O Estresse não é Ruim


Revista Você S.A. - por James Loehr

Goste ou não da ideia, o fato é que o estresse veio para ficar. Ele deixou de ser uma situação especial para se tomar um dado do dia-a-dia. Há coisas demais - trabalho, projetos, problemas, pressão, família - para tempo de menos. Estamos, pois, todos condenados ao inferno? Não necessariamente. O estresse, em si, não é o monstro que se apregoa.

"Não é o trânsito, o desemprego ou o chefe mal-humorado que nos desgasta, e, sim a maneira como reagimos a cada uma dessas coisas", afirma o consultor e psicólogo americano James Loehr autor do livro Stress for Success (algo como Use o Estresse para seu Sucesso), publicado nos Estados Unidos pela editora Random House. Em resumo, a tese de Loehr é a seguinte: você é o maior culpado por seu estresse. Se você não lida com o monstro, ele o devora. Se você o enfrenta, ele pode virar algo que trabalha a seu favor. Note que essa não é mais uma daquelas obras irritantemente teóricas, cheias de receitas e fórmulas. Loehr, psicólogo esportivo que já cuidou de tenistas espetaculares, como Pete Sampras e Monica Seles, recheia o livro de exemplos e histórias de pessoas que transformaram o estresse em fonte de energia. A seguir Você s.a. publica um resumo de Stress for Success.

Formulou-se toda uma mitologia em torno do estresse. Diz-se, por exemplo, que ele acaba com a saúde. Livrar-se dele, por sua vez, aumenta a produtividade. Na verdade, o estresse em todas as suas formas - fisico, mental e emociona! - é bom para você. Existe uma diferença entre a exposição ao estresse e a resposta ao estresse. A simples exposição ao estresse não tem impacto negativo nenhum - ao contrário, é o mais poderoso estímulo ao crescimento pessoal. Não é o trânsito, o desemprego ou o chefe mal-humorado que desgasta você. O que o desgasta é a resposta emocional que você dá a esses eventos.

Por 22 anos, venho ajudando as pessoas a melhorar sua capacidade de responder ao estresse. Para isso, desenvolvi o que chamo de Treinamento de Força. Por "força" não pretendo dizer força bruta, mas uma energia de performance altamente direcionada. Eu a batizei de Estado de Performance Ideal (EPI). Minhas idéias sobre força vêm de minha experiência de mais de duas décadas como psicólogo esportivo, quando trabalhei com mais de uma centena de atletas, entre eles Dan Jansen, medalhista de ouro de patinação sobre o gelo, e os tenistas Pete Sampras, Sergi Bruguera, Monica Seles, Gabriela Sabatini e Arantxa Sánchez-Vicario. Há cerca de dez anos, comecei a aplicar o Treinamento de Força em executivos, que passei a chamar de "atletas corporativos". Já apliquei esse método em proofissionais de empresas de todo tipo, de finanças a cosméticos. Também o utilizei com pessoas que tomam decisões de vida ou morte, como médicos, pilotos e policiais da Swat.

Sucesso com o estresse é um programa "passo a passo", de 30 dias de duração. Você pode adotá-lo. Nesse período, para que dê certo, considere-se como um atleta treinando para a Olimpíada. Nessas quatro semanas, você sentirá uma profunda transformação - vai se sentir mais forte, atingirá níveis que nunca pensou serem possíveis, seja no trabalho ou fora dele.

  • O atleta corporativo

    No mundo dos negócios de hoje, a pressão é cada vez maior. Uma decisão errada pode aruinar uma companhia. Devemos realizar cada vez mais com cada vez menos. Entre 1987 e 1995, mais de 50% das companhias listadas na Fortune 1.000 sofreram downsizing - dois terços delas devem passar de novo pelo mesmo processo num futuro próximo. Uma pesquisa realizada com excecutivos que ganham mais de 100.000 dólares por ano revela que 60% delas acreditam que não terão mais seus empregos dentro de um ano. As novas tecnologias não aumentaram as horas de lazer. Ao contrário, o telefone celular e o fax residencial trouxeram os escritórios ainda mais pra dentro de nossas vidas.

    Quando se lida com o estresse, a sabedoria convencional diz: reduza-o. Não trabalhe tão duro, chegue mais cedo em casa, tire férias... Especialistas sempre dizem: seja mais positivo e você terá mais sucesso. Há ainda outros meios bastante procurados, como técnicas de relaxamento e mesmo mudanças na dieta. Todos esses recursos têm decerto sua eficiência, mas individualmente, só produzem resutados de curto prazo. Motivos: a pressão no mundo corporativo é um fato da vida, que veio para ficar. A única maneira de sobreviver é encontrar uma forma de melhorar a sua capacidade de lidar com o estresse. Ou seja, é buscar uma solução de longo prazo. Para isso, você vai ter de se expor a ele e aprender a desenvolver novas respostas.

  • O Caso Dan Jansen

    Em 1988, às vérsperas da Olimpíada de Inverno de Galgary, Dan Jansen era tido com o melhor patinador de velocidade do mundo. Às 11h do dia da corrida dos 500 metros, a sua especialidade, ele recebeu a notícia de que sua irmã havia morrido de leucemia. A prova foi um desastre para ele, assim como o restante da competição.

    Nos quatro anos seguintes Jansen se recuperou e bateu duas vezes o recorde mundial dos 500 metros. Mas, quando chegou para disputar os Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, em Albertville, a lembrança do fracasso em Calgary o atingiu e a sua atuação foi menos do que medíocre. Ele saiu arrasado. Foi quando me procurou.

    Fizemos uma avaliação completa do estado fisico, mental e emocional de Dan Jansen. Começamos com seu padrão de gasto de energia e tempo de recuperação. Também examinamos seus períodos de relaxamento e diversão. Criamos então um programa de treinamento específi ico que alternava exercício intenso e tempo para recuperação.

    Na parte psicológica, estava claro que a morte da irmã ainda o abalava. Ele nem sequer era capaz de imaginar-se vencendo a corrida de Calgary. Nós o ajudamos a entender melhor e a controlar esses sentimentos. A meta era torná-lo capaz de atingir seu Estado de Performance Ideal (EPI). Para tanto, utilizamos exercícios de visualização, música e rituais de pré-performance. Nos Jogos de Lillehammer, em 1994, Jansen venceu cinco corridas e bateu o recorde mundial dos 500 metros três vezes.

  • Atleta dos atletas

    Talvez você estranhe o fato de eu falar tanto em atleta corporativo - afinal, você pode muito bem ser um daqueles para os quais o máximo de exercício concebível é caminhar da porta de casa até o carro. Mas um executivo precisa ser muito mais do que um atleta. Um profissional dos esportes gasta de 4 a 6 horas por dia treinando - mas qual é o executivo que trabalha menos do que 10 horas por dia? E, diferentemente do atleta, o executivo não pode falhar. Qual é o chefe que vai dizer: "Tudo bem, você errou, vamos perder muito dinheiro, mas nós entendemos que você errou porque, quando tomou aquela decisão, já havia trabalhado mais de 14 horas?" Pior, o executivo trabalha praticamente sete dias por semana e dificilmente tem, como o atleta, a possibilidade de mudar de carreira.

  • Enfrentando a verdade

    O principal passo do Treinamento de Força e reconhecer as suas próprias fraquezas, por mais penoso e assustador que seja esse processo. Algumas ferramentas podem ajudar a descobrir nossos defeitos. Uma série de testes simples ajuda a identificar nossas emoções e, a parrtir daí, tentar aprender a lidar melhor com elas.

    As emoções são tudo. Se não houver equilíbrio emocional, você não vai conseguir desempenhar bem nenhuma tarefa. As emoções estão no comando mesmo quando você está lendo essas páginas. Se você se sentir desafiado, a leitura fluirá. Por outro lado, se você estiver perturbado ou desconcentrado, poderá ler cada página três vezes e mesmo assim as palavras não farão sentido.

    Uma resposta emocional gera reações físicas. A fisiologia por trás das emoções molda o comportamento. A raiva mobiliza o corpo para o ataque, o medo faz recuar. Da mesma forma, o Estado de Performance Ideal (EPI) prepara o corpo para exprimitr suas habilidades nos limites máximos.

  • Fisiologia do estresse

    A emoção não está apenas na sua cabeça. Na verdade, está em cada célula de seu corpo. Uma complexa cadeia de impulsos neuroquímicos faz com que até mesmo uma célula de defesa do corpo, um linfócito, reaja a um estímulo emocional. Em vista disso, o grande desafio é aprender meios de controlar ou modificar essas respostas bioquímicas e, assim, melhorar nossa perforrmance e nossa saúde.

    Muito do sucesso evolutivo da espécie humana pode ser atribuído à estratégia de, diante de uma ameaça, atacar ou fugir. Essa estratégia está inscrita em nossa programação genética. Paradoxalmente, é exatamente esse mecanismo, em larga medida responsável pela nossa sobrevivência como espécie, que procuramos combater. O guerreiro moderno não pode se deixar mover pela raiva ou pânico. Ele tem de encontrar um novo paradigma em que o estresse e sua recuperação estejam em equilíbrio.

    Retornemos por um instante ao caso de Dan Jansen. Como todos nós, ele tinha dúvidas e temores. Em sua busca pelo ouro olímpico, foi um extraordinário guerreiro, pois enfrentou suas próprias emoções. Ele compreendeu que não eram as ( lembranças associadas à morte da irmã que o impediam de competir, mas o modo como seu corpo respondia a essas lembranças. Quando percebeu a enorme diferença que havia, foi capaz de reassumir o controle. Não é tanto o que acontece que importa, mas a forma como você reage ao que acontece.

  • Performance ideal

    Em 1976, larguei um bom emprego para dedicar-me à psicologia esportiva. Naquela época praticamente não havia pesquisas relacionando performance de atletas a seu estado emocional. Passei então seis anos fazendo esta pesquisa. Depois de mais de 400 entrevistas, ficou claro que sentimentos e emoções desempenhavam um papel essencial na performance do atleta. E mais: sempre que os competidores tinham uma alta performance, reconheciam em si mesmos um estado especial de interação entre a mente e o corpo, ao qual passei a chamar de Estado de Performance Ideal (EPI). As palavras mais usadas para descrever esse estado eram: relaxado, calmo, energizado, positivo, confiante. O melhor é que o EPI não é uma resposta instintiva ou inata. Ele pode ser aprendido.

    O maior inimigo do atleta corporativo é a sensação de impotência. Desde a década de 60, sabe-se que o sentimento de impotência desencadeia alterações importantes na química do cérebro, que predispõem à depressão e a vários outros riscos à saúde.

    Embora você não tenha controle sobre eventos catastróficos em sua vida, pode mudar a forma de reagir a eles. Quando ocorrerem, não se entregue. Faça alguma coisa, qualquer coisa. Tomar uma atitude vai impedir que a sensação de impotência o consuma. Também evite culpar os outros pelo que ocorreu. Isso só acentua a sensação de impotência.

  • Rituais

    Os rituais são a principal ferramenta do atleta corporativo. Onde há rituais, há valor e significado. Eles marcam acontecimentos importantes de nossas vidas. Rituais são padrões de pensamento e ação que aumentam nossa capacidade de responder adequadamente às coisas que nos acontecem, disparando as emoções que ajudam a enfrentar uma determinada situação. Com eles, é possível aumentar nosso autocontrole e dirigir nossa atenção. Podem ser extremamente reconfortantes, inclusive por dar uma sensação de segurança em ambientes hostis. São muitas as histórias de sucesso de pessoas que enfrentaram as situações mais adversas com o auxílio de rituais, de rotinas que os ajudaram a superar os momentos de estresse. Eles permitem mobilizar as energias certas para os momentos certos, fazendo com que o EPI comece a atuar quase que inconscientemente.

    Não se deve, contudo, confundir ritual com superstição. O primeiro é uma sequência de pensamentos e ações voluntários que melhoram nossso d ccedil;ão que aumentam nossa capacidade de responder adequadamente às coisas que nos acontecem, disparando as emoções que ajudam a enfrentar uma determinada situação. Com eles, é possível aumentar nosso autocontrole e dirigir nossa atenção. Podem ser extremamente reconfortantes, inclusive por dar uma sensação de segurança em ambientes hostis. São muitas as histórias de sucesso de pessoas que enfrentaram as situações mais adversas com o auxílio de rituais, de rotinas que os ajudaram a superar os momentos de estresse. Eles permitem mobilizar as energias certas para os momentos certos, fazendo com que o EPI comece a atuar quase que inconscientemente.

    Não se deve, contudo, confundir ritual com superstição. O primeiro é uma sequência de pensamentos e ações voluntários que melhoram nossso desempenho. As superstições, por outro lado, dependem de fatores fora de nosso controle. É fácil, por exemplo, uma pessoa supersticiosa se desesperar ao ver algo que considere um mau presságio, como o número 13. É importante estar atento para impedir que rituais se transformem em superstições.

    Um outro risco é adotar rituais inadequados, como o hábito de fumar ou de beber álcool. Apesar do imaginário sedutor que envolve o fumo, bem exemplificado nas longas tragadas de Humphrey Bogart nas telas de cinema, os cigarros não melhoram a performance. Eles aumentam a tensão nervosa sem proporcioonar energia extra, além de causar malefícios à saúde.

    Do mesmo modo, o uso do álcool para relaxar pode ter consequências trágicas. O potencial dessa droga para provocar dependência química é bem conhecido. Como não fosse o bastante, ele prejudica o apetite, interfere no sono e nas funções matora e de memória. Também se podem desenvolver rituais inadequados com comida e outras drogas, como soníferos e estimulantes.

    Aqui vão algumas sugestões básicas que podem ajudá-lo:

    - Procure desenvolver padrões regulaares para ir para a cama e para levantar. Isso melhora o ciclo de sono e, consequentemente, o de recuperação.
    - Exercícios são fundamentais para o equilíbrio geral. Se você não é um esportista, tente ao menos adotar alguns hábitos que envolvem atividade física, como levar o cachorro para passear ou trocar o elevador pelas escadas.
    - Não descuide da alimentação. Você é o que voce come.
    - Tempo para a família é fundamenntal. É isso que dá sentido à sua vida. Valorize as refeições familiares e planeje as suas férias em comum.
    - Também preste atenção à sua vida espiritual e ao tempo que passa sozinho.
    - Procure sempre avaliar os seus rituais e ver se as suas respostas, emocionais são adequadas. Alguns truques, como dizer sempre "sim, eu sou capaz" podem ser extremaamente valiosos.
    - Identifique os rituais que podem ser melhorados e desenvolva um plano para fazê-lo.

  • Atuação

    Durante anos, eu me debati contra o uso da palavra "atuar" no Treinamento de Força. Para mim, atuar era algo falso, que só se fazia no palco. Mas, depois que a fisiologia envolvida na atuação foi mais bem compreendida, me convenci de que este era exatamente o conceito que eu tentava explicar. Cada um de nós passa cerca de 90% do tempo modificando as emoções e o comportamento para ajustá-Ios a um script. Ninguém é totalmente transparente o tempo todo, principalmente no ambiente de trabalho.

    Para efeitos de explicação, podemos dizer que existem o Eu Real (a maneira como você se sente e a fisiologia daí derivada) e o Eu Atuante (o modo como você precisa se sentir para responder a uma situação). Cada vez que suas habilidades como ator são acionadas e a fisiologia muda para uma outra direção, os Eus Real e Atuante tendem a se tornar um só. Essa batalha nem sempre é fácil.

    O que importa aqui é treinar suas habilidades como ator para ligar ou desligar as estruturas cerebrais que controlam o fluxo das emoções. Nosso "cérebro emocional", às vezes chamado de sistema límbico, tem como principal componente a amígdala. Essa estrutura é capaz de desencadear uma ressposta física para cada uma de nossas emoções. Isso acontece com ou sem a intervenção da consciência.

    Mesmo sabendo que é impossível ser apanhado por um dinossauro, por exemplo, você é capaz de sentir medo ao assistir ao filme Parque dos Dinossauros. Mais surpreendente ainda: pesquisas recentes indicam que basta mover seus músculos faciais como se estivesse com raiva, medo etc. para fazer com que as respectivas reações fisiológicas sejam acionadas de verdade. É esse mecanismo que faz com que a capacidade de atuar seja tão útil para o controle as emoções. A atuação ajuda inclusive a controlar reações como fobia de avião, raiva no trânsito e medo de falar em público.

    Atores experientes utilizam basicamente duas formas interpretar uma emoção. A primeira é a imaginação dirigida, que consiste, por exemplo, em se lembrar de um acontecimento triste real para encenar a tristeza. A segunda é a atuação dirigida, ou seja, acionar os músculos faciais e lembrança da tristeza para fazer com que a amígdala dispare os padrões fisiológicos da tristeza. A diferença entre um bom ator e um canastrão é que o bom ator consegue transformar a emoção registrada no script em um estado físico real. Quanto mais familiar for um sentimento, mais fácil será dispará-lo por vontade própria - e vice-versa. Pessoas que, por exemplo, não choram com facilidade, terão mais dificuldade para encenar a tristeza do que pessoas que choram com frequência. No nosso caso, a meta é exercitar o EPI para que ele esteja disponível sempre que necessário.

  • Preparação mental

    Qualquer pensameno ou imagem mental cria um impulso neurológico que tem consequências de curto e de longo prazo. Pensamenntos novos podem estimular o surgimento de novos circuitos cerebrais. Pensamentos constantemente repetidos se tornam mais fortes e mais acesssíveis. Ficar repetindo, por exemplo, que você odeia seu chefe faz com que isso se torne uma crença que afeta o seu humor e comportamento. Isso decerto não ajuda ninguém.

    É possível, no entanto, mudar suas crenças por intermédio de afirmações. Dan Jensen, por algum motivo, odiava a prova dos 1.000 metros. Ele só se inscrevia nela para efeito de treinamento. Nos seis meses que ante

    • Administração do Tempo

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