O mercado financeiro faz mal à saúde


A professora da Universidade da Carolina do Sul diz que a carga horária nos bancos de investimento provoca doenças, mata a criatividade e afeta a qualidade.

Revista Exame - por Liza Dalmazo

A alemã Alexandra Michel começou a carreira no Goldman Sachs, em Nova York, em 1992. Qua­tro anos depois, optou pela vida acadêmica. Como professora de negócios da Universidade da Carolina do Sul, usou seus contatos no setor financeiro para fazer uma pes­quisa de dez anos sobre a saúde de funcionários de bancos de investimento. Alexandra descobriu que, devido ao vo­lume de trabalho, muitos banqueiros adoecem e, com o passar dos anos, são demitidos. Com a saída dos mais velhos, quem mais perde são os clientes, obrigados a lidar com profissionais pouco experientes.

Exame - O mercado financeiro faz mal à saúde?

Alexandra Michel - Sim. Selecionei um grupo de executivos de dois bancos de investimento e mantive contato constante com eles por dez anos. A partir do quarto ano, todos tinham problemas de saúde decorrentes do estresse, como insônia e alcoolismo. E diziam que eram questões graves o suficiente para afetar o desempenho. A causa é a pesada carga horária.

Exame - De que fonna o desempenho era afetado?

Alexandra Michel - Em várias áreas dos bancos de investimento, nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países, os profissionais pre­cisam usar a criatividade para encontrar soluções que sa­tisfaçam clientes com diferentes demandas. Pessoas que não estejam saudáveis dificilmente serão criativas. Qualquer um que trabalhe 100 horas por semana sabe que é muito difícil formular, rapidamente, um projeto complexo.

Exame - Parte dos bancos já percebeu isso?

Alexandra Michel - Percebeu, sim. Nos Estados Unidos, alguns adotaram me­didas para que seus executivos tenham mais tempo livre. Passaram a oferecer refeições no local de trabalho e serviços de transporte. O curioso é que, em vários casos, o resultado atingido foi justamente o contrário do que se pretendia. Esses profissionais acabaram trabalhando ainda mais na hora do almoço e no percurso da casa para o trabalho.

Exame - Por que isso acontece?

Alexandra Michel - Principalmente porque nos bancos há uma cultura que va­loriza o trabalho em excesso. É quase impossível alguém chegar ao trabalho e dizer: "Dormi 8 horas esta noite". Ou sair mais cedo para praticar um esporte. Por que é assim? É comum os bancos manterem equipes pequenas. Argumen­tam que, num setor cheio de altos e baixos, é a maneira mais eficiente de gerenciar o negócio. Dessa forma, evitam ficar com equipes inchadas nas épocas de baixa.

Exame - Como lidam com a falta ele criatividade?

Alexandra Michel - Os bancos contratam gente jovem, sangue novo para revi­talizar o ambiente. Por isso, a idade média em várias insti­tuições não passa de 35 anos.

Exame - Ou seja, o mercado já encontrou uma saída?

Alexandra Michel - Em parte. Os bancos podem até manter a criatividade em alta, mas jogam fora profissionais experientes, o que afeta a qualidade final do trabalho. Quem já contratou um banco de investimento sabe do que estou falando. Se os bancos permitissem a redução da carga horária, teriam as duas coi­sas: banqueiros criativos e experientes.

Exame - A senhora acha que um dia esse será o padrão?

Alexandra Michel - Espero que sim. A atual crise mundial criou uma ótima oportunidade para todos reverem práticas que estavam au­tomatizadas. A lógica de funcionamento dos bancos de in­vestimento é uma das que precisam ser melhoradas.

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