O Senhor das Memórias


Neurocientista argentino naturalizado brasileiro é uma autoridade no estudo da fisiologia das lembranças; aos 71 anos, dedica-se às pesquisas e à literatura.

Revista Scientific American - por Luciana Christante

Em qualquer lugar do mundo em que houver pelo menos um pesquisador estudando a fisiologia da memória, o nome de lván lzquierdo será lembrado. Com 51 anos de vida acadêmica, mais de 500 artigos científicos publicados e cerca de mil citações em trabalhos acadêmicos e livros, ele é um dos mais importantes cientistas em atividade no Brasil, local que escolheu para viver há 35 anos, sem perder, porém, o sotaque portenho nem esquecer o legado dos anos de glória da ciência de sua terra natal. Para um país como o nosso, em que a atividade científica carece de tradição, a história de Izquierdo é um exemplo.

Influenciado por um tio médico, o jovem Iván ingressou, em 1955, no curso de medicina da Universidade de Buenos Aires (então com 134 anos de existência). Naquele momen­to o governo populista liderado por Juán Domingo Perón (1895-1974) dava seus últimos suspiros. Em 16 de setembro, mesmo dia em que Izquierdo completava 18 anos, a chamada "revolução Iibertadora", liderada por militares e apoiada pela Igreja, derrubou Perón. A nova configuração política permitiu o retorno ao país de figuras importantes. Em pouco tempo, um grande número de cientistas e intelectuais, que haviam sido exilados ou afastados de suas atividades, reassumiu seus postos acadêmicos.

• Sapos na garagem

"Foi o retomo dos ídolos", recorda o pesquisador. Entre eles estavam nomes como o do biólogo Eduardo de Robertis (1913-1988) e dos bioquímicos Luis Federico Leloir (1906-1987) e César Milstein (1927-2002). A principal estrela, contudo, era Bernardo Houssay (1887-1971), físiologista ganhador do No­bel de Medicina e Fisiologia em 1947 - o primeiro destinado a um latino-americano. Anos depois seria a vez de Leloir receber o Nobel de Química, em 1970, e Milstein, o de Medicina e Fisiologia, em 1984. Nesse clima de prosperidade científica, Izquierdo descobriu sua vocação para a pesquisa durante as aulas com os grandes mestres.

Sem um espaço de estudo adequado na universidade, Bernardo Houssay criou o Instituto de Biologia e Medicina Experimental na garagem de um casarão no bairro de Jalermo, em Buenos Aires. Foi lá que Izquierdo se apresentou, às 6h30 do dia 2 de janeiro de 1957, para seu primeiro dia de trabalho. Estavam à sua espera alguns sapos e amostras de urina de mu­lheres grávidas. Essa é a base da reação de Galli-Mainini, exame de gravidez co­mum na época e que leva o nome do seu criador. Injetada sob a pele do animal, a gonadotrofina coriônica. hornônio que aparece na urina apenas durante a gestação, induz, em caso de gravidez, o jorro imediato de espermatozóides.

A missão do aspirante a cientista era investigar se a cortisona poderia inibir o fenômeno, mas os resultados foram frustrantes. "Pelo menos metade dos experimentos que a gente faz na vida não dá em nada", afirma Izquierdo. Se­gundo ele, a maior lição que aprendeu com Houssay e os outros mestres - a qual levaria para toda a vida - foi não se acanhar por ser latino-americano e sempre buscar grandes temas de estudo. "É preciso entrar sem medo e pisando forte. Se não é possível fazer sozinho, temos de nos associar com quem já está realizando bons trabalhos."

Izquierdo começou sua pesquisa de doutorado ainda durante a graduação. Um ano depois de formado em medi­cina, defendeu tese em farmacologia, sob orientação do pai, juan Antônio Izquierdo, argentino de ascendência catalã. Antes de viajar para os Estados Unidos, país onde faria o pós-douto­rado, foi conhecer Porto Alegre com amigos e lá se apaixonou pela mulher, lvone, com quem vive até hoje. Partiu sozinho para Los Angeles, em 1962, mas logo voltou para buscá-Ia. Na Universidade da Calífórnia estudou a relação entre sono e aprendizagem em gatos. A essa altura, a memória já despertava o interesse do pesquisador, que reconhece a influência da obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) "Eu raramente viajo sem um livro dele na mala", confessa.

De volta à Argentina em 1965, Izquierdo se estabeleceu na Universi­dade Nacional de Córdoba. Ali criou o que por muitos anos foi considerado o melhor laboratório de farmacologia do país. Tudo ia muito bem, até que a democracia começou a dar sinais de falência. A ditadura militar se instala­ria oficialmente só em 1977, porém "o hábito de matar gente começou bem antes", conta o pesquisador. Embora não se envolvesse em política, desco­briu, em 1973, que seu telefone estava grampeado. Depois de conversar com um amigo de Buenos Aires, recebeu um aviso que o levaria a deixar a Argentina: "Continue falando com esse "bolchevique de merda", e nós matamos você e sua família".

• De volta a Porto Alegre

A idéia inicial era partir para os Esta­dos Unidos. Antes, Izquierdo e Ivone queriam passar algum tempo na capital gaúcha para visitar o sogro, muito do­ente, com pouco tempo de vida. Nesse período, o neurocientista conseguiu uma vaga de professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com isso abandonou o plano inicial de seguir para os Estados Unidos. Depois de dois anos de trabalho sob condições muito precárias, aceitou uma proposta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), então chamada Escola Paulista de Medicina, e mudou-se com a família para São Paulo. As raízes sulistas, porém, falaram mais alto ao receber um novo convite da UFRGS, em 1977. Resolveu aceitar após a uni­versidade atender suas exigências por novos equipamentos, verba e também a transferência da equipe. De lá ; só saiu em 2003, já aposentado, para a Pontifcia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde hoje coordena uma equipe com cerca de 20 pessoas no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biornédicas.

Ao longo dos últimos 40 anos, Izquierdo tornou-se uma das maiores autoridades mundiais em neurobiologia da memória. Ele se embrenhou como poucos no quebra-cabeça molecular formado por neurotransmissores, hormônios, fatores de crescimento, receptores e impulsos elétricos, cuja resultante é a descoberta de um indi­víduo com identidade única, em que a lembrança é tão importante quanto o esquecimento. Entretanto, apenas a bela formação, que lhe propiciou disciplina e audácia, não seria suficiente para alcan­çar tamanho status no mundo científico. Para formar 46 doutores e manter diver­sas colaborações estáveis, foi necessária sua habilidade de aglutinar pessoas. Segundo ele, um dos segredos para criar um ambiente fértil e acolhedor no laboratório: "É preciso mostrar com exemplos que fazer pesquisa é bom e
divertido; as pessoas têm de sorrir com isso; só dizer que somos bons não vale nada, elas logo vão embora".

Respeitado mundo afora, Izquierdo costuma se unir a cientistas de vários países para desenvolver projetos pontuais, mas é na América do Sul que ele mantém um grande número de parcerias permanentes. No Brasil, em especial, desenvolve pesquisas em colaboração com grupos de São Paulo, Rio, Minas e Pará, além do Rio Grande do Sul. Mas é na Argentina que ainda estão seus vínculos mais antigos. Um deles é com o amigo e neurocientista Jorge Medina, da Universidade de Buenos Aires. A relação de amizade ajudou ambos a sobreviver a graves crises financeiras nas últimas décadas. "Felizmente, quando ele estava mal, nós aqui estávamos bem, e vice-versa, e assim nos salvamos de muitos apertos diversas vezes", relembra.

• "Yo no me lo creo"

Apesar de estar bem de saúde, hoje o pesquisador procura viajar menos, por isso tem recusado alguns dos muitos convites que recebe para falar em eventos de neurociências. Todos querem ouvir Iván Izquierdo, especialmente os jovens e os jornalistas. O cansaço pode ser consequência da intensa agenda do ano passado, quando completou 70 anos e recebeu diversas homenagens. Entre elas, a Medalha Neurociências Brasil, da Sociedade Brasileira de Neurociências e comportamento, entidade que ajudou a fundar em 1977, e a comenda da Ordem de Rio Branco, conferida pelo Ministério das Relações Exteriores. Nos Estados Unidos, a Academia Nacional de Ciências o elegeu membro estrangeiro. Em meio às homenagens ao receber o título de doutor honoris causa na Universidade Federal do Paraná, Izquierdo arrematou o breve discurso com uma expressão típica na Argentina: "Yo no me lo creo", ou seja, apesar do reconhecimento , ele ainda custa a acreditar em tudo o que dizem a seu respeito. No livro Memória (Artes Médicas, 2002), escreveu: "Creio que o culto à personalidade não faz parte da ciência."

Atualmente, Izquierdo trabalha de seis a oito horas diárias na PUC-RS, e depois mais duas ou três em casa, respondendo e-mails ou revisando artigos. Além disso, arruma tempo para uma paixão antiga, a literatura. Publicou dois livros de contos e guarda na gaveta alguns textos inéditos. E conta que já teve de parar o que estava fazendo no laboratório para não deixar uma ideia escapar. "As histórias aparecem do nada", afirma, como se não soubesse que os labirintos da memória escondem uma infindade de tesouros. Reconhece, porém, que muitos de seus personagens são alemães, judeus ou combatentes de outras épocas por causa da convivência com o avô materno, um croata que pelo rádio acompanhava cada lance da Segunda Gerra Mundial como se estivesse no campo de batalha.

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