O fascínio ambiguo da nossa memória


Relações entre emoção e fatores cognitivos demonstram a complexidade dos sistemas neurobiológicos responsáveis por diferentes dimensões da memória.

Revista Scientific American - por Mauro Maldonato e Alberto Oliverio

Em síntese

A memória e o esquecimento, a imutabi­lidade e a reestruturação das lembranças são aspectos tanto conflitantes quanto complementares da mente, e essa ambi­guidade tem um valor evolutivo crucial. Numa época de predomínio cultural do paradigma medico-biológico, a memória é ldentíficada como um mecanismo cere­bral puro, um arquivo das informações do sistema nervoso central. Mas as emoções intervêm tanto direta como indiretamen­te nos mecanismos da memória. A persis­tência de lembranças ou experiências que cada um considera marcos da própria vida não é nada estável.

A memória humana é uma faculdade maravilhosa e enganosa. Embora muitos a considerem um arquivo imutável de experiências e recordações, o que ela guarda não está esculpido em pedra. De fato, as lembranças tendem a desbotar com o tempo, deformando-se e indo ao encontro, mesmo em condições normais, de uma lenta decadência, de um esquecimento fisiológico. E não é raro que gerem em nós perturbadoras sensações de estra­nheza, fragmentação, não pertencimento e até mesmo recombinações ilusórias de imagens e in­formações que ocupam nossa mente como um caleidoscópio.

A memória e o esquecimento, a imutabilidade e a reestrutura­ção das lembranças são aspectos tanto contlitantes quanto com­plementares de nossa mente. Essa ambiguidade tem um valor evolutivo crucial. Se, de um lado, a memória desempenha uma função adaptativa fundamental para a espécie humana, de outro, sem a capacidade de esquecer não aprenderíamos nada de novo, não corrigiríamos nossos erros, não inovaríamos velhos esque­mas. Assim, é plausível afirmar que, enquanto a memória tende a preservar a história individual e coletiva, o esquecimento tende a ofuscar, progressivamente, as recordações infantis, os eventos do passado, os empreendimentos coletivos, as antigas memórias. Não por acaso, os humanos erguem lápides e monumentos para se defenderem do esquecimento.

Essa ambiguidade não se deve apenas à sua natureza vasta e he­terogênea, mas também à suas relações intricadas. A própria natu­reza polissêmica do termo memória - utilizado por biólogos, psicó­logos, antropólogos e historiadores para se referirem a processos e situações muito diferentes entre si, ainda que unidos pelo elementocomum da "flecha do tempo" - dificulta o aparecimento de um sig­nificado compartilhado e de fronteiras conceituais bem definidas. A etimologia grega do termo - mneme e anamnesis - espelha uma clara distinção entre a memória como esfera essencialmente intac­ta e contínua, e a reminiscência ou anamnese como exercício de presentificação das lembranças que o esquecimento vela. Em Me­rum; Fedro e outros diálogos, Platão afirma que todo conhecimento verdadeiro, todo aprendizado autêntico, é, na verdade, anamnese, esforço para chamar de volta à mente o que havia sido esquecido.

Hoje, uma época de predomínio cultural do paradigma medico-biológico, a memória (mneme) é identificada como um mecanismo cerebral puro, um arquivo das informações do sistema ner­voso central; por seu lado, a reminiscência (anamnesis) é igualada a alguma coisa mais complexa e sutil do que o simples registro dos eventos. A reminiscência de fato, implica uma reflexão sobre o passado, uma evocação das lembranças prazerosas ou dolorosas, sepultadas ou censuradas, que formam a essência de nossa indivi­dualidade. Mas, como é evidente, a disponibilidade do arquivo não coincide necessariamente com sua consulta e, portanto, a mera existência de uma lembrança, boa ou deficitária que seja, não se identifica com o princípio de identidade e de unicídade que decor­re da individualidade de nossas recordações, conforme considera Oliverio. Nos últimos anos, os neurocientistas descreveram meti­culosamente as bases moleculares, os fenômenos sinápticos e as al­terações dos circuitos nervosos da memória, tentando preencher ­ por métodos não invasivos e multiparamétricos das imagens cere­brais - as lacunas explicativas da pesquisa psicológica. O conheci­mento detalhado dessas dimensões poderia parecer pouco rele­vante aos que veem a mente como um conjunto de vivências dife­rentes e de experiências privadas e indizíveis. Em diferentes situa­ções ligadas a danos e alterações da função nervosa, no entanto, a interpretação neurobiológica é fundamental para a compreensão do que acontece em nossa mente, como são reestruturadas as lem­branças, como se dá o esquecimento.

• Psicobiologia da memória

Os primeiros estudops experimentais sobre a memória remontam à segunda metade do século 19, quando o alemão Hermann Ebbing­haus divulgou entre a comunidade científica um texto - Über das Gedachmis (1885) - relatando experimentos sobre a memória e o esquecimento que realizara sobre si mesmo. Nessa obra, um verda­deiro marco da psicologia, ele mostrou a existência de uma curva do aprendizado e de uma curva do esquecimento. Ebbinghaus re­correu a um método - definid do como da "poupança" - que consistia em decorar diversas séries de listas que continham silabas destituí­das de sentido (ARE, DRE, MIR, NOT e assim por diante); o proce­dimento era repetido, mais de 100 vezes, com uma lista diferente depois de 20 minutos, 1 hora, 9 horas, 1 dia e mais dias. O experimento demonstrou que se entre a primeira e a nona hora havia uma queda rápida do que fora aprendido, à medida que o tempo passava após o fim da prova o processo de esquecimento se tornava mais lento: isto é, exatamente no polo oposto daquilo que se dava com o processo de aprendizado.

Para um enquadramento psicobiológico da memória foi necessário esperar até meados do século passado, quando o neurofisiologista canadense Donald O. Hebb formulou a hipótese do "duplo rastro". Segundo essa hipótese, uma experiência altera um circuito nervoso responsável por uma codificação a curto prazo (de poucos segundos ou minutos de duração), modificando a atividade elétríca de alguns neurônios capazes de codificar a informação de maneira precária, instável. A esse tipo de codificação segue-se outra, estável a memória de longo prazo (de meses ou anos de duração), ligada a modi­ficações estruturais du­radouras dos neurônios ou dos circuitos nervo­sos (consolidação da me­mória). Segundo Hebb, os dois tipos de memória correspondem a modifi­cações funcionais das si­napses nervosas (memó­ria de curto prazo) e a modificações estruturais ou permanentes das si­napses nervosas e dos neurônios (memória de longo prazo). A hipótese postulada por Hebb há aproximadamente meio século sobre a plasticidade funcional ou estrutural neural e sináptica ­ que implica uma rees­truturação de escala das redes nervosas - recebeu inúmeras confirmações experimentais.

Uma das mais importantes referências ao modelo hebbiano está relacionada a pesquisa sobre as bases neurobiológicas da memória, em boa parte fundamentadas na análise das alterações da atividade elétrica neural e sináptica: particularmente da denominada potencialização de longo prazo (Long-term potentiation, LTP) da atividade elétrica das sinapses nervosas. Durante a LTP, em decorrência de um estímulo especialmente intenso ou repetido ao longo do tempo, uma sinapse potencializa seu nível de resposta, incrementando sua eficiência em até duas vezes e meia. Esse incremento da atividade elétrica sináptica se desenvolve em poucos minutos após o estímulo inicial e permanece relativamente estável por um bom tempo; em determinadas condições, por várias semanas. Na essência, quando um estímulo signifitivo é recebido por um neurônio, como no caso dos estímulos que se seguem repetidamente durante o condicionamento, pode-se verificar um aumento da eficiência das suas sinapses. Com tempo, aliás, podem se formar outras sinapses que contribuem para conectar os neurônios em um novo circuito - O chamado circuito local que codifica uma experiência ou memória específica. Portan­to, de uma alteração funcional inicial (a atividade elétrica vinculada a modificações dos íons, entre eles o cálcio) os neurônios vão em di­reção a modificações estruturais provocadas pelas alterações de al­gumas enzimas e pela síntese de proteínas que alteram o esqueleto dos neurônios, estimulando a formação de sinapses que se soldam entre si. As variações do circuito nervoso permitem registrar a informação no interior de redes neurais.

A reestruturação das redes nervosas que se segue à experiên­cia é o fundamento de uma teoria da mente - ou do cérebro - co­nhecida com o nome de "conexionismo" Segundo esse modelo a mente dependeria da existência de redes que se auto-organizam, pois cada unidade da rede (os neurônios) se caracteriza por um nível numérico de ati­vidade que muda, no tempo, em função da atividade das unidades às quais está conectada e pela força das cone­xões ou nós. Na origem do aprendizado have­ria essas mudanças. Para os conexionistas o cére­bro se adaptaria ao am­biente por meio da rede (ou circuito local), espe­Ihando suas característi­cas salientes graças a va­riações sinápticas. Do ponto de vista empírico o neurocien­tista americano Erik Kandel demonstrou que nos invertebrados (co­mo nos vertebrados su­periores) o registro de uma experiência está correlacionado aos mecanismos do LTP e da formação de sinapses. Essas evidências foram obtidas pelos experi­mentos de Kandel, em 2007, com lesmas-do-mar, Aplysia califor­nica, que reagem a um estímulo tátil (um fino jato de água) re­traindo a brânquia com uma conduta de autoproteção explícita: conduta que se extingue se os jatos de água continuam no mes­mo ritmo. O acostumar-se da Aplysia dura o tempo em que se deu a mudança no âmbito dos circuitos nervosos. De fato, as si­napses entre o neurônio sensitivo (que reage ao estímulo tátil) e o motor (que ativa os músculos da brânquia) se tornam mais está­veis e se comunicam mais facilmente através dos mensageiros nervosos para a consolidação da experiência. Esses experimen­tos, que deflagraram diferentes pesquisas com outras espécies ani­mais, incluindo-se os mamíferos, indicam que a consolidação de uma experiência se baseia em mecanismos similares e que nos ma­míferos as experiências são consolidadas graças a modificações bioelétricas que envolvem o hipocampo, estrutura do sistema lím­bico que vai em direção de LTPs em diferentes fases da memoriza­ção e que está funcionalmente ligado ao córtex temporal.

• O papel da amigdala e do hipocampo

Até aqui consideramos a memória sem examinar a influência das emoções em suas esferas psicológicas. Os processos emotivos in­fluenciam e modulam profundamente a biologia da memória. Na verdade, elas provocam inúmeras modificações vegetativas somáti­cas, cuja tarefa não é apenas informar o cérebro de que o corpo está emocionado - conferindo precisos matizes a determinadas experiências - mas também consolidar as experiências. Pensemos, em relação a isso, no papel exercido pelas endorfinas (peptídeos de ação analgésica similar à morfina que o cérebro libera em resposta a estímulos de dor ou emotivos) ao alterar a função dos mediadores nervosos que modificam a atividade das sinapses nas r ="justify">• O papel da amigdala e do hipocampo

Até aqui consideramos a memória sem examinar a influência das emoções em suas esferas psicológicas. Os processos emotivos in­fluenciam e modulam profundamente a biologia da memória. Na verdade, elas provocam inúmeras modificações vegetativas somáti­cas, cuja tarefa não é apenas informar o cérebro de que o corpo está emocionado - conferindo precisos matizes a determinadas experiências - mas também consolidar as experiências. Pensemos, em relação a isso, no papel exercido pelas endorfinas (peptídeos de ação analgésica similar à morfina que o cérebro libera em resposta a estímulos de dor ou emotivos) ao alterar a função dos mediadores nervosos que modificam a atividade das sinapses nas redes dos neurônios que registram as experiências.

As emoções intervêm tanto diretamente nos mecanismos da memória, agindo na bioquímica cerebral, quanto indiretamente, por mensagens que o corpo emocionado envia ao cérebro. Trata­-se de evidência já consolidada de que nos animais submetidos a experiências ricas de componentes emocionais a memorização é potencializada, já que os nervos (as fibras do nervo vago) indicam ao cérebro a liberação, em âmbito periférico, de substâncias típi­cas dos estados emocionais, como a adrenalina, secretada pelas glândulas suprarrenais. Nesse sentido, a biologia da memória não diz respeito apenas àqueles fenômenos neurobiológicos que asseguram a codificação de curto ou longo prazo das experiên­cias, mas também à modulação exercida pelas estruturas nervo­sas e moléculas vinculadas à emoção.

As relações entre emoção e fatores cognitivos mostram o quanto são complexos os sistemas neurobiológicos responsáveis pelas diferentes dimensões da memória. Há quase meio século, o neurocirurgião americano William Scoville e a neurocientista inglesa Brenda Milner descreveram o caso clínico de um paciente, que mais tarde fi­cou famoso com suas iniciais, HM, que desde o nascimento padecia de uma grave forma de epilepsia que tornava sua vida bastante penosa. O procedimento neuro­cirúrgico para remover o tecido nervoso que causava as convulsões teve sucesso. A capacidade de percepção de eventos, ra­ciocínio, fala e de recordar. os eventos mais recentes foi conservada, assim como a memória semântica, apenas parcial­mente alterada. Na íntegra, ao contrário, estava a capacidade de revocar tanto os eventos anteriores à cirurgia, quanto os seguintes a esse procedimento. Tratava-se de uma amnésia episódica tanto retrógra­da (o passado) quanto anterógrada (expe­riências seguintes).

A situação de HM, no entanto, era es­tranha. As lacunas de sua memória não diziam respeito a sua vida inteira, mas apenas aos anos mais recentes, aproxima­damente uma dezena deles. Os déficits da memória infantil e do início da adolescên­cia eram muito menos relevantes. A sin­gularidade do caso HM induziu neuropsi­cólogos a refletir: se a sede da memória fosse a região temporal média, sua abla­ção cirúrgica teria inibido a formação de novas lembranças, mas também apagaria todas as lembranças do passado. HM, no en­tanto, guardava as lembranças mais antigas, as consolidadas, dis­tribuídas nos circuitos corticais: isto é, aquelas que - após horas, meses ou até mesmo anos - a região temporal média (hipocam­po, amígdala e córtex temporal) codifica em experiências, decom­põe em categorias, conota com base em seu significado e, enfim, distribui nas várias regiões do córtex cerebral.

Em decorrência dos estudos sobre HM e sobre as relações entre hipocampo, lóbulo temporal e memória, as pesquisas passaram a examinar as estruturas nervosas que, se prejudica­das, provocam amnésia. Esses estudos demonstraram que a região temporal está vinculada ao sistema límbico (amígdala e hipocampo) e essa região com o diencéfalo (tálamo) através do fórnix: região temporal, sistema límbico e tálamo formam uma espécie de circuito da memória de que, obviamente, faz parte todo o córtex cerebral, em conexão com o temporal. Todas essas estruturas nervosas estão envolvidas na chamada memória explícita, que implica um reconhecimento consciente das experiências de vida. De fato, sensações e experiências, para serem transformadas em memórias explícitas, devem atraves­sar uma espécie de funil, a região temporal, e, daí, passando pelo hipocampo e pela amígdala (em que são conotadas por características espaciais e emotivas entre outras) alcançar o diencéfalo (tálamo) onde as experiências são reunidas e registradas sob forma de memórias estáveis nos circuitos cerebrais. Esse circuito córtex temporal-hipocampo-diencéfalo permite conectar as diferentes experiências da vida diária (sensações, imagens mentais, emoções, avaliações e juízos de realidade) para transformá-Ias em memória episódica, em eventos de nossa história individual. Trata-se de estruturas que desempenham papel também na memória semântica, como quando aprendemos nomes novos, registramos estavelmente número de telefones e aprendemos novos vocábulos. Por isso, conforme a amplitude da lesão nervosa, os pacientes amnésicos têem dificuldade não apenas para formar novas lembranças ou para acessar recordações existentes, mas também para apreender novas experiências.

Nos últimos anos o estudo da função dos núcleos subcorticais - entre os quais o conjunto do estríado-caudato-putâmei e núcleo accumbens - solicitou um modelo de memória mais complexo, que integra seus diferentes componentes cognitivos, emocionais, motivacionais. É coisa notória, aliás, que lembramos os eventos emotivamente significativos, e que a motivação e o reforço têm um papel central no aprendizado. lnterface entre funções cognitivas, motoras e motivacionais  é o estriado ventral. Ele está no centro tanto dos comportamento "motivados" voltados a uma finalidade, como do tratamento de informações que dizem respeito ao contexto, fundamentados em associações complexas entre estímulos diferentes.

No âmbito dessa rede funcional o hipocampo desempenharia a funç

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