O nosso cérebro não se modernizou


O cientista americano diz que nossos erros - e boa parte de nosso comportamento - são explicados por heranças primitivas na forma de raciocinar.

Revista Época - por Alberto Cairo

O cérebro humano é um conjunto de 100 bilhões de neurônios e 100 trilhões de conexões entre eles, um aparato imponente e ...cheio de falhas: a memória nem sempre funciona, a capa­cidade de cálculo é limitada e, definitivamente, não parecemos adapta­dos às exigências do mundo moderno. Esse é o tema central do livro O cérebro imperfeito - Como as limitações do cérebro condicionam as nossas vidas, publicado no Brasil neste mês. Seu autor é Dean Buonomano, de 46 anos. Doutor em neurociência pela Universidade do Texas, ele vi­veu 15 anos no Brasil e estudou biologia na Universidade de Campinas (Unicamp). No livro, afirma que as falhas do cérebro são fruto da evo­lução. "Para sobreviver no mundo primitivo, era mais importante en­tender contextos do que memorizar nomes e quantidades", diz ele.

- Quem é: Professor no Departamento de Neurobiologia e Psicologia da Universidade da Califórnia,em Los Angeles
- O que fez: É doutor em neurociência e especialista nos mecanismos cerebrais de aprendizagem.
- O que publicou: O cérebro imperfeito - Como as limitações do cérebro condicionam as nossas vidas,a ser lançado neste mês no Brasil pela editora Elsevier

Época - Em seu novo livro, o senhor afirma que o cérebro humano é a máqui­na mais complexa que se conhece, mas aponta problemas em seu funcionamento. Poderia nos dar um exemplo?

Dean Buonomano- Se você memorizar as palavras bala, chocolate, paçoquinha e chiclete e, logo em seguida, eu perguntar se a palavra doce está entre elas, você provavelmente precisaria pensar por al­guns instantes antes de responder. Doce não estava na lista, mas, como todas as demais palavras se referiam a doces, o cérebro se confunde. Não seria assim se eu perguntasse pela palavra capivara. Por nada ter a ver com as demais, ela se­ ria rapidamente descartada. Isso aconte­ce porque nossa memória não armazena itens. Ela funciona relacionando concei­tos e significados, como na lista de do­ces. Isso pode ser bom em alguns casos, mas uma fonte de problemas em outros.

Época - Há outras falhas além dessa?

Buonomano - Sim. O cérebro não foi moldado para ter a capacidade de cálculo de um computador, que é o que se quer exigir dele hoje em dia. Isso se explica em parte pelo proces­so de evolução por seleção natural.

Época -  As falhas do cérebro estão relacionadas à evolução?

Buonomano - Nosso cérebro está adaptado para um passado remoto, quando não era necessário lidar com números da forma como somos exigidos hoje: temos de lembrar de telefones, se­nhas e estatísticas. O cérebro não evoluiu para essas necessidades, e os neurônios também não parecem estar preparados para processar números. No mundo primitivo, se você via um ninho de co­bras, não precisaria contar se eram dez ou doze. Bastava saber que eram muitas e fugir.

Época -  Nossa bagagem evolutiva explica os problemas das pessoas com o planejamento financeiro?

Buonomano - Sim. É isso que faz com que nossas decisões sejam influen­ciadas pelo curto prazo. Em termos evolutivos, faz todo o sentido. Se você oferecesse uma maçã a um homem que viveu há cerca de 100 mil anos, ele a pegaria naquele momento, mesmo se você prometesse, em troca da recusa, duas maçãs para a próxima semana. O raciocínio é de sobrevivência. Diante da opção de obter uma uva imediatamente ou duas pouco depois, até os macacos mais bem treinados não resistem à tentação por dez segundos. 

Época - Existe então uma luta entre um sistema de tomada de decisões intuitivo, emocional e, portanto, primitivo e outro mais reflexivo, resultado do planejamento e da análise?

Buonomano - Certamente. Em muitos casos, o raciocínio automático pode dominar em um primeiro momento. É como disse logo no início: se você per­guntar a alguns amigos o que as vacas bebem, parte deles dirá leite. Isso acon­tece porque, quando criança, aprende­mos a associar vaca com leite, e os neu­rônios que codificam as duas palavras aprendem a se ativar ao mesmo tempo.

Época - Isso pode ser usado contra nós?

Buonomano - O cérebro humano pode ser convencido inconscientemente. Ele pode associar conceitos caso seja exposto de forma contínua e prolon­gada a alguns estímulos. É o que fazem os publicitários com imagens, sons e aromas. Um bom exemplo disso é o tabaco. Poderosas campanhas de marketing no século passado levaram a associar o cigarro a um estilo de vida exclusivo. O resultado foram milhões de maortes, que poderiam ter sido evitadas. Essas associações, de certa forma, tornaram-se um problema social grave.

Época - Os avanços na neurociência mudaram a forma como policiais e juizes lidam com as pessoas?

Buonomano - Estão mudando. Há algu­mas décadas, a polícia pedia para uma testemunha identificar um criminoso apresentando mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Hoje sabemos que isso é problemático, porque o cérebro se sente forçado a fazer uma escolha. É melhor mostrar os suspeitos um a um. Sabe-se também que é melhor fazer perguntas abertas e neutras do que questões bem específicas. Se voc cê está entrevistando a testemunha de um acidente de carro, não deve perguntar com que velocidade o carro teria se arrebentado contra a parede. A escolha do verbo pode induzir uma resposta errada. O verbo destruir predispõe quem o ouve a imaginar uma velocidade maior do que a real. "Chocar­ se" seria uma alternativa melhor.

Época - Levando-se em conta as adapta­ções evolutivas, pode-se imaginar que a xenofobia é uma dessas falhas cerebrais?

Buonomano - Minha hipótese é que o cérebro está predisposto a desenvol­ver medos seletivos por certas coisas que eram ameaças graves no passado, como as cobras. Muitos pesquisadores acreditam, e eu concordo, que também estamos predispostos a descon­fiar de gente que é muito diferente de nós. Hoje pode ser um erro, mas era uma boa adaptação no passado.

Época - Por quê?

Buonomano - A competição entre grupos é um componente da evolução. Ela permite aos animais se protegerem coletivamente e manterem sob controle os alimentos e os parceiros sexuais. No caso dos humanos, alguns pesquisadores pensam que desconfiar de estranhos era uma maneira de evitar contágios. Pense no que aconteceu quando os europeus chegaram à América. Nativos morreram de doenças que não existiam no continente até então.

Época - A tendência em acreditar no sobrenatural é um produto da evolução?

Buonomano - A crença em espíritos, bruxas e diabos é universal. Isso ocorre pela necessidade de encontrar causas para o que acontecia. Como seria possível para um homem primitivo não acreditar em forças superiores diante da morte? Nossos ancestrais não tinham conhecimento para explicar situações complexas. A crença no sobrenatural talvez tenha permitido que o cérebro não se aprofundasse em questões abstratas, como o sentido da vida - e gastasse mais energia em coisas práticas que garantissem a sobrevivência, como a melhor forma de achar comida.

Época - É posslvel evitar os efeitos das falhas cerebrais?

Buonomano - O mais incrível da mente humana é que, mesmo sendo o produto da evolução, ela é capaz de analisar a si mesma. A melhor forma de se proteger contra a herança de nosso passado é aprender como o cérebro funciona.

Época - Quanto disso tudo o senhor aprendeu no Brasil?

Buonomano - Fui morar em Campinas quando tinha 7 anos. Meu pai aceitou um emprego de professor no Depar­tamento de Matemática da Unicamp (Universidade de Campinas). Foi muito bom crescer com um pé em cada cultura. Mesmo com algumas diferenças cultu­rais, somos muito parecidos. Voltei aos Estados Unidos com 22 anos, mas me considero 50% brasileiro, e volto sempre que posso para visitar os amigos.

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