O tormento da ansiedade


Muitos de nossos medos estão atrelados a precauções ultrapassadas; por isso, tantas vezes respondemos a estímulos de maneira que nos prejudicam; questionar crenças pode ajudar a evitar fobias e inquietações exageradas.

Revista Scientific American - por Robert L. Leahy 

 Vivemos na era da ansiedade. A Or­ganização Mundial da Saúde (OMS) estima que em uma década cerca de 20% dos moradores das grandes cida­des sofrerão de alguma variação desse tipo de transtorno. O prognóstico é preocupante, principalmente se considerarmos que o porcentual é duas vezes maior que o de depressão - que, apesar disso, recebe bem mais atenção. É preciso, porém, fazer ressalvas. A ansiedade clínica é muito mais grave que a tendência comum às preocupações do cotidiano. Há seis transtornos de ansiedade conhecidos: fobia específica, transtorno de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) , transtorno de ansiedade generalizada (TAG) , transtorno de ansiedade social (TAS) ou fobia social e transtorno de estresse pós-traumático (TEPI).

Pessoas com esses distúrbios frequentemen­te se descobrem incapazes de trabalhar de modo eficaz, ter vida social, viajar ou manter relações afetivas estáveis. Muitas vezes, elas recorrem deliberadamente a todo tipo de estratagemas para evitar encontrar certas pessoas, estar em determinados locais ou desempenhar atividades consideradas corriqueiras, como dirigir, embarcar em aviões ou entrar em elevadores. Podem não conseguir enfrentar multidões, participar de reu­niões, permanecer em espaços abertos ou não tolerar mínimas quantidades de sujeira e desor­ganização. Em geral, não conseguem dormir bem e muitas vezes se tornam reclusas. Em casos
extremos, é necessária até a hospitalização.

Para quem sofre de ansiedade, a condição vai bem além de se atormentar com o imposto de renda ou de ter medo de aranha. Trata-se de uma doença real e duradoura, que tem consequências impactantes sobre vários aspectos da vida. Mas o problema não termina aí. Quem apresenta o transtorno tem maior tendência de se tornar clinicamente deprimido, dando a impressão de sofrer de duas condições debilitantes ao mesmo tempo.

Também tem maior probabilidade de fazer uso de álcool e drogas. O distúrbio tem sido ainda associado a problemas cardíacos, hipertensão, desconforto gastrintestinal, doenças respirató­rias, diabete, asma, artrite, problemas de pele, fadiga e outros sintomas e patologias.

Nem as crianças escapam da ansiedade: 16% dos casos começam na infância e causam impacto sobre o desenvolvimento. Meninos e meninas com o transtorno têm mais dificul­dades na escola (tanto no que diz respeito ao aprendizado em si, quanto ao contato social) e muito mais risco de se tornarem adultos com problemas psicológicos.

O custo do tratamento dos distúrbios de ansiedade chega a milhões de dólares - cerca de um terço dos custos médicos de todos os problemas psiquiátricos. Pessoas com o pro­blema são menos produtivas no trabalho e têm maior propensão a usar os serviços médicos e de emergência. Aquelas com transtorno de pânico (um tipo patológico de ansiedade) recebem até cinco vezes mais indenizações por incapacidade física que a média. Ainda que bastante fora das estatísticas oficiais, milhões de pessoas que sofrem de sintomas de ansiedade - diagnosti­cados ou não - consultam os profissionais da medicina das mais diversas áreas, e ninguém consegue definir ao certo o peso que isso tem sobre o sistema de saúde. Mas não há dúvida de que o estresse que sentimos é percebido pela sociedade como um todo.

Algo difícil de ignorar é que as coisas têm piorado. Os índices de ansiedade geral aumen­taram vertiginosamente nos últimos 50 anos. Mas por que isso? Não estamos em situação melhor do que no passado? As pessoas não vivem mais tempo e recebem tratamento médico de melhor qualidade do que antes? Muitos dos riscos comuns da vida não foram eliminados ou drasticamente reduzidos, como a mortalidade infantil, a desnutrição e a varíola? Não estamos mais bem preparados contra os problemas causados pela temperatura e pelo clima? Nos­sas casas não são maiores e mais confortáveis, repletas de aparelhos que facilitam a vidae nos livram de trabalhos mais duros e perigosos? Não é verdade que um número maior de pessoas se aposenta mais cedo, pratica esportes, tira férias? Não temos seguro contra desemprego, capacetes para andar de bicicleta, forças policiais confláveis e dentes melhores? Poucas pessoas precisam de fato sair durante uma tempestade, atravessar um rio tempestuoso ou ir à floresta buscar a própria comida e madeira para usar como combustível. Muitos poderiam pensar que, pelo fato de nossa sociedade nos manter, no geral, mais protegidos, nesse nível de an­siedade teria diminuido. Na verdade, esse nível aumentou, Transformamo-nos em pessoas muito tensas. O que explica isso?

Aparentemente, há outres fatores a ser con­siderados, além do conforto material e da segu­rança. Um deles parece ser e nível de "conexão social" que experimentamos em nossa vida. Ao longo do último século, nossos laços afetivos passaram a ser menos estáveis e previsíveis. O divórcio é muito mais comum, e as famílias estão divididas e espalhadas. As chamadas famílias estendidas, em que as pessoas de um mesmo grupo familiar vivem juntas ou perto umas das outras, hoje é algo raro. As comuni­dades locais se tornaram muito menos coesas, dispersas pela mobilidade econômica, pelas estradas e pelos automóveis, além de os locais de compras e de entretenimento estarem cada vez mais distantes. A participação em atividades coletivas é só um pálido reflexo de que foi um dia. As cidades e os subúrbios substituíram as comunidades; as pessoas estão mais isoladas de seus vizinhos. Cada vez mais gente vive só. Em muitos lugares, a criminalidade aumentou e as ruas não são mais locais seguros. O terrorismo parece uma ameaça real. Corno a globalização e a competição econômica se intensificaram, a segurança no emprego diminuiu; profissionais são dispensados de seus trabalhos de maneiras que pareceriam impensáveis há uma geração. E muitos não podem mais contar com pensões eu aposentadorias adequadas na velhice. Todos esses fatores contribuem para e sentimento de que a vida não é mais tão segura quanto já foi. O apoio da "tribo", da qual a evolução nos acostumou a ser dependente, não está acessível como antes.

Essas mudanças também têm sido acom­panhadas de alterações no modo como pensamos a vida. Se por um lado nossa autoconfiança deu espaço ao sentimento de que somos controlados por forças maiores, cujos mecanismos são apenas obscuramente conhecidos, por outro, a cultura da autoajuda nos delega a "plena responsabilidade" como únicos e exclusivos responsáveis por nossos fracassos e conquistas - uma ideia equivoca­da, que em muitos casos se torna motivo de recriminações e culpas. Ao mesmo tempo, as expectativas em relação ao conforto aumen­taram em razão de nossas novas identidades como consumidores - e não como cidadãos - ou membros de uma comunidade. Estamos em melhor condição material do que nossos pais e avós, mas sempre queremos mais. Esse sentimento é reforçado por uma infinidade de anúncios que demonstram o quanto nossas vidas seriam prazerosas se comprássemos os produtos certos, comêssemos as comidas adequadas, usássemos as roupas corretas.

E quanto mais ligados em uma vasta rede de consumo, mais solitários nos sentimos. Como a economia nos oferece um número cada vez maior de opções, tornamo-nos cada vez menos satisfeitos, perguntando a nós mesmos se nossas escolhas foram corretas. Padrões de beleza, expectativas de sucesso e demanda por uma felicidade contínua nos deixam insatisfeitos com um mundo no qual ficamos cada vez mais gordos por comermos comida rápida de má qualidade e por usarmos instrumentos que nos poupam da movimen­tação física; um mundo em que nosso tempo para lazer é cada vez mais esvaziado e tantos recorrem à "sabedoria" alheia em busca de um sentido e bem-estar.

• O condicionameto do medo

Do ponto de vista neurológico, a criação da memória foi associada a um processo conhecido como potenciação de longo prazo (LTP, na sigla em inglês), no qual o neurotransmissor glutamato e seus receptores NMOA (N-me­til-O-aspartato) causam fortale­cimento da transmissão neural. Uma vez estabelecida a LTP, os mesmos sinais neurais produzem reações mais intensas (à direita). Memórias emocionais podem ainda envolver a LTP na amígda­la. Foram encontrados glutamato e recep­tores NMOA na região da amígdala onde se dá o condicionamento ao medo. Nesse processo, podemos nos esquecer de detalhes da situação ou daquilo que causava o pavor, mas permanece uma "ideia geral" que retorna. ~

• Mais autonomia

Há algo que possamos fazer? Como indiví­duos, temos de fazer opções quanto ao modo como vamos lidar com essa situação, já que atualmente também temos oportunidades que não costumávamos ter. A psicologia mo­derna aprendeu muito sobre a ansiedade nas últimas décadas. Temos informações sobre sua origem, o modo como opera no cérebro e a natureza dos padrões comportamentais que gera. Tudo isso pode ajudar a entender o papel que a ansiedade desempenha na vida de uma pessoa. E, do ponto de vista da psicologia cognitiva, compreender essa manifestação é fundamental para superá-Ia - e não eliminá-Ia completamente, pois tal meta é irreal. Mas podemos neutralizá-Ia, controlá-Ia e impedi-Ia de se tornar uma força debilitante que restrin­ge a saúde e a autonomia. Entender a função da ansiedade é, em última instância, uma maneira de escapar de sua tirania.

A primeira coisa a considerar é que ela é parte de nossa herança biológica. Muito antes de qualquer registro da história humana, nos­sos ancestrais viviam em um mundo repleto de perigos: predadores, fome, plantas tóxicas, vizinhos hostis, alturas, doenças, afogamen­tos. Foi em face desses riscos que a psique humana evoluiu. As qualidades necessárias para preservar a vida foram desenvolvidas em nós pela evolução. Boa quantidade delas dizia simplesmente respeito a formas diferen­tes de precaução. O medo tinha a função de proteger; tínhamos de estar atentos a muitas coisas para sobreviver. Essa cautela persiste em nossa constituição psicológica sob a forma de nossas mais profundas aversões e fobias. Esses medos provenientes de tempos primi­tivos foram adaptativos.

O próximo ponto é que, por não vivermos mais naquele mundo primitivo, os medos que trouxemos dele não são mais adaptativos. Graças, em grande parte, aos efeitos da linguagem e da civilização, os desafios que - encontramos em nossa vida são bastante diferentes daque­les que nossos ancestrais enfrentavam nas savanas ou nas florestas. Ainda assim, nosso cérebro continua a funcionar como se nada tivesse mudado. Somos dominados pelo ins­tinto de correr de um jaguar faminto quando o que temos diante de nós pode ser apenas um cachorro latindo. Temos medo de tocar no prato que alguém usou porque nossos ante­ passados tinham a saudável aversão à comida contaminada. Sentimo-nos patologicamente retraídos porque, em outra era, um estranho podia facilmente nos matar; até mesmo um membro de nossa tribo poderia nos causar algum mal se fosse ofendido. Quando se trata de instintos mais profundos, agimos como se estivéssemos ainda na Idade da Pedra.

Estamos, em poucas palavras, agindo de acordo com um conjunto de regras ultrapas­sadas. Elas funcionam como uma espécie de software instalado na cabeça - mas um software desatualizado, com milhões de anos. Algo em nós avisa que devemos obedecer às normas que nos manterão a salvo - quando talvez o contrário seja mais verdadeiro. Um método para nos libertarmos do domínio da ansiedade é questionar tais "leis" - na verdade, reescrevê-Ias. Isso implica o exame das crenças irracionais em que se baseiam. Quando não re­vistas, elas exercem influência oculta poderosa, sobre pensamentos e comportamentos.

• Em segurança

Estamos, em poucas palavras, agindo de acordo com um conjunto de regras ultrapas­sadas. Elas funcionam como uma espécie de software instalado na cabeça - mas um software desatualizado, com milhões de anos. Algo em nós avisa que devemos obedecer às normas que nos manterão a salvo - quando talvez o contrário seja mais verdadeiro. Um método para nos libertarmos do domínio da ansiedade é questionar tais "leis" - na verdade, reescrevê-Ias. Isso implica o exame das crenças irracionais em que se baseiam. Quando não re­vistas, elas exercem influência oculta poderosa, sobre pensamentos e comportamentos.

• Em segurança

Depois de questionar essas "certezas", po­deremos começar a revisar as crenças que mantêm a ansiedade. Como fazer isso? Ocorre que a natureza, além de nos dar alguns ins­tintos, também nos oferece a possibilidade de usar a capacidade racional de modificá-los com base na experiência. Essa pode ser uma chave extremamente eficiente para lidar com o problema! Mas atenção, não é o mesmo que "ser racional" quanto a nossos medos. Sabermos - ou nos dizerem - que um medo não faz sentido simplesmente não funciona, pois não faz com que vá embora. Entretanto, para a psicologia cognitiva, se pudermos experimentar uma situação aparentemente perigosa repetidas vezes, sem consequências danosas, nosso cérebro aprenderá a ser "mais racional" e menos apreensivo.

Mas para isso é preciso criar uma estratégia que nos permita vivenciar uma experiência que cause medo, mas em um contexto que nos ensine que estam os seguros. Assim, ao longo do tem­po, aprenderemos a diminuir nossos pavores. É necessário fazer por conta própria o que a evolução não teve tempo de fazer - adaptar as regras às nossas cir­cunstâncias atuais.

Os seis transtor­nos de ansiedade apresentam grupos particulares de sinto­mas, mas todos vêm do mesmo tipo de ins­tinto de sobrevivência fundamental. Apesar dos nomes diferencia­dos, não são isolados, e o paciente que ma­nifesta um deles em geral tem outro - às vezes todos. Os trata­mentos mais eficazes são feitos "sob medida", de acordo com o distúrbio específico. São eles:

1 Fobia específica 

É o medo de um estímulo ou de determinada situação, como dirigir, viajar de avião, entrar na água, aproximar-se de certos animais etc. Existe uma crença subjacente de que o objeto em si é uma ameaça: o avião pode cair ou um cão pode morder. Pouco mais de 10% das pessoas apresentam alguma fobia, embora uma quantidade muito maior possa ter medos exagerados e irracionais deflagrados por um ou mais estímulos.

2 Transtorno de pânico

É o estado de extremo desconforto diante das próprias reações fisiológicas e psicológicas a um estímulo - em essência, receio de um ataque de pânico e, em última instância, o medo da morte. Quaisquer anormalidades como respiração alterada ou batimentos cardíacos acelerados, vertigens, suores ou tremores são interpretados como sinais de colapso iminente, insanidade ou morte. Para fugir dessas sensações, a pessoa tende a evitar as situações que acredita poderem acionar essas reações, o que com frequência limita de maneira grave a mobilidade.

3 Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

Caracterizado por pensamentos recorrentes ou imagens (obsessões) estressantes - por exemplo, a pessoa teme ser contaminada, perder o controle em público, cometer um erro ou se comportar de maneira inadequada. Para fugir disso, tem a necessidade urgente de realizar certas ações (compulsões) que, em sua fantasia, neutralizarão esses pensamentos intrusivos: lavar-se, realizar rituais, fazer verificações constantes etc. O transtorno, em geral, leva à depressão e afeta cerca de 3% da população.

4 Transtorno de ansiedade generalizada (TAG)

E, essencialmente, a tendência de se preocupar continuamente. Nas mais diversas situações, os pensamentos se voltam para todas as possíveis consequências negativas e as maneiras de impedi-Ias. A maioria das pessoas que sofre da patologia acredita que ela é um traço de sua personalidade e que o excesso de preocupação é indispensável para sua sobrevivência. O transtorno é, muitas vezes, acompanhado por sintomas ffsicos de estresse: insônia, tensão muscular, problemas gastrintestinais etc. Cerca de 10% das pessoas têm o distúrbio.

5 Transtorno de ansiedade social (TAS) ou fobia social

Medo de ser julgado pelos outros, especialmente em situações sociais como reuniões de trabalho, apresentações, festas, encontros amorosos; até comer em companhia de outras pessoas ou usar banheiros públicos torna-se um suplício. Os sintomas incluem tensão extrema ou "paralisia", preocupação obsessiva com interações, tendência ao isolamento e à solidão. O transtorno é frequentemente acompanhado pelo uso de drogas e álcool. Cerca de 15% das pessoas têm esse problema, em algum grau.

6 Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

Perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia. O transtorno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais.

Qualquer dessas condições afeta drastica­mente a qualidade de vida. Todas elas dese­quilibram a saúde física e mental e prejudicam relações de maneira própria. A fobia especifica pode impedir a pessoa de viajar ou até de sair do térreo. O transtorno de pânico a mantém as­sustada com o ritmo de sua própria respiração ou de seu coração e a impede de sair de casa. O transtorno obsessivo-compulsivo a consome

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