O Desbravador da Cognição


Jean Paiget: Criador da epistemologia genética, o pesquisador, que morreu há 30 anos, investigou as hipóteses teóricas e abstratas sobre conhecimento e inteligência.

Revista Scientifc American - por Cristina Sousa

Considerado um gênio pela precocidade de seu talento e importância de suas pesquisas sobre o conhecimento humano, o suiço Jean Piaget acreditava que "não podia pensar sem uma caneta nas mãos". Para ele raciocinar implicava escrever. Resultado: publicou ao longo da carreira cerca de 50 livros e centenas de artigos. Primeiro filho de um professor e uma dona de casa, casou-se aos 27 anos com a psicóloga Valentine Châtenay - que participou de suas primeiras pesquisas sobre o desenvolvimento infantil - e com ela teve três filhos: duas meninas e um menino.

A originalidade de seu modo de pesquisar e método clínico consistia em criar situações concretas nas quais perguntas ou tarefas são propostas às crianças. As respostas são analisadas segundo estágios ou níveis ordenados de compreensão ou resolução das questões. Assim, Piaget apresentou maneiras de organização do pensamento e da ação.

Um dos mais importantes teóricos do século XX, em 1918, defendeu seu doutorado em ciências naturais com apenas 22 anos, na Universidade de Neuchãtel, apresentando uma tese sobre moluscos. Entre 1919 e 1920 estudou psicologia (metodologia experimental e medida de capacidades mentais), e clínica psiquiátrica com o médico Eugen Bleuer (1857-1939) em Zurique. Também estudou e praticou psicologia no Instituto Alfred Binet, em Paris. Em sua carreira universitária foi professor de diversas disciplinas, am várias instituições.

Seus estudos sobre ernbriologia mental mostraram a origem do funcionamento das estruturas cognitivas orgânicas, mar­cado pelas operações de classificação, seriação e implicação ao iniciar suas pesquisas para a construção dos modelos do funcionamento das estruturas necessárias para o aprendizado. Piaget observou passo a passo a evolução do comportamento da criança desde o dia do nascimento até os 2 anos. Este traba­lho foi realizado, num primeiro momento, com seus próprios filhos, Jacqueline, Lucienne e Laurent, o que não quer dizer que só tenha observado esses três casos; ele e seus colaboradores acompanharam crianças em vários países, incluindo alguns da África e do Oriente Médio.

A teoria de Piaget tem dois aspectos complementares. O primeiro é construir modelos das estruturas mentais orgâni­cas, cujo funcionamento faz parte da dinâmica psíquica e cerebral da espécie humana. O mérito do pesquisador foi formalizar esse funcionamento identifi­cando suas operações básicas a classifi­cação e a seriação ou ordenação, ligadas entre si. O segundo aspecto fundamental dessa obra extraordinária foi mostrar a ontogênese desse funcionamento por intermédio de uma embriologia mental, ou seja: os estágios. Sua coordenação sensorial e motora necessita de exercícios para se consolidar e se afirmar. O bebê assimila uma parte do mundo ao redor e passa a interagir cada vez mais com o ambiente - inicialmente, por meio da sucção, depois da preensão e assim por diante. O recém-nascido tende a sugar tudo o que toca depois, após as maturações necessárias a tocar tudo o que olha, a olhar tudo que toca e tudo o que suga. E assim por diante.

Esses fatos, diz Piaget, revelam a formação de "esquemas motores de as­similação", primeiro dispositivo do qual a criança dispõe para ordenar o mundo. O esquema é aquilo que pode ser gene­ralizado em determinada ação. O ato de sugar - que se insere nessa categoria, por exemplo - corresponde a saber fazê-lo, independentemente do objeto que é sugado. Os novos esquemas resultam sempre dos anteriores, na medida em que implicam as coordenações presentes nestes últimos.

Segundo Piaget, essa formação de esquemas explicaria o processo de adaptação com seus dois pólos comple­mentares: assimilação (incorporação dos objetos aos esquemas de ação do sujeito) e acomodação (modificação de um esquema em outro, capaz de assimilar objetos anteriormente não assimiláveis). Os esquemas motores são responsáveis pelas primeiras classificações e ordena­ções e pela origem da negação. Quando um esquema não se aplica ao objeto perseguido pela criança, ela encontrará a primeira forma do não. Assim, os esquemas assimilam os objetos ou se acomodam a eles, transformando-se em novos esquemas para voltar a assimilar, o que quer dizer que se reequilibram por ocasião de cada variação do meio.

Em todos os níveis de desenvolvi­mento existem condutas de "espécies de classificação", inicialmente "classi­ficações empíricas" e depois abstratas que conduzem à noção de classe. No período sensório-motor, as crianças co­ordenam seus esquemas de tal maneira que estabelecem "seriações". Depois virão as verdadeiras séries, isto é, as operatórias (se A é > que B, e B é C, então A é > que C), que possibilitarão o comportamento inteligente, opera­tório. Este se manifesta pela existência de estruturas de classe e de relações ine­rentes às brincadeiras e jogos infantis no período que Piaget chamou de "lógico­ concreto", justamente pela presença de uma lógica de classes e relações ao nível das brincadeiras, ainda não verbalizada, e que seria a etapa precedente à final, isto é, àquela de uma lógica verbal de classes e relações própria ao o pensamen­to adolescente e adulto. É importante assinalar que esse progresso é devido às trocas do organismo com o meio, que determinam as construções endógenas do funcionamento das estruturas men­tais, cujos reflexos podemos observar nas ações da criança.

Ao lado da formação dos sistemas de esquemas que permitem a coordenação das ações realizando as classificações dos objetos e as relações entre eles, conduzindo ao pensamento lógico, há os sistemas de esquemas que permitem o conhecimento dos próprios objetos e que dão origem às noções de espaço, tempo, causalidade, velocidade, etc.

As experiências de Piaget leva­ram-no a concluir que o recém-nas­cido não percebe os objetos; apenas reconhece certos "quadros sensoriais" que lhe são apresentados frequente­mente. Mas, quando os objetos já não estão no seu campo perceptivo, é como se já não existissem para ele. Observando essa coordenação das ações das crianças e a presença desses sistemas de esquemas, Piaget constata que os sistemas como tais apresentam uma organização progressiva sob a forma de estruturas de conjunto, com determinadas leis, análogas à lógica de classes e relações, independentemente da natureza dos objetos aos quais se aplicam.

Observando uma criança antes e depois da aquisição da linguagem, temos a impressão de que a origem do pensamento inteligente se deve ao saber falar. Antes disso, ela estava limitada por seu campo perceptivo, depois, a vemos libertar-se do pre­sente e inserir os objetos e os fatos no tempo, ou seja, passa a referir-se a acontecimentos que já passaram e àqueles que ainda não ocorreram.

Piaget constatou em suas pesquisas que não é a linguagem que explica essa transformação, mas sim a função semiótica, ou seja, a capacidade de distinguir o significado do significante - sem a qual a própria linguagem não seria adquirida. A linguagem aparece depois da brincadeira simbólica e a imitação na ausência do modelo correspondente, as quais implicam a existência de uma imagem mental, re­flexo da presença da função semiótica. Portanto, o pensar é anterior ao falar. Prever é anterior ao falar; reconhecer indícios, sinais e antecipar são todas capacidades anteriores à linguagem.

A função simbólica, ou semiótica, é então mais ampla do que a lingua­gem, por incluir, além dos signos verbais (signes), os símbolos (symboles) no sentido estrito de Piaget, O signo (signe) é geral, e abstrato e arbitrário; o símbolo (sym­bole) é in­dividual; ambos constituem os dois pólos, individual e social, de uma mesma construção de significações. O pensamento imagísti­co precede, portanto, a linguagem; esta se limita a transformá-lo, ajudando-o a alcançar a capacidade de abstração.

No entanto, uma vez de posse da linguagem, a criança não domina imediatamente as operações implícitas em suas estruturas. É necessária uma atividade que vai, em média, dos 2 aos 7 anos para que ela chegue às opera­ções concretas (que dizem respeito aos objetos). Depois é preciso esperar os 10 ou 11 anos para que alcance as operações abstratas. A linguagem transmite ao indivíduo um sistema pronto de classificações e relações, isto é, um potencial inesgotável de conceitos, que favorece o apareci­mento das operações.

De 2 até 7 anos a criança permane­ce pré-lógica, incapaz de argumentar e tirar conclusões coerentemente; supre essa falta pelo mecanismo da intuição, graças à qual, diante de um problema prático numa brincadeira ou num jogo, suas respostas se apoiam nas configurações perceptivas ou nos rateios empíricos de suas ações.

Nesse período do pensamento intuitivo, há o que Piaget chama de interiorização dos esquemas de ação (o que quer dizer que há a represen­tação dos esquemas motores e das ações praticadas graças a eles), por intermédio de imagens mentais. Essa interiorização e essas imagens mentais aparecem como condição necessárias já citadas brincadeiras simbólicas, imitação, previsões etc., observadas em tantos experimentos e na vida de todo dia. Por volta dos 4/5 anos, em média, há uma forma primitiva de intuição que consiste em avaliar a quantidade só pelo espaço ocupado, quer dizer, pelas qualidades perceptivas globais de uma coleção considerada, sem nenhuma análise de relações. Os primeiros es­boços de classificação aparecem nas "coleções figurais". A criança reúne em um conjunto os elementos porque esses se "casam" por quaisquer razões (um triângulo como telhado, um qua­drado como corpo da casa).

Para Piaget, as operações são ações interiorizadas, reversíveis e coorde­nadas em estruturas totais. Uma ação interiorizada é uma ação executada em pensamento sobre objetos simbólicos, seja pela representação de seu possível acontecimento e de sua aplicação a objetos reais evocados por imagens mentais, seja por aplicação direta a sistemas simbólicos. Uma operação nunca aparece só: sempre ocorre em função de um conjunto de operações coordenadas entre si. Ela só será possível quando houver a noção de conservação de um todo, indepen­dentemente do arranjo de suas partes, justamente o que não havia no período que acabamos de considerar.

O pesquisador constatou que a ideia de conservação de substâncias aparece por volta dos 7/8 anos, a do peso em torno dos 9/10 anos e a do volume, aos 11/12 anos, sempre em média. Ora, apesar dessas diferenças cronológicas, para justificar suas considerações suces­sivas, a criança emprega exatamente os mesmos argumentos, que se traduzem por expressões verbais rigorosamente idênticas. Isso é um indício de que tais noções não dependem apenas da linguagem, mas da capacidade de coor­denar as ações, que por sua vez depende do funcionamento das construções endógenas. Nessa fase o jovem pode pensar de forma lógica, buscando solu­ções a partir de hipóteses e não apenas pela observação da realidade.

A fo ríodo que acabamos de considerar.

O pesquisador constatou que a ideia de conservação de substâncias aparece por volta dos 7/8 anos, a do peso em torno dos 9/10 anos e a do volume, aos 11/12 anos, sempre em média. Ora, apesar dessas diferenças cronológicas, para justificar suas considerações suces­sivas, a criança emprega exatamente os mesmos argumentos, que se traduzem por expressões verbais rigorosamente idênticas. Isso é um indício de que tais noções não dependem apenas da linguagem, mas da capacidade de coor­denar as ações, que por sua vez depende do funcionamento das construções endógenas. Nessa fase o jovem pode pensar de forma lógica, buscando solu­ções a partir de hipóteses e não apenas pela observação da realidade.

A forma de pensar de Piaget e investigar possibilitaram a construção de um vínculo que une duas grandes referências: a criança e o adulto. A primeira, ancestral do ser humano, é representante do futuro. O segundo, depositário do legado da cultura, é a criança que vingou. Para ele, quando nasce um bebê, a humanidade ganha uma nova oportunidade e desafio.

O pesquisador morreu há três décadas, aos 84 anos.

• Etapas do desenvolvimento

Para Piaget, a construção da inteligência acontece em etapas sucessivas com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras chamadas por ele de construtivismo sequencial.

- Sensório -motor(do nascimento aos 2 anos) - Nessa fase a inteligência trabalha por meio das percepções (simbólico) e das açoes (motor) através do deslocamento do proprio corpo. A linguagem está sendo formada e vai da repetição de sílabas à formação de palavras-frase, já que a criança não representa mentalmente o objeto e as ações.

- Simbólico(dos 2 aos 4 anos) - Surge a função semiótica, fase em que a criança pode criar imagens mentais na ausência do objeto ou da ação; é o período da fantasia, do faz de conta e do jogo de símbolos.

- Intuitivo(dos 4 aos 7 anos) - Instala-se o desejo de explicação dos fenômenos, a fase dos porquês. A criança começa a distinguir a fantasia do real, e o pensamento continua centrado no próprio ponto de vista.

- Operatório concreto(dos 7 aos 11 anos) - O indivíduo já é capaz de ordenar o mundo de forma lógica ou operatória. Sua organização social é feita em grupos, e ele já pode compreender regras.

- Operatório abstrato(após os 11 anos) - Corresponde ao nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. Nessa fase o indivíduo está se libertando do concreto em proveito de interesses orientados para o futuro.

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