Onde você quer estar daqui 30 anos?


Pessoas que conseguem se imagiunar no futuro tomam decisões pessoais e financeiras com maior cautela e economizam mais; deixar de lado a sensação de desconforto geralmente despertada pela constatação de encararmos que vamos envelhecer - e morrer - nos ajuda a viver melhor.

Revista Scientific American - por Flávia Ferreira

Quanto dinheiro você guarda todo mês para quando se aposentar? Talvez tudo o que pode, já sonhando com uma casa na praia ou no interior. Ou, quem sabe, os anos que estão por vir (assim esperamos) pareçam nebulosos você nem sequer consiga imaginar onde estará, como será sua vida ou o que fará como dinheiro. Essa dificuldade tem razão de ser: pensar em si mesmo em um futuro muito distante é quase como imaginar outra pessoa. Pesquisas sugerem que quanto mais uma pessoa sente que seu "futuro eu" se parece consigo mesmo, mais se preocupa em poupar dinheiro. Um estudo recente realizado pela psicóloga Emily Pronin, pesquisadora da Universidade de Princeton, mostrou que ao tomarmos decisões geralmente tratamos o nosso "futuro eu" da mes­ma forma que o faríamos com outra pessoa. Por exemplo: os voluntários costumavam se esquivar do cumprimento de tarefas desagradáveis, apesar de necessárias, quando tinham de fazê-Ias exatamente naquele momento. Mas se eram requisitados para cumprir exatamente a mesma tarefa desde que precisassem fazê-Io alguns meses ou até um ano depois, mostravam-se mais dispostos a colaborar - curiosamente, como se imaginassem que outra pessoa estaria em seu lugar.

Um experimento realizado pelos psicólo­gos Hal Ersner-Hershfield e Brian Knutson, da Universidade Stanford, revela que a "distân­cia" a que acreditamos estar de nosso futuro eu varia de um indivíduo para outro. Para chegarem a essa conclusão os cientistas pe­diram a voluntários submetidos a ressonância magnética funcional que, durante o exame, pensassem em si mesmos no presente e após alguns anos. Estudos anteriores haviam mostrado que uma área específica do cérebro, o córtex cingulado anterior, é ativada quando nos voltamos para nós. O estudo mostrou que essa região entra em maior atividade quando pensamos em nós mesmos no agora, em comparação ao que ocorre quando nos imaginamos dez anos à frente, por exemplo. Os pesquisadores observaram alterações no padrão de atividade cerebral de alguns dos participantes, sugerindo que se viam, no fu­turo, mais como "seu próprio eu" que como "outra pessoa".

Em seguida, foi pedido a cada voluntário que escolhesse entre receber determinada quanfia de dinheiro para levar imediatamente ou um valor maior que seria entregue depois de um tempo. Os questionamentos mais fre­quentes consideraram se compensaria esperar para receber um montante maior. Pessoas que ao pensar no seu self no presente e no futuro apresentavam menor variação da atividade cerebral respondiam que precisavam de menos dinheiro imediatamente e acreditavam que a espera valia a pena.

As diferenças individuais também pare­cem afetar decisões financeiras na vida real. Em outro estudo recente, Ersner-Hershfield e Knutson descobriram que, independente­mente de fatores como idade e escolaridade dos participantes, aqueles que imaginavam a si mesmos atualmente e daqui a alguns anos de forma mais parecida lidavam melhor com as finanças e se mostravam propensos a pos­tergar alguns gastos para realizar planos mais vantajosos a médio prazo. Ou seja: quanto mais nos identificamos com o futuro self, mais
nos dispomos a poupar porque sabemos que o que decidirmos hoje fará diferença dentro de algum tempo. Essa identificação com o futuro pode nos tornar mais cuidadosos conosco. O mesmo pode valer quando se trata de inves­tir em hábitos saudáveis que possivelmente proporcionarão melhor qualidade de vida e saúde no futuro. Por isso, imaginar como e onde estaremos em alguns anos costuma ser bastante útil.

A idade, porém, não é o único aspecto que influi em nossas complexas relações com o vil metal. Algumas pessoas, por exemplo, parecem ter características de personalidade que as compelem a acumulá-Io enquanto outras não conseguem deixar de estourar seus cartões de crédito e acreditam ser impossível economizar para dias difíceis. Psicanalistas e psicólogos sabem que o dinheiro tem grande poder simbólico e funciona não só como uma ferramenta que facilita trocas, mas é um recur­so de interação cultural que habilita as pessoas a manipular o meio para obter o que desejam. Nesse sentido, ele assume o papel de substitu­to do afeto. Pesquisas mostram, por exemplo, que para alguns o ato de tocar em notas de dinheiro pode reduzir momentaneamente desconfortos físicos. Faz sentido, portanto, que, ao envelhecer e perder os benefícios da juventude, acumular recursos materiais possa funcionar como uma espécie de compensação.

• Parecido com sexo

Os psicólogos Stephen Lea, da Universidade de Exeter, e Paul Webley, da Universidade de Londres, arnbas no Reino Unido, acreditam que o dinheiro age em nossa mente como uma espécie de droga de abuso, fazendo com que alguns joguem compulsivamente e outros trabalhem ou gastem em excesso. Eles propuseram que, como a nicotina e a cocaína, o dinheiro ativa centros de prazer no cérebro, criando a sensação de recompensa semelhan­te à de quando fazemos algo benéfico para a espécie, como sexo. Segundo eles, os efeitos cerebrais podem desencadear processos bio­químicos que agem sobre nossas percepções e emoções, estimulando circuitos vinculados a sistemas de recompensa neurais.

Numa tentativa de fornecer uma explicação evolucionária para a motivação na busca por ele nas sociedades atuais, a pesquisadora Barbara Briers, da Escola de Negócios HEC, em Paris, decidiu testar se o interesse humano por dinheiro estava diretamente relacionado ao apetite por comida. Ela e sua equipe fize­ram descobertas, publicadas no volume 17 da Psychological Science. Curiosamente, volun­tários famintos estavam menos propensos a fazer doações para caridade do que os que estavam satisfeitos. Aqueles que foram pre­parados para ter grande desejo por dinheiro, imaginando terem ganho na loteria, comeram quase todo o doce do teste; já as pessoas com o apetite estimulado por ficar esperando senta­das em uma sala com um cheiro maravilhoso estavam menos inclinadas a dar dinheiro do que aquelas que aguardavam em salas com odor normal. Para Barbara, isso indica que o cérebro processa ideias sobre dinheiro e comi­da pelo mesmo sistema, o que significa que, para a mente, os dois têm capacidade similar de nos satisfazer - ou frustrar.

• Pais esoeram mais.defilhos Que "custam caro"

Camisas do time de futebol, aulas de instrumentos musicais ou reforço escolar são despesas que, em geral, fazem parte do orçamento de quem tem filhos. Segundo artigo publicado por Psycholgical Science, gastos desse tipo influem diretamente nas expectativas em relação às crianças.

Psicólogos da Universidade de Waterloo, no Canadá, pediram a voluntários com filhos que lessem um texto. O documento descrevia estimativas do governo sobre custos de alimentação, vestuário e lazer até os 18 anos - cifra que chegava perto de US$ 200 mil. Em seguida, metade dos participantes foi convidada a ler mais um artigo sobre o apoio econômico que os pais recebiam mais tarde dos filhos adultos. Aqueles que receberam apenas o primeiro texto para leitura se mostraram mais propensos, quando questionados pelos pesquisadores, a concordar com afirmações que enfatizavam os efeitos emocionais da paternidade, como "não há nada mais recompensador na vida que ter um filho".

Segundo o autor do estudo, o psicólogo Richard Eibach, essa racionalização é uma resposta comum para a dissonância cognitiva - duas ideias conflitantes na mente. Ou seja, a decisão de ter um bebê envolve um balanço, mesmo que inconsciente, de encargos emocionais e materiais, a ponto de os pais concluírem que os ganhos afetivos precisam compensar as renúncias econômicas.

Essa visão está fortemente vinculada a mudanças socioeconômicas. Há algumas décadas, as crianças significavam mais braços para ajudar na lavoura, por exemplo, incrementando a renda familiar. "À medida que a decisão de aumentar a família foi ficando mais cara, começamos a fantasiar sobre ser pais, convencendo-nos de que criar filhos é prazeroso", diz Eibach.

• Como o cérebro antecipa o amanhã

Sem que tenhamos consciência, todos os dias nosso cérebro elabora prognósticos sobre inúmeras questões cotidianas - se conseguiremos pegar o metrô a tempo ou quem pode estar batendo à porta, por exemplo -, o que ativa aspectos específicos do mecanismo cognitivo. Um estudo recente publicado no periódico científico Journal of Cognitive Neuroscience esclareceu como ocorre esse fascinante processo cerebral, de vital importância para determinar os mais variados comportamentos, capaz de influenciar a percepção e a elaboração da linguagem e da aprendizagem.

Ao submeterem um grupo de voluntários a um exame de ressonância magnética funcional (fRMI), os pesquisadores puderam analisar como funciona o mesencéfalo, encarregado da produção de dopamina e da sinalização de eventos imprevistos. Foi mostrado aos participantes do estudo um filme com situações cotidianas e em seguida as cenas foram bruscamente interrompidas. A tarefa era tentar "prever" o que aconteceria logo depois, enquanto a atividade cerebral dos voluntários era acompanhada. O resultado foi extraordinário: 90% das pessoas imaginavam o desfecho das cenas sem dificuldade. Em contrapartida, os que não conseguiam pareciam sofrer uma espécie de curto-circuito no fluxo da consciência. A descoberta oferece novas esperanças para a melhor compreensão de doenças neurológicas como Parkinson, esquizofrenia e Alzheimer, o que pode levar os pesquisadores a desenvolver medicamentos mais eficazes. 

Para saber mais

O homem e a consciência. A. Damásio. Companhia das Letras, 2011.

    Administração do Tempo

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