O lado luminoso da escuridão


Especialistas defendem que, em muitos casos, a depressão pode ser uma adaptação mental saudável que nos oferece melhores condições para resolver problemas complexos.

Revista Scientifc American - por Paul W. Andrews e J. Anderson Thomson

Conceitos-chave 

- A capacidade do cérebro de entrar em estado depressivo foi preservada ao longo da evolução, indicando que o rebaixamento do humor é uma adaptação. Uma das ideias que apoiam essa hipótese se baseia na química cerebral. O receptor 5HT1A se liga ao neurotransmissor serotonina, outra molécula do cérebro envolvida nos mecanismos que desencadeiam a depressão. Roedores desprovidos desse receptor exibem menos sintomas depressivos em resposta ao estresse, o que mostra que o 5HT1A está, de algum modo, na origem da depressão. Ao compararem a composição da parte funcional do receptor SHT1A dos ratos à dos homens, os pesquisadores encontraram uma similaridade de 99%, indicando que a molécula é tão vital que a seleção natural a preservou por milhares de anos desde o tempo em que viveu nosso ancestral comum. Ou seja: a "capacidade" de deprimir-se não é mero acidente evolutivo ou o resultado de uma disfunção .

- Segundo autores, as terapias mais eficientes são as que incentivam os pacientes a se dedicar aos próprios pensamentos, ainda que isso Ihes seja desconfortável, pois permite que encontrem soluções para seus problemas e encerrem seus episódios depressivos de forma saudável.

Nas próximas duas décadas a depressão deve afetar mais pessoas que o cancer ou as doenças cardíacas, constituindo a maior causa de afastamentos do tra­balho, segundo estimativas da Orga­nização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, cerca de 121 milhões sofrem com o problema em todo o planeta - 17 milhões no Brasil. Mas por que tanta gente tem depressão? Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e em outros países estimam que entre 30% e 50% das pessoas já preencheram, em algum momento da vida, os critérios diagnósticos do transtorno depressivo maior. Essa prevalência incrivelmente alta - em comparação com outros distúrbios mentais que afetam apenas cerca de 1% ou 2% da população, como a esquizofrenia e o transtorno obsessi­vo compulsivo - parece representar um paradoxo evolutivo. O cérebro desempenha funções cruciais para a sobrevivência e a reprodução, portanto, as exigências da evolução deveriam ter tornado esse órgão tão complexo mais resistente. E, em geral, os transtornos mentais são raros. Mas por que isso não se aplica à depressão?

O paradoxo poderia ser solucio­nado se o problema fosse decorrente do envelhecimento ou uma conse­quência do estilo de vida moderno. O avanço da idade, porém, não funciona como explicação, pois os primeiros episódios depressivos ten­dem a se manifestar na adolescência ou no início da vida adulta. Assim, à semelhança da obesidade, a de­pressão talvez seja um problema que surge devido às enormes diferenças entre as condições da vida moderna e as de nossos ancestrais. Mas essa explicação também não é satisfató­ria. Os sintomas da depressão são encontrados em todas as culturas já examinadas em profundidade, como a dos Aché, no Paraguai, e a dos !Kung, no sul da África: sociedades nos quais as pessoas vivem em am­bientes similares aos que existiram em nosso passado evolutivo.

• Não é doença

Existe outra possibilidade: talvez, na maioria dos casos, a depressão não deva absolutamente ser considerada um distúrbio. Acreditamos que esta seja, na verdade, uma adaptação, um estado mental que sem dúvida traz um ônus real, mas que também produz benefícios concretos. Na depressão, a mente se torna mais analítica e concentrada - uma rea­ção útil para a resolução de proble­mas complexos que provavelmente estão na base dos primeiros fatores a desencadeá-Ia. Se os profissionais de saúde mental a enxergarem sob este prisma, estarão mais bem prepara­dos para aliviar a dor e o sofrimento que acompanham o quadro.

Ao longo de sua história, a psi­quiatria se esforçou por definir o conceito de doença mental. Estaria correta nossa interpretação moder­na? Os critérios diagnósticos atuais
exigem a presença de "sofrimento ou incapacitação clinicamente signifi­cante" para que uma condição psico­lógica seja vista como um transtorno. Mas um traço seria o bastante para representar um distúrbio?

Consideremos o fato de que uma pessoa com febre alta parece experimentar sofrimento e incapa­citação. Sua capacidade de trabalhar e pensar é prejudicada e, muitas vezes, sente fortes dores, além de mal-estar generalizado. Tais sinto­mas não são, porém, suficientes para garantir que a febre seja considerada um transtorno. Trata-se, é claro, de uma reação que desenvolvemos contra as infecções. Ela encaminha as células de defesa aos tecidos que têm maior risco de estar infectados e regula a produção de substâncias necessárias à ação imune, mas que poderiam causar graves danos ao organismo se produzidas todas ao mesmo tempo.

Essa sofisticada "coordenação" é um forte indício de que a febre é adaptativa, trata-se de um traço moldado pela seleção natural ao longo do tempo para cumprir uma função útil. De fato, diversos estu­dos envolvendo humanos e outros animais demonstraram que supri­mir a febre com aspirina ou outro medicamento tende a prolongar a
doença e que a febre aumenta as chances de sobrevivência em casos de infecções graves. Esse critério do "sofrimento e incapacitação" adota­do pela psiquiatria leva a conclusões equivocadas sobre os transtornos - a febre não resulta do funcionamento deficiente do corpo; o que ocorre é exatamente o contrário.

Na depressão também surgem sofrimento e incapacitação. Trata-se de uma condição emocional doloro­sa e os indivíduos deprimidos têm, com frequência, dificuldade para exercer suas atividades cotidianas. Não conseguem se concentrar no trabalho e nos estudos, costumam se isolar socialmente, ficam letárgicos, e, muitas vezes, perdem a capacida­de de extrair prazer de atividades como a alimentação e o sexo. Isto, porém, não significa que um episó­dio depressivo seja um transtorno mental, assim como os sintomas dolorosos da febre não configuram, por si sós, uma doença.

Ainda que seja falha a definição psiquiátrica dos transtornos mentais, porém, são necessários mais elemen­tos para que possamos suspeitar que um estado mental tão debilitante seja adaptativo e não disfuncional. Uma das razões para acreditar que a depressão pode ser útil é for­necida pelas pesquisas sobre uma molécula cerebral conhecida como receptor 5HT1A. Ela se liga ao neurotransmissor serotonina, outra molécula do cérebro profundamente envolvida nos mecanismos que desencadeiam a depressão e visada pela maior parte dos medicamentos antidepressivos disponíveis. Roe­dores desprovidos desse receptor exibem menos sintomas depressivos em resposta ao estresse, o que indica que o 5HT1A está, de algum modo, envolvido na origem da depressão. Ao comparar a composição da parte funcional do receptor SHT1A dos ratos à dos homens, notou-se uma similaridade de 99%, indicando que a molécula é tão vital que a seleção natural a preservou por milhares de anos desde o tempo em que viveu nosso ancestral comum. Assim, a capacidade de "acionar" a depressão parece ser algo importante - e não mero acidente evolutivo ou o resul­tado de uma disfunção cerebral.

Mas, afinal, o que poderia ha­ver de tão útil na depressão? Os deprimidos costumam pensar intensamente em seus problemas. Tais pensamentos são chamados de ruminações obsessivas; trata-se de idéias persistentes que tomam conta da mente e tornam difícil raciocinar sobre qualquer outra coisa. Vários estudos já mostraram que, muitas vezes, esse modo de pensar é extremamente analítico. Nesse estado, a pessoa se debruça sobre um problema complexo, divi­dindo-o em componentes menores, examinando-os detalhadarnente, um de cada vez.

Essa maneira analítica de pensar pode ser altamente produtiva. Cada uma das partes, quando isolada, não oferece tanta dificuldade, de modo que o problema torna-se mais manejável. Na verdade, diante de uma situação difícil, entrar em um estado depressivo (ainda que provi­soriamente) é, não raro, uma reação que ajuda a resolver o problema. Em algumas de nossas pesquisas, encontramos indícios de que, em testes de inteligência, as pessoas que mais se deprimem ao lidar com preposições complexas são as que obtêm pontuação mais alta.

• Gasto de energia

A análise exige boa dose de pensa­mento ininterrupto e a depressão propicia muitas mudanças corporais que nos ajudam a avaliar vários aspectos sem nos dispersar. Para que uma pessoa não se desvie do objetivo é preciso que os neurônios do córtex pré-frontal ventrolateral (CPFVL) sejam continuamente ativados. Isso, porém, acarreta grande gasto energético no cérebro, da mesma forma que subir uma montanha faz com que o motor de­ um automóvel gaste muito com­bustível. Além disso, a excitação contínua pode levar ao colapso dos neurônios, assim como o motor de um automóvel tem maior probabi­lidade de quebrar quando forçado. Estudos sobre depressão em ratos mostram que o receptor 5HT1A está envolvido no fornecimento aos neurônios do combustível necessá­rio ao funcionamento e à proteção contra o risco de colapso. Esses processos permitem a continuidade ininterrupta das ruminações, mini­mizando os danos neuronais, o que pode explicar a grande importância evolutiva dessa molécula.

• Sábias decisões

O desejo de isolamento social, por exemplo, ajuda o deprimido a evitar situações que o obrigariam a pensar em outros assuntos. Da mesma forma, a incapacidade de obter prazer com o sexo ou outras atividades evita que ele se envolva em algo que o distrai­ria do problema. Pensando assim, fazem sentido todas as metáforas e obras de arte que representam esse quadro como uma espécie de prisão. Até a perda de apetite, comumente observada na depressão, pode ser vista como um estímulo aos pensa­mentos obsessivos pois a mastigação e outras atividades orais interferem na capacidade do cérebro de proces­sar informações.

A ruminação é tão resistente às distrações que as pessoas deprimidas geralmente têm pontuações meno­res do que aquelas que não se en­contram nesse estado em avaliações cognitivas e testes de interpretação de texto. Há uma abundância de da­dos indicando que elas fazem menos pontos porque estão pensando em outros assuntos, que interferem em sua capacidade de concentrar-se nos exercícios propostos. Os deprimidos simplesmente têm dificuldade para pensar em qualquer outra coisa que não os problemas que desenca­dearam a depressão.

Existe indício de que toda essa ru­minação faça algum bem? A maioria dos clínicos e pesquisadores acredita que os pensamentos obsessivos típicos do rebaixamento do humor sejam prejudiciais. Se essa hipótese estivesse correta, as estratégias para evitá-Ios ou interrompê-Ios deveriam levar a uma resolução mais rápida. Mas os fatos não confirmam essa previsão. Indivíduos que tentam evitar as ruminações, distraindo-se ou buscando fuga no álcool e nas drogas, tendem a ter episódios depressivos mais longos. Interven­ções que estimulam a ruminação, porém, como a escrita que expresse os próprios sentimentos costumam promover a resolução mais rápida da depressão.

Outros dados que apontam na mesma direção provêm de diversos estudos em que se demonstra que pessoas em estados de ânimo de­pressivo se saem melhor na solução de dilemas sociais - conflitos de interesse com um parceiro de cuja coopera&cc icos do rebaixamento do humor sejam prejudiciais. Se essa hipótese estivesse correta, as estratégias para evitá-Ios ou interrompê-Ios deveriam levar a uma resolução mais rápida. Mas os fatos não confirmam essa previsão. Indivíduos que tentam evitar as ruminações, distraindo-se ou buscando fuga no álcool e nas drogas, tendem a ter episódios depressivos mais longos. Interven­ções que estimulam a ruminação, porém, como a escrita que expresse os próprios sentimentos costumam promover a resolução mais rápida da depressão.

Outros dados que apontam na mesma direção provêm de diversos estudos em que se demonstra que pessoas em estados de ânimo de­pressivo se saem melhor na solução de dilemas sociais - conflitos de interesse com um parceiro de cuja cooperação sejam dependentes, como o pai ou companheiro. Essas situações complexas, que envolvem vários elementos - exatamente o tipo de desafio que exige análise concen­trada -, são também relevantes o suficiente para motivar a evolução de um estado mental tão oneroso.

Pense, por exemplo, em uma mulher com filhos pequenos que descobre que o marido está tendo um caso. A melhor estratégia seria ignorar o fato ou forçá-Io a escolher
entre ela e a outra - correndo o risco de ser abandonada? Dilemas com­plexos exigem pensamento atento e habilidade política. Experiências de laboratório indicam que pessoas deprimidas são boas em resolver esses impasses, por analisar melhor as vantagens e desvantagens das op­ções possíveis. As pesquisas indicam também que tais dilemas são gatilhos naturais da depressão - por exemplo, conflito com o parceiro.

Considerando que a depressão é despertada por problemas sociais complexos, a ruminação ininterrupta ajudando os deprimidos a resol­ver esses problemas, a capacidade ancestral do receptor 5HT1 A de ativar o rebaixamento do humor e o papel deste na garantia de que os pensamentos obsessivos não sejam interrompidos, parece pouco provável que a depressão seja um transtorno no qual o cérebro funcione de modo irregular. Ao contrário, esse estado de fato se assemelha à febre - um com­plexo elemento organizado de nossa biologia que, apesar de doloroso, cumpre uma função específica. Como já demonstramos bem mais minucio­samente em artigo publicado na edi­ção de julho de 2009 da Psychological Review, a hipótese de que a depressão é uma adaptação é confirmada por muitos dados provenientes de genes, neurotransmissores e seus receptores, neurofisiologia, neuroanatomia, far­macologia, cognição, comportamento e eficácia dos tratamentos.

Não resta dúvida de que a de­pressão existe como patologia, mas, tal qual se dá com a esquizofrenia e o transtorno obsessivo compulsivo, sua taxa de incidência está provavel­mente mais próxima de 1% ou 2% da população do que de 30%. O núme­ro exagerado de diagnósticos pode se dever ao fato de que as pessoas às vezes relutam em falar sobre os problemas que desencadearam seus episódios depressivos. As questões envolvidas costumam ser embaraço­sas, delicadas e, geralmente, doloro­sas. Algumas pessoas acreditam que devem seguir em frente ignorando as angústias, ou simplesmente não sabem expressar em palavras seus conflitos internos. Em casos assim, são maiores as chances de que o terapeuta ou pesquisador pense no episódio depressivo não como uma reação saudável às dificuldades da vida, mas sim como consequência de uma disfunção.

A depressão, porém, é a forma que a natureza encontrou para dizer que temos problemas sociais complexos e que a mente está deter­minada a resolvê-Ios. Os terapeutas deveriam estimular as ruminações depressivas em vez de tentar in­terrompê-Ias, concentrando-se na tentativa de ajudar as pessoas a solucionar os dilemas desencadeadores. Quando o paciente resiste em falar sobre seus problemas ou ruminações, o terapeuta deve tentar identificar e quebrar essas barreiras. O reconhecimento da verdadeira razão de ser da depressão ajudaria milhões de sofredores a descobrir as raízes de suas emoções dolorosas e a enfrentar seus problemas de maneira mais proveitosa.

• Para atravessar a dor

Há muitos experimentos que mostram que a terapia cognitivo­ comportamental (TCC) é eficaz em casos de depressão; contudo, essa abordagem terapêutica apresenta diversos componentes. Tentar mudar a maneira como os indivíduos deprimidos pensam sobre seus problemas é somente um deles - portanto, em princípio, é possível que este compo­nente não produza benefícios terapêuticos permanentes. Em 1996, uma pesquisa do psicólogo Neil Jacobson, da Universidade de Washington, estudou detalhadamente a TCC e não encontrou evidências de que as tentativas de mudar a maneira de pensar dos deprimidos fossem tera­pêuticas. Por outro lado, encontrou indícios de que outro componente, denominado ativação comportamental (que busca manter o indivíduo deprimido envolvido em seu ambiente social), seria o componente bené­fico. Nesse sentido, pensando em uma abordagem mais profunda, que busque raízes do problema, podemos considerar a teoria psicanalítica.

Uma das críticas mais comuns a essa técnica, porém, é que o trata­mento, até que se chegue às reais causas dos problemas, pode durar vários meses. Não se pode esquecer, porém, que mesmo quando não há a cura completa - e a alta - o paciente pode, ao longo do tratamento, desfrutar de formas mais aprofundadas de ver a si mesmo e sua relação com o mundo.

É compreensível, porém, que, diante do sofrimento, as pessoas tentem lidar com a depressão empregando estratégias para simplesmente inter­romper as ruminações (álcool, distrações, supressão de pensamentos) em vez de se voltar a elas e buscar sentidos nessa repetição. Cada vez mais há indício de que antidepressivos têm efeitos negativos a longo prazo. Embora aliviem os sintomas enquanto estão sendo usados, uma vez descontinuado o uso, o risco de recaída é alto. Isso talvez se deva à interferência dessas drogas nas ruminações depressivas, que torna difícil pensar em soluções para problemas complexos, já que muitos antidepressivos costumam dificultar a concentração em tarefas que exigem atenção.

Para conhecer mais

The bright side of being blue: depression as an adaptatlon for ana­Iyzing complex problems. Paul W. Andrews e J. Anderson Thomson, Jr., em Psychological Re

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus