Ora, tenha modos!


Você domina o ritual da troca de cartões? Sabe sobre o que conversar num almoço corporativo? Uma consultora americana mostra como a etiqueta pode melhorar os resultados nos negócios.

Revista Exame - por Adriana Garcia

"As maneiras devem adornar o conhecimento e suavizar seu caminho pelo mundo". Lorde Chesterfiefd, estadista inglês. Dodos os naos, Syndi Seid voa da cidade de São Francisco, onde mora, para Los Angeles. Sua missão? Ensinar o mundo em um dia para a nova miss Universo. Como consultora de etiqueta, Syndi prepara a beldade recém-eleita para se comportar apropriadamente em escala global. Ela ensina formas corretas de cumprimentar as pessoas, fazer apresentações e relacionar-se com os outros em eventos, pois essas são algumas das qualidades exigidas da miss durante um ano de viagens ao redor do planeta.

Calma, não estamos propondo que você entre num concurso de miss. Mas, acredite, esses ensinarnentos podem ser muito úteis. Para uma miss, dominar regras de etiqueta é a garantia de não fazer feio em eventos sociais nem quebrar o protocolo em países distantes. Para você, afirma Syndi, é ganhar naturalidade e a autoconfiança para conseguir melhores resultados nos negócios.

Um sinal de que as boas maneiras não são apenas uma preocupação para socialites e diplomatas apegados a formalísmos é que a maior parte da clientela da senhora Seid está nas corporações. Ela atende várias empresas, principalmente algumas do Vale do Silício, na Califórnia, a meca da informática Um dos problemas dessa indústria é que seus executivos, em geral, estão acostumados a se comportar e se vestir mais como ecoturistas em visita ao Amazonas (o uniforme típico é uma camiseta pólo amassada, calça jeans desbotada e sandálias Birkenstock com meias) do que como homens de negócios globalizados. Eles têm demonstrado dificuldades em sair da frente do computador e ganhar clientes ao redor do mundo.

É nessa hora que a empresa de Syndi, a Advanced Etiquette, entra em ação. Afinal, qual é a hora certa de começar a falar num almoço de negócios? Se uma executiva já está sentada na mesa ela deve se levantar para cumprimentar os outros executivos que chegam? Escrever num cartão de visitas é errado? Essas são dúvidas comuns que empresas como a Hewlett-Packard, a Sprint e a Airtouch International eliminam da cabeça de seus funcionários com a ajuda de Syndi, que já ministrou cursos no Canadá, México e Índia.

Tanta falta de traquejo social seria um sinal de que o mundo está perdendo um pouco de classe? Para Syndi, não é essa a questão. "As pessoas jovens são quase ingênuas", diz. "Antigamente as boas maneiras eram. ensinadas em casa, pelos pais, mas o fato é que agora não há mais pais dentro de casa". Resta então, aprender por observação ou suprir essa deficiência com leituras ou cursos.

A propósito, de acordo com Syndi, a hora de começar a falar num almoço é depois que o anfitrião iniciar a conversa, uma mulher deve se levantar para cumprimentar outros executivos e escrever na frente de um cartão recém-recebido é uma falha grave. Syndi, que aprendeu esses truques na Pretocol School of Washington, a melhor instituição americana na área, contou à Exame quais são as principais regras para evitar gafes, melhorar o convívio profissional e incrementar o desemmpenho na carreira.

  • O aperto de mão

    Não há nada pior do que um homem apertar a mão de uma executiva com a ponta dos dedos, suavemente, e em seguida dar um aperto firme na mão do colega ao lado. "O profissionalismo não tem sexo", diz Syndi. "O tratamento deve ser igual para os dois". Nos Estados Unidos, um executivo não se sente obrigado a deixar uma mulher passar na sua frente dentro de um escritório. No Brasil, esse gesto ainda pode ser interpretado como uma grosseria.

    Aqui, como em toda a América do Sul, o aperto de mão é um pouco mais leve que na América do Norte. A regra geral, em se tratando de negócios, é que o cumprimento deve ser firme e completo. Uma mão deve "abraçar" a outra - em termos técnicos, o polegar deve alcançar o dorso da mão da outra pesssoa. É um gesto para ser feito de preferência em pé, e reforçado por um contato olho a olho. Todo o ritual não deve durar mais que cinco segundos.

    Num restaurante, vale a mesma regra para homens e mulheres. Quando um convidado chega, quem está à espera levanta-se para o aperto de mão. "Mas isso depende da posição da mesa. Há muitos lugares com mesas desconfortáveis. Nesse caso, peça desculpas e permaneça sentado", diz a consultora. A importância do aperto de mão é milenar. No best seller Boas Maneiras & Sucesso Nos Negócios, da editora L&PM, que vendeu 112.000 exemplares, a jornalista Celia Ribeiro explica por que esse gesto é tão difundido no mundo dos negócios. Na História Antiga, ele teria surgido como demonstração de que dois homens, ao estabelecerem uma relação, estariam desarmados. Durante o Império Romano, era sinal de pacto de honra. Na Revolução Industrial, reapareceu como forma de selar negócios e, finalmente, acabou migrando da fábrica para os relacionamentos sociais.

    Dar um aperto de mão corretamennte é fundamental, pois, como dizia o filósofo Immanuel Kant, "a mão é a parte visível do cérebro". Para Celia, o contato físico entre as duas pessoas deve ser agradável. Mão mole revela insegurança, mão úmida é resultado de uma tensão emocional, apertar demais é uma grosseria e, como já foi dito, oferecer as pontas dos dedos é sinal de desprezo o. "A etiqueta nada mais é que a racionalização dos gestos", diz ela.

  • As apresentações

    A maneira mais informal é também a mais difundida globalmente, e consiste em dizer o nome e o sobrenoome da pessoa, algo tão simples como "Sicrano, este é Beltrano de Tal". Nos Estados Unidos, as apresentações corporativas são feitas de acordo com a posição hierárquica, nada tem a ver com sexo ou idade. Mesmo que você "tenha que apresentar um presidente de empresa de 25 anos a uma senhora de 70 que vai conhecê-lo, ele deve ser apresentado primeiro e imediatamente estender a mão. Se houver um grupo, todos devem ser apresentados à pessoa mais importante. Antes, costumava-se acreditar que a mulher sempre teria a preferência - uma regra ainda adotada socialmente.

  • Cocquetéis e eventos sociais

    Em eventos de trabalho com ambiente descontraído, como coquetéis, é usual apresentar as pessoas pelo nome e pela companhia. O cargo não importa, a menos que sejam posições de liderança, como a de presidente e vice-presidente. Funciona assim nos Estados Unidos, mas no resto do mundo entra-se muito mais em detalhes em relação a cargos, lembra Syndi.

    Uma saia-justa acontece com freqüência nessas ocasiões: como sair de uma conversa para pegar um drinque ou entrar em outro grupo sem dar bandeira ou deixar alguém falando soziinho? Para Syndi, o que não pode ser feito é simplesmente sair sem dizer nada. Fazer um anúncio público e bater em retirada também é péssimo. A solução é pedir licença à pessoa ao seu lado e, discretamente, sair.

  • Troca de cartões

    "Homens, não guardem seus cartões na carteira, no bolso traseiro da calça", diz Syndi. Ela afirma que boa parte dos americanos tem esse hábito. Pode parecer prático, mas a coisa complica quando chega a hora de trocar cartões com um contato profissional. O cartão representa quem você é. Guardar o cartão de aluém no bolso de trás e sentar-se é uma gafe, diz Syndi. "Se o cartão representa quem somos, fazer isso é como sentar na cara de alguém". Celia Ribeiro concorda: "É um gesto deselegante." Solucione o problema carregando um porta-cartões sempre no bolso do paletó, no bolso da camisa ou no bolso da frente da calça.

    Os japoneses influenciaram o mundo pela forma como usam seus cartões profissionais. Eles deixam os seus sempre limpos e impecáveis, da mesma forma como se supõe que alguém deve ir a um encontro de negócios. Também fazem do momento da troca um ritual, em que impera a hierarrquia. Você não precisa ser tão rígido, mas algumas sugestões valem para todos:

    - Não escreva na parte da frente de um cartão que acabou de receber. É erradíssimo. Se for mesmo necessário, vire o cartão e faça anotações no verso.

    - O cartão deve ser entregue na mão da pessoa, sustentado pela parte superior pelo polegar e o indicador dobrado. Ele deve ser entregue de forma que possa ser lido imediatamente pela pessoa que o recebe.

    - A troca tem que ser feita na hora em que isso seja mais significativo - quase nunca é no começo de uma conversa. Melhor é estabelecer o contato e, ao perceber o interesse da pesssoa, dar seu cartão ou pedir um.

    - As exceções são reuniões ou encontros com objetivos definidos, como almoços de negócios. Nesses casos, os cartões devem ser trocados no começo do evento, até para facilitar a identificação.

    - Em viagens profissionais, vale a pena anotar no verso do cartão o endereço e o telefone do lugar onde você esstiver hospedado. Não esqueça de anotar também a data de partida.

  • À mesa

    "O mundo era minha ostra, mas eu usei o garfo errado", disse Oscar Wilde. A sociedade está cada vez mais informal, mas se há um local onde o rigor da etiqueta continua valendo é à mesa. Não é à toa que muitos executivos são avaliados para contratação em restauranntes. "Quem vai representar a empresa tem que mostrar que domina os códigos básicos", diz Celia Ribeiro.

    Há alguns padrões de etiqueta que vigoram em refeições de negócios, e eles não se limitam a comer de boca fechada. Para obter sucesso numa ocasião do tipo, além da manipulação correta dos talheres, o grande desafio é tomar o ambiente agradável e a converrsa produtiva sem que ela se tome muito técnica, persuasiva ou pessoal.

    Para falar confortavelmente, você nunca deve pedir uma comida que vá colocá-lo numa situação embaraçosa. Segundo Synndi Seid, basta evitar pratos esquisitos ou comida que tenha que ser manipulada com os dedos. Nunca coloque grandes pedaços na boca, sob o risco de se ver tendo que dar uma resposta imediata a uma indagação ainda com um pedaço de filé entre os maxilares. E, por favor, deixe seu lindo par de cotovelos fora da mesa até a refeição terminar.

    Ir direto ao ponto num almoço de negócios é mal visto atualmente. Nos últimos anos, tem vigorado uma nova forma de encarar esses eventos nos Estados Unidos. Lá houve uma fase em que imperavam os chamados power lunches (ou almoços de poder), em que a meta era sair de um almoço com um acordo fechado ou contrato assinado. A tendência para o próximo milênio aponta um caminho diferente. O importante é construir um relacionamento. A refeição é uma boa hora para conhecer o outro e ganhar confiança, não o momento apropriado para fechar contratos nem bombardear o cliente com informações. Tentar uma aproximação apelando para comentários pessoais também não é recomendável. Sobretudo, qualquer tipo de conversa que tenha a ver com dietas e problemas de saúde deve ser evitada. Ninguém precisa saber que você é alérgico a detenninado tipo de alimento ou que está tentando perder peso.

    Um almoço pode ser voltado para negócios, mas deve abordar principalmente generalidades sobre negócios. Pode incluir perguntas sohre o mercado, mas não é bom entrar em questões específicas logo de cara. A hora da sobremesa e do café são os momentos adequados para tocar num assunto mais específico, fornecer informações adicionais ou entregar um catálogo.

    Você é chegado num drinque? Bem, se sua viagem de negócios for aos Estados Unidos, convé ;es. Tentar uma aproximação apelando para comentários pessoais também não é recomendável. Sobretudo, qualquer tipo de conversa que tenha a ver com dietas e problemas de saúde deve ser evitada. Ninguém precisa saber que você é alérgico a detenninado tipo de alimento ou que está tentando perder peso.

    Um almoço pode ser voltado para negócios, mas deve abordar principalmente generalidades sobre negócios. Pode incluir perguntas sohre o mercado, mas não é bom entrar em questões específicas logo de cara. A hora da sobremesa e do café são os momentos adequados para tocar num assunto mais específico, fornecer informações adicionais ou entregar um catálogo.

    Você é chegado num drinque? Bem, se sua viagem de negócios for aos Estados Unidos, convém reconsiderar. Num almoço que demora em média duas horas, como é o padrão, consumir álcool pode dificultar a vida de quem tem que voltar para o escritório e continuar trabalhando. Lá é crescente a recomendação das empresas para que as pessoas não peçam bebidas alcoólicas nessas ocasiões. As exceções são momentos especiais, como o fechamento de um contrato ou a conclusão de uma transação.

    Outros países são mais flexíveis em relação ao consumo de vinho durante uma refeição corporativa. Nesse caso, os abstêmios não devem se sentir intimidados por um evento regado a vinho. "Aceite o vinho mas consuma apenas a água. Refrigerantes e sucos podem chamar demais a atenção ou dar a impressão de que você não está honrando o cardápio escolhido", diz Celia.

    Quem convida deve cuidar de todos os detalhes do almoço ou jantar e pagar a conta. Syndi dá uma dica valiosa: deixe seu cartão de crédito com o maitre logo na entrada. Levante-se para assinar o recibo ou peça que ele traga a conta com a fatura pronta. No caso de uma mulher ser a anfitriã, isso evita o constrangimento que alguns homens ainda demonstram nessa hora.

  • Telefone e e-mail

    Ao conversar com alguém de outro país, não esqueça de falar mais devagar que o normal. A mesma regra vale para secretárias eletrônicas, principalmente se elas incluem números telefônicos. "É na hora final, quando as pessoas acham que falaram demais, que incluem o número de telefone. Aí elas falam tão rápido que a mensagem fica incomprensível" , diz Syndi.

    Quando a troca de informações acontece por correio eletrônico, dois contatos posteriores ao primeiro são o procedimento adequado.

    Uma pessoa manda uma mensagem, a outra responde e a primeira agradece, dizendo que recebeu. Seja o mais conciso possível e evite prolongar os contatos quando não for necessário.

  • Presentes e brindes de final de ano

    Notas de agradecimento são sempre apropriadas. Nos Estados Unidos, quando uma pessoa recebe um presente deve agradecer com uma nota escrita a mão. Esse retorno é importante principalmente se o mimo vem de longe. Isso dá a certeza à outra pessoa de que a lembrança foi recebida. Se as pessoas são conhecidas e mantêm uma relação de amizade, um telefonema de agradecimennto é suficiente. Mesmo que não haja relacionamento pessoal, uma nota de agradecimento será bem recebida. "Com o ritmo frenético que enfrentamos hoje, a pessoa que se dá ao trabalho de escrever um bilhete e mandá-lo pelo correio vai se sobressair", afrma Syndi.

    Quando uma empresa manda um brinde agradecendo pelo seu trabalho, como um aqueles de final de ano, não é necessário mandar uma nota de agradecimento nem telefonar, pois você não foi a única pessoa a receber a lembrança.

    As boas maneiras exigem um longo aprendizado e muita observação, mas podem servir como uma ferramenta adicional às suas habilidades profissionais. O objetivo desses procedimentos é que os seus contatos de trabalho aconteçam com naturalidade e os relacionamentos se tornem mais produtivos com chefes, colegas e clientes. Afinal, como disse o marquês de Vauvernagues, um moralista francês amigo de Voltaire: "O talento nos ensina o que fazer, o tato nos ensina como".

    • Oratória

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