O refinamento da lapidação cerebral


O cérebro ainda é um enigma mas isso não irá inibir o aprimoramento mental.

Revista Scientific American - por Gary Stix

A década do cérebro chegou e foi embora silenciosamente. Para as pessoas que organizam e executam campanhas para esclarecer a opinião pública e levantar financiamentos, a duração é medida em dias, semanas, meses ou, raramente, em anos - nunca mais de uma década. Qualquer duração mais longa excederia o tempo de vida da audiência e dos patrocinadores potenciais para os quais a mensagem é dirigida. Não faria sentido falar em "século da consciência dos males do rim" ou em "cem anos da esquizofrenia".

Os organizadores da década do cérebro enfrentaram a dificuldade de decifrar a máquina mais complexa, delimitando uma série de desafios relativamente modestos para os anos 90. Um representante da Dana Alliance for Brain Initiatives atribuiu notas elevadas para a obtenção dos objetivos assinalados: a identificação dos genes defeituosos do mal de Alzheimer e de Huntington, o desenvolvimento de novas drogas para esclerose múltipla, epilepsia e outras doenças neurodegenerativas.

Foi deixado de lado um dos maiores desafios da ciência, comparável em magnitude ao sonho dos cosmólogos de descobrir um modo de unificar as forças fundamentais: ainda estamos longe de uma compreensão básica da natureza da consciência. Outro século pode ser necessário para alcançar esta meta, e alguns neurocientistas e filósofos acreditam que jamais compreenderemos o que faz com que você seja você. Há muitas imagens mostrando manchas amarelas e laranja contra um fundo de substância cinzenta - instantâneos retratando as trajetórias luminosas percorridas quando a pessoa move um dedo, se entristece ou soma dois mais dois. Essas imagens revelam quais áreas recebem o maior fluxo sangüíneo. Mas, a despeito das pretensões da frenologia moderna, essas imagens permanecem uma abstração, uma ponte imperfeita entre a mente e o cérebro.

A neurociência, a tentativa de deduzir como o cérebro funciona, conseguiu desemaranhar importantes trajetórias químicas e elétricas envolvidas na memória, no movimento e na emoção. Mas reduzir as percepções de um solo de John Coltrane ou a paleta de um ocaso havaiano a uma série de interações entre axônios, neurotransmissores e dendritos não capta o que torna um evento especial. Talvez seja esse o motivo pelo qual a neurociência fascina menos que deveria. É talvez por isso também que a década do cérebro passou sem chamar muita atenção. É muito cedo para abordar as questões realmente importantes. A propósito, você sabia que estamos no meio de sua sucessora, a década do comportamento? Não sabia? Você não está sozinho.

Ainda que a década do cérebro tenha chegado muito cedo para fornecer as respostas importantes, os estudos intensivos, realizados em todo o mundo durante a década de 90, a respeito dos componentes neurais, proporcionaram novas perspectivas e instrumentos para aprimoramento do cérebro. Os pesquisadores que desenvolvem um medicamento sabem que este produto pode efetivamente tratar uma doença, embora não saibam plenamente como e por que ele funciona. O conhecimento gerado pelos neurocientistas, não só durante a década do cérebro mas ao longo do século que a precedeu, levou-nos a uma situação em que podemos começar a planejar terapias para as doenças neurodegenerativas. Mas o desfecho pode ser mais que uma droga que ajude um paciente,de Alzheimer a lembrar seu nome. Eploraremos não apenas as novas perspectivas para superar transtornos mas também como a neurociência está encontrando maneiras de aperfeiçoar cérebros saudáveis.

A mais importante noção surgida durante a década do cérebro é a de que este órgão é mais mutável do que pensávamos. Mesmo na maturidade o cérebro pode renovar-se - um fato surpreendentemente contrário a um dogma secular entre os neurologistas. O fato de que certas áreas do cérebro adulto podem gerar novas células cerebrais contém importantes implicações para o desenvolvimento de drogas e para a prática clínica. A cuidadosa reativação das moléculas que promovem essa neurogênese pode ser contraposta à morte de neurônios que ocorre no mal de Parkinson ou de Alzheimer.

O progresso no conhecimento deste fenômeno pode ajudar a mostrar como tratar de algumas doenças psiquiátricas. Os pesquisadores continuam a testar a hipótese de que o Prozac e outros inibidores seletivos de recaptação de serotonina possam exercer influência sobre o humor ao iniciar a neurogênese. A compreensão desse processo e o restabelecimento das conexões entre as células do cérebro podem sugerir agentes mais eficazes contra a depressão.

Além de produzir novas células, o cérebro restabelece-se em resposta à experiência. Uma compreensão profunda da assim chamada plasticidade neural pode revelar até onde podemos ir com a terapia física, não só do cérebro mas também da extensão do comprimento dorsal do sistema nervoso central, a medula espinhal. Ao contrário do que desejava, Christopher Reeve não ficou em pé em seu aniversário de 50 anos. Entretanto, os neurologistas do ator de Superman admiraram a recuperação sem precedentes dos limitados movimentos de seus membros após a longa incapacitação da medula espinhal.

O marco tecnológico da década passada foi o surgimento da ressonância magnética (MRI, na sigla em inglês) para registrar imagens de cérebros envolvidos em atividades tão diversas quanto realizar uma operação aritmética e ouvir Mozart. A MRI funcional, como é c conhecida a técnica, talvez não venha a fornecer uma via direta para a essência de nossa consciência, mas poderá estabelecer a base para uma forma mais conclusiva de detecção de mentira do que o polígrafo e talvez métodos rudimentares de leitura da mente. Mais importante que isso, a tecnologia, associada talvez com o teste genético, criará um método mais seguro para diagnosticar enfermidades do cérebro que os métodos atuais, baseados em listas de sintomas.

Uma compreensão da complexa cadeia de neurotransmissores, "segundos mensageiros", fatores de transcrição, genes e outras moléculas necessárias para formar uma memória de longa duração está abrindo o caminho para drogas que podem, finalmente, ser de maior ajuda para as pessoas afetadas pelo mal de Alzheimer ou por outras formas mais benignas de demência que atingem os idosos. Os médicos estão prestes a prescrever drogas que intensificam a memória em estudantes que se preparam para os exames finais ou executivos que precisam ler um discurso durante o encontro anual dos acionistas da empresa.

A perspectiva de aprimorar o funcionamento normal do cérebro é real. Ela trará uma série de questões éticas relacionadas a quem terá acesso a esse avanço. Uma "linha de inteligência" irá separar, de um lado, uma elite que pode se dar ao luxo de tomar pílulas para a memória e, de outro lado, o resto da sociedade, que enfrenta o aprendizado rotineiro trabalhando duro? A neurociência, talvez mais que qualquer outra subdisciplina biológica, obriga-nos a enfrentar a questão da igualdade. A década do cérebro pode ter passado sem muito alarde, mas o escasso conhecimento de que dispomos hoje - que novas células cerebrais surgem em adultos, por exemplo - já traz novas perspectivas para a prática médica.

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