O que os Testes de Q.I. Não Revelam


A ideia de que não é possível medir todas as faculdades essenciais de forma confiável não é nova; especialista trabalha com a hipótese da "avareza cognitiva" para mostrar que nosso cérebro busca caminhos fáceis para resolver problemas, mas nem sempre escapa dos erros.

Revista Scientific American - por Keith E. Stanovich

Conceitos-chave

- Os testes tradicionais de QI deixam de lado alguns dos aspectos mais Importantes da inteligência do mundo real. E possível obter ótimos resultados em testes e ainda sofrer da disfunção do pensamento lógico, denominado disracionalidade.

- Um motivo para isso é que tendemos a ser "avaros cognitivos", ou seja, usamos o caminho mais fácil para tentar resolver os problemas; muitas vezes, isso nos conduz a soluções ilógicas e equivocadas.

- Outra causa da disracionalidade é a lacuna de aparato mental, que ocorre quando as pessoas não têm o conhecimento específico sobre um assunto ou sobre regras e
estratégias necessárias para pensar racionalmente.

- Existem testes capazes de mensurar a disracionalidade que deveriam ser aplicados com mais frequência, para detectar as deficiências que os testes de QI deixam escapar.

Se fossem aplicados testes para medir o quociente de inteligência (QI) na maior parte da população, sem dúvida você descobriria que inúmeras pes­soas são capazes de obter resultados bastante respeitáveis, mas, na prática, elas não parecem tão espertas assim. Isso indica que estamos nos esquecendo de algo importante ao tratarmos a inteligência como se ela abrangesse todas as habilidades cognitivas. A fim de chamar a atenção para um amplo campo que os testes que se propõem a medir o QI deixam de avaliar, cunhei o termo disracionalidade (dysrationalia, em inglês) em analogia à díslexia, significando disfunção ou incapacidade de pensar e se comportar de forma racional apesar de a inteligência ser adequada. O curioso é que, embora a maioria das pessoas re­conheça que os testes de QI não consideram relevantes faculdades mentais, nos comportamos como se eles fizessem isso. Supomos, ainda que implicitamente, que a inteligência e a racionalidade caminham juntas - ou então, por que nos surpreendemos tanto quando pessoas inteligentes fazem coisas estúpidas?

É útil abordar a disracionalidade e suas causas porque vivemos rodeados de questões que cada vez mais demandam respostas exatas e racionais. No século XXI, essa abordagem superficial pode levar médicos e psicólogos a escolher terapêuticas menos eficientes, fazer pessoas avaliarem erroneamente os riscos no seu ambiente, provocar o uso equivocado de informações em procedimen­tos legais e influenciar pais a fazer escolhas prejudiciais à educação dos filhos. Quando aqueles que tomam decisões em empresas. no Judiciário, no Legislativo ou no governo sofrem de disracionalidade, milhões de dólares são gastos em projetos desnecessários, bilhões são desperdiçados em remédios inócuos, em cirurgias desnecessárias e em vultosos equívocos administrativos e financeiros que terminam por causar prejuízos à vida de inúmeros seres humanos.

Os testes de QI não medem a disracionalidade. Mas há muitas formas de mensurá-Ia e de corrigi-Ia. Décadas de pesquisas em psicologia cognitiva sugerem dois motivos para a disracionalidade. O primeiro é um problema de processamento, o outro, de conteúdo.

Os problemas de processamento surgem porque ten­demos a ser excessivamente econômicos em termos de cognição. Quando abordamos uma questão, podemos escolher entre vários mecanismos intelectuais para resolvê-Ia. Alguns nos permitem solucionar problemas com exatidão, porém são lentos, requerem muita concentração e podem interferir em outras tarefas cognitivas. Outros mecanismos cognitivos são comparativamente mais rápidos, demandam pouca concentração e não interferem em outras atividades cerebrais simultâneas - são, porém, mais propensos a equívocos. Mas os seres humanos são avaros cognitívos, nossa tendência básica é nos acomodar com as formas de processamento que demandam menos esforço, mesmo sendo menos precisos.

De que forma seu cérebro funciona? Considere o pro­blema a seguir, tirado da obra do cientista computacional Hector Levesque, da Universidade de Toronto. Tente respondê-Io antes de ler a solução.

Jack olha para Anne, porém Anne olha para George; Jack é casado, mas George, não. Uma pessoa casada está olhando para uma pes­soa solteira?

A) Sim
B) Não
C) Não é possível determinar

Mais de 80% das pessoas escolhem C. Mas a resposta correta é A. A explicação é lógica: Anne é a única pessoa cuja situação é desconhecida. É preciso considerar as duas possibilidades, casada ou solteira, para determinar se há informação suficiente para chegarmos a uma con­clusão. Se Anne fosse casada, a resposta seria A: ela seria a pessoa casada que olha para a pessoa solteira (George). Se Anne fosse solteira, a resposta continuaria a ser A: neste caso, Jack seria a pessoa casada que olha para Anne, a solteira. Esse processo de pensamento é chamado de raciocínio totalmente disjuntivo - o raciocínio que considera todas as possibilidades. O fato de o problema não revelar se Anne é ou não é casada sugere às pessoas que elas não contam com informações suficientes, e elas acabam fazendo a inferência mais fácil, C, sem analisar todas as possibilidades.

A maioria consegue usar o racioc&i iacute;nio totalmente disjuntivo se informada explicitamente que ele é ne­cessário (por exemplo, quando não há uma opção "não é possível determinar"). Mas grande parte não o faz automaticamente; portanto essa tendência está apenas ligeiramente relacionada à inteligência.

Aqui está outro teste relativo à avareza cognitiva, como descrito pelo psicólogo Oaniel Kahneman, ga­nhador do Prêmio Nobel de Economia (2002), e por seu colega Shane Frederick. 

Um taco e uma bola de beisebol custam US$ 1,10 no total. O preço do taco é maior que o da bola. Quando custa a bola?

Muitas pessoas dão a primeira resposta que vem à mente: 10 centavos. Mas se pensarem um pouco mais vão perceber que essa não pode ser a resposta correta, o taco
teria de custar US$ 1,10, totalizando US$ 1,20. O QI não é garantia contra esse tipo de engano. Kahneman e Frederick descobriram que, assim como muitos de nós, um grande número de seletos estudantes universitários do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, de Princeton e de Harvard eram avaros cognitivos quando confrontados com esse e outros problemas semelhantes.

Uma outra característica dos avaros cognitivos é a propensão ao uso unilateral das informações ou seja da tendência de raciocinar sob uma perspectiva egocêntrica. Em um estudo recente, meu colega Richard West, da Uni versidade James Madison, e eu apresentamos a um grupo de voluntários o seguinte problema de raciocínio:

Imagine que o Departamento de Transpor­tes americano descobriu que determinado carro alemão tende a matar oito vezes mais os ocupantes de outro carro, em um acidente, que um modelo diverso de automóvel. O governo federal está considerando a possibilidade de restringir a venda e o uso do último veículo. Você acredita que a venda do carro alemão deva ser proibida nos Estados Unidos? Acha que o carro alemão deveria ser proibido de circular nas ruas americanas?

Depois apresentamos a outro grupo de voluntários o raciocínio do problema mencionado de forma diferente, com informações verdadeiras do Departamento de Transportes, que descobrira risco maior de mortes não em um carro alemão, mas em um americano.

Imagine que o Departamento de Transportes descobriu que o Ford Explorer tende a matar oito vezes mais os ocupantes de outro carro, em um acidente, que outro veículo. O governo alemão está considerando a possibilidade de restringir a venda ou o uso do Ford Explorer. Por favor, responda as duas perguntas a seguir: você acredita que a venda do Ford Explorer deve ser proibida na Alemanha? Você acha que o Ford Explorer deveria ser proibido de circular nas ruas alemãs?

Dentre os sujeitos americanos que testamos, desco­brimos apoio considerável para o veto quando se tratava de carro alemão em uso nos Estados Unidos: 78,4% concordaram com a proibição de vendas e 73,7% com o banimento do carro das ruas americanas. Mas em relação aos sujeitos para os quais a pergunta frisava a restrição ao carro americano na Alemanha, houve uma diferença estatística significativa: apenas 51,4% acharam que a venda do automóvel deveria ser vetada, e só 39,2% acreditaram que sua circulação deveria ser proibida nas ruas alemãs, embora o veículo tivesse sido apresentado exatamente com os mesmos resultados medíocres quanto à segurança.

O estudo ilustra a tendência de avaliarmos a situação sob a nossa perspectiva. Em geral, pesamos as evidências e fazemos julgamento moral com visão egocentrada que, com frequência, leva à disracionalidade, que é independentemente da inteligência mensurada. O mesrno ocor­re com outras tendências à avareza cognitiva que já foram bem estudadas, como atribuir enganos de substituição e conjunção; na melhor das hipóteses estão apenas ligeiramente relacionadas à inteligência e não são bem captadas pelos testes convencionais.

Lacuna Mental

A segunda fonte de disracionalidade é um problema de conteúdo, Precisamos adquirir um conhecimento específico para pensar e agir racionalmente. o cientista David Perkins, de Havard, cunhou o termo "mindware", aparato da mente, para se referir às regras, às informações, aos procedimentos, às estratégias e a outras ferramentas cognitivas (conhecimento de probabilidades, lógica e inferência científica) que devem ser recuperadas da memória para pensarmos de forma racional. A ausência desse conhecimento cria uma lacuna - novamente, algo que não é avaliado nos testes tradicionais de QI.

Um aspecto do "aparto mental" é o pensamento probabilístico, que pode ser mensurado. Experimente resolver o seguinte problema antes de prosseguir a leitura:

Imagine que a síndrome XYZ é uma doença séria que atinge uma pessoa em mil. Imagine também que o teste sempre diagnostica corretamente a presença do vírus XYZ no portador, acusando a doença. Finalmente, suponha que o exame ocasionalmente possa identificar erroneamente um indivíduo saudável como portador de XYZ. o teste tem um resultado falso-positivo de 5%, ou seja, 5% de pessoas saudáveis são diagnosticadas erroneamente como portadoras do vírus XYZ.

A seguir, escolhemos uma pessoa ao acaso e administramos  o teste - e essa pessoa recebe o diagnóstico positivo para a síndrome XYZ. Pressuposto que não sabemos mais nada sobre o histórico médico do indivíduo, qual é a probabilidade (expressa em percentual de zero a cem) de o voluntário realmente ter o vírus XYZ?

A resposta mais comum é 95%, porém está errada. As pessoas tendem a ignorar a primeira parte da proposição que indica que apenas uma pessoa em mil realmente tem a síndrome XYZ. Se as outras 999 (que não têm a doença) forem testadas, o índice de falso-positivo de 5% indicará que aproximadamente 50 delas (0,05 x 999) ouvirão que têm XYZ. Portanto, para cada 51 pacientes que testarem positivo para XYZ, apenas um realmente a terá. Por causa do índice relativamente baixo da doença e do índice rela­tivamente alto de falso-positivos, a maioria das pessoas que testar positivo para a síndrome XYZ não será portadora. A resposta à pergunta, portanto, é que a probabilidade de a pessoa que testar positivo para a síndrome XYZ realmente tê-Ia é de 1 em 51, ou seja, aproximadamente 2 %.

Um segundo aspecto do aparato mental, a aptidão de pensar cientificamente, também não está presente nos testes padrão de QI, embora ela possa ser medida facilmente.

Um segundo aspecto do aparato mental, a aptidão de pensar cientificamente, também não está presente nos testes padrão de QI, embora ela possa ser medida facilmente.

Um experimento é conduzido para testar a eficácia de um novo tratamento médico. Imagine uma matriz 2 x 2 que resumiu os seguin­tes resultados:

 

  Melhora Sem Melhora
Tratamento administrado 200 75
Sem tratamento 50 15

 

Como se pode ver, dentre os pacientes que receberam o tratamento, 200 apresentaram melhora e 75 não; dentre os pacientes para os quais o tratamento experimental não foi administrado, 50 obtiveram melhora e 15 não. Antes de prosseguir a leitura, responda esta pergunta com um simou com não: o tratamento foi eficiente?

A maioria das pessoas dirá que sim, por se concentrar no grande número de pacientes (200) nos quais o tratamento administrado levou a um resultado positivo, e pelo fato que, dentre os pacientes que receberam o tratamento, mais pacientes melhoraram (200) do que deixaram de melhorar (75). Como a probabilidade de melhora (200 em 275 tra­tados, ou 200/275=0,727) parece alta, as pessoas tendem a acreditar que o tratamento funciona. Entretanto, isso reflete um erro no pensamento científico: a incapacidade de considerar o grupo de controle, algo no qual até os médicos erram (é temerário pensar nisso). No grupo de controle, a melhora ocorreu mesmo quando o tratamento não foi administrado, e a probabilidade de melhora sem tratamento (50 dentre 65 não tratados, ou 50/65 = 0,769) é até mais alta que a probabilidade de melhora com o tratamento, ou seja, o tratamento em questão pode ser julgado como totalmente ineficiente.

Outro problema do aparato mental está relacionado ao teste de hipóteses, também raramente avaliado nos testes de QI, embora mensurável de modo confiável, como demonstrado pelo falecido Peter C. Wason, da University CoIlege London. Antes de prosseguir a leitura, tente solucionar o quebra-cabeça abaixo, chamado tarefa de seleção de quatro cartas.

 

A

K

8

5

 

Quatro cartas estão dispostas sobre a mesa. Cada uma tem uma letra de um lado e um número do outro. Duas cartas estão com as le­tras viradas para cima, e as outras duas, com os números. A hipótese a ser testada é a seguinte: caso uma lâmina tenha uma vogal em seu lado das letras, haverá um número par no lado onde aparece o número. Sua tarefa consiste em decidir qual carta ou cartas devem ser viradas para des­cobrir se a hipótese é falsa ou verdadeira. Indique as cartas que devem ser viradas.

A maioria das pessoas dá a resposta errada, e é ex­tremamente difícil perceber por quê. Aproximadamente metade das pessoas diz que o A e o 8 devem ser virados: uma vogal, para verificar se há um número par do outro lado, e um número par, para ver se há uma vogal em seu verso. Outros 20% escolhem virar apenas o A, e outros 20% viram outras combinações incorretas. Ou seja, 90% dos jogadores se enganam.

Vamos ver por que as pessoas tendem a incorrer em erro. Não há problemas com as cartas com as letras: a maioria escolhe corretamente a carta A. A dificuldade está nas cartas com os números: a maioria opta erroneamente pela lâmina com o 8. Mas por que é errado escolhê-Ia? Leia a hipótese novamente: ela diz que uma vogal deve ter um número par em seu verso, mas nada explícita quanto à necessidade de haver uma vogal no verso de um número par, ou qual o tipo de número uma consoante deve ter. (Como a proposição nada diz sobre as consoantes, não há necessidade de olhar o verso de K.) Assim, se encontrarmos uma consoante no verso do 8, isso nada ajudará quanto à hipótese ser verdadeira ou falsa. Já a carta do 5, que a maioria não escolhe, é essencial: ela pode ter uma vogal no verso e, caso tivesse, isso provaria que a teoria é falsa, pois significaria que nem todas as vogais têm números pares no verso. Resumindo, para demonstrar que a hipótese não é falsa, a carta contendo o 5 deverá ser virada.

Ao pedirmos que alguém demonstre se algo é verda­deiro ou falso, ele tende a se concentrar na confirmação da hipótese, em vez de provar sua falsidade. É por isso que vira o 8, para confirmar a proposição, observando uma vogal do outro lado, e a letra A, para encontrar o número par para a confirmação. Porém, se pensasse de modo científico, tentaria encontrar meios de provar que a hipótese é falsa - um padrão de pensamento que sugere imediatamente a relevância da carta 5 (que pode conter no verso uma vogal contradizendo a hipótese). A busca de evidências que refutem as proposições é um componente crítico do pensamento científico. Porém, para a maioria das pessoas essa porção do aparato mental deve ser ensinada, até que seja totalmente incorporada.

• Habildades Dissociadas

O período moderno de pesquisa sobre a inteligência foi inaugurado por Charles Spearman em um famoso artigo, publicado em 1904 no American Journal of Psychology.
Spearman descobriu que

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