O lucrativo mercado da saúde cerebral


Medo da demência da geração baby boomer inspira uma indústria de produtos para estimular a mente.

Jornal O Estado de São Paulo - por Katie Hafner

Cérebros decadentes - ou o medo de ter um - inspiraram uma minindústria de produtos para a saúde cerebral, que envolve não apenas suplementos alimentares, como coenzima Q10 e ginseng, mas também softwares de condicionamento cognitivo. O Brain Age 2, da Nintendo, um videogame popular de exercícios de memória e matemática que custa US$19,99, é um deles. Há também os exercícios “de treinamento comportamental cognitivo” para computador da Posit Science, ao custo de US$ 395. Mindfit, um software de US$ 149, combina avaliação cognitiva de mais de uma dezena de habilidades diferentes com um regime de treinamento personalizado. E, por cerca de US$ 10 mensais, os preocupados baby boomers (pessoas da geração nascida após a 2ª Guerra Mundial) podem assinar sites como Luminosity.com e HappyNeuron.com, que oferecem diversos exercícios de treinamento cognitivo.

Álvaro Fernandez tem uma empresa de consultoria e condicionamento cerebral, a SharpBrain. Ele calcula que em 2007 o mercado para neuro-software nos Estados Unidos atingiu US$ 225 milhões. Comparada com, por exemplo, a indústria de condicionamento físico, que gera US$ 16 bilhões por ano, a indústria de software para condicionamento cerebral ainda está engatinhando, diz ele. Mas cresce a uma taxa anual de 50% e deve chegar a US$ 2 bilhões até 2015.

Dos bambolês aos tampos de balcão Corian (um tipo de mármore), os vendedores se deram muito bem durante as últimas seis décadas adivinhando os desejos dos baby boomers. Agora, estão ganhando dinheiro com os temores dessa geração.

Os boomers acreditam que têm todas as razões para se afligir. Não há nenhum teste definitivo para detectar o mal de Alzheimer. Os médicos se apóiam em sintomas para fazer o diagnóstico e a maioria acha que, quando os sintomas se manifestam, os danos cerebrais já estão avançados.

Em 2050, segundo a Associação de Alzheimer, entre 11 milhões e 16 milhões de americanos terão a doença.

“A maioria das pessoas, ao completar 50 anos, começa a considerar mais seriamente a perda da memória”, afirma Gene Cohen, diretor do Centro para Envelhecimento, Saúde e Humanidades da Universidade George Washington.

“Quando você guarda a chave no lugar errado aos 25 anos, você não liga para isso”, disse ele. “Mas, quando faz a mesma coisa aos 50 anos ou mais, fica com a pulga atrás da orelha.”

  • Exercitar sempreCohen, que realizou recentemente um estudo com pessoas nascidas entre 1946 e 1955, a primeira metade do baby boom, disse ter se espantado com o número de pesquisados que acredita poder fazer coisas por conta própria para melhorar a vitalidade de seus cérebros.

    “Existe uma consciência crescente de que exigir do próprio cérebro pode dar efeitos positivos”, diz ele, acrescentando que a plasticidade do cérebro está diretamente relacionada com a produção de novos dendritos, as projeções neurais ramificadas que transmitem sinais elétricos pelo cérebro.

    “Toda vez que você exige de seu cérebro, isso realmente o modifica”, explica. “Podemos de fato formar novas células cerebrais, apesar de terem repetido, durante um século, que isso é impossível.” Cohen diz que, embora compreenda o medo do Alzheimer, há muitos equívocos sobre a doença.

    “A pergunta decisiva a se fazer é: a perda da memória está interferindo fundamentalmente na maneira como você funciona?”, questiona. “Se não prejudica fundamentalmente sua vida profissional ou social, ela está entre as variantes normais.”

    Um alívio - ou um aumento da ansiedade - pode vir de uma melhor percepção do risco genético que se tem. Empresas novas como Navigenics, 23andMe e Decode Genetics estão cobrando cerca de US$ 1 mil para testar o DNA de um indivíduo para vários fatores de risco, entre eles Alzheimer.

    David Bunnell, publisher de revista Eldr, para baby boomers, que vive em Berkeley, na Califórnia, fez o teste da 23andMe e descobriu que seu risco genético está abaixo da média. Mesmo assim, Bunnell não se sente seguro, pois um de seus avós teve demência e sua mãe “pode ter tido” Alzheimer, embora a doença não tenha sido diagnosticada.

    Bunnell faz exercícios cerebrais regulares, preferindo soluções mais simples aos dispendiosos softwares. Ele trabalha memorizando os números que circulam em sua vida diária - cartões de crédito, identidade pessoal e números telefônicos - e cria recursos mnemônicos para se lembrar do nome de pessoas.

    “Pessoas inteligentes descobrem novas maneiras de exercitar seus cérebros, que dispensam a compra de software ou workshops caros”, disse ele.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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