O segredo do casal feliz: partilhar alegrias


A chave para manter viva a magia do casamento é encontrar meios para promover aspectos positivos; a maneira de lidar com boas notícias pode ser mais decisiva para o relacionamento que a capacidade de oferecer apoio um ao outro em situações difíceis.

Revista Mente & Cérebro - por Suzann Pileggi.

Conceitos-chave

- Nos últimos anos, os psicólogos descobriram que os casais bem-sucedidos acentuam mais os aspectos positivos da vida que aqueles que vivem juntos mas de forma infeliz. Não apenas eles lidam melhor com adversidades, mas também celebram os acontecimentos felizes e trabalham para promovê-los com mais frequência.

- A maneira como as pessoas lidam com as boas notícias pode ser mais importante para o relacionamento que sua capacidade de apoio mútuo em circunstâncias difíceis. Ter interesses pessoais diversificados também contribui para o sucesso do relacionamento a dois, ainda que nem todos os gostos sejam compartilhados.

- Os casais felizes também experimentam individualmente uma proporção maior de emoções otimistas em comparação com aqueles que enfrentam pessoas em uniões malsucedidas. Algumas estratégias podem melhorar essa proporção e assim ajudar a fortalecer os vínculos com os outros.

Estudos mostram que relacionamentos íntimos, como o casamento, estão entre as mais importantes fontes de satisfação individual. Apesar de muitos casais entrarem nessa jornada com a melhor das intenções, muitos se separam ou permanecem juntos apesar da relação deteriorada. Entretanto, alguns continuam felizes e bem-sucedidos. Qual será o segredo?

Alguns indícios surgem das últimas pesquisas no novo campo da psicologia positiva. Fundada em 1998 pelo psicólogo Martin E. R Seligman, da Universidade da Pensilvânia, essa área inclui pesquisas sobre as emoções consideradas positivas, os pontos fortes dos seres humanos e o que é importante para a maioria das pessoas. Nos últimos anos, pesquisadores que se dedicam a esses estudos descobriram que casais satisfeitos são propensos a acentuar mais o lado bom da vida, diferentemente daqueles que continuam juntos apesar de infelizes ou que se separam. Eles não apenas lidam bem com as adversidades, mas também celebram os momentos felizes e trabalham para construir e reforçar situações favoráveis.

É possível que a forma de um casal lidar com as boas notícias seja ainda mais relevante para a o convívio que a capacidade de se apoiar mutuamente nas circunstâncias difíceis. Proporcionalmente, pessoas felizes com sua vida amorosa também experimentam individualmente mais emoções agradáveis que negativas, em comparação com aquelas envolvidas em relacionamentos fracassados. Certas estratégias costumam melhorar essa proporção e, portanto, ajudar a fortalecer as relações. Outro ingrediente para um relacionamento de sucesso: cultivar a paixão. Aprender a se dedicar à pessoa afetivamente importante em nossa vida, de forma saudável e prazeroza, favorece o amadurecimento emocional.

• "Que bom querida"

Até recentemente, de maneira geral as pesquisas se concentravam na forma como os parceiros românticos respondiam aos infortúnios recíprocos e em como os casais administravam emoções negativas, como o ciúme e a raiva — uma abordagem coerente com o foco da psicologia tradicional na mitigação de deficiências. Os estudos indicavam que uma das chaves para os vínculos bem-sucedidos era a convicção de que o companheiro estaria presente quando as coisas dessem errado — "na saúde e na doença”. Então, em 2004, a psicóloga Shelly L. Gable, atualmente na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, e seus colegas descobriram que os casais satisfeitos com a vida afetiva compartilham acontecimentos positivos com frequência surpreendente, levando os dentistas a suspeitar que partilhar alegrias é fundamental para aprofundar a cumplicidade.

Em um estudo publicado em 2006, Shelly e seus colegas filmaram casais de namorados no laboratório, enquanto eles alternavam a discussão de acontecimentos considerados bons e maus. Depois da conversa, cada pessoa avaliava como se sentia "correspondida” — compreendida, valorizada e apoiada — pelo parceiro. Ao mesmo tempo, observadores avaliaram as respostas, analisando como cada participante tinha sido ativo, envolvido e solidário — com base na atenção demonstrada, nos comentários e nas perguntas. As pontuações baixas refletiam uma resposta mais passiva e genérica, por exemplo, “Que bom, querida”. Os voluntários também avaliaram individualmente seu comprometimento e satisfação quanto a sua relação.

Os pesquisadores perceberam que quando um parceiro oferecia uma resposta solidária às boas notícias, as avaliações de como ele era correspondidos eram mais altas que depois de uma resposta solidária a notícias negativas, sugerindo que a maneira como os parceiros reagem aos bons acontecimentos pode ser um determinante mais forte para a saúde do relacionamento que a reação diante de situações adversas. Shelly supõe que esse resultado possa ser atribuído ao fato de que resolver um problema ou lidar com um desapontamento — apesar de muito importante para um relacionamento — não é suficiente. E alegria é a moeda corrente de uma união feliz.

Além disso, os casais que respondiam às boas notícias de forma ativa e construtiva pontuaram mais alto em quase todos os testes de satisfação na relação em comparação com aqueles que reagiram de maneira passiva ou destrutiva. (Respostas passivas, assim como mudança de assunto, indicam falta de interesse, e as destrutivas incluem afirmações negativas, como “Parece que vai dar muito trabalho” ; ou “Será que vamos conseguir ficarbem?”.) Surpreendentemente, uma resposta passiva e construtiva (“Que bom, meu bem”) foi quase tão danosa como depreciar as boas novas do parceiro.

Esses dados são coerentes com um estudo anterior que demonstrou que pessoas que respondiam de forma ativa e construtiva experimentavam menos conflitos e frequentemente se engajavam em atividades divertidas; também é mais provável que esses indivíduos permaneçam juntos. Segundo Shelly, respostas ativas e construtivas deixam transparecer que a pessoa “compreendeu" o seu parceiro. Já as reações negativas, passivas (ou a combinação de ambas) significam que o interlocutor não está nada interessado — nem nas novidades, nem na pessoa.

• O poder do bem

Felizmente a vida oferece muitas oportunidades para respondermos positivamente, e o psicólogo social Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia, relatou em 2005 que, para a maioria das pessoas, os acontecimentos positivos são pelo menos três vezes mais frequentes que os negativos — embora estes últimos sejam bastante perturbadores. Compartilhar as próprias alegrias aumenta a satisfação no relacionamento, bem como responder com entusiasmo às boas notícias do parceiro. Em um estudo com base no cotidiano de 67 casais que moravam juntos — que será publicado no periódico Ádvances in Experimental Social Psychology —, Shelly descobriu que nos dias em que os casais relataram ter tido uma conversa com seus parceiros sobre um fato feliz, ainda que corriqueiro, também se referiram a sentimentos mais intensos de união e segurança na relação.

Um dos benefícios de celebrar os bons momentos é o aumento das emoções prazerosas e do bem-estar para as duas pessoas. Há dez anos, a pioneira da psicologia positiva, Barbara L. Fredrickson, da Universidade da Carolina do Norte, Chapell Hill, demonstrou que as emoções positivas, mesmo que transitórias, expandem nossa forma de pensar e encarar a vida, permitindo ligações mais próximas. O otimismo possibilita ver as coisas como um todo, sem se prender a pequenos aborrecimentos. Este olhar mais amplo traz à luz novas possibilidades e oferece soluções para problemas difíceis, melhorando a capacidade dos indivíduos de lidar com a adversidade não só nos relacionamentos como em outras áreas da vida. A visão mais abrangente também tende a demolir a fronteira entre o “eu” e o “você”, criando conexões emocionais mais fortes. “Ao ampliar sua mente, a visão essencial das pessoas e dos relacionamentos muda, trazendo-os mais perto da sua essência, preservando a afetividade e a empatia”, ressalta Barbara.

A pesquisadora descobriu que quando os sentimentos positivos ultrapassam os negativos na proporção de três para um, a pessoa alcança uma espécie de ponto de equilíbrio, tornando-se mais fortalecida emocionalmente. Entre homens e mulheres que têm casamentos duradouros e satisfatórios, essas proporções tendem a ser ainda mais altas, por volta de cinco para um, de acordo com pesquisa realizada pelo especialista em casamento John Gottman, professor emérito de psicologia da Universidade de Washington.

Barbara enumera as dez emoções positivas mais frequentes; alegria, gratidão, serenidade, interesse, esperança, orgulho, diversão, inspiração, admiração e amor. Ela diz que embora todas sejam importantes, a gratidão é fundamental. Em vez de tomar por “naturais” os pequenos favores e gentilezas do parceiro é indispensável expressar a gratidão de forma regular e carinhosa valorizando esses gestos que, com o tempo, fortalecerão o relacionamento. No estudo denominado Personal relationships (em impressão), a pesquisadora em psicologia social Sara B. Algoe, também de Chapell Hill, e seus colegas pediram a 36 casais que moravam juntos — 36% dos quais eram casados ou noivos — que registrassem todas as noites, durante duas semanas, a gratidão ao outro pelas interações comuns do dia (preparar café da manhã, buscar o cônjuge no trabalho etc.). Além da gratidão, eles atribuíram notas à satisfação com a vida a dois e aos sentimentos em relação ao parceiro. Quando as pessoas se reconheceram mais gratas, também se sentiram melhor com a relação e mais ligadas afetivamente à pessoa com quem viviam. No dia seguinte, elas voltaram a se declarar mais satisfeitas. Os companheiros (alvos da gratidão) também ficaram mais felizes com o relacionamento e se sentiram mais conectados — o que levou a pesquisadora a perceber que essa postura pode impulsionar a aproximação e o romantismo.

O fato de a gratidão afetar os dois sugere que sua expressão - e não apenas se dar conta dela - é importante para o sucesso do relacionamento. Para testar essa ideia diretamente, Sara, Barbara e um grupo de colegas pediram a um grupo de voluntários que mantinham relacionamentos românticos que enumerassem as coisas boas que os parceiros tinham feito para eles ultimamente e desse notas a esses gestos — de 1 (nada) a 7 (muito)—, para avaliar o quanto tinham manifestado
sua apreciação pelos favores recebidos. Pelos resultados, ainda não publicados, os pesquisadores descobriram que cada ponto a favor da valorização das atitudes do outro diminuía pela metade a probabilidade de o casal romper o relacionamento nos seis meses seguintes.

• Incrementar a paixão

Os sentimentos de paixão também podem fortalecer vínculos. Muitos equiparam o apaixonamento a um desejo desesperado como sugerem letras de músicas como “I can"t live without you” (Não consigo viver sem você). Mas esta paixão desenfreada ou obsessiva não leva a um relacionamento saudável, de acordo com o trabalho do psicólogo social Robert Vallerand, da Universidade de Quebec, no Canadá. Ao contrário, o sentimento que parece tomar posse da pessoa é tão prejudicial à relação quanto a ausência de paixão.

Porém, uma paixão saudável — na qual o objeto amado é valorizado e cuidado — oferece inúmeros benefícios. Em uma série de estudos recentes, Vallerand usou a Escala da Paixão Romântica, um questionário que mede a paixão “harmoniosa" e “obsessiva”. O relacionamento com base no carinho e na tolerância às diferenças possibilita que o casal se torne mais íntimo, embora ainda mantenha a sensação de identidade individual, o que ajuda a promover uma parceria mais madura. Essa intimidade permite que cada pessoa continue a ter seus próprios passatempos e interesses, em vez de se submeter a um vínculo excessivo. Um estudo anterior coordenado pelo mesmo pesquisador reve mento que parece tomar posse da pessoa é tão prejudicial à relação quanto a ausência de paixão.

Porém, uma paixão saudável — na qual o objeto amado é valorizado e cuidado — oferece inúmeros benefícios. Em uma série de estudos recentes, Vallerand usou a Escala da Paixão Romântica, um questionário que mede a paixão “harmoniosa" e “obsessiva”. O relacionamento com base no carinho e na tolerância às diferenças possibilita que o casal se torne mais íntimo, embora ainda mantenha a sensação de identidade individual, o que ajuda a promover uma parceria mais madura. Essa intimidade permite que cada pessoa continue a ter seus próprios passatempos e interesses, em vez de se submeter a um vínculo excessivo. Um estudo anterior coordenado pelo mesmo pesquisador revelou que a paixão por atividades (profissão, esporte, hobby, algum projeto social etc.) conduz a vantagens cognitivas e emocionais, como concentração mais apurada, visão mais otimista da vida e saúde mental equilibrada. Porém, não há comprovação de que esses benefícios revertam diretamente para nossos relacionamentos românticos — apenas suspeitas.

Vallerand sugere que é possível cultivar a paixão saudável unindo-se ao parceiro em uma atividade que ambos apreciam. Já foi demonstrado que a dedicação a atividades divertidas com outra pessoa estimula a atração mútua e imprime no cérebro a associação entre aquela companhia e a prática prazerosa. Ou seja: vale mesmo investir na alegria.

• Hora de celebrar

Especialistas oferecem dicas para fortalecer as emoções que tragam sensações de prazer e bem-estar. Pode parecer fácil, mas para muitas pessoas o primeiro desafio é reagir de forma construtiva às declarações positivas do parceiro. Não raro, expressar interesse, apoio e entusiasmo — e encontrar oportunidades para fazer isso — requer aprendizado. É uma espécie de “treino de generosidade” — que, obviamente, termina favorecendo a própria pessoa que a pratica. Isso significa reconhecer que o outro fez uma apresentação excelente no trabalho ou se alegrar porque ele melhorou o tempo em um circuito de bicicleta. Pode ser útil habituar-se a se perguntar com regularidade: “Quais foram as coisas boas que ele (ou ela) me contou hoje? Como podemos comemorar?". Segundo especialistas, também é importante discutir mais tarde suas preocupações ou os aspectos adversos de uma promoção. A prioridade no momento em que se recebe a notícia é celebrar. Além disso, é fundamental ser atencioso e participar ativamente da conversa. Fazer perguntas e demonstrar interesse de forma não verbal (mantendo o contato visual, inclinando-se para a frente e acenando com a cabeça) estimulam a cumplicidade.

Exercícios podem aumentar a proporção de emoções positivas em relação às negativas. É possível, por exemplo, “programar” sentimentos especiais para o dia, reservando tempo para atividades que evoquem prazer. Descubra lugares onde você possa caminhar e se conectar com a natureza, ou qualquer outro cenário que lhe pareça agradável. Eles devem se tornar destinos regulares para exercícios, reflexão ou encontros com amigos. Os espaços físicos correspondem, nessse caso, a espaços psíquicos e ao investimento (de tempo e atenção) no próprio bem-estar.

Outra ideia é criar um “portfólio da positividade”, uma reunião de recordações significativas que evoquem emoções positivas para reviver uma alegria. Há pessoas, por exemplo, que fazem montagem de letras de música significativas e imagens que tragam alegria. O fato de olhar para sua criação todos os dias, por alguns minutos, pode melhorar a sua “pontuação em positividade”.

    Oratória

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus