O gordo é o novo fumante


Nunca houve tanta gente acima do peso - nem tanto preconceito contra gordos. De um lado, o que há por trás é uma positiva discussão sobre saúde. Por outro, algo de podre: o nascimento de uma nova eugenia.

Revista Superinteressante - por Rodrigo Rezende

Detrá da trincheira de copos de Coca-Cola em sua mesa, o prefeito de Nova York discursa: "A obesidade é um problema nacional. E as autoridades só esfregam as mãos e dizem: oh, isto é ter­rível". É apenas uma entrevista coletiva de imprensa, mas ele age como um chefe de Estado às vésperas de um combate. "É o que o povo quer que eu faça", diz o bi­lionário Michael Bloomberg. E ele faz: declara uma guerra. Contra o refrigeran­te. Sua principal arma: proibir a venda de copos maiores que 500 ml.

A nova cruzada de Bloomberg levanta uma questão: faz sentido tratar refrige­rante como droga? Do ponto de vista da saúde pública, a resposta é um sonoro sim. Segundo o especialista em obesida­de Robert Lustig, da Universidade da Ca­lifórnia, o açúcar que adoça refrigerantes deveria estar na mesma categoria que o álcool, nicotina, cocaína e heroína: "Ele também é uma substância tóxica com alto potencial de abuso. Por essa lógica, também deveria ser controlado". Exage­ro? O efeito das taxas de obesidade na economia dos EUA indica que não: US$ 190 bilhões anuais em gastos diretos é US$ 4,3 bilhões de prejuízo anual por da­ nos à produtividade. Um quinto desse prejuízo é causado apenas pelo açúcar presente em bebidas. Ao levar em conta o estrago que os refrigerantes fazem na saúde americana, o cenário é ainda mais sombrio. Mais de 130 mil casos de diabe­tes, 14 mil casos de doenças coronárias, 6 mil mortes diretas e 50 mil anos de tra­balho perdidos por invalidez. Tudo isso só na década de 1990.

Ok, os números deixam claro que uma latinha de refrigerante pode, sim, escon­der um veneno mortal. Mas o buraco é mais embaixo: praticamente toda a in­dústria alimentícia explora o poder vi­ciante do açúcar. "Quanto mais açúcar tem um produto, mais ele vende", diz Lustig. O cientista ainda aponta o uso do açúcar para disfarçar sabores desagradáveis. "Com quantidade suficiente, é pos­sível fazer cocô de cachorro ficar gostoso. Em essência, é isso que a indústria vem fazendo". Sem dúvida, sobram argumen­tos sólidos para defender o controle da obesidade. Até aí, tudo parece certo com a lei de Bloomberg. Mas também é preci­so analisar o quanto medidas que tentam restringir nossa alimentação se funda­mentam em associações equivocadas en­tre obesidade e doença. Ou mesmo em puro preconceito: boa parte dos gordos não apresenta nenhum problema de saú­de relacionado à obesidade. Mesmo assim, ela muitas vezes é vista como fraqueza moral. O empresário Roberto Justus, por exemplo, já afirmou que não contrataria pessoas obesas pela falta de empenho que teriam em emagrecer. E Justus não está sozinho: num estudo da Faculdade Notre Dame, na Califórnia, pesquisadores dis­tribuíram currículos falsos entre alunos "para que eles escolhessem um novo pro­fessor". Os currículos não tinham foto, mas traziam o peso de cada "candidato". Resultado: os de 200 quilos eram preteri­dos em favor de concorrentes com quali­ficação idêntica, mas 120 quilos a menos.

Outro exemplo de preconceito são medidas extremas contra minorias, como a proibição de fumar em áreas abertas e sem aglomeração humana. Não é improvável que, num futuro próximo, o mesmo tipo de exagero cometido em leis antitabagistas radicais se estenda ao controle da obesidade. Aí, o "novo fumante" será o obeso. Para algumas companhias aéreas, aliás, eles já são: só en­tram no avião se comprarem dois bilhetes (reservar assentos maiores para eles está fora de cogitação, claro). A intolerância com os obesos, no fim das contas, é um grande estímulo para o abuso de medica­mentos para emagrecer - o oposto do que podemos chamar de saúde.

Até aqui falamos muito do lado social do problema, mas uma questão passou batido. E o lado pessoal? Proibir alguém de tomar um balde de refrigerante ou de comer doce de cocô de cachorro não se­ria um atentado contra a liberdade indi­vidual? Entre os que respondem sim, está o humorista e fã de refrigerante Jerry Seinfeld. "Sou contra a proibição. Sou a favor da continuação do processo de se­leção darwinística das pessoas por meio do consumo de bebidas com açúcar".

A piada de Seinfeld não tem nada de politicamente correta. Assim como abrir um refrigerante tem bem pouco de sau­dável. Mas não dá para negar: fazer piada politicamente incorreta e tomar refrige­rante com açúcar são expressões da li­berdade individual. Até que ponto é ético e correto proibi-Ias? Difícil saber: Mas uma coisa é certa: a resposta não será en­contrada em um gabinete político.

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