O destino está na sua mãe


Nove meses dentro de um lar quente, acolhedor e seguro: durante muito tempo acreditou­-se que a gravidez servia apenas para desenvolver o feto. Mas agora a ciência já sabe que os acontecimentos dentro do útero podem prever se o seu filho será feliz, gay, obeso ­ ou até mesmo esquizofrênico.

Revista Superinteressnte - por André Santoro e Natália Daumas

Aos 29 anos, Charles Gaston entrou em uma loja de conveniência na cidade de Sacramento, capital do estado da Califórnia, nos EUA, com o indicador esticado sob a jaqueta. Fingindo ter uma arma, ele orde­nou ao balconista que esvaziasse o caixa. Mas o funcionário tinha um revólver de verdade e tentou colocar o gatuno para correr. Seu erro foi não ter disparado, pois Gaston se aproximou da vítima, to­mou a arma e atirou na cabeça do infeliz, que morreu na hora. O assassino ficou ao lado do corpo até a chegada da polícia e não levou nada da loja. A julgar pela gra­vidade do crime e pela ficha suja do réu, que tinha no currículo duas prisões por roubo, a Justiça não hesitou em decretar a pena máxima: execução. Mas o advoga­do do criminoso alegou que ele era um desequilibrado mental e conseguiu livrá-lo do corredor da morte. O argumento: como havia nascido de uma mãe alcoólatra, Gaston tinha desenvolvido alguns sintomas que caracterizam o que os mé­dicos chamam de síndrome alcoólica fe­tal. Segundo uma testemunha, a mãe ti­nha entornado umas e outras até mesmo na noite do parto. Por causa desse com­portamento inadequado - o álcool é proibido durante toda a gravidez, até mesmo em pequenas doses -, o filho, ainda no útero, sofreu danos irreversí­veis no cérebro, que se transformaram em graves problemas de comportamento na infância e na adolescência. De acordo com a defesa, na vida adulta de Gaston, a irresponsabilidade materna teria tido uma grande parcela de culpa na sua en­trada no mundo do crime. O juiz se co­moveu com a história, mas não a ponto de livrá-Io do xilindró. O assassino foi condenado a passar o resto da vida na cadeia, sem possibilidade de recurso. A decisão do juiz, com base no relato de uma testemunha, pode parecer polêmi­ca. Mas, do ponto de vista científico, faz todo sentido. O seu destino pode, sim, ser influenciado pelos 9 meses que você passou dentro do útero - e pelas decisões que a sua mãe tomou durante o período.

O julgamento de Charles Gaston acon­teceu em 1989. Na época, o conceito de "origens fetais", que defende que o cére­bro e o corpo do bebê são influenciados e alterados diretamente pelo ambiente, pela alimentação e pelas emoções da mãe, ainda estava engatinhando. Os pri­meiros estudos que confirmavam essa tese estavam apenas começando a ser le­vados a sério. Ainda havia resquícios de um consenso antigo, de que nenhuma substância tóxica era capaz de atravessar a placenta - órgão responsável pelo leva e traz de substâncias entre a mãe e o feto. De acordo com essa tese, a placenta só deixaria passar moléculas benéficas ao organismo em desenvolvimento. Essa crença foi aniquilada na década de 1960, de forma trágica, com o nascimento de milhares de bebês com membros mais curtos e dedos a mais ou a menos. A co­munidade científica descobriu rapida­mente que os defeitos de nascimento ti­nham relação com a talidomida, uma droga que estava sendo prescrita para ajudar as grávidas a enfrentar os enjoos, dores de cabeça e insônias típicos da ges­tação. O remédio foi banido por ter pro­priedades teratogênicas, o que significa que suas moléculas são capazes de inter­ferir diretamente nas células do feto, matando ou provocando efeitos devasta­dores - e que, muitas vezes, duram a vida toda. No Brasil, infelizmente, os casos de talidomida continuaram acontecendo até os anos 70, porque o remédio era também prescrito contra a hanseníase.

De lá para cá, felizmente, muita coisa mudou. Graças a diversos estudos, as gestantes de hoje sabem muito mais so­bre dieta, uso de remédios e exposição a produtos químicos. E ninguém mais du­vida de que elas influenciam o destino do filho antes mesmo de ele nascer.

• Sofrimento hereditário

Em junho de 1967, Israel entrou em con­fronto direto com alguns países árabes, numa disputa por territórios e pelo con­trole político da região. E saiu vitorioso da chamada Guerra dos Seis Dias, que matou milhares de pessoas. Mas a supre­macia não garantiu que seus cidadãos - e suas grávidas - ficassem imunes ao es­tresse causado por um conflito militar. A psiquiatra Dolores Malaspina, da Univer­sidade de Nova York, pesquisou os regis­tros de nascimento de quase 90 mil pessoas que nasceram em Jerusalém entre 1964 e 1976. E descobriu que os filhos das mulheres que estavam no 2° mês de ges­tação durante a guerra tinham, na vida adulta, índices altos de esquizofrenia ­doença mental das piores, que provoca delírios e perda de contato com a reali­dade. As meninas concebidas e geradas no período do conflito tinham cerca de 4 vezes mais incidência da doença. Entre os meninos, o índice foi de 1,2.

Mas condições adversas durante a gra­videz podem mudar até a cara de um país inteiro. De acordo com um estudo con­duzido na Universidade de Southamp­ton, países como a China e a Índia esta­riam enfrentando epidemias de obe­sidade, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos com origem na alimentação. E não porque os chineses e os indianos co­mam mal - a dieta deles é mais saudável que a nossa. Mas porque, até algumas dé­cadas atrás, esses países, que hoje são relativamente prósperos, eram pobres ­ e as grávidas que viviam por lá em geral tinham uma alimentação precária. Resu&sh hy;mo: muitos fetos chineses e indianos fo­ram programados dentro do útero para extrair o máximo possível de energia e nutrientes da dieta limitada da mãe. E depois viraram adultos com acesso a lan­chonetes de fast food. O excesso de gor­dura é problemático por si só, mas nesses casos é ainda mais maléfico, pois o orga­nismo dessas pessoas simplesmente não sabe como lidar com tanta comida.

Mas a falta de alimento pode compro­meter o futuro do bebê de outras formas - algumas até mais perigosas. David Barker, da Universidade de Sou­thampton, na Inglaterra, pu­blicou um estudo com um dado inquietante: com base na análise da ficha médica de mais de 15 mil pessoas, ele descobriu que muitas das que tinham histórico de proble­mas cardiovasculares haviam nascido com baixo peso. A hi­pótese de Barker foi a seguin­te: quando a mãe oferece poucos nutrientes ao feto, este acaba redirecionando a alimentação escassa que recebe pelo cor­dão umbilical ao órgão mais nobre do corpo humano - o cérebro -, prejudi­cando outros que também são importan­tes, como o coração. Ou seja, é bom não existir miséria nos pratos das grávidas: quem paga o preço sempre é o bebê.

• É de nascença

E se os acontecimentos dentro do útero pudessem determinar a orientação se­xual da pessoa já desde o feto? Pois uma série de estudos aponta que essa ideia não é tão descabida assim. O psicólogo Anthony Bogaert, da Universidade Bro­ck, em Ontário, no Canadá, se debruçou sobre o histórico de cerca de 1 000 ho­mens e publicou um estudo, em 2006, no qual indicava que filhos mais novos de mães que tiveram outros meninos têm mais chances de ser gay. A base científi­ca, segundo a pesquisa, é o sistema imu­nológico da mãe. Na primeira gestação de um menino, ela cria anticorpos que atacam as proteínas produzidas pelo feto do sexo masculino, que são estranhas ao corpo feminino. Nada muito radical acontece com o primeiro bebê. Nas ges­tações seguintes, no entanto, esses anti­corpos, cada vez mais potentes, agem
diretamente sobre o cérebro do feto e ­ de uma forma ainda desconhecida - fa­zem com que a orientação sexual seja definida antes do nascimento. "Segundo nossos estudos, de 15 a 25% dos gays de­senvolvem a homossexualidade dentro do útero por causa desse fator", afirma Anthony Bogaert. Os dados são recentes, mas já tinham sido pinceladas em estu­dos anteriores, como os do célebre pes­quisador Alfred Kinsey, que, nas décadas de 1940 e 1950, apontou que a prevalên­cia de gays era maior em homens com irmãos mais velhos.

Os estudos de Bogaert não são os úni­cos que tentam localizar fatores biológi­cos para a homossexualidade. Uma das ideias mais difundidas é a que atribui a orientação sexual aos hormônios femini­nos da mãe - os gays seriam fetos mascu­linos que sofreram mais influência desses horrmónios dentro do útero, o que expli­caria um "cérebro" feminino em um cor­po de homem. Essa linha de investigação também explicaria a percepção de que há mais gays do que lésbicas no mundo. Afi­nal, é muito mais fácil o feto masculino ser exposto ao excesso de hormônio fe­ninino (porque está dentro do corpo de uma mulher) do que o contrário. Se essas pesquisas forem comprovadas, acabaria de vez a crença de que a homossexualida­de é algo reversível. Ela seria de nascença estava predestinada.

• Não viva na bolha

Cuidar é bom, exagerar não.

- Estresse, pero no mucho

Quando a mãe é submetida a níveis moderados de estresse, ela contri­bui para um desenvolvimento me­lhor do cérebro de seu bebê.

- Não pare de tomar as pílulas

Remédios são perigosos, mas vitaminas estão liberadas. O ácido fólico (vitamina 89), por exemplo, previne problemas como a espinha bífida, um defeito de formação da coluna vertebral.

- Bombom é bom

É importante a grávida ter uma ali­mentação balanceada - sem abrir mão do chocolate. Bebês que são gerados por mães que comem cho­colate têm menos sinais de medo e sorriem mais que o habitual.

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