogita que a experiência cultural de escrita da esquerda para a direita, de algum modo, transforma nossa arquitetura cerebral, de modo que o cérebro representa o passado no hemisfério direito, que recebe impulsos da parte esquerda do corpo, e o futuro na metade esquerda, que interpreta os estímulos sensoriais da metade direita do mundo físico.

• Fita métrica particular

Mesmo a percepção visual básica é suscetível aos caprichos corporais. Em um estudo de 2008, por exemplo, os psicólogos Dennis Proffitt, da Universidade de Virgínia, e Jessica Witt, da Universidade de Purdue, constataram que os participantes julgaram que objetos fora do alcance estavam mais próximos quando Ihes diziam que poderiam usar uma batuta de maes­tro de 39 cm para alcançá-los, em comparação aos participantes sem batuta. Por que o mero fato de estar de posse de uma ferramenta muda a percepção? Proffitt argumenta que quando planejamos um gesto, a extensão do alcance do corpo é seu "limite de ação potencial". Um instrumento que estenda seu alcance permite simular mentalmente o uso do objeto para atingir o objetivo. Isso provoca a mudança na percepção e a meta é vista como mais próxima. "A única fita métrica que realmente temos é o nosso corpo, e o usamos para medir o ambien­te", ressalta Proffitt.

Em um segundo experimento, Proffitt e Jes­sica deram aos participantes uma batuta para alcançarem objetos distantes, mas pediram à metade das pessoas que apertassem uma bola de borracha com a mão que buscava o alvo enquanto faziam avaliações da distância. Os resultados mostraram que os que aperta­ram a bola perceberam os objetos como se estivessem mais distantes que os que não tinham a bola, sugerindo que a compressão tinha interferido em sua capacidade de simular
mentalmente outra ação.

Se os estados do corpo infiltram a cognição com tanta frequência, por que tão poucas vezes somos conscientes desse fenômeno? Como é possível que a temperatura de um ambiente possa afetar o meu sentimento em relação aos amigos, ou que a falta de conforto da minha cadeira possa afetar minha capacidade de argumentação, ou que um cheiro desagradá­vel possa fazer com que eu me comporte de forma imoral, tudo isso sem o meu controle? Às vezes, as sensações físicas e os movimentos são oscilantes ou comuns demais para que notemos seus efeitos sobre nossa vida mental. Outras vezes, a falha em reconhecer a conexão entre experiências corporais e processos de pensamento pode surgir do simples fato de essa conexão parecer absurda.

O peso e a extensão das informações sobre a cognição incorporada sugerem que fazer ajustes sutis em nossas ações e em nossos ambientes físicos pode produzir gra

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