O estresse foi banalizado e o seu sentido também


O termo médico serve para tudo, até de palavrão, mas é uma reação normal do corpo; quando o estresse vira doença, leva o nome de distresse.

Jornal Folha de São Paulo - por Ciça Guedes

O termo estresse, de uso exclusívo da medicina até pouco mais de uma década, caiu na boca do povo. Tudo virou um estresse. Enfrentar fila de banco, buscar filho na escola, pegar estrada no feriado ou ouvir bronca do paí. Até substítui palavrão -aquele comumente usado para a mãe do motorista pouco talentoso vem perdendo espaço para o raivoso "seu estressado!" no trânsito louco das grandes cidades brasileiras.

O termo foi vulgarizado e o seu significado também. Há pessoas que acreditam piamente estar doentes de estresse, quando apenas estão irritadas por um problema circunstancial. Por outro lado, diz o psicólogo. José Roberto Leite, professor da Unifesp e coordenador do Ambulatório de Medicina Comportamental do Hospital São Paulo., "infelizmente ainda há médicos que dizem a seus pacientes que eles não têm nada, só estresse, como se isso fosse um atestado de boa saúde".

Estresse não é doença, mas também não é sinônimo de saúde. É a reação do corpo ao se confrontar com o perigo, que pode se manifestar como respiração ofegante, pele eriçada, pupila dilatada, coração acelerado e musculatura retesada. Todos esses sintomas são provocados por descargas de hormônios na corrente sanguínea, que não são, em si, ruins. Elas preparam o corpo para o que está por vir.

Estresse, quando vira doença, muda de nome: chama-se distresse (distúrbio de estresse). Pode ser classificado como crônico, causado por situações estressantes que se repetem, ou agudo, quando a pessoa é exposta a situação extrema, em geral de real possibilidade de morte, diz Alexandrina Meleiro, psiquiatra da USP.

E o que a ciência já sabe é que ambas as formas provocam alterações no funcionamento do organismo, atuando como principal fator de risco no surgimento de algumas doenças.

Responsável pelo Instituto de Pesquisas Biomédicas da Faculdade de Biociências da PUC do Rio Grande do Sul e doutorado pela Universidade de Bristol, Reino Unido, o biólogo Moisés Evandro Bauer tem como foco o estudo do estresse associado às alterações imunológicas e o modo como essa interação pode resultar na promoção de algumas doenças.

"Há muitos estudos em todo o mundo mostrando a relação do estresse com a gripe, por exemplo. É comum a pessoa ficar resfriada ou gripada após viver situações estressantes. Também já está bem comprovado que o estresse é fator de risco sério nas doenças cardiovasculares e em caso de herpes labial, úlceras e colites. A ciência ainda engatinha no estudo dessa associação para doenças alérgicas", diz Bauer.

Ou seja: estresse não pode servir para explicar qualquer doença. Da mesma forrma que diagnosticar um sintoma como "apenas estresse" pode ter conseqüências drásticas. "Um quadro grave de ansiedade pode levar à depressão, e o risco de suicídio é sério", diz Meleiro.

O conceito de estresse foi formulado pela primeira vez por um endocrinologista, o canadense Hans Selye (1907-1982). Segundo ele, a resposta do corpo ao perigo pode-se dividir em três estágios. O primeiro é de alarme, quando o corpo reconhece o agente estressor e ativa o sistema neuroendócrino. As glândulas supra-renais passam então a liberar os hormônios do estresse -adrenalina, noradrenalina e cortisol, provocando aceleração do batimento cardíaco, dilatação das pupilas, aumento da sudorese e das taxas de açúcar no sangue, redução da digestão e do apetite sexual, contração do baço e redução das defesas do organismo.

O segundo estágio é o da adaptação, quando o organismo volta-se para a reparação dos danos. Há queda dos níveis hormonais. Se a ação dos agentes estressores continua ou se a pessoa não se livra do estímulo que provoca essas reações, chega-se à exaustão, o terceiro estágio, capaz de promover doenças.

"O organismo humano lida bem com o estresse agudo, mas, quando ele se torna repetitivo, vale dizer, crônico, os efeitos se multiplicam e desgastam o organismo", diz Bauer.

O deputado Carlos Santana (PT - RJ) conhece bem alguns desses efeitos. No final de 1998, durante sua campanha à reeleição para a Câmara dos Deputados, ele começou a desmaiar nas situações e nos lugares mais insólitos. No meio do comício, pimba, lá estava Santana arriado. Na direção do carro, de repente sentia que não ia mais aguentar e saía do ar por vários minutos. "Como todos estávamos dormindo pouco e trabalhando muito, sem que ninguém desmaiasse, começamos a achar que aquilo era uma tremenda frescura", conta a assessora, Rosângela Soares. "O que me deixava louco não era só o cansaço. Eu tinha de sair de uma reunião com ferroviários e conversar com donas-de-casa e, depois, com estudantes universitários." A saúde e a campanha foram salvos pelo conselho dos médicos, que internaram o deputado e fizeram o que se chama de diagnóstico diferencial.

Por meio de exames, eliminaram a possibilidade de doenças mais sérias, até concluírem que se tratava de estresse. Prescrição: descarregar as tensões numa atividade física. "Há três anos, corro cerrca de 12 km todo dia e me sinto muito bem, nunca mais desmaiei", diz ele, que agora procura uma boa escola de ioga. "Estamos entrando em campanha novamente e não quero correr riscos."

Santana preocupa-se com a prevenção. Não foi o caso de Maria do Carmo Gouvêa Peluso, 61, que teve seu estresse diagnosticado há 13 anos. Ela começou a sentir enjôos e tonturas, formigamento na língua, nos lábios e no rosto. Os sintomas pioravam, e os médicos eliminaram todas as possibilidades antes de atribuir os sintomas a estresse. "Os exames não acusavam nada. Até que comecei a ter dificuldade para falar, enrolava a língua. Passei a tomar tranquilizante, mas só melhorei de verdade quando fui para uma estância hidromineral, afastada dos problemas", conta Maria do Carmo. No ano passado, ela perdeu o marido. "Além dessa perda, ainda terei de mudar de casa, começo a sentir os sintomas de novo e estou com medo, vou voltar ao médico."

  • Crianças e idosos são os grupos mais afetados

    O envelhecimento, diz o biólogo Moisés Evandro Bauer, do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Faculdade de Biociências da PUC do Rio Grande do Sul, é um desequilibrio hormonal intenso. "Na velhice, os hormônios, em geral, decaem, com exceção do cortisol, um dos hormônios do estresse. As alterações endócrinas mais importantes nessa fase da vida são justamente o aumento do cortisol e a queda do DHEA. Isso leva à alteração da resposta imunológica do idoso", diz Bauer, que se dedica ao estudo das alterações imunológicas associadas ao estresse. Atualmente, ele coordena uma pesquisa que visa comparar idosos saudáveis com idosos que apresentam doenças auto-imunes, como artrite reumatóide, frequente nessa faixa etária e cuja relação com o estresse já é comprovada.

    Um grupo de pessoas submetidas a estresse crônico foi estudado por Bauer para sua tese de doutorado: os idosos saudáveis que cuidam de seus parceiros portadores de mal de Alzheimer. "Além do trabalho físico estressante, de dar comida, lavar, trocar a roupa, a pessoa vê um ente querido definhando, sem perspectiva de recuperação e em sofrimento. É vida em luto", diz ele. As alterações hormonais que ocorrem nesses cuidadores, decorrentes do estresse, são muito significativas. "A resposta imunológica do idoso é mais baixa que a do jovem. Somada a estresse e depressão, derruba-o ainda mais e o toma mais susceptível ao câncer e à artrite", explica Bauer. Agora, na PUC-RS, uma aluna vai estudar um grupo de jovens cuidadores de idosos com doenças degenerativas para comparação dos estragos feitos pelo estresse.

    Uma das relações mais bem documentadas pela ciência entre estresse e doença refere-se ao nanismo psicogênico (de causa psicológica), que, no Brasil, está ligado principalmente aos maus-tratos de crianças. "Não há deficiência alimentar nem cultural, a criança é que, submetida a essa situação de estresse tão grave, simplesmente pára de produzir o hormônio do crescimento, o GH", explica Bauer. Mas, se for retirada das mãos do agressor e for bem assistida, volta a crescer normalmente.

  • Como lidar com o transtorno

    Você está em um engarrafamento, começa a chover e você pressente um sentimento de pânico. Então, respire fundo, controle a entrada e saída do ar com o diafragma, expandindo a barriga como se ela fosse um balão de festa de criança. O conselho é sério. "A estratégia inicial é lidar com as reações fisiológicas. Primeiro, a respiração, que se manifesta alterada. Ao controlá-la, além de a pessoa criar reflexo de relaxamento, desvia a atenção para outra coisa que não o estímulo que está causando o transtorno. Isso dá tranquilidade", ensina o psicólogo José Roberto Leite, coordenador do Ambulatório de Medicina Comportamental do Hospital São Paulo.

    Relaxamento muscular é o passo seguinte e, em seguida, a estratégia mais importante: reinterpretar a realidade, pensar em uma forma alternativa de lidar com o transtorno. Se a tempestade é certa e o engarrafamento, insolúvel, talvez seja melhor dar um jeito de abandonar o carro antes de ficar boiando em água suja à beira de um infarto. No futuro, não saia se o céu estiver carregado ou faça outro caminho, por exemplo.

    Buscar a atividade física para relaxar do estresse diário pode não valer para todos. Reflita antes de decidir o que é melhor para você para não arranjar mais um transtorno na vida. "No caso do deputado Santana, reservar um horário para fazer exercícios ajudou-o a encontrar um tempo, o da corrida, para colocar em ordem as idéias. Isso pode ser tão eficiente quanto os efeitos fisiológicos da atividade física. Há uma crença generalizada de que o exercício é fantástico, mas existe gente que tem horror. As receitas têm de ser bem equacionadas, e o paciente tem de ser seu próprio médico", diz José Roberto Leite. Autoconhecimento é, portanto, palavra-chave.

    As reações às fontes de estresse, que podem ser de contato físico, como saltar de pára-quedas; psicológico, como brigar com o companheiro ou falar em público; ou ainda advindas de infecções por vírus, bactérias, fungos ou parasitas, que fazem o sistema imunológico se mobilizar, são individuais. Os limites são variáveis, e cada pessoa tem um órgão-alvo. Além disso, o agente estressor pode estar dentro da pessoa. É o caso de quem é muito exigente consigo mesmo, que se tortura em busca da perfeição. "A sociedade moderna cobra demais. Tem de ter mestrado, doutorado, fluência em pelo menos duas linguas estrangeiras, saber informática", lembra a psiquiatra Alexandrina Meleiro.

    Outra palavra-chave é adaptação ou, como diz José Roberto Leite, reinterpretar a situação. Avaliar a situação e reorientar o seu pensamento. Procure entender por que aquela situação incomoda tanto e tente alternativas. "Uso diariamente essa estratégia. Às vezes, eu me pego sofrendo e custo a entender o que está acontecendo. Há gente que se sente desconfortável ao se confrontar com o sofrimento, mas é uma atitude sadia", diz o psicólogo José Roberto Leite, da Unifesp.

    Chris Rigobello, 43, quando se mudou do interior de São Paulo para Salvador, teve uma adaptação longa e dolorosa. "Eu me achava tranquila, mas foi difícil suportar a ineficiência dos serviços e a postura de alguns colegas de profissão. Passei dois anos brigando no supermercado, nos banc ro.

    Outra palavra-chave é adaptação ou, como diz José Roberto Leite, reinterpretar a situação. Avaliar a situação e reorientar o seu pensamento. Procure entender por que aquela situação incomoda tanto e tente alternativas. "Uso diariamente essa estratégia. Às vezes, eu me pego sofrendo e custo a entender o que está acontecendo. Há gente que se sente desconfortável ao se confrontar com o sofrimento, mas é uma atitude sadia", diz o psicólogo José Roberto Leite, da Unifesp.

    Chris Rigobello, 43, quando se mudou do interior de São Paulo para Salvador, teve uma adaptação longa e dolorosa. "Eu me achava tranquila, mas foi difícil suportar a ineficiência dos serviços e a postura de alguns colegas de profissão. Passei dois anos brigando no supermercado, nos bancos, nas lojas. Eu agia tentando mudar a mentalidade de todo mundo, vivia estressada, até que a ficha caiu, e eu entendi que, ou aceitava o modo de viver baiano, ou teria de ir embora", conta.

    Disposta a romper com a atávica postura de bandeirante, a paulista descobriu as delícias da baianidade. "Uma amiga veio a Salvador, tomou um ônibus e pediu indicação do endereço ao motorista. Ele olhou para um lado, para o outro, constatou que ela era a única passageira, desviou o caminho e a deixou na porta do local que ela procurava", conta a psicóloga.

    Aprenda também uma técnica de relaxamento muscular, pois a contração dos músculos é uma das reações aos agentes estressores. Por fim, leia abaixo como a respiração pode ser sua aliada. E, se com tudo isso a barra ainda estiver muito pesada, procure ajuda de um psicoterapeuta O simples fato de reservar pelo menos uma hora na semana para conversar com o profissional já ajuda a organizar as idéias.

  • Respiração correta "amansa" os estressados

    Qual o primeiro ato quando o bebê deixa a barriga da mãe e perde o suprimento de oxigênio pelo cordão umbilical? Respirar. E o último ato na hora da morte? Dar um suspiro. Com raiva, você bufa; de susto, perde o ar; com dor, geme. Impossível imaginar a vida sem um boa dose de ar. Para aumentar a qualidade de vida, respire corretamente.

    A respiração é o um processo fisiológico sobre o qual se tem controle. Não é possível interferir nas batidas do coração nem mudar o fluxo da corrente sanguínea, mas dá para respirar corretamente, o que corresponde a provocar uma melhor oxigenação das células e uma melhora geral no condicionamento físico. Em uma situação de estresse, a prática correta da respiração é capaz de frear o descontrole.

    "Podemos passar dias sem comida e água, mas poucos minutos sem respiraação são fatais. Nosso corpo tem mais de 30 trilhões de células, que se alimentam basicamente de oxigênio", explica o psicólogo José Carlos Belfort, que trabalha com fisiologia e que desenvolveu a chamada biointegração, terapia que tem a respiração como base.

    A respiração correta, abdominal, induz o relaxamento e desvia a atenção do problema. A maioria das pessoas faz a respiração torácica, em que o tórax é inflado, e não o abdômem.

    Para reaprender a respirar como bebê, que enche os pulmões de ar até o fim, inflando e murchando a barriga, comece devagar. Quem não está acostumado a praticar a respiração abdominal, não deeve exagerar no início, diz Belfort.

    "Comece praticando uns dois minutos em ritmo lento para não causar hiperventilação, que provoca reações desagradáveis como formigamentos nas mãos e tontura", diz ele. Deite-se com as costas no chão, dobre os joelhos, mantendo os pés na linha dos quadris. Coloque as duas mãos sobre a barriga, na altura do umbigo, e respire fundo, calmamente, inflando a barriga quando o ar entra e murchando quando ele sai. Faça isso duas ou três vezes ao dia, comece com dois ou três minutos. Depois, repita o exercício sentado, que é como as pessoas, em geral, passsam a maior parte do dia e, por fim, treine de pé.

    • Administração do Tempo

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