O poder da agulha


Antes vista com ressalvas por parte dos profissionais da área de saúde, a acupuntura é reconhecida hoje como tratamento eficaz contra a dor.

Revista Scientific American - por Suzanne Kemmer

Deitada na mesa de tratamento, Cláudia mantém os olhos fechados. Somente com dificuldade ela é capaz de descrever a sensação que a picada da agulha deixa em seu corpo: talvez uma dorzinha discreta, que incomoda e formiga ao mesmo tempo. Cuidadoso, o médico vai espetando uma agulha após a outra. Se as sessões de acupuntura vão livrá-Ia das dores de cabeça crônicas, ninguém sabe dizer - mas o tratamento pelo menos tornou mais raras as ocorrências. A própria paciente não crê em curas milagrosas, até porque já passou por um número considerável de terapias malsucedidas. "Li no jornal que a acupuntura ajuda contra as dores de cabeça", explica ela. "Resolvi experimentar. Mal não vai fazer."

A acupuntura (do latim acus, agulha, e punctura, picada) é um antigo método chinês de tratamento. Os primeiros relatos escritos a seu respeito datam da dinastia Han (206 a.C a 220 d.C). O conhecimento acerca dessa arte curativa e das ervas medicinais orientais chegou à Europa, supõe-se, ao longo dos séculos XlIl e XIV, na bagagem de missionários cristãos e graças aos relatos de viagem de Marco Polo. Apenas mais tarde, porém, a acupuntura alcançou notoriedade internacional. Com o então presidente americano Richard Nixon, jornalistas ocidentais estiveram na República Popular da China em 1972 e relataram êxitos espetaculares da acupuntura como anestésico - por exemplo, em cesarianas.

Passados mais de 30 anos, a medicina tradicional chinesa (MTC) é hoje procurada como nunca, mesmo fora do universo cultural asiático. Apesar de numerosos estudos demonstrarem seus múltiplos efeitos, a acupuntura, porém, ainda não conseguiu se livrar por completo da suspeita de ser um pseudotratamento esotérico. Em 2004, por exemplo, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Jena, Alemanha, sob a direção de Winfried Meissner mediu as reações fisiológicas ao estímulo acupuntural.

Os cientistas de Jena expuseram voluntários anestesiados a certos estímulos dolorosos, ao mesmo tempo que os trataram com aplicações de agulhas. Documentaram a reação dos participantes com base nas ondas cerebrais, ou seja, nos chamados potenciais evocados; padrões característicos presentes no eletrencefalograma (EEC) e provocados por estímulos. Embora os voluntários anestesiados não tenham sentido conscientemente as picadas, a acupuntura reduziu os potenciais de excitação. O agulhamento é mais do que um placebo, concluíram Meissner e sua equipe; é de supor que alivie de fato as dores.

A esse mesmo resultado cheegaram pesquisadores sob o comando de Konrad Streitberger, do Departamento de Anestesiologia da Universidade de Heidellberg. Em 1998, eles realizaram experimentos em pacientes acordados, valendo-se das chamadas agulhas-placebo. Em vez de se fincarem profundamente na pele, elas desaparecem dentro da haste após a picada, tal como a lâmina das espadas utilizadas no teatro. Assim sendo, o voluntário, embora sinta a agulha, não sabe que ela está apenas na superfície da pele. O resultado desses experimentos foi que os voluntários nos quais a acupuntura foi aplicada de fato avaliaram seu tratamento como mais bem-sucedido do que aqueles em que se aplicou apenas a agulha-placebo.

Diversas são as explicações para os efeitos que as agulhas produzem no corpo humano, e elas variam de acordo com a proveniência - se dadas por um médico ocidental, filiado às ciências naturais, ou se por um adepto dos princípios da medicina chinesa. Certo é que o estímulo libera na medula espinhal e no cérebro neurotransmissores reguladores, tais como opiáceos endógenos e serotonina, que atuam como analgésicos produzidos pelo próprio corpo. Assim, a medula espinhal secreta encefalina e dinorfina, peptídeos opiáceos que bloqueiam a excitabilidade das células nervosas condutoras e o caminho até o cérebro. Ademais, enquanto a agulha permanece na pele, seu estímulo concorre com as dores do paciente.

Desde a década de 80 e dos estudos fundamentais de Yi-Sheng Han, da Universidade Médica de Pequim, os pesquisadores têm conhecimento das reações hormonais do corpo ao tratamento acupuntural. O bioquímico chinês comprovou na época a secreção de endorfinas inibidoras da dor - também elas opiáceos endógenos - como conseqüência das aplicações de agulhas. Han submeteu ratos à acupuntura eletrônica e transferiu, então, seu sangue para um grupo de controle. Depois desse tratamento, os ratos de ambos os grupos revelaram-se menos sensíveis à dor, evidenciando que, juntamente com o sangue, transferiram-se também os analgésicos fabricados pelo próprio organismo.

Hoje sabe-se que o corpo responde às picadas não apenas com a liberação de endorfinas e hormônios. Cientistas da Academia de Medicina Tradicional Chinesa, em Pequim, e da Harvard Medical School, em Boston, publicaram em 2000 e 2002 suas descobertas sobre como o cérebro reage à acupuntura. Com o auxílio dos procedimentos de diagnóstico por imagens, verificaram alteração sobretudo na atividade das estruturas límbicas, que têm participação na sensibilidade à dor. Além disso, o estímulo de certos pontos revelou alteração do padrão de atividade no córtex somatossensorial, também ele envolvido no processamento da dor. Os pesquisadores interpretaram isso como sinal de redução da excitabilidade dos neurônios, o que poderia responder, por exemplo, pelo sucesso da terapia contra dores crônicas (como a enxaqueca).

Para Dominik Irnich, diretor do ambulatório de tratamento à dor do Hospital Universitá e;rio de Munique, o segredo dessa terapia oriental estaria também, e não em pouca medida, nos seus efeitos psicológicos. "Os pacientes experimentam uma maior dedicação. Não há uma mesa separando o doente do terapeuta, que toca o paciente com as mãos e, ao mesmo tempo, o observa com a máxima atenção. Além disso, conversa-se detalhadamente sobre as dores e os sintomas do paciente, o que, de modo geral, já atua de forma positiva sobre o quadro da doença."

A maioria dos médicos que pratica a medicina tradicional chinesa não se dá por satisfeita com todas essas explicações. Para eles, a acupuntura suscita muito mais do que a secreção de substâncias que aliviam a dor. Do ponto de vista da MTC, saudável é a pessoa que apresenta corpo e mente em equilíbrio. Três dimensões principais determinam esse balanço: o equilíbrio entre yin e yang, o fluxo do Qi (ou Ch"i) e a relação entre os cinco elementos (ou "movimentos") - madeira, fogo, terra, metal e água. Havendo uma perturbação numa dessas esferas, o paciente sente-se doente. Seus sintomas e queixas, por sua vez, conduzem a MTC à causa do desequilíbrio que, visando o restabelecimento, cumpre realinhar.

Como, porém, explicar esses critérios orientais de acordo com nossa compreensão ocidental? O modelo senoidal pretende dar conta desse malabarismo, e o faz comparando elementos da MTC com conceitos da teoria da regulação. Os mecanismos dos quais yin e yang dependem - e dos quais depende, portanto, nosso bem-estar - são ilustrados por um tanque de água cuja temperatura oscila constantemente em torno de um valor ideal: ora acima do desejado (yang), ora abaixo (yin).

Na concepção da MTC, as enfermidades interferem nesse sistema, na medida em que interrompem as oscilações naturais. A indicação terapêutica de um profissional da MTC dependerá, pois, do nível de energia do paciente. A MTC reconhece as fases yang, entre outros indicadores, pelo grau de nervosisrno ou por distúrbios do sono; cansaço, palidez ou sennsação freqüente de congelamento, por outro lado, caracterizam o excesso yin. Esse diagnóstico é considerado o pivô e a pedra anguIar do tratamento. Isso porque, dependendo de para onde pende o excesso (se para yin ou yang) , o terapeuta deverá estimular o corpo do paciente com aplicações sedativas ou tonificantes. Sua meta será tornar a movimentar o fluxo de energia: o Qi. Para tanto, o médico trabalhará pontos definidos ao longo do caminho do Qi - os chamados meridianos. Para a MTC, esses meridianos relacionam-se a vísceras específicas. O estímulo da agulha conduz à harmonização e ao auto-restabelecimento desses órgãos. Assim, o bloqueio que causou as enfermidades e as dores enfim se dissolve, ao menos em teoria. Até o momento, porém, a existência desses meridianos não foi comprovada segundo os parâmetros da medicina ocidental.

De todo modo, mesmo para médicos como Johannes Greten, diretor da Sociedade de Medicina Tradicional Chinesa de Heidelberg, o segredo dessa arte curativa oriental reside não tanto nos mecanismos inibidores da dor, mas sobretudo nos efeitos regulatórios da acupuntura. Greten considera o combate à dor uma componente menor de um tratamento eficaz. Decisiva, em sua opinião, é a sensibilidade do diagnóstico: "A MTC leva em conta a totalidade do ser humano, praticamente sem nenhum auxílio tecnológico. Isso é algo de que a medicina ocidental não é capaz".

Igualmente importante, exxplica Greten, é reconhecer as limitações da terapia e assegurar-se de que as dores do paciente não tenham por fundamento uma perturbação que necessitaria de outro tipo de tratamento, caso de um infarto do miocárdio ou de uma apendicite. Essa regra se aplica, segundo o médico, sobretudo no caso dos pacientes que chegam a seu consultório sem um diagnóstico anterior por parte da medicina convencional: "Em um terço dos pacientes, encontramos enfermidades não detectadas em exames prévios, o que constitui um problema relacionado à visão que especialistas têm de seus pacientes".

Para um número cada vez maior de pessoas, a acupuntura é algo que vale a pena experimentar, sobretudo quando outras terapias não podem ajudar ou quando comprimidos e injeções acarretam consideráveis efeitos colaterais. Ainda assim, o número crescente dos que buscam ajuda nos consultórios da MTC não constituiu até o momento argumento suficiente para levar todos os planos de saúde a arcar com os custos de tais tratamentos.

Também há muitos pacientes dispostos a pagar do próprio bolso o profissional de sua escolha. Para eles, o que conta é se vão se sentir melhor depois da acupuntura ou - de acordo com a medicina chinesa - se o terapeuta será capaz de fazer fluir de novo seu Qi.

No Brasil, a acupuntura foi introduzida no fim da década de 50. Reconhecida como medicina complementar pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a prática passou a ser exercida por profissionais da área da saúde, como fisioterapeutas, psicólogos e fonoaudiólogos e terapeutas corporais. O exercício da técnica por pessoas com formação variada, sem uma regulamentação específica e restritiva, provocou intenso debate entre os médicos que passaram a reivindicar o exercício da acupuntura como especialidaade médica. A polêmica persiste mesmo depois da publicação de uma portaria pelo Ministério da Saúde, em 2006, estabelecendo diretrizes para a incorporação e implementação dessa prática pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A medida possibilitou que tanto médicos quanto outros profissionais apliquem a acupuntura, desde que tenham a formação adequada para diagnosticar doenças e tratar pacientes. 

  • Como o cérebro reage às picadas

O efeito da acupuntura no combate à dor é o mais estudado até o momento. Na opinião da medicina ocidental, a picada de uma agulha de acupuntura produz a condução de um impulso: na pele, receptores transmitem, por vias ascendentes, informações sobre o local e a intensidade da dor até a medula espinhal. A partir daí, o sinal passa por diversas comutações (no mesencéfalo, por exemplo) até que, pela via do tronco cerebral e do diencéfalo, chega enfim ao tálamo (parte do sistema límbico) e ao córtex somatossensorial, onde a dor é percebida de forma consciente. O sistema límbico agrega, então, ao impulso a necessária componente emocional: a dor incomoda. Al&e doenças e tratar pacientes. 

  • Como o cérebro reage às picadas

O efeito da acupuntura no combate à dor é o mais estudado até o momento. Na opinião da medicina ocidental, a picada de uma agulha de acupuntura produz a condução de um impulso: na pele, receptores transmitem, por vias ascendentes, informações sobre o local e a intensidade da dor até a medula espinhal. A partir daí, o sinal passa por diversas comutações (no mesencéfalo, por exemplo) até que, pela via do tronco cerebral e do diencéfalo, chega enfim ao tálamo (parte do sistema límbico) e ao córtex somatossensorial, onde a dor é percebida de forma consciente. O sistema límbico agrega, então, ao impulso a necessária componente emocional: a dor incomoda. Além disso, o cérebro reage ao estímulo da acupuntura da mesma maneira como reage a outras irritações provocadas por stress: o corpo passa a secretar o hormônio ACTH (adrenocorticotrofina) em maior quantidade, o que, por sua vez, leva o córtex das supra-renais à produção de hidrocortisona e de outras substâncias analgésicas.

O estímulo atua em pelo menos três planos. A primeira inibição da dor ocorre na medula espinhal- ou assim deve ser, se o terapeuta executou corretamente a aplicação. O estímulo provoca a secreção de encefalina e dinorfina, o que resulta na inibição da excitabilidade elétrica das células nervosas condutoras. Assim se explica também o rápido alívio da dor, o chamado efeito analgésico imediato da acupuntura: enquanto a agulha estiver fincada na pele, o estímulo atua contra as dores reais à maneira de uma manobra diversionista, ou seja, distraindo o paciente.

Especialistas como o médico Markus Bãcker, do Instituto de Medicina Natural e Integrada da Universidade de Duisburg-Essen, postulam ainda um segundo mecanismo, mais a longo prazo, no plano da medula espinhal: sinapses inibidoras no âmbito do corno posterior diminuiriam de forma duradoura a força de transmissão das fibras nervosas condutoras, de tal modo que a dor real já não chegaria ao cérebro e, portanto, tampouco poderia ser sentida.

Um terceiro mecanismo, também ele conduzindo a inibição mais duradoura, pode ser atribuído a uma espécie de contra-irritação por parte do cérebro: mesmo bom tempo depois de retirada a agulha, a atividade de certas partes do diencéfalo persiste. A partir do hipotálamo ou da hipófise, hormônios como a betaendorfina retomam à medula espinhal por vias nervosas descendentes, proporcionando ali um efeito analgésico duradouro.

  • SP tem pronto-atendimento

O Brasil é um dos centros mundiais de excelência em acupuntura. A técnica hoje é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, pela Associação Médica Brasileira e pela Comissão Nacional de Residência Médica. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) abriga desde 1992 o Setor de Medicina Chinesa - Acupuntura, ligado ao Departamento de Ortopedia e Traumatologia da instituição. Desde 1998, o Hospital São Paulo, ligado à Unifesp, conta com um pronto-atendimento, o primeiro PA do mundo ocidental nessa especialidade. O serviço é gratuito, de segunda a sexta, das 8 h às 17 h, na rua Napoleão de Barros, 771, sala 29, tel. (11) 5576-4179, e-mail: acupuntura.dot@epm.br

Saiba Mais 

Acupuntura tradicional. Ysao Yamamura. Roca, 2001.
A prática da medicina chinesa. Givoanni Macioca. Roca, 1996.
Universidade de Duisburg-Essen, cadeira de medicina natural e integrada. www.uni-essen.de/naturheilkunde

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