O idealismo das professoras Rosinhas


É só parar numa escola qualquer, Brasil afora, para ver que professores entram no ramo por idealismo.

Jornal Folha de São Paulo - por Ricardo Semler*

Os professores brasileiros são vermelhos, marxistas. Como a vasta maioria é mulher, são Rosas de Lu­xemburgo. Donas Rosinhas. É assim que muitos dos experts em educação enxergam as professoras da rede. Quando estava para assumir a empresa, em 1978, enfrentei uma greve e levei um susto. O chefe do Departamento Pessoal, um advoga­do que falava em "priscas eras" e classificava as grávidas de "pre­nhes", havia chamado a polícia montada.

Lá estavam eles, do alto de pu­ros-sangues ingleses, com cassete­tes em punho dispersando os ope­rários. Os nossos operários, com quem eu tomava café à tarde. Nun­ca me recuperei daquilo. Marquei para irmos à sede do sin­dicato dos metalúrgicos. Houve in­credulidade dos dois lados. Fizemos a primeira visita de empresários ao sindicato para negociar. Começamos a entender os por­quês e, depois de alguns anos crian­do credibilidade mútua, ficamos 25 anos sem greves.

Basta rever estereótipos. Também com os professores. Depois que a linha de montagem esquartejou o currículo, o sistema escolar emburrecido fez nascer uma máquina de moer ideais. Perguntei aos experts se estudos demonstram a preponderância de socialistas. Eles explicam que há pesquisas, das Unescos da vida, nas quais os professores respondem que a igualdade é mais importante do que a liberdade. E censos em que declaram que querem formar cida­dãos questionadores, que mudem a sociedade.

Para esses pesquisadores, tudo isso é indício de esquerdismo, essa terminologia antiquada. Ora, quem quer alunos ativos na tentativa de melhorar o mundo é ide­alista. E qualquer neoliberal deve­ria querer o mesmo. Ou o mundo es­tá bem resolvido e só interessa pre­parar a meninada para o tal do mer­cado?

É só parar numa escola qualquer, Brasil afora, para saber que os pro­fessores entraram no ramo por ide­alismo. O ideal de ajudar a formar pequenos seres, o de apoiar e acom­panhar o desenvolvimento mágico que leva cidadãos ao mundo por meio de mãos cuidadosas. É uma função tribal e bonita.

Mas, com secretários pressionando por cortes, pais que depositam os filhos no prédio e somem, méto­dos que mudam sempre, reciclagem, horários quadrados e dezenas de crianças que não querem estar lá, só se apoiando em um sindicato. Não tem nada de esquerdismo, mesmo quando se está sendo lide­rado por socialistas. É que os ideais dos professores não resistem a tan­to encaixotamento emburrecedor.

Que se abra esta caixa de pando­ra - dentro, há donas Rosas que são mães do conhecimento e da sabe­doria infantis. E não professores ver­melhos que precisam ser dispersa­dos a cavalo.

* É empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. 

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