O fascínio da segunda pele


A roupa ocupa um lugar de interface entre o sujeito e o mundo; a forma como nos vestimos desvela movimentos íntimos e desejos muitas vezes desconhecidos.

Revista Scientific American - por Catherine Joubert e Sarah Stern

As roupas estão em toda parte: multiplicam-se em nossos armários estão nas lojas, são exibidas como objetos de desejo nas revistas, criam códigos sociais, são dadas de presente, trocadas e nos deixam loucos nos dias de liquidação... Sua onipresença, sustentada por um interesse geral crescente, pode porém surpreender, e nos levar a questionamentos. Afinal, por que elas ocupam tanto espaço em nossa vida? O que será que nos prometem em suas dobras silenciosas? O que buscamos compensar ou exibir aos olhos dos outros? Qual o uso que fazemos delas, às vezes até sem perceber?

Em comportamentos como colocar sempre o mesmo vestido, usar apenas preto, ser fanático por shoppings, guardar cuidadosamente peças de vestuário daqueles que morreram prevalecem aspectos de nossa história pessoal. Por trás de uma aparente futilidade desvelam-se movimentos íntimos e, muitas vezes, desejos desconhecidos. A roupa, essa segunda pele, pertence ao mesmo tempo ao dentro e ao fora, tanto protege a intimidade quanto abre para o espaço social e relacional, ocupa uma posição fronteiriça, de interface entre o eu e o mundo, podendo mascarar o sujeito ou, ao contrário, revelá-lo.

A maneira de se vestir insere-se numa história, indica a margem de liberdade do indivíduo diante da família, de seus pares e nas interações sociais. A roupa acompanha a trama da construção de si e expressa a relação com sua imagem, expondo as marcas de fracassos ou sucessos na edificação do narcisismo. Por meio dela, descobrimos vestígios de identificações e memórias. Porém, esse trabalho de decifração de vínculos por meio das roupas só é possível dentro de um contexto determinado e para um sujeito considerado em uma história na qual se insere.

    O mundo trata melhor quem se veste bem

    Nos primórdios da humanidade, os seres humanos recorriam às peles dos animais abatidos para se proteger do frio. Ao longo do tempo, essa proteção foi se tornando cada vez mais sofisticada, surgiram os adereços e as roupas passaram a ser uma importante forma de comunicação. Como ocorre nos dias atuais - tanto em povos indígenas como nas populações urbanas, nos mais diferentes meios -, a maneira como uma pessoa se vestia podia indicar sua procedência, o clã ao qual pertencia e até seu status no grupo. Diferentes trajes sinalizavam até mesmo eventos como preparação para a guerra ou cerimônias religiosas. Em algumas culturas antigas eram valorizadas cores específicas. Em Constantinopla, capital do Império Bizântino, fundada em 667 a.c. pelos gregos, por exemplo, as peças tingidas com matizes de roxo eram as mais valorizadas, pois para obter essa tonalidade eram utilizados pigmentos raros, que só os nobres podiam comprar. Mas não é preciso ir muito longe para obter exemplos de que as roupas transmitem informações: nas décadas de 60 e 70, por exemplo, os trajes dos hippies remetiam à idéia de conforto, simplicidade e certa ingenuidade: as flores e os símbolos da contracultura eram constantes. O importante era propagar uma mensagem. Nada muito diferente do que também acontece hoje: não é novidade que determinadas etiquetas tornam as peças extremamente valorizadas e revelam o "poder" de quem as usa. Afinal, quem discorda que "o mundo trata melhor quem se veste bem"? Mas o que é se vestir bem? Usar peças confortáveis, de qualidade e, principalmente, adequadas a cada ocasião? Talvez. Mas esses critérios certamente dependem mais da cultura de cada grupo que de preferências individuais.

  • De luto e de festa

    Não se trata aqui de propor "diga-me como te vestes e te direi quem és", mas sem dúvida é possível, com base nos exemplos da vida cotidiana, seguir algumas pistas de reflexão sobre um elemento que carrega a má fama de futilidade. As histórias ligadas à infância ilustram alguns elementos em jogo quando os pais escolhem as roupas dos filhos. Os tecidos absorvem em suas fibras a memória dos primeiros cuidados maternos. A criança é vestida pela mãe e, assim, inserida em uma tradição familiar. Por meio da roupa, os pais imprimem sua marca no corpo do filho, modelando-o inconscientemente segundo seu desejo. Farão dele um bebê? Um adulto em miniatura? Seu super-herói num uniforme cintilante?

    Nos primeiros meses de vida, a roupinha da criança é, em geral uma preocupação exclusiva da mãe. Ela ocupa-se do filho, o lava e o veste - e há um investimento emocional nesses gestos. Os cuidados maternos criam um mundo sensorial rico em sensações táteis e olfativas. As roupas carregam o aroma da mãe e testemunham essa relação no corpo da criança, criando assim uma continuidade e afirmando laços afetivos. Mãe e criança formam, então, um par isolado do resto do mundo.

    Ao longo do desenvolvimento infantil, as roupas continuam carreganndo os estigmas dessa troca subjetiva, cuja significação a criança descobrirá no olhar dos outros quando deixar o ambiente familiar para entrar na escola. Nas primeiras experiências de socialização, suas roupas não devem de forma alguma distingui -la das outras crianças - e sim fundi-la ao grupo.

  • Tecido de desejos

    O vestuário desempenha outro papel importante: pode revelar tramas inconscientes. Torna-as palpáveis, passíveis de apreensão à sua maneira, diz à criança sobre os sonhos de seus pais em relação a ela. E ainda favorece questionamentos infantis so obre a identidade sexual. Em certa medida, também oferece aos pais a ilusão do filho ideal que têm em mente. Em geral, o adulto consegue estabelecer uma distância entre a satisfação de seu desejo e a realidade - mas e quanto à criança? Esta é, desde o início da vida, joguete de uma encruzilhada de desejos e projeções identificatórias de seus pais.

    Assim, a suntuosidade de um traje exprime o orgulho dos pais, um ideal de êxito, como se a criança devesse dar conta de promessas que eles próprios talvez não tenham sido capazes de cumprir.

    Por meio da roupa, diversas innformações são trocadas inconscientemente, mas pouco a pouco vão constituindo em torno da criança um tecido de desejos parentais, de modelos nos quais ela terá de se apoiar para construir suas próprias referências. Pois, apesar da energia das forças que a pressionam, a criança geralmente preserva a liberdade de suas escolhas e identificações. Porém, em certos casos patológicos, quando sua auto-confiança é muito frágil, ou a pressão do desejo exterior, muito forte e pouco diversificada, o leque de possibilidades se reduz, o que pode acarretar graves distúrbios de identidade.

      A serpente vermelha

      "Quando ponho minhas botas vermelhas de couro de píton, sei o que é estar na pele de uma mulher linda. O olhar dos homens desliza sobre mim até os pés, eltriza-se e sobe como uma carícia, detalhando minhas curvas. Minhas formas nascem das minhas botas. O salto-agulha apóia-se num ponto sensível do pé e dá o impulso. O tornozelo estica-se e transmite o movimento à coxa. As nádegas arredondan-se e as costas se arquiam., o busto apontado para frente. De perfil, meu corpo assume a bela forma de serpente, ondulando ao ritmo do meu caminhar.

      As roupas me apertam e acentuam minha cintura fina. Elas são o entorno, a couraça, o cofre para os meus membros divididos. Só interessa sua capacidade de manter meu corpo o mais justo possível. Seu abraço me tranqüiliza na medida em que me comprime. As roupas me sustentam, me seguram, esmagam minha pele contra a sua; apagam o que é inútil, apagam o tempo que passa. Todas as manhãs, a prova de Cinderela se repete: entrar no manequim 36 do meu jeans me diferencia do destino comum dos mortais - os que engordam ou envelhecem.

      Minhas roupas se sucedem, identicas, nas mensmas medidas, escolhidas para a eternidade. Atravesso a vida como uma sobra sob o sol fixo, sempre indêntica a mim mesma. Meus amigos gostam disso sabem o que esperar. Poucas histórias, nada de altos e baixos, mantenho-me à distância , tranqüila, disponível. Então, às vezes, na apatia dos meus dias solitários, enfio minhas botas de píton pára ver o que acontece. De repente, a sombra se apaga: ganha brilho, torno-me uma serpente.

      Os homens percebem isso e são atraídos pelo perigo. Com as botas, uso sempre um batom vermelho-carmim, brilhante como uma fruta. Sou Eva, a serpente e a maçã. Mas nada de mastigar muito rápido o fruto proibido, conheço a história e faço questão de desfrutar o jardim do Eden. Nas varandas, os homens me seguem com o olhar, esquecendo-se das mulheres que estão sentadas ao seu lado. Sento-me, cruzando bem alto minhas pernas-serpentes e, colocando um cigarro entre meus lábios vermelhos. O primeiro me oferece fogo, o segundo chama o garçom, o terceiro... Ah, não! Está pensando que vou cair nessa? Com um olhar soturno, mantenho a distância e vou à forra.

      Sozinha, saboreio o café, o cigarro e os olhares que me acariciam. De vez em quando, pergunto-me se eles percebem que tenho, a língua bifurcada, mas minha boca vermelha a dissimula perfeitamente. As ruas do meu Éden estão cheias de Adões deslumbrados, que não acreditam em seus olhos quando vêem no que a costela deles se transformou. Lanço um olhar para o caldeirão do desejo deles, que logo se inflama, aquecendo meu coração frio.

      Sigo adiante sem parar, indiferente às súplicas. já tenho muito com que me preocupar - com o ar que bate no meu peito, com o frio que se intensifica dentro dele. Sinto todos os meus movimentos, da ponta das botas à raiz dos cabelos, presos num rabo-de-cavalo. Estou esticada como uma linha da cabeça aos pés. Minhas roupas, cúmplices, me envolvem, me preservam e me estimulam. Apresso o passo, tensa, exaltada, no limite da dor. O barulho das minhas botas no calçamento acompanha minha corrida, sempre para mais longe, cada vez mais rápida. As batidas tornam-se ensurdecedoras. Nessa velocidade, minha cabeça gira levemente e o mundo ao meu redor torna-se difuso.

      Perco a noção do tempo; poderia marchar como um soldadinho por horas. O ar se abre e se fecha atrás de mim, isolando-me da multidão. Observo o ritmo dos meus passos, a oscilação da minha cabeça, a tensão dos meus tornozelos nas minhas botas-de-sete-léguas. Sou movimento e sensação, espada que rasga o vento, estrela cadente, grito na noite. Minha embriaguez é um deserto do qual sou a única habitante. O canto das sereias cada vez mais forte sobe das minhas botas. Os outros são apenas um pretexto - a presa sou eu."

      As roupas muito justas da narradora têm uma função específica: mantêm-se o mais perto possível do corpo assim a exibem aos olhos dos outros, redesenhando contornos. Nessa história, que lembra muito certos casos de anorexia mental a roupa participa da vontade de controle da personagem sobre seu corpo. Este não deve se modificar, aconteça o que acontecer. A roupa é então utilizada como um lastro dessa vontade de onipotência sobre o corpo, pelo qual o sujeito desafia o tempo e suas transformações.

      Na anorexia mental, a roupa é freqüentemente superinvestida como zona fronteiriça entre o eu e o mundo exterior, permite verificar que o corpo está perfeitamente controlado: não engordou, não se modificou. A roupa escolhida pode ser justa, exibindo as formas de maneira desafiadora, ou bem larga, para dissimular a perda de peso.

      Com mais freqüência, na vida cotidiana, o teste do manequim é para muitas mulheres uma prova na qual não se pode fracassar, sob pena de uma vaga sensação de frustração pessoal. Ter de comprar roupas um número maior significa efetivamente que o corpo mais uma vez escapou à vontade, e que a imagem devolvida pelo espelho não corresponde mais à imagem de si que se tem em mente. Para algumas, essa impressão é insuportável; vêem-se compelidas a impedir a todo custo a modificação do corpo, ou melhor, da imagem corporal, sob o risco de não se reconhecerem.

      A roupa serve então para fazer o elo entre os diferentes estados do corpo: a roupa justa, imut&aac rdou, não se modificou. A roupa escolhida pode ser justa, exibindo as formas de maneira desafiadora, ou bem larga, para dissimular a perda de peso.

      Com mais freqüência, na vida cotidiana, o teste do manequim é para muitas mulheres uma prova na qual não se pode fracassar, sob pena de uma vaga sensação de frustração pessoal. Ter de comprar roupas um número maior significa efetivamente que o corpo mais uma vez escapou à vontade, e que a imagem devolvida pelo espelho não corresponde mais à imagem de si que se tem em mente. Para algumas, essa impressão é insuportável; vêem-se compelidas a impedir a todo custo a modificação do corpo, ou melhor, da imagem corporal, sob o risco de não se reconhecerem.

      A roupa serve então para fazer o elo entre os diferentes estados do corpo: a roupa justa, imutável, dá a ilusão de que o corpo em si não muda, permirindo certa continuidade tranqüilizante da imagem de si. Com efeito, o aspecto da vestimenta, codificado, é portador de determinada imagem do sujeito. Ele pode tornar o traço identificatório principal, isto é, o traço mediante o qual a pessoa se reconhece como sendo ela mesma. A imutabilidade rígida desse traço indica a pequena margem de manobra de que o sujeito dispõe em relação a uma imagem de si frágil.

      Como acontece isso? Tudo se passa como se o sujeito não dispusesse em seu psiquismo de uma imagem estável e confiável de si mesmo. Ora, esta imagem, na qual se inserem mais tarde diferentes identificações, está na base do sentimento de identidade. Ela se forma no seio da relação infantil com a mãe, cujo olhar sobre o filho participa da elaboração da imagem interna da criança. Uma imagem de si particularmente frágil pode decorrer de falhas na relação com a mãe. Por exemplo, quando esta é vítima de uma depressão que a impede de estar disponível para seu filho.

      Pode então acontecer de o olhar dos outros ser incessantemente procurando para reparar a falha desse primeiro olhar. O sujeito busca a si mesmo no outro porque não dispõe de uma identidade interior estável. A roupa permite-lhe agrupar as diferentes imagens de si mesmo em uma entidade única, que ele poderá fixar mentalmente. Essa imagem exerce para ele função de representação mental de si e por isso não deve ser modificada, a fim de assegurar a permanência da identidade.

      A personagem da história se reconhece profundamente na silueta delgada, desenhada pelas roupas colantes, contrói para si uma imagem um e que provavelmente corresponde a um ideal amplamente veiculado pela publicidade e pela mídia: magreza e juventude. Isso faz nascer nela um sentimento de exaltação narcísica. As botas vermelhas contribuem muito particularmente para a constituição dessa imagem de "mulher linda". Elas apimentam o traje e acrescentam-lhe um elemento sexual. Esse acessório nos diz algo sobre a identificação feminina da heroína: uma mulher sedutora, perigosa como uma serpente, desejada pelos homens, mas que não cede a eles.

      O vermelho acentua o caráter vistoso e sexual dos calçados. Ora, os acessórios femininos e a sexualidade, aqui, remetem inevitavelmente à questão do fetichismo, no sentido freudiano do termo. Para Freud, o fetiche feminino (em geral sapatos, mas também jóias, lingerie etc.) é o substituto do "pênis que falta" à mulher. Ele ocupa "o lugar de", numa equação simbólica que deixa de lado a lógica para preencher essa ausência, mantida distante da consciência, pois remete à castração e à angústia que a acompanha. Assim, pode-se achar que, de qualquer forma, há um pequeno pênis em algum lugar (o fetiche), mesmo quando se sabe que não há... As botas de couro vermelho desempenham esse papel de substituto fálico. Sexualizam a silhueta, ao mesmo tempo que constroem a imagem de uma "supermulher" fálica que teria escapado à castração.

      Dessa forma, a paixão pelos sapatos, tão difundida entre mulheres e homens, pode ser compreendida em relação com o complexo de castração, como uma tentativa indefinidamente reiterada de "passar um pouco dos limites"...

    Na adolescência, a roupa acompanha as provações da puberdade, permitindo ao sujeito mascarar ou revelar sua sexualidade. O jovem se vê às voltas com a questão da autonomia em relação aos pais. A roupa torna-se, então, o carro-chefe dessa apropriação de si, multiplicando códigos e referências.

    As relações amorosas, mesmo na vida adulta, introduzem complicações e embaralham o jogo: a roupa seduz ou esconde, desvelando fantasias do casal. Lutos e perdas, assim como conquistas e rituais (formaturas, casamentos, batizados) também são marcados pelas roupas que usamos em cada ocasião, como telas nas quais dia após dia se inscrevem nossos sofrimentos e alegrias.

    Para conhecer mais

    Dispa-me! O que nossa roupa diz sobre nós. Catherine Joubert e Sarah Stern. Jorge Zahar, 2007.
    • Oratória

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