O Novíssimo Manual da Carreira


Os ingredientes necessários para fazer sucesso nas empresas no século XXI.

Revista Época - por Max Gehringer

Embora às vezes se confundam, e até pareçam sinônimos, emprego e carreira são duas coisas muito diferentes. Emprego é uma atividade de curto prazo, cujo desfecho é imprevisível. O emprego pode terminar amanhã cedo, por motivos que nada têm a ver com o desempenho do ocupante. A chegada de um novo chefe, uma fusão entre companhias, um programa de redução de despesas, a terceirização de um setor, ou a venda pura e simples da empresa. Qualquer pessoa conhece vários profissionais que perderam o emprego por um desses motivos. Mesmo assim, a maioria continua acreditando que "essas coisas" só vão acontecer com os outros.

Carreira é um processo de longo prazo. E não é apenas, como o nome parece indicar, o encadeamento de vários empregos sucessivos. Carreira é a autogestão da vida profissional. Como qualquer processo de gestão, requer três habilidades básicas - planejar, estabelecer objetivos e tomar decisões corretas na hora certa. Nenhuma dessas habilidades depende da empresa. Todas elas são pessoais e intransferíveis.

Em resumo, o emprego é o presente, uma relação transitória de utilidade mútua. A carreira é o futuro - uma questão de saber se preparar para poder escolher. O que leva a duas constatações não muito simpáticas. (1) Quem se preocupa demais com o emprego esquece da carreira. (2) Alguém que esteja desempregado, ou descontente com o emprego atual, só pode culpar a si mesmo.

É claro que há outro caminho de sucesso, fora da carreira. O mercado de trabalho é um funil, cuja borda de entrada está cada vez mais larga e cujo bico de saída está se estreitando a cada dia. A opção de abrir o próprio negócio, ou de ser um prestador de serviço autônomo, que hoje ainda é uma via pouco explorada, deverá se tornar no futuro próximo o caminho preferencial. Não tanto por vocação, mas por necessidade. Isso não exime os candidatos a empresários de aprender os conceitos de como fazer carreira nas empresas. Por dois motivos. O primeiro é que muitas lições do manual valem para os dois casos. Ao contrário do que muita gente pensa, quem abre um negócio não deixa de ter chefe - passa a ter todos os clientes como chefe. O segundo motivo é que, em algum momento, os empreendedores de verdade vão ter de saber lidar com um monte de gente querendo fazer carreira em sua empresa.

Construir uma carreira bem-sucedida é tão simples como preparar um bolo. Mas quem já preparou um bolo na vida sabe que a falta de um ingrediente não pode ser suprida pelo excesso de outro. Não adianta ter bastante escolaridade e nenhuma experiência, ou vice-versa. É preciso ter a quantidade necessária de cada um dos ingredientes. E é preciso saber dosá-los. A seguir, os 21 ingredientes necessários para uma boa carreira neste século XXI.

  • Estabelecer a Marca

    Na Propaganda, existe um conceito fundamental - o Top of Mind. Numa, tradução aproximada, isso significa "a primeira marca que vem à cabeça do consumidor". E ser a primeira marca que é espontaneamente lembrada tem um valor inestimável. Há marcas tão fortes que valem mais que todos os ativos da empresa. Em uma carreira profisssional, a marca vem do berço: é o nome de batismo. É preciso investir nele, para fazer com que fique gravado na mennte das pessoas com poder de decisão. Por isso, todas as oportunidades para reforçar o nome devem ser aproveitadas. Por exemplo, fazer parte de grupos de trabalho que envolvam vários setores. Escrever artigos para o jornal interno. Ser o primeiro a levantar a mão quando a empresa pedir um voluntário. Deve-se também criar uma assinatura legível. Um trabalho bem-apresentado, mas identificado por um garrancho, é um trabalho anônimo. E, ao começar uma conversa, nunca se deve perguntar: "Você lembra de mim?". Deve-se começar dizendo o nome e depois repeti-Io quantas vezes forem necessárias, para que o interlocutor nunca mais o esqueça.

  • Criar uma Rede de Relacionamentos

    Em Português Corporativo, isso chama networking. Não é um circulo de amigos do peito, é uma lista de pessoas profissionalmente úteis. Essa utilidade é indispensável na hora de conseguir um emprego. Atualmente, de cada dez boas vagas, sete são preenchidas por indicação direta. Como se estabelece contato com essa gente tão importante? Tudo começa na escola. Alguém que tenha terminado uma faculdade conheceu, no mínimo, 50 professores e 500 colegas durante os 16 anos de estudo. Professores conhecem gerentes e diretores. Alguns dos colegas vão atingir, rapidamente, posições respeitáveis em empresas. Mas apenas um em cada cem alunos se preocupa em preservar esses contatos - o que é um erro fundamental. Pessoas que ligam para antigos colegas apenas na hora em que ficam desempregadas(e precisam explicar quem são, ou quem foram) estão praticando o anti-networking.

    Outra maneira de conhecer gente interessante é participando de cursos profisssionais de curta duração. Nesses cursos, o conteúdo é menos importante que o intervalo para o café - o momento de travar contatos. Porém, é preciso ter em mente que networking não é dizer "muito prazer" e já ir entregando o currículo. Networking é como uma árvore, que precisa ser plantada e cuidada, para que um dia possa render frutos. Em alguns casos, é como uma oliveira, só vai dar azeitona depois de 20 anos.

  • < Ter um Currrículo Diferente

    Currículo, a origem da palavra explica, é uma breve lista de experiências acadêmicas e profissionais. Não é uma autobiografia nem é uma obra de ficção, com longos parágrafos que começam com "Implantei"; "Economizei"; ou "Liderei".

    Gerentes de grandes empresas recebem cerca de 50 currículos por dia, pelo corrreio postal ou eletrônico. Como chamar a atenção dessa gente, já que todos os, currículos se parecem? Transformando o currículo no anexo de uma carta pessoal. A carta, de dez linhas, deve explicar por que o candidato quer trabalhar naquela empresa, e em nenhuma outra empresa do mundo. Por exemplo, porque desde criancinha é consumidor do produto que a empresa fabrica. Uma carta bem escrita é a garantia de que o currículo receberá o minimo de atenção. Já um currículo padrão, por mais estético que seja, corre o risco de virar papel reciclado.

  • Prepare-se para a Entrevista

    Mais difícil que conseguir um emprego, hoje em dia, é conseguir uma entrevista. Por isso, essa rara oportunidade precisa ser bem aproveitada. Como se vestir? Como a empresa se veste. Não há um "traje-padrão de entrevista". Há a roupa que faz o candidato se parecer com a empresa. Existem empresas em que se trabalha de jeans e camisa pólo, existem empresas em que o figurino é um terno. E como se preparar? De duas maneiras. A primeira é conversando com pessoas que trabalham na empresa. Para entender o ambiente de trabalho e saber o que é exigido dos colaboradores. A segunda é acessando o site da empresa. Ali estão os valores, a história e os números que enchem a empresa de orgulho. Assim, qualquer pergunta do entrevistador poderá ser respondida com uma frase que ligue uma habilidade do candidato a uma característica da empresa. O "candidato ideal" nem sempre é o que tem o melhor currículo. Normalmente, é o que encontra mais pontos em comum entre o que ele é e o que a empresa deseja de um bom candidato.

  • Não Exagerar na Entrevista

    Nenhum entrevistador vai criar uma série exclusiva de perguntas para cada candidato. Por isso, há meia dúzia de perguntas recorrentes em entrevistas. O candidato deve ser objetivo nas respostas, sem exagerar nem se estender demais. Alguns exemplos de perguntas e respostas: 1. Fale um, pouco sobre você - "um pouco" significa "não mais que dois minutos". 2. O que você espera de nossa empresa? - "Oportunidades". 3. Qual é seu maior defeito? - "Falar quando é preciso ouvir. Mas estou aprendendo a me controlar". Uma dica: diferentemente do que a maioria dos candidatos pensa, "perfeccionismo" não é uma virtude que parece um defeito. É um defeito, mesmo. Todo perfeccionista é um mala-sem-alça. 4. Onde você se vê daqui a cinco anos? - "Nesta empresa. E daqui a dez, também". 5. Por que você se considera o melhor candidato para esta vaga? - "Não me considero, mas tenho certeza de que não irei decepcionar". 6. Alguma coisa que você queira acrescentar? - "Sim. Gostaria que o senhor me desse um par de sugestões para que eu possa coomeçar meu trabalho com o pé direito". Muito importante - e praticamente ninguém faz - é mandar uma carta para o entrevistador, no dia seguinte, agradecendo-lhe pela oportunidade da entrevista. Se quatro candidatos foram igualmente bem num processo de entrevistas, essa carta pode ser o fator de desempate.

  • Acertar nos Cursos

    Um diploma de curso superior deixou de ser garantia de emprego. Já foi, até a década de 1980, mas não é mais. Em caso de dúvida - e todo jovem normal de 17 anos tem um caminhão de dúvidas -, o mais indicado é estudar Administração. É o curso mais genérico que existe e, portanto, o que abre um leque maior de possibilidades. Mais tarde, quando a carreira começar a engrenar, o jovem poderá fazer cursos específicos, de acordo com a área de atuação que escolheu. "Falar inglês" também já não é um diferencial. É uma obrigação profissional, mesmo que a empresa não use o inglês. O inglês deixou de ser o idioma dos Estados Unidos e dos países britânicos. Tornou-se a língua do mundo dos negócios. Além do inglês, é recomendável aprender um segundo idioma. Para quem não aprendeu a manusear computador desde criancinha, um curso de informática é indispensável. O mais importante é que nenhum profissional, qualquer que seja sua idade, pode se dar ao luxo de passar dois anos sem fazer um curso. Não para impressionar, mas para estar atualizado. E não importa se a empresa vai pagar o curso ou não. Cursos não são feitos "para a empresa". São feitos para a carreira.

  • Endender o Chefe

    Muitas empresas estão chamando os chefes de "líderes", ou de "gestores de pessoas", porque a palavra "chefe" parece remeter ao tempo dos tupinambás. Independentemente da terminologia, o chefe é o chefe. Em qualquer carreira, o passo seguinte sempre passa pela opinião do chefe. Um subordinado pode achar que seu chefe é um incapaz, incompetente, déspota e desatualizado - e, além disso, não corta os pelinhos do nariz. Essa opinião pessoal sobre o chefe, mesmo se for correta (e, na maioria dos casos, não é), só vai causar transtornos à carreira. Chefes tendem a auxiliar aqueles subordinados que mostram respeito, agilidade e fidelidade. Que os fazem se sentir seguros, não ameaçados. Que elogiam publicamente as boas coisas que o chefe faz. E vão travar o desenvolvimento daqueles que contam piadas sobre o chefe e vivem criticando suas decisões, ou a falta delas. É mais fácil entender tudo isso sendo chefe. Mas só chega a chefe quem soube ser chefiado.

  • Causar uma boa Impressão

    Quem muda de emprego tende a usar a ex-empresa como referência. Isso é válido, desde que as referências sejam negativas. Tomar a empresa anterior como modelo bem-acabado é ofender a empresa atual. Um funcionário recém-contratado, todo mundo sabe, é cheio de conteúdo. Se não fosse, não teria sido admitido. Mas o primeiro dia em um novo emprego - ou no primeiro emprego - é que vai criar os rótulos. Rótulos grudam rápido, e não desgrudam mais. Um pós-graduado com MBA e experiência em Copenhague poderá chegar ao fim do primeiro dia num novo emprego com uma avaliação do tipo "Ele é um pentelho". Ou "Ele acha que sabe tudo". E nunca mais vai se livrar do estigma. Ser auto-suficiente é oube ser chefiado.

  • Causar uma boa Impressão

    Quem muda de emprego tende a usar a ex-empresa como referência. Isso é válido, desde que as referências sejam negativas. Tomar a empresa anterior como modelo bem-acabado é ofender a empresa atual. Um funcionário recém-contratado, todo mundo sabe, é cheio de conteúdo. Se não fosse, não teria sido admitido. Mas o primeiro dia em um novo emprego - ou no primeiro emprego - é que vai criar os rótulos. Rótulos grudam rápido, e não desgrudam mais. Um pós-graduado com MBA e experiência em Copenhague poderá chegar ao fim do primeiro dia num novo emprego com uma avaliação do tipo "Ele é um pentelho". Ou "Ele acha que sabe tudo". E nunca mais vai se livrar do estigma. Ser auto-suficiente é bom, ser autoconfiante é ótimo. Mas existe uma palavra que vai encantar os colegas e os superiores: humildade. E ela não está nas frases prontas("Estou aqui para somar"), mas nas atitudes pessoais. No primeiro contato, todo o passado profissional ou acadêmico vale menos que um sorriso.

  • Controlar a Ansiedade

    Empregados são cheios de idéias. Alguns chegam a ter uma grande idéia por hora. De cada dez funcionários, pelo menos seis sabem exatamente como a empresa poderia ser mais bem administrada. Mas, estranhamente, aquele pessoal lá no topo da pirâmide não parece nem um pouco interessado em escutar. Por que isso acontece? Porque nenhum funcionário é contratado para ter idéias geniais que vão mudar a empresa. Todo funcionário é contratado com dois objetivos. (1) Executar bem um trabalho predeterminado. (2) Fazer pequenas sugestões que vão melhorar o próprio trabalho. Só isso? Só. Saber se enquadrar em uma rotina pode não ser estimulante, mas é necessário. Hoje, com uma oferta de bons candidatos muito superior ao número de boas vagas, as empresas têm aproveitado para admitir pessoas que são superqualificadas para as funções que elas vão executar. Na cabeça da empresa, essas pessoas farão o que precisa ser feito. Na cabeça delas, essas pessoas poderão contribuir com muito mais do que a função exige. Mais ou menos como um engenheiro que aceite uma vaga de pedreiro - ele não pode sair alterando o projeto do prédio, porque essa não é sua função, embora ele tenha conhecimento para isso. Saber controlar a ansiedade significa entender a diferença entre "o que eu devo fazer" e "o que eu posso fazer". Concentrar os esforços no que se deve fazer vai gerar a confiança da empresa. E aí, futuramente, surgirão as oportunidades para o que se pode fazer. Nessa ordem.

  • Aprender a ser Líder

    Empresas nunca usaram tanto a palavra "liderança". De repente, parece que cada funcionário precisa ser um líder de carteirinha. Evidentemente, qualquer grupo em que todos decidem agir como líderes terá como conseqüência o caos absoluto. Quando empresas falam em liderança, elas não estão dizendo "Esqueça as regras, tome a iniciativa e comece a dar ordens". Elas estão dizendo: "Quando surgir uma oportunidaade para você liderar, esteja pronto para ela". O que não significa que a oportunidade vai surgir daqui a dez minutos. Ela pode até não surgir neste ano. Enquanto ela não surge, é importante ter em mente que ser líder é uma coisa, e estar líder é outra. A primeira é uma característica pessoal permanente, a segunda é uma delegação provisória da empresa. E a empresa estará de olho naqueles que conseguirão se destacar em situações rotineiras de trabalho. São os que dão bons exemplos de companheirismo. São aqueles que os colegas procuram quando precisam de uma ajuda ou de um conselho. São os primeiros a reagir quando aparece uma emergência. Liderança é a capacidade que algumas pessoas têm de aglutinar um grupo em torno de um objetivo prático - e de interesse da empresa. É por causa da segunda metade da frase que muitos chefes são incompreendidos.

  • Ser Bom sem ser Bonzinho

    A diferença é muito maior do que o uso do diminutivo parece pressupor. Ser bom vai impulsionar uma carreira. Ser bonzinho vai retardá-la. O bonzinho é aquele funcionário que os colegas adoram, que o chefe aprecia e que todo mundo na empresa elogia. Só que o bonzinho passa anos e anos fazendo a mesma coisa. E isso acontece porque ele não reclama de nada, não pede oportunidades, não contraria ninguém - nem mesmo quando sabe que tem razão. Pessoas assim são tão raras que os chefes não admitem se desfazer delas. E o bonzinho vai ficando onde está. Paradoxalmente, sua maior virtude é também o maior entrave para sua carreira. O bonzinho não precisa aprender a ser bom, porque ele já é. Ele precisa, apenas, deixar de ser bonzinho.

  • Aproveitar as Mudanças

    Empresas mudam. Por incontáveis motivos. Mudam por estratégia, por tecnologia, por pressão da concorrência, por necessidade de atualização ou por associação com outras empresas. Se existe uma única certeza, em qualquer empresa, de qualquer setor, é que daqui a cinco anos as coisas serão diferentes. Mas essa realidade nunca impediu que a palavra "mudança" causasse calafrios. Porque ninguém vai perguntar: "Qual será o efeito benéfico da mudança para a empresa?" Qualquer ser humano normal perguntará: "O que vai acontecer comigo?" No fundo, todos nós somos a favor de qualquer mudança que podemos controlar. Nas empresas, praticamente todas as mudanças estão fora do controle dos funcionários. Logo, em princípio, somos contra. Aí, existem duas alternativas: ficar ou sair. Para os que ficam, há três opções: criticar, esperar para ver o que dá ou embarcar. De modo geral, pode-se dizer que a maioria prefere ficar. E que a atitude da maioria dos que ficam é de revolta ou de conformismo. Os poucos que embarcam são sempre os primeiros a ser beneficiados pela mudança, se ela der certo. E, se não der, os que embarcaram ganharão a confiança da empresa. Para uma carreira, duas coisas são positivas: mudar com a empresa ou mudar de empresa. E uma é negativa: ignorar mudanças.

  • Ser Político

    A palavra "político" anda meio desgastada. Por isso, nas empresas, tem quem se ofenda quando é chamado de político. Mas isso continua sendo um elogio. Saber ser político &

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