O melhor momento para estudar no exterior


Mais de 200 mil brasileiros de todas as idades devem deixar o País em busca de educação em escolas estrangeiras este ano. Com o real forte, o caminho está aberto para as aspirações de todos os gostos e bolsos.

Revista Istoé - por Claudia Jordão e João Loes

Passar uma temporada de estudos no Exterior é o sonho dou­rado de muitos brasileiros. Independentemente da faixa etária e das aspirações envolvidas. Pais acalentam proporcionar aos filhos ado­lescentes a oportunidade de cursar parte do ensino médio fora, vi­venciando outra cultura e afiando uma segunda língua para o cada vez mais concorrido mercado de trabalho. Jovens recém-chegados à maioridade mergulham em testes, formulários e seleções disputa­díssimas para obter achance de se sentar nos bancos de universida­des centenárias. Profissionais estabelecidos dão uma pausa na rotina para aprimorar o currículo em pós-graduações ou MBAs. E pessoas de todas as idades se deliciam com o cardápio de cursos livres que salpicam pelo mundo, numa democracia de datas, durações e temas. Os anseios são muitos, mas, até há pouco tempo, só alguns privile­giados conseguiam realizá-Ios. Pois bem, isso mudou. Estudar no Exterior deixou o terreno da fantasia distante e passou a ser a doce realidade de muitas pessoas, graças ao real fortalecido em relação às outras moedas, principalmente ao dólar.

"A moeda forte amplia os horizon­tes de quem busca o intercâmbio", diz Samir Zaveri, coordenador da Feira de Intercâmbio e Cursos no Exterior. Hoje em dia, por exemplo, é comum uma família gastar mais para manter um filho estudando numa escola de primeiro time no Brasil do que no Exterior - especialmente se o curso for high school, equivalente ao ensino médio nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se investe alto aqui em es­colas particulares, transporte, material didático e demais despesas, quem faz high school na América só paga pas­sagem aérea e infraestrutura, pois es­critórios especializados encontram colégio e casa para o estrangeiro e assumem a responsabilidade pela pape­lada necessária. Um ano nos Estados Unidos sai por US$ 7,5 mil, pouco mais de R$ 12,5 mil, fora o transporte aéreo.

Tal cenário fez o nú­mero de brasileiros que vão estudar fora subir 15% em um ano. Segundo dados da Feira de Intercâmbio e Cursos no Exterior, em 2010 foram 193 mil. E, em 2011, devemos romper a barreira dos 200 mil. O principal destino continua sendo os Estados Unidos, por conta da relevân­cia do inglês e do número de parcerias firmadas entre instituições nacionais e americanas. De acordo com o relatório anual "Open Doors 2010", 8.786 bra­sileiros estão matriculados lá em esco­las de ensino superior, cursando gra­duação, pós ou inglês. O segundo principal destino é a França. O país europeu mantém 631 convênios com universidades brasileiras e recebeu 2,9 mil alunos nos níveis de graduação e pós só no ano passado. ISTOÉ fez um levantamento de tudo o que é necessá­rio saber para aproveitar esse bom momento e programar uma tempora­da de estudos no Exterior - quanto custa, quando ir, melhores cursos e instituições e a alternativa das bolsas de estudo, entre outras orientações.

O caminho é trabalhoso e cansativo, mas profundamente recompensador. Que o diga o matemático mineiro Vic­tor Bicalho, 27 anos. Ao terminar o ensino médio, ele deixou de lado os livros do vestibular para se candidatar a uma vaga em uma universidade ameri­cana, inspirado pelo pai médico, estu­dante de pós-graduação nos Estados Unidos, e pela lembrança de um curso livre de inglês que fez durante a adoles­cência na Inglaterra. Excelente aluno, determinado, não só conseguiu uma vaga em uma faculdade americana co­mo alcançou o olimpo: entrou na len­dária Harvard, uma das mais conceitu­adas instituições de ensino do mundo, onde permaneceu de 2002 a 2006. Hoje, formado em economia e matemática aplicada e trabalhando em um escritório de investimentos imobiliários em São Paulo, Bicalho tem a sensação de que a estada em terras estrangeiras o fez cres­cer como nunca. "Harvard é uma efer­vescência, lá as coisas acontecem", diz o mineiro, que presenciou, por exem­plo, o nascimento da rede de relaciona­mentos Facebook, pelas mãos do colega Mark Zuckerberg, em 2004.

Por mais que o real esteja valorizado, estudar no Exterior continua sendo um alto investimento. Por isso, é funda­mental escolher muito bem o que fazer e para onde ir. O paulistano Henrique Flory, 42 anos, que faz mestrado em administração pública em Harvard, tem uma tese interessante. Para ele, na hora de decidir por um curso e por uma instituição é preciso avaliar os três "Cs". Ou seja, quanto a experiência lhe trará em conhecimento, contatos e credibili­dade. "Harvard oferece os três "Cs"" em profusão", diz, ele, entre uma aula e outra, no campus da universidade, em Cambridge, onde divide a mesma sala de aula com personagens relevantes do cenário mundial como Vasil Sikharuli­dze, ex-ministro da Defesa da Geórgia, e Violet Gonda, considerada a voz da resistência contra o ditador do Zimbá­bue, Robert Mugabe.

O aluno que viaja para o Exterior para fazer um curso superior deve, no entanto, estar atento para a revalidação de seu diploma internacional. No caso específico do ensino médio (high school), ela é burocrática, porém garan­tida. Por essas e outras, fazer high school continua sendo uma excelente oportunidade para aprender outra língua e experimentar outra cultura. O paulista­ no Leonardo Pedro Perrelli Faria, 17 anos, escolheu a Inglaterra e passou dez meses do ano passado na cidade britâ­nica de Worthing. A Além do inglês im­pecável, conquistou autoconfiança e muitas amizades. "Nos feriados e nas férias, eu aproveitava para viajar", diz ele, que visitou a França, Dinamarca, Suécia, Holanda, Bélgica, Alemanha, Escócia e as Ilhas Canárias. Quando voltou para o Brasil, Faria constatou que tinha melhorado muito em matérias que antes pouco lhe interessavam. "Em história, por exemplo, comecei a tirar nota oito e nove, coisa que nunca tinha acontecido", diz. Segundo ele, o enfoque e o rigor britânico com a disciplina fo­ram fundamentais para a mudança. "Pretendo cursar parte da faculdade de administração que vou fazer em uma instituição inglesa", planeja o estudante, confirmando uma tendência apontada por especialistas: quem vai para o Exte­rior no ensino médio costuma voltar na época do ensino superior.

São histórias assim que empolgam outros brasileiros a arrumar as malas. A paulistana Letícia Gerola, 16 anos, está ansiosa para passar seis meses na Belleville High School, em Toronto, no Canadá. O embarque está previsto para o final de julho e ela deve começar os estudos já em agosto, início do ano le­tivo no Hemisfério Norte. A jovem será a primeira dos três irmãos da fa­mília Gerola a fazer intercâmbio. "Que­ro ganhar fluência no inglês e ter mais independência", diz ela, que ficará em uma casa de família canadense. Os pais se dividem entre a felicidade de poder mandar a primogênita para uma expe­riência tão rica e a antecipação da saudade. "Se o dólar estivesse alto, não poderíamos bancar a viagem", reco­nhece a fisioterapeuta Aparecida de Oliveira, que nunca passou mais de 15 dias distante da filha. Nos últimos cinco anos, o Canadá tem atraído cada vez mais estudantes do ensino médio porque, ao contrário dos EUA, permite que os inter­cambistas escolham em qual escola estu­dar e com qual família morar.

Outra modalidade que cresce é a graduação parcial, em que o aluno matriculado numa universidade brasi­leira passa uma temporada de estudos numa instituição estrangeira. Para isso, é bom que as escolas envolvidas tenham al­gum tipo de acordo ­ assim os créditos do es­tudante que viaja são com mais facilidade revalidados na volta. Geralmente, quando o brasileiro deixa sua vaga na universidade nacional em aberto, ela é preenchida por um estrangeiro - do mesmo curso e instituição. "É o que chamamos de intercâmbio real", diz Anelise Hoffman, coordenadora do núcleo de intercâmbios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Nesse mercado há duas décadas, a especialista diz que o setor vive um boom desde 2001 e que ainda são poucas as universidades brasileiras com parcerias no Exterior. Mas quem vai não se arrepende. "Foi uma experi­ência que mudou os rumos da minha vida", diz o engenheiro paranaense Stephan Hardt, 23 anos. Aos 20, quan­do fazia engenharia de produção na PUC do Paraná, ele se candidatou a uma vaga para intercâmbio na Univer­sidade St. Mary, em San Antonio, no Texas (EUA). A ideia inicial, de passar seis meses, logo virou uma estada de um ano e meio e garantiu a Hardt o diploma internacional de administra­ção da engenharia, reconhecido no Brasil. Ainda lá, atento às oportunida­des, ele garantiu um estágio e posterior­mente um emprego na Brenntag, líder mundial em distribuição de derivados químicos. "Tive que trancar a PUC- PR, mas, com o tempo, volto ao Brasil e concluo o curso de engenharia de pro­dução." Com isso, o paranaense terá dois diplomas, especialização reconhe­cida em duas áreas e liberdade para escolher se quer continuar trabalhando nos EUA ou voltar para o Brasil.

Mas não são necessárias mudanças tão radicais para desfrutar de uma transformadora experiência estrangei­ra. Para quem não quer - ou não pode - programar viagens longas, a melhor opção são os cursos livres. Eles são mais despretensiosos, não envolvem esque­ma burocrático de matrícula nem dis­puta acirrada por vagas. E, melhor: há sempre uma oportunidade para todas as faixas etárias, níveis acadêmicos e gostos. "O mais popular continua sendo o de idiomas", explica Samuel Lloyd, coordenador do Student TraveI Bureau, uma das maiores organizações interna­cionais de viagens educacionais. "Mas é possível combinar o país que se quer com o que se pretende estudar", diz. Em 2010, a cozinheira paulistana Marina Marques, 23 anos, passou seis meses na Itália fazendo gastronomia. "Os quatro meses de prática foram sensacionais", lembra ela, que trabalhou em dois res­taurantes, ambos com estrelas no "Guia Michelin", o mais rigoroso do mundo. "Esse é o tipo de experiência que faz a diferença na hora de procurar um em­prego", reconhece. Pela empreitada internacional, Marina desembolsou 8,6 mil euros (R$ 19,6 mil). Valeu a pena. Hoje ela trabalha no Dalva e Dito, res­taurante do brasileiro Alex Atala, um dos 20 chefs mais influentes do mundo, que também está à frente do badalado D.O.M., em São Paulo.

As oportunidades são tantas e tão boas que é possível viajar e trabalhar ­ uma maneira de viver a experiência do intercâmbio, aprender uma língua e expe­rimentar uma atividade, sem estourar o orçamento. Em 2009, a psicóloga cario­ca Andréa Carolina Lima, 23 anos, foi contratada por três meses pela Disney, em.Orlando, na Flórida. Lá ela atuou como uma espécie de faz- tudo, realizan­do tarefas que iam da faxina a guia de turismo, trabalho pelo qual recebia cerca de US$ 200 (R$ 332) semanais. Com o dinheiro, bancou as próprias despesas e ainda conseguiu fazer uma viagem de uma semana para Nova York, antes de voltar para o Brasil. "Morava com outras seis meninas e conheci gente do mundo todo", lembra ela, que, antes de começar a desempenhar suas funções, fez um curso de imersão na cultura da Disney, uma das empresas de entretenimento mais bem-sucedidas do mundo, que contrata dezenas de estu­dantes brasileiros anualmente.

Se estudar fora ainda parece difícil - é preciso desembolsar mais de US$ 20 mil (R$ 33,2 mil) para um ano de curso superior nos Estados Unidos, por exemplo -, há muitas oportunidades de bolsas de estudo em escolas de excelên­cia acadêmica, que são oferecidas pelas pró­prias instituições de ensino nos Estados Unidos e na Europa e por fundações no Bra­sil e no Exterior. "Se o aluno estrangeiro tiver as credenciais exigi­das, é possível estudar em uma universidade da Ivy League (liga das oito universidades americanas de maior prestígio científico), sem colo­car a mão no bolso", diz Andreza Mar­tins, da Education s funções, fez um curso de imersão na cultura da Disney, uma das empresas de entretenimento mais bem-sucedidas do mundo, que contrata dezenas de estu­dantes brasileiros anualmente.

Se estudar fora ainda parece difícil - é preciso desembolsar mais de US$ 20 mil (R$ 33,2 mil) para um ano de curso superior nos Estados Unidos, por exemplo -, há muitas oportunidades de bolsas de estudo em escolas de excelên­cia acadêmica, que são oferecidas pelas pró­prias instituições de ensino nos Estados Unidos e na Europa e por fundações no Bra­sil e no Exterior. "Se o aluno estrangeiro tiver as credenciais exigi­das, é possível estudar em uma universidade da Ivy League (liga das oito universidades americanas de maior prestígio científico), sem colo­car a mão no bolso", diz Andreza Mar­tins, da EducationUSA, escritório do governo americano no Brasil para as­suntos de educação. A estudante Maria­ na Simões, 27 anos, entrou em Harvard graças a uma bolsa da Fundação Le­mann e outra da própria universidade. "Estudar aqui era o sonho da minha vida", diz ela. Para chegar lá, foi preciso foco. Mariana prestou as melhores fa­culdades do País - é formada em psicologia pela Universi­dade Federal de São Carlos (UFSCar) -, fez iniciação científi­ca, participou de pro­jetos de pesquisa, foi a congressos, realizou trabalhos voluntários e manteve alto nível acadêmico. Tudo para pavimentar a estrada rumo a Cambridge.

Também há empresas que bancam o curso de seus funcionários. O adminis­trador André Pedriali, 27 anos, faz MBA na Universidade Columbia, em Nova Vork, há pouco mais de um ano, com o patrocínio da instituição financeira em que trabalha. "Desde que cheguei, já acompanhei palestras do ex-presidente Bill Clinton, do investidor Warren Buffett e do dono da Microsoft, Bill Cates", conta Pedria­li. Aulas de logística com profissionais do alto escalão de empresas como Wal-mart, Microsoft e Saks Fifth Avenue também são comuns. "Você circula pelos corredores e esbarra com autori­dades internacionais das mais variadas áreas", diz Everton Silva, outro aluno do MBA da Columbia. "E, além de tudo, temos a vantagem de estar em Nova York, onde tudo acontece antes", lem­bra Leão Roberto Carvalho, 27 anos. Pago, subsidiado ou remunerado, o intercâmbio vale a pena. Com a influ­ência brasileira em ascensão no mundo, novas parcerias surgem com rapidez e destinos inusitados passam a figurar entre as opções de quem busca uma experiência internacional. Organizar uma viagem desse porte é trabalhoso, mas as recompensas são incalculáveis. Já escolheu o seu destino?

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus