O destino (não) está nos genes


Há décadas cientistas tentam entender o que define cada um de nós: se é o DNA ou a criação. Mas novas descobertas mostram que o debate é inútil. Os genes sofrem in­fluência direta do ambiente - e se compor­tam de acordo com o que lhes ensinamos.

Revista Superinteressante - por Salvador Nogueira

Jim Springer e Jim Lewis eram gêmeos idênticos americanos que foram adotados por fa­mílias diferentes ao nascer. Passaram a infância e a juventude separados, casa­ram e descasaram, e se reencontraram aos 39 anos de idade - apenas para des­cobrir que eram realmente iguaizinhos. "Ambos se casaram com mulheres chamadas Linda, divorciaram-se e casaram­ se pela segunda vez com mulheres cha­madas Betty. Um deu a seu filho o nome de James Allan, o outro deu a seu filho o nome de James Alan, e ambos tiveram cães chamados Toy", observou Thomas Bouchard, psicólogo britânico da Uni­versidade de Minnesota, em 1979, quan­do ele entrou em contato com os Jims.

Essa história inacreditável faz parte do Projeto dos Gêmeos de Minnesota, orga­nizado por Bouchard, que há décadas estuda centenas de gêmeos para estabe­lecer elos entre traços psicológicos e a genética. (Nesse caso, gêmeos idênticos separados ao nascimento são os favoritos dos pesquisadores: como eles comparti­lham os mesmos genes, mas não foram criados juntos, é mais fácil separar o que vem do DNA e o que vem do ambiente.) Além dos dois Jims, o estudo encontrou diversos exemplos impressionantes. Como o par de gêmeos que foi criado se­paradamente, mas lia revistas de trás para a frente, dava descarga antes de usar o banheiro, e gostava de espirrar em ele­vadores. Ou as duas gêmeas que entra­vam no mar de costas e apenas até a altu­ra dos joelhos. Lendo essas anedotas, fica impossível não acreditar que o destino está no nosso DNA - e que as decisões que tomamos ao longo da vida pouco im­portam, frente ao poder dos genes. Mas será que somos realmente tão impoten­tes em determinar nosso futuro?

Durante muito tempo, ninguém duvi­dou da força do DNA, e o objetivo da ciência era desvendar a função de cada um dos nossos 25 mil genes. Os estudos de gêmeos foram muito importantes nesse processo. Descobriu-se até que de­cisões que pareciam pessoais ou sociais podiam vir da genética. As taxas de di­vórcio, por exemplo, são muito parecidas entre gêmeos idênticos (o que indica, por exemplo, que quem tem pouca paciência para discussões ou quem trai o cônjuge pode ter um irmão gêmeo que se com­porte igual). Mas já foram comprovadas similaridades em dezenas de caracterís­ticas, da religiosidade ao QI. "Normal­mente, dizemos que aproximadamente metade da variação em inteligência, per­sonalidade e resultados de vida é heredi­tária", afirma Steven Pinker, psicólogo evolucionista da Universidade Harvard.

Ainda assim, é claro que não há possi­bilidade alguma de genes estimularem alguém a se casar com pessoas chamadas Linda ou Betty, por exemplo. "Em ter­mos estatísticos, numa lista de 1 000 atributos - marca e modelo de carro, programa de televisão favorito etc. - de quaisquer duas pessoas, é inevitável en­contrar várias coincidências", aponta James Watson, codescobridor do DNA e primeiro líder do Projeto Genoma Hu­mano. E mais: novas descobertas da ge­nética mostram que os genes são muito mais flexíveis do que se imaginava - e que as decisões que tomamos, e nosso livre-arbítrio, felizmente têm um papel muito maior do que se esperava.

• O mundo em você

Överkalix é uma cidadezinha de 946 ha­bitantes no norte da Suécia. O vilarejo vive do comércio local e muitos dos tra­balhadores são empregados em indús­trias de telecomunicação. Foi nesse fim de mundo que um grupo de pesquisado­res notou um fenômeno estranho, que veio a público em 2001, e que está mu­dando a forma como os geneticistas en­tendem a sua área. Eles perceberam que os registros históricos indicavam um im­pacto ambiental violento na moldagem de seus habitantes. Depois de passarem por períodos de escassez de alimentos, os överkalixenhos começaram a viver mais. Até aí, tudo bem, não fosse por um deta­lhe surpreendente: os dias de fome acon­teceram no século 19 - e a mudança na longevidade aconteceu com os avós dos atuais habitantes. Ou seja, alguma coisa na falta de comida fez com que as pes­soas vivessem por mais tempo e ainda passassem essas características para as gerações seguintes! Seria um indício de o ambiente alterando os genes e perpe­tuando-os em seus descendentes?

Como isso seria possível? Esse fenôme­no lembra uma antiga teoria da evolução, anterior à de Darwin, concebida por Jean-Baptiste Lamarck. É aquela, tão ridicularizada por professores de escola, que sugeria que as girafas ficaram com o pescoço comprido porque suas ances­trais se esticavam para alcançar os galhos mais altos das árvores. Ao estender seu pescoço, elas então passariam a caracte­rística a seus descendentes. Hoje sabe­mos que a evolução não funciona assim, mas pelo processo de seleção natural, descrito por Darwin. No entanto, os dados de Överkalix parecem dar razão a Lamarck, não a Darwin. de algum modo, os avós dos habitantes foram modifica­dos pelo ambiente e transmitiram a mu­dança à posteridade. Entra, então, em cena o novíssimo campo da epigenética, onde ambiente e genética trabalham juntos para decidir o seu destino. Os cientistas estão mostrando que o funcio­namento dos genes do DNA não depende somente das letrinhas inscritas nele.

Algumas outras substâncias podem se conectar ou desconectar dos cromosso­mos e, assim, mudar a maneira como eles s se expressam. É como se o seu genorna fosse o hardware e a epigenética o software: você já vem ao mundo com um aparelho prontinho (seu corpo com o DNA) , mas o ambiente pode instalar e desinstalar programas que mudam quem você é. Essa revelação explicaria diversas perguntas ainda não respondidas. Seria possível entender como diferentes células do corpo humano podem cumprir funções distintas, apesar de todas terem o DNA idêntico. Também ajuda a explicar como um bebê tem alguns genes ativos que vieram do pai e outros da mãe. E permite, enfim, entender o que aconteceu em Överkalix. A epigenética é um campo que está ainda na sua infância. Afinal de contas, estudar efeitos que combinam fatores ambientais e diversas gerações humanas não é coisa simples de ser feita. É preciso observar décadas de dados, com pelo menos algumas dezenas de fa­mílias participantes, para obter resulta­dos confiáveis. Por isso, o caso sueco é um dos poucos exemplos bem documen­tados. Entretanto, os estudos com ani­mais também permitem a detecção do destino agindo. Estresse, por exemplo. Ficou demonstrado em experimentos que ele pode ser herdado pelos filhos, uma vez que os pais adquirem o hábito. E essa conclusão veio de um experimento curioso realizado por cientistas da Uni­versidade de Línköping, na Suécia. Tudo começou quando eles decidiram pertur­bar a paz de um grupo de galinhas.

Normalmente, esses animais se guiam pela luz do Sol para se alimentar. Quando é dia, comem sem parar; à noite, descan­sam. Mas os pesquisadores resolveram expor as galinhas a padrões aleatórios de luz e escuridão. Estressadas, as bichinhas começaram a ser mais seletivas na ali­mentação" optando apenas por comidas nutritivas - afinal, não sabiam quando poderiam comer novamente. O curioso é que esse mesmo comportamento foi her­dado por seus pintinhos, muito embora eles tenham passado a vida com os pa­drões regulares de luz solar. E não é que eles aprenderam esse padrão de compor­tamento com os pais. Os cientistas toma­ram o cuidado de deixar que os pintinhos fossem criados longe das mães genéticas, e as adotivas que chocaram seus ovos não tiveram essa experiência estressante nem exibiam esse comportamento. Se o mes­mo valer para humanos (e não há por que pensar que não), você pode ser particu­larmente nervosinho se seus pais passa­ram por muito estresse quando jovens.

Outros estudos, feitos com camun­dongos demonstraram impactos igual­mente inquietantes. Uma pesquisa da Universidade do Alabarna, nos EUA, mostrou que mães roedoras que eram submetidas a estresse, e por isso se tor­navam negligentes com seus filhotes, viam mais tarde sua cria maltratando os netinhos. Novamente, para eliminar o fator "aprendizado", os cientistas expe­rimentaram deixar que os filhotes fossem criados por mães adotivas amorosas. Mesmo assim, eles continuaram sendo
maus pais quando adultos. Claramente o estresse sobre as mães mudou algo que foi transmitido hereditariamente aos fi­lhos - e os tornou igualmente estressa­dos. Com os humanos, há um estudo parecido, que mostra a má influência dos pais sobre os filhos. Uma pesquisa mostra que homens que começaram a fumar an­tes da puberdade (por volta dos 11 anos) têm risco muito maior de ter filhos obe­sos na vida adulta. Ou seja, um erro ain­da durante a infância pode determinar a vida do filho que nem nasceu.

Mas esses são só os primeiros exem­plos. Conforme as pesquisas forem evo­luindo, e os geneticistas se aprofundarem no conhecimento do epigenoma huma­no, com toda a sua riqueza de variações, a tendência é descobrirmos mais e mais casos do tipo. Finalmente encerraremos essa falsa disputa entre natureza e cria­ção na concepção do ser humano. Com essa descoberta, fica claro que o seu des­tino não está só nos seus genes mas tam­bém no seu estilo de vida, no ambiente em que você vive e na maneira como você lida com seus problemas.

Para saber mais

DNA: o Segredo da Vida. Jarnes Watson, Cia. das Letras, 2005.
Tábula Rasa. Steven Pinker, Cia. das Letras, 2004.
Evolution in Four Dimensions. Eva Jablonka e Marion Lamb, MIT Press, 2005.

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