O desafio de viver sob riscos


Vivemos numa sociedade assolada por perigos; em contrapartida, enfrentamos também a necessidade premente e cotidiana de confiar - em nós e nos outros.

Revista Scientific Americam - por Giuliana Franco*

Você acorda, lê no jornal sobre os perigos das armas nucleares nas mãos de ditadores, toma um copo de leite (daquela mesma marca que pode estar contaminada), faz um depósito pelo serviço on-line do banco e desce pelo elevador do edifício para ir ao trabalho. Só nessa primeira hora de um dia normal já estão envolvidas inúmeras situações de risco e confiança. A pessoa em questão está submetida aos perigos de destruição do planeta, contaminação de alimentos, perda de dinheiro por falha humana ou operacional e problemas mecânicos do elevador - apenas para ficarmos com as situações mencionadas. E pode confiar ou não na perícia e no bom senso humano: que governantes e organismos multilaterais impeçam uma guerra nuclear, que o leite contaminado seja recolhido pelas autoridades sanitárias competentes e fabricantes se responsabilizem pela produção, que o elevador esteja com os mecanismos em ordem e que o sistema bancário innformatizado funcione adequadamente.

O tempo todo, nas sociedades contemporâneas, convivemos com cálculos de risco e atitudes de confiança, como expõe o sociólogo Anthony Giddens, em As conseqüências da modernidade, de 1990. Existem os perigos que conscientemente são reconhecidos e buscados pelos indivíduos. É o caso dos investimentos em mercados de ações ou da participação em esportes como as corridas de Fórmula 1. Mas há também os riscos que não podem ser evitados individualmente, tais como a contaminação da água e do ar, e envolvem ações difíceis e conflituosas quando se buscam soluções coletivas.

Nesse contexto, a atitude de desconfiança é cada vez mais comum. Principalmente as pessoas desconhecidas são consideradas potencialmente ameaçadoras. O medo é alimentado nos grandes centros urbanos desde a infância, com avisos dados às crianças para que não falem com estranhos, e se renova com as correntes de informações sobre golpes, reais ou fictícios, que circulam pela internet. A desconfiança generalizada faz parte dos mecanismos criados para a sobrevivência no mundo contemporâneo.

Por outro lado, manter algum grau de confiança também é neecessário para que se viva de forma psiquicamente saudável. Alguém que vá ao médico precisa acreditar em seu diagnóstico e nas prescrições do profissional para aderir ao tratamento e, mais que isso, precisa confiar na idéia abstrata da medicina moderna. Até para o ato cotidiano de passar ou receber um cheque é preciso crer na honestidade da pessoa com quem se faz negócios, na solidez do banco e, mais amplamente, na eficácia do sistema monetário.

Essa confiança é continuamente criada e recriada. O principal mecanismo social para isso é a socialização. No que se refere aos sistemas de organização interpessoal e às atividades técnicas, grande parte dessa confiança adquirimos por pura imitação, ao assistir cotidianamente à atitude confiante de pessoas à nossa volta. Giddens mostra que, nas escolas, o ensino das ciências vai além dos conteúdos próprios para transmitir - sobretudo, como parte do "currículo oculto" - a incuIcação de respeito pelo conhecimento científico e técnico. Além disso, é quase impossível fugir de certos sistemas sociais: como alguém que desconfia da tecnologia poderia, numa grande cidade, evitá-Ia em qualquer uma de suas manifestaações? Ou como um cidadão, por não confiar no sistema monetário, poderia deixar de usar o dinheiro? Para alguém da classe média, a simples recusa de ter conta em banco cria uma série de problemas práticos para o recebimento de qualquer renda ou salário e para a realização de transações cotidianas.

Na esfera da personalidade, a base da confiança é o que Giddens chama de "segurança ontológica": a crença que a maioria das pessoas tem na constituição da própria identidade e na constância dos ambientes material e social que as cercam. Esse fenômeno é emocional e não cognitivo. Suas raízes encontram-se no inconsciente.

Na verdade, há poucos aspectos da nossa existência pessoal dos quais podemos estar certos (eu realmente existo? Sou a mesma pessoa que era ontem? As outras pessoas também existem?). Nenhum argumento racional pode responder essas perguntas de modo indubitável. No entanto, não são perguntas de fato feitas pela maioria das pessoas, mas quando alguém as formula com verdadeira preocupação existencial, torna-se incapaz de conviver normalmente com os outros e é visto pelos demais como mentalmente insano.

Acontece que as pessoas geralmente consideradas "normais" têm um nível limitado de sensibilidade emocional quanto às questões existenciais. E por que não estão todos constantemente em estado de alta intensidade de insegurança ontológica, já que os problemas existenciais potenciais são muitos e graves?

Numa explicação de base psicanalíítica, o psiquiatra Erik Erikson argumenta no livro Childhood and society (Infância e sociedade), de 1965, que a origem da segurança que a maioria das pessoas sente durante a maior parte do tempo em relação às auto-interrogações está em certas experiências características da primeira infância, que introduzem nelas uma proporção básica de confiança, por meio da figura protetora primária da infância (para a maioria das pessoas, a mãe). Essa "confianç l;a básica" tem como essência a fé tida pela criança no afeto de seus ( s) protetor( es), e se constitui à medida que ela aprende que pode confiar continuamente em seus "provedores externos" (de cuidado e de afetos) e também em si mesma, como duas facetas interligadas da formação de um senso interno de confiança. Assim, uma "supersensibilidade emocional" acerca de questões existenciais seria fruto de uma falha no estabelecimento da confiança básica constitutiva dos adultos sadios.

Da mesma forma, as pessoas que sofrem uma ansiedade profunda e crônica com relação a certos riscos (seja uma guerra nuclear, sejam assaltos e seqüestros) não atestam nenhum tipo de irracionalidade (pois os riscos existem de fato), mas podem, em casos extremos, ser vítimas de supersensibilidade emocional. Para a maioria das pessoas, a sensibilidade quanto aos riscos é bem menor. É essa limitação que possibilita que levem uma vida "norma!", apesar da consciência dos perigos.

A vida - tanto coletiva quanto individual - se baseia na busca de um equilíbrio entre a convivência com riscos e a capacidade de confiar - em si e no outro. É essa estabilidade que embasa a possibilidade de transitar por entre as ameaças, sem cair num estado de confiança cega que represente perigo ou se render a medos patológicos, que possam levar o indivíduo a empreender uma tentativa de fuga (impossível) dos modos de vida contemporâneos. De fato, viver é perigoso. Mas é possível conviver com o risco. 

*GIULlANA FRANCO é professora de sociologia geral e brasileira da Faculdade de Administração da Aeronáutica (AFA) e doutoranda em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 

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