O Mais Difícil é Levantar da Cama


Diagnosticado com Parkinson há 19 anos, o ator Michael J. Fox criou uma fundação para pesquisar a doença e lança no Brasil o livro "Um Otimista Incorrigível" .

Jornal Folha de São Paulo - por Lúcia Valentim Rodrigues

Um homem de sorte. Por es­tranho que possa parecer, é as­sim que se define o ator cana­dense Michael J. Fox, 48, à Fo­lha por telefone de seu escritó­io, em Nova York.

Com Parkinson há 19 anos, ele fala enrolado e rápido, mas isso não chega a afetar seu ra­ciocínio lógico.

"Acho que ser diagnosticado com Parkinson foi um presen­te. As pessoas se assustam com essa afirmação. Digo que é um presente que sempre toma algo de você. Mas foi o que me deu a chance de fazer a diferença"

Ele explica que, se não fosse pela doença, não teria criado a Fundação Michael J. Fox, que financia pesquisadores a desco­brir a cura para o Parkinson. Neste ano, a iniciativa arreca­ dou mais de US$ 20 milhões.

Quando começa a entrevista, já passou o período mais crítico de seu dia: a hora de levantar. Ainda bem. A falta de medica­ção no seu organismo poderia causar uma perda de controle dos movimentos que impossi­bilitaria a conversa.

""Um Otimista Incorrigível" (R$ 29,90; 256 págs.), livro que lança no Brasil pela editora Pla­neta, também se inicia com o relato de uma manhã.

O momento de acordar é em­blemático de como têm sido os últimos dez anos de sua vida. "Levantar da cama é a parte mais difícil do meu dia. Descu­bro logo que acordo como vai ser todo o resto do meu dia Se acordo tremendo muito, já pos­so dizer que vai demorar para me ajustar", conta.

Atividades de que nem nos damos conta, como caminhar até o banheiro ou calçar os chi­nelos, são esforços que ele tem de completar antes de os remé­dios fazerem efeito.

Há dias bons e outros nem tanto. ""Vou levando dia a dia. Ao tomar os remédios, os sinto­mas diminuem e me sinto bem. Mas tenho de aceitar que isso não é natural. A medicação me dá uma falsa realidade. Gosto disso, mas não é como meu cé­rebro trabalha. Penso que é o que me ajuda a levar a vida e a agradecer pelo que tenho."

O título da edicão brasileira perde a piada do "original, "Al­ways Looking Up" (sempre olhando para cima), em que ele faz piada de sua baixa estatura, mas mantém a aura positiva com que encara o Parkinson.

E o segundo livro em que Fox trata de suas memórias, embo­ra "Lucky Man" ainda não te­nha sido lançado aqui. "Os dois livros tratam de como sua vida pode mudar de repente. Essa virada pode ser boa, mesmo que seja assustadora. Pode te ajudar a crescer."

• O segredo

Nem sempre as coisas foram assim, positivas, para Fox. Ele percebeu os primeiros sinto­mas em 1991, quando fazia ""Uma Receita para o Amor".
Sua mão tremia muito. Foi diagnosticado, mas demorou sete anos para divulgar a doença ao público. "Foi difícil assimilar tudo aquilo. Queria continuar trabalhando até quando pudesse sem que as pessoas ficassem pensando na doença. Então mantive segre­do", afirma.

O Parkinson foi piorando e se tornando óbvio. "Quando você tem uma doença neurológica, chega um momento em que não dá mais para esconder. Já estava mais conformado. E algo que você tem de compreender que não é culpa sua, que não foi resultado de algo que você fez."

A resposta, segundo ele, "foi avassaladoramente encoraja­dora". "Não é vergonha estar doente. Quando você aceita is­so, consegue seguir adiante."

Fox afirma que muitas pes­soas com Parkinson o procura­ram depois disso, já que ele era um ídolo desde que explodiu no cinema, em 1985, com a primei­ra parte da trilogia "De Volta para o Futuro" e "O Garoto do Futuro", "Virei uma espécie de porta-voz do Parkinson. Prin­cipalmente entre os jovens. É assustador aparecer a doença quando você está no auge."

Casado e com quatro filhos, ele também expõe no livro a de­cisão de abandonar a série "Spin City" (1996-2001). O ator conta que preferiu sair enquan­to estava bem, mas que os últi­mos dias de gravação foram so­fridos. Isso porque ele enfiou na cabeça que tinha de chegar ao centésimo episódio, o que o obrigou a emendar uma batela­da de horas extras diante das câmeras e atrás delas, porque era responsável pela produção.

Superou as dificuldades e nunca abandonou de vez a tele­visão. Desde 2004, tem feito participações especiais em se­riados como "Scrubs" e o re­cente "Rescue Me", em que in­terpretou um paraplégico. "Foi um desafio porque a doença me faz tremer muito, e ele tinha de ficar parado. Dwight era um cara terrível, sempre gritando e com raiva. Foi interessante, porque as pessoas sempre co­mentam como eu sou positivo e feliz. Visitei o lado negro."

Embora não sinta necessida­de de estar nos holofotes, diz que volta a trabalhar "quando as condições forem boas". "Em­barquei em programas dos meus amigos. Eles sabem do que eu preciso, do tempo extra que eu levo para gravar e escre­vem para mim. Faço quando acho que vai ser divertido."

Enquanto isso, vai l levando o trabalho na fundação. Fox brinca que o sucesso da insti­tuição está ligado ao fato de ele não estar à frente dela. "Só tive que ser esperto o suficiente pa­ra achar pessoas mais espertas que eu para administrá-Ia."

As pesquisas caminham bem, mas lentamente: "Normalmen­te descobrimos o que não fun­ciona. Mas é um passo impor­tante para eliminar as possibili­dades e focar no que resolve."

Em abril de 2010, lança "A Funny Thing Happened on the Wayto the Future", voltado pa­ra os adolescentes. ""É engraça­do eu dar conselhos aos cole­giais, sendo que eu não termi­nei a escola. Mas você aprende de um jeito ou de outro."

Por exemplo, na decisão "mais difícil de sua vida", parar de beber. Está sóbrio há 12 anos. O alcoolismo piorou mui­to quando descobriu o Parkin­sono "O jeito que eu lidava com isso era bebendo", diz ele. "Foi uma muralha que construí para não falar sobre o assunto. Mas foi difícil parar de fazer algo que parecia me proteger de al­guma maneira, mesmo torta."

Mas não tem arrependimen­tos. "Claro que eu poderia ter feito as coisas de outro jeito. Mas minhas decisões ruins normalmente resultaram em algo bom. Se eu mudasse, mi­nha vida seria outra e não troco esta por nada. É uma bênção."

É um otimista incorrigível.

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