Onde Você Estava em 11 de Setembro?


A maioria das pessoas recorda com detalhes onde e como ficaram sabendo dos atentados terroristas aos Estados Unidos, em 2001. Mas é possível confiar nessas impressões momentâneas que nos sobrevêm como um relâmpago? Muitas vezes, as lembranças são distorcidas.

Revista Scientific American - por Simone Einzmann

Conceitos-chave

• Lembranças-relâmpago são recordações partilhadas, vívidas e detalhadas, que incluem a situação em que um acontecimento significativo e inesperado foi vivido. Resultam de um complexo processo de assimilação, influenciado tanto pelo estado de espírito do momento como pela atitude da pessoa em relação ao fato.

• O conceito de lembranças-relâmpago, criado pelos pesquisadores Roger Brown e James Kulik, em 1977, quando desenvolviam uma pesquisa sobre o modo como as pessoas se lembravam do assassinato de John Kennedy, em novembro de 1963.

• Estudos mostraram que alemães que presenciaram a queda do Muro de Berlim como um acontecimento positivo guardam lembranças vivas e emocionais das mudanças, mas suas recordações são menos exatas que as de pessoas que as vivenciaram com olhar crítico. Elas podem vir a ser falseadas por influência de relatos da mídia ou das conversas sobre o acontecido. Não raro elas se formam algum tempo depois do fato em si.

A notícia se espalhou como um raio: terroristas haviam tomado o controle de dois aviões e feito com que se chocassem contra as torres gêmeas do World Trade Center. Em pouco tempo as primeiras informações se propagaram por todo o mundo, por televisão, rádio, telefone e internet até chegar aos cantos mais remotos do planeta. Quando as torres gêmeas implodiram, milhões de pessoas já estavam diante de seus aparelhos de TV e foram testemunhas oculares do acontecimento. Passados oito anos, em quais recordações daquele dia é possível confiar?

Os atentados de 11 de setembro de 2001 marcaram um momento histórico dramático, do qual a maioria das pessoas se lembra. Muitos ainda sabem com precisão o dia da semana, horário aproximado, por meio de quem ficaram sabendo e o que faziam na hora. Pesquisadores referem-se a essas recordações vivas e detalhadas de como e em que circunstâncias se vivenciou um acontecimento historicamente significativo e inesperado como "lembranças-relâmpago". O conceito (do inglês, flashbulh memories) foi cunhado pelos americanos Roger Brown e James Kulik, em 1977, quando desenvolviam um estudo sobre o modo como as pessoas se lembravam do assassinato de John F. Kennedy, ocorrido em 22 de novembro de 1963. Desde então, psicólogos e neurocientistas investigam as peculiaridades desses vestígios - como se instalam e se transformam ao longo do tempo.

O que já há muito se sabe é que a lembrança do acontecimento costuma ser um tanto diferente do fato em si, bem das circunstâncias que o cercam e sob as quais se recebeu a notícia ou se teve o primeiro contato com a informação, que fica arquivado na memória - e se traduz também em conhecimento auutobiográfico. Porém, os pesquisadores discordam quanto à estabilidade e consistência dessas lembranças-relâmpago. Para alguns, elas permanecem relativamente iguais à medida que são realizados alguns questionamemos a respeito do que a pessoa se lembra e de eventuais discrepâncias de seus registros mnêmicos (razão pela qual de antemão as excluem de seus experimentos). No entanto, no caso de muitas pesssoas que passam a ter lembranças-relâmpago na continuidade de algum acontecimento compartilhado, nota-se que com o tempo surgem desfigurações ou contradições. E depois de alguns anos só é possível lembrar corretamente do conhecimento subjetivo.

• Divisor de águas

As psicólogas Annette Bohn e Dorthe Berntsen, da Universidade Aarhus, na Dinamarca, já descobriram um padrão subjacente a essas observações. Em um estudo realizado em 2007, elas descobriram que a fidelidade aos detalhes e vivacidade de nossas lembranças se diferenciam na medida em que o episódio em questão desperta sentimentos positivos ou negativos. Pesquisa semelhante foi realizada com 103 alemães orientais e ocidentais tendo como evento-chave a queda do Muro de Berlim, em 1989. Parte dos indivíduos que participaram do levantamento relatou ter vivenciado a mudança com alegria e entusiasmo; a outra, ao contrário, revelou ceticismo, incerteza e algum nível de angústia. A maioria dos voluntários considerava a queda do muro um divisor de águas promissor na história alemã. No entanto, uma pequena parcela dos alemães orientais viu o acontecimento com apreensão, temendo a derrocada dos ideais socialistas, a perda de seus postos de trabalho ou de seu lugar na sociedade.

• Numa quinta-feira

Segundo o estudo de Bohn e Berntsen, quase 20 anos após a queda do muro, voluntários de ambos os grupos relatam uma imagem diferente dos acontecimentos daquele 9 de novembro, ao descrever as imagens que lhes ficaram na lembrança e como se senntiram na ocasião. As pesquisadoras os questionaram no que diz respeito a fatos, por exemplo, quem estava à frente do governo da Alemanha Oriental e qual foi precisamente a data em que se deu a queda do muro. Perguntaram também se sabiam em que dia da semana tinha acontecido o fato (que ocorreu numa quinta-feira).

Enquanto os participantes do exxperimento que tinham uma imagem negativa da mudança recordavam-se muito bem de datas e fatos e eram capazes de citar uma série de consequências da queda do muro, suas lembranças careciam de colorido emocional. Entre os favoráveis à queda do muro, ao contrário, logo lhes acorria a disposição de espírito experimentada outrora: lembravam-se de imagens, ru&ia acute;dos e sentimentos. Uma vez que tinham aqueles acontecimentos ainda vivos diante dos olhos, mostravam-se completamente convencidos de que conseguiam se lembrar nitidamente dos fatos. No entanto isso era um paralogismo - um raciocínio falso, feito de boa-fé por falta de consciência do equívoco. Ainda que os entusiastas da queda do muro viessem com mais rsspostas prontas que os demais, alguns de seus conteúdos de pensamento estavam no âmbito da imaginação.

Bohn e Berntsen deduzem que lembranças-relâmpago são o resultado de um complexo processo de assimilação, influenciado tanto pelo estado de espírito daquele momento como pela atitude da pessoa em relação ao fato. Mas por que as testemunhas da história com uma predisposição positiva não conseguem se lembrar tão bem dos detalhes? Por que razão no curso dos anos as recordações caem no esquecimento?

Pesquisadores como Bohn e Berntsen partem do seguinte pressuposto: nos acontecimentos felizes, em geral, não precisamos resolver problema agum, de modo que o cérebro não precisa se ocupar do armazenamento de detalhes. Além disso, preferimos muito mais os eventos positivos aos negativos - foi exatamente o que se passou com os alemães entrevistados. Quando contam, animadamente, a experiência que tiveram, novos detalhes são assimilados, o que resulta no falseamento ou encobrimento de lembranças autênticas. Já os acontecimentos negativos nos possibilitam prestar toda a atenção a detalhes secundários, para assimilar e processar melhor cada informação - e com isso ordenamos e analisamos os dados sistematicamente.

No curso da história humana, conseguir se lembrar com exatidão de situações negativas muito possivellmente foi crucial para a sobrevivência da espécie. Quando nossos ancestrais deparavam com algum animal perigoso, convinha marcar essa experiência de maneira bastante precisa - e evitá-Ia no futuro. Se o indivíduo não se lembrasse tão-somente dos fatos, atendo-se também às emoções negativas que lhe estavam intensamente atreladas e perdesse o foco, a capacidade de rendimento poderia ficar comprometida.

• Fatos e sensações

Isso vale ainda hoje: pessoas que se lembram constantemente de acontecimentos traumáticos anos depois do ocorrido, frequentemente sofrem de patologias como depressão ou transtorno pós-traumático. Esses problemas podem se agravar, entre outras coisas, pela incidência das lembranças incômodas (fIashbacks) de um acontecimento traumático. Uma constatação, porém, intriga os pesquisadores: em algumas pessoas não é afetada a memória de curto prazo (que permite o armazenamento temporário de informações); em outros casos, apenas essa capacidade sofre danos. Já as emoções favoráveis intensificam a predisposição positiva e fortalecem a consciência de si. Portanto, o cérebro se aprimora na tarefa de diferenciar os aspectos - fatos ou sensações - que devem ficar gravados para o futuro.

Annette Bohn parte da ideia de que, pelo menos em princípio, todo acontecimento histórico significativo pode conduzir a uma lembrança-relâmpago, contanto que se exceda um limiar. O pressuposto é que nessas situações a amígdala seja ativada. Esta estrutura em forma de amêndoa, situada no lobo temporal do cérebro, é responsável, sobretudo, por duas funções: ela analisa um possível potencial de risco e empresta uma coloração emocional aos acontecimentos.

Mas essa não é a única área cerebral responsável pela memorização de acontecimentos ou situações vividas, há várias regiões envolvidas nesse processo. Em um estudo conduzido pelo pesquisador Patrick S. R. Davidson e três colegas da Universidade do Arizona, em Tucson, em 2005, junto com Mieke Verfaellie, diretora do Centro de Pesquisa sobre Distúrbios da Memória, da Escola de Medicina da Universidade de Boston, os cientistas pediram a 45 voluntários que se concentrassem em se lembrar dos atentados terroristas de 11 de setembro meio ano depois de terem ocorrido. Deveriam fazê-Io de duas formas: de um lado, priorizando os fatos; de outro, valorizando as circunstâncias em meio às quais receberam a notícia. Dos 45 indivíduos, 14 sofriam de disfunções no diencéfalo ou na parte interior do lobo temporal. Como causas de tais condições patológicas os médicos encontraram, entre outras, redução do tecido ou carência de oxigênio em decorrência de parada cardíaca. Em outros 13 voluntários o lobo frontal encontrava-se danificado em consequência de tumores, ataques de apoplexia ou hemorragia cerebral. Um terceiro grupo era composto por pessoas saudáveis.

Pacientes com lesões no lobo fronntal lembravam-se do acontecimento tão perfeitamente quanto pessoas sem problemas de saúde, mas tinham mais dificuldade de recordar como, quando e onde o haviam experimentado. Na opinião dos pesquisadores, esse é um indício importante de que o armazenamento ou ativação das lembranças são influenciados por questões individuais - e neurológicas. O mesmo valeu para pacientes cujo diencéfalo ou lobo frontal estivesse avariado. Só que nessas pessoas não só a memória autobiográfica era afetada: elas tampouco conseguiam se lembrar com nitidez dos fatos relacionados aos atentados de 11 de setembro. Mesmo palavras-chave, como "World Trade Center", "Nova York", "avião" e "terrorismo" lhes eram de pouca valia. Um paciente deduziu que essas palavras estavam relacionadas a algum acontecimento no qual terroristas haviam feito um avião se chocar contra as torres gêmeas, mas ele não acreditava que isso de fato havia acontecido.

Danos no lobo temporal comprometem completamente a memória; já os pacientes com lesões restritas ao diencéfalo esquecem aquelas que foram suas próprias vivências relacionadas a fatos marcantes. Os pesquisadores também puseram em teste o funcionamento mnêmico dos voluntários de modo geral. As pessoas que melhor se saíam nos testes eram também as que mais se lembravam dos fatos. A recordação das situações pessoais ligadas a acontecimentos como os atentados de 11 de setembro, no entanto, independia da Danos no lobo temporal comprometem completamente a memória; já os pacientes com lesões restritas ao diencéfalo esquecem aquelas que foram suas próprias vivências relacionadas a fatos marcantes. Os pesquisadores também puseram em teste o funcionamento mnêmico dos voluntários de modo geral. As pessoas que melhor se saíam nos testes eram também as que mais se lembravam dos fatos. A recordação das situações pessoais ligadas a acontecimentos como os atentados de 11 de setembro, no entanto, independia da capacidade geral de memorizar.

• Testemunho duvidoso

Os problemas com as lembranças, porém, não se deviam, necessariamente, a lesões cerebrais. Quando os pesquisadores Brown e Kulik introduziram o conceito de lembranças-relâmpago, supunham que estas estivessem marcadas profundamente na memória a ponto de permanecer indeléveis por anos ou até mesmo décadas - teoria hoje ultrapassada. Um caso especialmente proeminente de falsas lembranças é descrito por Daniel Grenberg, da Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte.

O neuropsicólogo analisou entrevistas concedidas por George W. Bush pouco tempo depois dos atentados de 11 de setembro que desnudaram uma contradição em um ponto crucial para os experimentos em memória. Mesmo tendo o presidente americano relatado que um de seus assessores tinha lhe comunicado pessoalmente o que estava acontecendo, em duas outras entrevistas, algum tempo depois, ele afirmou ter ficado sabendo dos ataques ao ver a cena do primeiro avião colidindo com uma das torres. Mas na verdade não havia como ele ter visto a colisão do primeiro avião naquele momento - simplesmente porque até então não tinham sido divulgadas imagens.

Como tal fato lhe fugiu à percepção? O caso é que escapou. E foi o suficiente para que a boataria começasse a circular na intemet: estaria Bush sabendo dos atentados antes de eles acontecerem tendo examinado previamente algum material contendo as imagens? Estaríamos sendo testemunhas de um ato falho freudiano e Bush sendo integrante de uma conspiração? Daniel Greenberg tem uma resposta mais ou menos pronta que esclarece o episódio: o falseamento das lembranças-relâmpago em decorrência da ação dos meios de comunicação. Uma vez que acontecimentos de significado mundial são incansavelmente reprisados pelas emissoras, nossas lembranças originais são inundadas por uma torrente de imagens. E uma vez que podemos nos remeter não apenas ao que foi ouvido, mas também ao que foi visto, nossas lembranças fazem-se muito mais seguras, pois o cérebro pode assimilar e acessar muito bem as imagens. Ocorre que aquilo de que nos lembramos é, por vezes, um artefato que não tem muito a ver com o que foi realmente a nossa experiência pessoal. Ás conversas com outras pessoas acabam nos fazendo ratificar nossas impressões e acrescentar novas informações a elas.

• De volta à consciência

Greenberg supõe que o próprio George W. Bush, nos dias e semanas seguintes, viu diversas vezes as cenas dos atentados incansavelmente divulgadas pelos meios de comunicação - tanto que a imagem filmada do primeiro avião atingindo uma das torres terminou por assomar e preponderar. Ás imagens mais eloquentes foram-lhe de recordação mais fácil do que a informação simplesmente trazida pelo seu assessor.

Um dos pioneiros da psicologia cognitiva, Ulric Neisser, professor da Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova York, também acredita que essa hipótese seja bastante plauusível. Ele defende que as lembranças-relâmpago podem ser falseáveis - a exemplo, aliás, das demais lembranças. Ele concorda que a mídia, ao apresentar exaustivamente os acontecimentos de importância mundial, e, em segundo lugar, as sensações intensamente relacionadas às lembranças, que sempre afIoram à consciência e são de novo relatadas, concorrem para contribuir para esse falseamento. A cada vez que se retoma ao fato, a percepção do momento histórico é alterada, sem que estejamos conscientes disso.

Neisser chega a afirmar que as lembranças de um acontecimento partilhado não necessariamente se formam no instante a que se referem, mas só quando o significado do episódio se torna evidente para a sociedade e para nós mesmos. Com isso, ele esclarece o alto índice de citações falsas envolvendo questionamentos posteriores. A memória constrói posteriormente uma história pessoal. Recordamo-nos dos detalhes porque atrelamos a nossa própria história à história do mundo. Lembranças-relâmpago fazem de nós, por um lado, parte de um todo superordenado; por outro, parte da história coletiva", diz Neisser.

 • As marcas emocionais do medo

Circuitos neuronais, amígdalas e córtex auditivo garantem a formação de memórias associadas a emoções, como o pavor. Segundo o neurobiólogo Joseph LeDoux, professor da Universidade de Nova York, a maior parte dos conhecimentos sobre as associações entre aquilo que sentimos e o que lembramos resulta dos estudos sobre condicionamento clássico: emite-se um ruído ou clarão ao mesmo tempo em que se aplica um choque elétrico (leve, mas incômodo) nas patas de um rato. Até certo número de aplicações, a cobaia reage automaticamente ao estímulo, mesmo na ausência do choque. Suas reações são características em todas as situações ameaçadoras: o animal se imobiliza, a pressão arterial e sua frequência cardíaca aumentam, e ele se sobressalta com facilidade. Esse tipo de condicionamento se dá ainda com rapidez em seres humanos. "Basta uma única experiência para criá-Ios e, uma vez estabelecidos, a resposta de medo associada a um som ou a um raio de luz persiste por um longo tempo", explica LeDoux. Em compensação, se após o condicionamento o estímulo muitas vezes ocorrer sem o choque, a rea

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