O Eu Destroçado


Para desenvolver personalidade estável toda pessoa precisa, desde o nascimento, criar fortes vínculos emocionais.

Revista Scientific American

O bebê, encolhido na fria sala de testes, está chupando o dedo e com os olhos bem abertos. Uma estrutura de arame, revestida de espuma e panos, lhe dá a única sensação de segurança. O bebê está encostado nela desde que sua mãe o abandonou. De tanto medo, ele dispensa até o leite.

A cena acima não foi extraída de thriller psicológico. Ela ocorreu no laboratório de Harry Harlow, na Universidade de Wisconsin, Estados Unidos. Na década de 60 o pesquisador especialista em comportamento humano agitou a comunidade científica e causou horror entre os protetores de animais. Ele separou jovens macacos resos de seus pais e apresentou a eles duas opções de "mães postiças", meros rolos de arame com uma cabeça de madeira. Uma dava leite e a outra era macia e acolchoada.

Harlow desejava saber quais das duas figuras os animais prefeririam: a provedora de alimento ou a que passava uma sensação de conforto. Os jovens primatas rejeitaram o esqueleto de arame e mostraram preferência pela mãe de pano. A necessidade de calor e de segurança era bem mais forte que a fome.

Na mesma época, o psiquiatra infantil John Bowlby, da Clínica Tavistock de Londres, comprovou quanto de dedicação e amor também são essenciais aos bebês humanos. Ele descreveu, a pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS), as consequências do abandono emocional entre crianças de instituições. O atraso no desenvolvimento tanto físico quanto mental observado por ele nos órfãos combina com os estudos de Harlow sobre primatas, formando uma única concepção: a satisfação da necessidade de apego nos homens e em seus parentes próximos é imprescindível à vida.

Segundo a compreensão de Bowlby, devido a uma tendência biológica, os bebês logo procuram de forma ativa o contato da pessoa com quem irão se relacionar, interagir e usar como base para o próprio reconhecimento do mundo. Com isso, o pesquisador contestou o dogma, muito aceito então, de que os bebês, em seu primeiro ano de vida, seriam criaturas passivas que só querem comer e dormir.

De acordo com o psiquiatra, desde bebê o homem dispõe de um sistema fixo de modos de relacionamento. Em especial em situações desgastantes, de separação e de perigo, o sistema é ativado para manter ou criar um novo vínculo com a pessoa com quem se relaciona, em geral a mãe, pois sua proximidade e proteção parecem ser indispensáveis ao desenvolvimento saudável, assim como para satisfazer as necessidades físicas fundamentais. Com base em sua opinião sobre o desenvolvimento na primeira infância, Bowlby se tornou um dos pioneiros das pesquisas que envolvem relacionamentos e vínculos dos bebês.

Estudos comparados em diversos círculos sociais mostram que crianças pequenas em qualquer lugar do mundo têm um repertório de comportamento universal com o qual expressam suas respectivas necessidades de relacionamento com alguém, como chorar, gritar, perseguir ou agarrar-se à pessoa próxima. De forma análoga, os pais são dotados de uma tendência natural de reação a esses sinais.

Na década de 80, Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby, com base nessas informações desenvolveu um experimento conhecido como teste da "situação estranha" para definir como se dá a relação de apego entre o bebê e a mãe (ou outra pessoa responsável pelos cuidados com a criança). O teste segue um roteiro estabelecido: a mãe entra com a criança de cerca de 1 ano numa sala repleta de brinquedos. Depois entra uma mulher desconhecida. Após três minutos, a mãe sai da sala e deixa seu filho sozinho com a outra mulher que, embora seja estranha ao bebê, demonstra relativa simpatia. A mãe retoma depois de três minutos. A mudança entre o momento da separação e o do reencontro é repetida duas vezes.

A ausência da mãe provoca certo desconforto na criança. Tudo é registrado: desde o que ela faz ou deixa de fazer até se busca o contato materno e como faz isso. Com os dados obtidos podem-se definir três padrões típicos de apego entre o bebê e a mãe.

A criança que mantém com a mãe um "apego seguro" expressa sua dor na hora da separação. Em seguida é acalmada e logo volta sua atenção ao ambiente de forma interessada. Já o bebê com "apego inseguro evitante" quase não demonstra dor no momento da separação. Ele tende a reprimir seu sofrimento, examina o entorno de forma aparentemente desinteressada ou desvia o olhar quando a mãe reaparece. Por fim, um "apego inseguro ambivalente" indica que a criança aprendeu que a melhor forma de manter a proximidade com a mãe (ou seu cuidador) é usar estratégias, como chorar ou gritar. Ela quase não explora o ambiente e não se acalma com facilidade. Se, por um lado, é muito agarrada à mãe, por outro, demonstra rebeldia.

Desde então, o teste da situação estranha foi realizado cerca de cem vezes. A maioria das crianças avaliadas, em média entre 50% e 80%, se encaixou no padrão "apego seguro". Entre 30% e 40%, no "apego inseguro ambivalente".

  • Proteção da personalidade

    Como diferentes estudos comprovam, a relação bebê-mãe na infância também diz muito sobre o comportamento social na adolescência e na idade adulta. Se, por exemplo, crianças de 5 a 10 anos devem executar uma tarefa, as que possuem "apego seguro" ficam concentradas por mais tempo. Também &eacut te; raro iniciarem uma briga e lidam de forma mais tranquila com os conflitos do que seus coleguinhas com "apego inseguro", que não costumam pedir ajuda com facilidade.

    O "apego seguro" funciona como uma proteção da personalidade. Já o "inseguro", ao contrário, representa um fator de risco, principalmente se combinado com situações familiares desgastantes, como separação dos pais ou perda de um parente.

    Além dos três tipos citados, psicólogos observaram ainda outro padrão de comportamento que não se enquadrava de forma clara em nenhuma das classificações. No experimento, algumas crianças ficaram confusas com o retorno da mãe depois da rápida separação. No início, procuravam ficar próximas a ela. Mas, depois, evitavam o contato direto, se atiravam no chão ou se afastavam e choravam.

    A psicóloga Mary Main, da Universidade da Califórnia de Berkeley, criou uma categoria própria para esse grupo: indivíduos com "apego desorganizado ou desorientado". Tais crianças reagem de forma contraditória à separação e também apresentam, ao lado de estratégias de controle usuais, um perceptível sentimento de desconfiança em relação à segurança oferecida pela mãe.

    Crianças de 1 ano não conseguem dissipar esse tipo de sentimento paradoxal. Isso fica evidente na crescente reação fisiológica de stress. Na saliva desses bebês considerados "desorganizados" encontram-se níveis mais elevados de cortisol, um hormônio prejudicial ao hipotálamo. Mais tarde, quando crescem, eles podem se comportar de forma agressiva ou se tornar pouco sociáveis, provavelmente porque lhes falta a capacidade de regular sentimentos negativos em relação aos outros.

    Se a necessidade de apego é congênita, então a forma individual do modo de relacionamento é considerada uma capacidade de adaptação adquirida. Temperamento ou outros fatores constitutivos não conseguem explicar sozinhos a existência de diferentes modos de união entre mãe e bebê.

    Aparentemente, o mais essencial é a forma como os pais lidam com a necessidade de proximidade de seu filho, assim como quanto de segurança ele adquire nessa relação. Portanto, o comportamento contraditório de crianças que desenvolvem "apego inseguro ou desorientado" pode ser em geral atribuído a uma reação inconstante dos pais. E, por isso, difícil de prever.

    O modo com que eles se relacionam com os filhos depende em grande parte de sua própria experiência. Mães e pais que guardam lembranças equilibradas de suas experiências mostram-se mais sensíveis no desempenho de seus papéis que aqueles ainda presos a recordações traumáticas ou que se distanciaram emocionalmente das próprias vivências.

    No final dos anos 80 a psicóloga Carol George, da Mills College de Oakland, idealizou um roteiro de perguntas dirigido a adultos chamado adult attachment interview (AAI na sigla em inglês) com o objetivo de avaliar a qualidade de suas primeiras experiências de apego. O eixo da conversa gira em torno da infância do voluntário. Ele deve caracterizar a forma de relacionamento com os pais com diferentes adjetivos. Ao se lembrar de situações de sofrimento ou doença, assim como das separações na infância, o voluntário revive um estado em que a necessidade de apego torna-se ativa. Essa estimulação é intensificada com perguntas sobre ameaças ou maus-tratos, morte ou perdas na própria família.

    As respostas indicam a presença ou não de coerência e consistência nos discursos. Coerentes são os que comprovam de forma explícita seu depoimento, referem-se objetivamente ao conteúdo das perguntas e fazem relatos com clareza e objetividade. Consistência, por sua vez, refere-se ao conteúdo e à construção lógica da narrativa.

    Com base em tais entrevistas, psicólogos de mulheres grávidas puderam prever, com até 85% de certeza, o futuro padrão de apego de seus filhos no experimento da situação estranha. Se a mãe sofreu uma perda, que não foi discutida, ou se fala de forma desorientada sobre temas como abuso e maus-tratos, então seu filho também tenderá ao apego desorientado". Evidentemente as necessidades de um filho pequeno reativam na mãe suas próprias experiências traumáticas e seu medo de transferi-las a ele. Por consequência, a classificação em quatro padrões de apego vale de forma análoga aos adultos.

    Confrontação com o eu

    Em 1999, Carol George e sua equipe criaram o chamado "teste projetivo de apego" ou MP (sigla em inglês para adult attachment projective), com posto por um conjunto de oito desenhos de siluetas representando diferentes cenas relacionadas a situações passíveis de trazer alguma lembrança, como uma despedida numa estação, uma criança em atitude defensiva numa esquina ou encolhida em um banco.

    Numa sequência predefinida, as imagens são confrontadas com temas como separação, ameaça ou perda e ativam o sistema de apego do observador. A cena representada deve ser descrita oralmente, e podem ser acrescentados elementos autobiográficos. O coordenador do teste fica atento às reações do voluntário e como ele expressa seus sentimentos.

    Quanto melhor os pais conhecem suas próprias experiências, de forma mais sensível lidam com o recém-nascido e mais tranquila será a relação do bebê com eles. Para os pesquisadores isso depende da aquisição da chamada "capacidade de mentalização". Esse conceito, criado pelos psicanalistas Peter Fonagy e Mary Target, do Centro Anna Freud de Londres, indica a capacidade de o indivíduo se colocar no lugar do outro.

    Para que as crianças percebam seu ambiente social de forma adequada e possam se relacionar com ele, elas precisam adotar diferentes perspectivas e ser capazes de perceber os estados emocionais dos outros. Justamente isso parece estar inibido em muitos transtornos de personalidade, principalmente nos pacientes borderline. Típica característica do transtorno borderline é a chamada "montanha-russa" emocional: pessoas com esse distúrbio costumam apresentar tensões internas, perda de controle com rompantes impulsivos e tendência ao comportamento autodestrutivo, podendo chegar a tentativas de suicídio.

    Métodos de diagnóstico funcionais por imagem abrem hoje novas perspectivas. Com isso, pesquisadores conseguem medir a atividade cerebral de pacientes ao solucionar problemas cognitivo-emo capacidade de o indivíduo se colocar no lugar do outro.

    Para que as crianças percebam seu ambiente social de forma adequada e possam se relacionar com ele, elas precisam adotar diferentes perspectivas e ser capazes de perceber os estados emocionais dos outros. Justamente isso parece estar inibido em muitos transtornos de personalidade, principalmente nos pacientes borderline. Típica característica do transtorno borderline é a chamada "montanha-russa" emocional: pessoas com esse distúrbio costumam apresentar tensões internas, perda de controle com rompantes impulsivos e tendência ao comportamento autodestrutivo, podendo chegar a tentativas de suicídio.

    Métodos de diagnóstico funcionais por imagem abrem hoje novas perspectivas. Com isso, pesquisadores conseguem medir a atividade cerebral de pacientes ao solucionar problemas cognitivo-emocionais e, assim, mapear a ainda pouco conhecida região neuronal responsável pela regulação dos sentimentos. Com a ajuda da ressonância magnética funcional (RMf), Sabine Herpertz, da Universidade de Rostock, examinou pacientes borderline enquanto eles observavam fotos cujo conteúdo inspirava medo. Comparados a pessoas saudáveis, os voluntários mostraram ativação intensa e rápida da amígdala. Localizada no sistema límbico, ela é responsável por processar vários estímulos emocionais, principalmente as reações relacionadas ao medo.

    Nosso próprio grupo de trabalho - junto com Henrik Walter e Susanne Erk, da Universidade de Ulm, assim como Philipp Martius, da Clínica Especial Psicossomática de Bad Wiessee - procurou descobrir o que ocorre no cérebro de pacientes borderline quando falam sobre assuntos relativos ao apego emocional. Neles foi aplicado o "teste projetivo de apego" de Carol George.

    Usando óculos-vídeo especiais, eles observaram na ressonância magnética imagens sobre doenças, abandono ou maus-tratos, com a incumbência de contar histórias de dois minutos sobre cada uma.

    Como era esperado, as imagens mostraram participação do córtex visual, assim como das áreas responsáveis pela linguagem. Verificamos nos indivíduos com "apego desorientado" tendência a apresentar maior sensibilidade da amígdala, ponto de ativação de experiências emocionais. Não conseguimos observar, porém, esse efeito em todos os pacientes borderline, pois isso requer análise diferenciada e de acordo com experiências de apego especiais.

    Tais diagnósticos trazem a esperança de que um dia seja possível, com os métodos da neurociência cognitiva, construir uma ponte entre a descrição psicológica de transtornos de personalidade e os processos cerebrais a eles relacionados. Assim, pacientes borderline talvez possam, em breve, ser mais bem diagnosticados e tratados. Hoje, a abordagem psicológica habitual costuma durar anos e tem chances de cura incertas.

      Glossário

      Apego: indica a tendência da criança pequena em buscar intimidade e proximidade com uma pessoa que lhe passa segurança. Psicólogos diferenciam quatro padrões de apego, segundo o comportamento observado na experimento criado por Mary Ainsworth.

      Apego seguro: a criança mostra um grande desconforto quando a mãe deixa a sala e, após o seu retorno, procura contato de forma ativa.

      Apego inseguro evitante: ela quase não mostra desconforto e dá pouca atenção à mãe. A criança se deixa consolar facilmente por uma pessoa estranha.

      Inseguro ambivalente: a criança reage ao retorno da mãe, a princípio com defesa e hostilidade. Entre a saída e o retorno da mãe, ela procura outra vez sua proximidade ou grita por ela. Evita, porém, a interação direta. Se a mãe, por exemplo, pega a filha no colo, em pouco tempo ela vai querer voltar ao chão.

      Desorganizado/ desorientado: ela desenvolve bloqueio ou repressão emocional e se comporta de forma contraditória em relação a mãe. Tentativas de aproximação costumam ser interrompidas no meio do caminho ou a criança começa, de repente, a espernear e gritar.

    Para conhecer mais

    Apego e Perda 1 - Apego: a natureza do vínculo. J. Bowlby. Martins Fontes, 2006.
    Apego e Perda 2 - Separação, angústia e raiva. J. Bowlby. Martins Fontes, 2002.
    • Oratória

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