Os 10 erros do líderes novatos


Os jovens profissionais estão se tornando gestores cada vez mais cedo. Conheça as falhas mais comuns entre os novos chefes e saiba como corrigi-las.

Revista Você S/A - por Camila Mendonça

Nos últimos anos, o mercado de trabalho no Brasil vive a seguinte  situação: com a economia em crescimento, abriram-se vagas e faltou gente qualificada para preenchê-las. A maneira que a maioria das empresas encontrou para resolver essa equação foi promover seus jovens mais bem avaliados internamente para ocupar novas posições. Essa solução tem dois efeitos positivos para a companhia que a adota: ela consegue preencher o posto vazio e, ao mesmo tempo, dá um aumento para o funcionário promovido, o que ajuda a retê-lo num momento em que o mercado está atrás de gente. o problema desse processo começa a ser sentido de forma nítida agora: há muita gente imatura em posição de liderança. "Vivemos a fase do profissional em sua primeira vez: primeira vez gerente, primeira vez diretor, primenira vez presidente", diz Marcelo Cuellar, headhunter da Michael Page, empresa de recrutamento de executivos. A sucessão dos cargos de gestão sempre aconteceu nas organizações. A diferença é que agora esse movimento se dá numa escala e numa velocidade sem precedentes no país.

O resultado da inexperiência dos líderes é uma gestão mais exposta a erros, que são inerentes ao aprendizado, mas se tomaram mais corriqueiros. "Líder você não pega na prateleira", diz Marcelo Cuellar. "Se as empresas estão co­locando inexperientes em postos de comando, têm de estar dispostas a pagar um preço e a conviver com falhas." Obviamente, não é dado aos líderes tempo de maturação na posição, o que faz com que aprender na prática seja a única alternativa para os funcionários recém-promovidos. "As companhias não se prepararam adequadamente para esse crescimento", diz Janaína Ferreira Alves, coordenadora de pós-graduação do Ibmec, escola de negócios do Rio de Janeiro. "Os profissionais que hoje estão ocupando pela primeira vez cargos de liderança normalmente tiveram uma ascensão acelerada, o tempo natural da carreira não foi respeitado, e isso tem consequências." Mesmo com pouca experiência na cadeira de gestor, é possível corrigir as falhas. A VOCÊ S/A
ouviu chefes que assumiram cargos de liderança há pouco tempo e já apren­deram algumas lições. Também foram consultados especialistas em gestão de pessoas, liderança e recursos humanos. Esses profissionais apontaram os dez principais erros (e suas soluções) cometidos por gestores novatos. Confira.

1 - Baixo foco em pessoas

Um dos principais proble­mas de líderes jovens é a dificulda­de de gerenciar pessoas, segundo todos os especialistas consultados. "É um erro acreditar que ser gestor é ser o técnico dos técnicos", diz o coach Silvio Celestino, de São Pau­lo. "Eles se esquecem das pessoas e lideram pela pressão, colocando em risco a questão da qualidade de vida deles e da equipe", diz Vera Martins, professora do curso Lide­rança Assertiva da Fundação Van­zolini, de São Paulo.

A SOLUCÃO

Olhe para o lado

Para gerir pessoas, dizem os espe­cialistas, a solução é olhar para o lado e prestar atenção no que dizem e querem os subordinados. Tratar todos com respeito e educação é fundamental. Cursos de liderança, livres ou oferecidos por instituições de ensino, abordam o tema gestão de pessoas e até podem ajudar. "Eles amenizam as falhas, mas não resol­vem o problema", diz Marcelo Cuellar, da Michael Page.

2 - Não ter propósito de carreira

Erram os líderes que as­sumem o posto por status e salário. "Esse, com certeza, é o pior erro que o gestor pode cometer", diz Silvio Celes tino. Para ele, quem lidera de olho na conta bancária não consegue traçar planos de longo prazo para a empresa e deixa de preocupar-se com o trabalho da equipe. "Ele centraliza as atividades para entregar resulta­dos e obter lucros imediatos."

A SOLUCÃO

Defina o que você quer

Ter uma meta é importante em qual­quer momento da carreira. Se a ideia é ser gestor, veja como alcançar o objetivo da melhor maneira possível para a sua trajetória profissional, ava­liando o que ainda é preciso desen­volver para conseguir o que quer.

3 - Descuidar-se da comunicação

Comunicar-se bem é uma obrigação do gestor. Ele é o responsável por traduzir para a equipe a estratégia da empresa. Quem falha nesse quesito terá pro­blemas de desempenho. "Eu falhei ao tentar fazer mudanças de gestão sem alinhar com meus sócios", diz Gustavo Gomes, de 33 anos, dire­tor executivo do Grupo Núcleos, de clínicas médicas. "Teria gastado menos energia se tivesse identifica­do algumas pessoas-chave para me ajudar nesse processo."

A SOLUCÃO

Seja transparente "Ouvir e dar abertura para as pes­soas exporem ideias é imprescindí­vel", diz Taís Amaral, professora de pós-graduação da Trevisan Escola de Negócios, em São Paulo. Comunicar claramente aos subordinados os pas­sos que a organização dá faz do líder uma referência. "Se as coisas não estiverem bem, diga que não estão bem", diz Janaína Alves, coordena­dora de pós-graduação do lbmec.

4 - Comprometer-se demais

Por insegurança ou ambição, o jovem líder pode assumir prazos e outros tipos de compromis­so sem saber se pode cumpri-los. No passado, o economista Sacha Dowek, de 32 anos, gerente comercial da Adina, importadora e produtora da indústria têxtil, prometeu a clientes prazos que dificilmente conseguiria arcar. "Foi ingenuidade", diz. Hoje, com três anos na gerência da área comercial da empresa, Sacha apren­deu o valor de pensar a longo prazo. "Sou menos impulsivo", afirma.

A SOLUCÃO

Visualize O futuro

"Comprometer-se além da conta é um erro quase inevitável e faz par­te do perfil do jovem", diz George Stein, gerente de programas aber­tos do lnsper, escola de educação
executiva. Por mais tentador que seja, diga "não" quando não tiver certeza. "Planejando, o risco de er­rar é menor", avalia George.

5 - Comportar-se como um colega

Dois sentimentos distintos podem surgir quando se alcança um posto de liderança: arrogância ou condescendência. O medo de perder a amizade daqueles que, até então, eram seus pares é o que mais acome­te líderes jovens, acredita Taís, da Trevisan. O receio faz com que eles deixem de fazer cobranças mais pon­tuais para tentar ser vistos como co­legas. "Via mais o lado do colaborador do que o da empresa e cheguei a me exceder com um superior por isso", diz Renata Honorato, de 29 anos, gerente de vendas e marketing há dois anos do E.Group, rede de pousadas e hotéis de luxo. "Fui solidária de­mais." Quando teve de demitir duas pessoas a pedido da empresa, sob a justificativa de corte de pessoal, Re­nata sofreu. "Fiquei até doente."

A SOLUCÃO

Equilibre os dois pratos da balança

Quando um colega assume um cargo de chefia, ocorre uma mudança na relação de poder, o que pode gerar atrito. O líder deve mostrar que tem seus valores e que eles estão alinha­dos aos da organização. Como fazer? Preservando a coerência entra a fala e a ação no dia a dia. Manter o equi­líbrio entre as crenças pessoais e con­siderar as necessidades da companhia e dos subordinados são os principais passos para evitar o estresse pessoal e na relação com a equipe.

6 - Focar apenas em resultados

Um líder que fica de olho apenas no fim do processo, que na maioria dos casos são metas finan­ceiras, tende a criar atalhos para al­cançá-Io mais rápido. "Muitas vezes, esses atalhos trazem resultado ime­diato, mas comprometem a empre­sa no longo prazo", diz Stella Ange­rami, especialista em counselling, de São Paulo. Apresentar resultado de cara é a grande preocupação de uma pessoa nova no cargo. Mas forçar a equipe a apresentar números não dá em nada. "Isso pode levar a equipe a tomar atitudes ilegais ou antiéticas", diz Silvio Celestino.

A SOLUCÃO

De olho no caminho

A conquista de resultados é um pro­cesso. Administrar a pressão desde o primeiro dia evita que ela cresça muito no final. Além disso, diz Geor­ge Stein, gerente de programas aber­tos do Insper, esse cuidado auxilia o gestor a planejar e distribuir tarefas de uma maneira organizada.

7 - Dificuldade em dar feedback

O líder é responsável por explicar a seus subordinados se o trabalho deles está de acordo com o que a empresa espera, se eles estão indo na direção certa. Ao cumprir mal essa tarefa, ele prejudica o de­sempenho de sua equipe e o seu pró­prio. "Sem retorno, o funcionário não sabe o valor de seu trabalho", diz Fá­bio Saad, consultor da Robert Half.

A SOLUCÃO

Avalie constantemente

Sentar com cada membro da equipe, ao menos uma vez por mês, deve ser rotina de todos os líderes. Se a equipe for grande, o líder deve acompanhar o trabalho, orientar e dar o retorno enquanto as coisas acontecem. A avaliação de desempenho é uma ferramenta importante para auxiliar líderes a entender a equipe. Mas o líder deve ajudar a colocar em prática o que foi combinado na avaliação.

8 - Falta de controle sobre a ansiedade

"A ansiedade leva a erros, e todas as outras habilidades ficam fragilizadas em momentos de tensão", diz Janaína, do Ibmec. Allan Sato Ho­rita, de 29 anos, diretor de marketing, negócios e operações da Transit Te­lecom, empresa de telecomunicações de São Paulo, entrou na empresa como estagiário de direito em 2006 e após um ano já era supervisor. "Eu estava aprendendo a gerenciar pessoas e, por um momento, esqueci um pouco de ser gestor. Na ansiedade, atropelava funcionários para atingir resultados", diz. "Essa atitude gera desmotivação. É um dos maiores erros que um líder pode cometer", diz Fábio Saad, geren­te da consultoria Robert Half.

A SOLUCÃO

Planejamento ajuda

A ansiedade deriva da insegurança ou da necessidade de controle. Uma alternativa para dosá-Ia é ouvir a equipe também. "Comecei a conversar com pessoas mais experientes e com minha equipe", diz Allan. "Estou mais informado e menos ansioso."

9 - Generalizar a gestão

Tratar a equipe de forma homogênea é uma maneira de facilitar a gestão - para o líder. Para quem está embaixo, isso pode gerar frustração. "Você tem que levar diferenças em conta para garantir a igualdade e a justiça", diz Marcelo Cuellar, da Michael Page. É um erro dar condições iguais para profissio­nais que têm experiências e realida­des diferentes. "Não dá para unifor­mizar a gestão", diz Gianfrancesco Ghiurghi, de 31 anos, gerente de ven­das da Sadive, concessionária de ca­minhões de São Paulo, que se tornou gestor há menos de dois anos. "Uma das principais dificuldades que tive foi aprender a trabalhar a individua­lidade", diz Gianfrancesco.

A SOLUCÃO

Estude su lizar a gestão

Tratar a equipe de forma homogênea é uma maneira de facilitar a gestão - para o líder. Para quem está embaixo, isso pode gerar frustração. "Você tem que levar diferenças em conta para garantir a igualdade e a justiça", diz Marcelo Cuellar, da Michael Page. É um erro dar condições iguais para profissio­nais que têm experiências e realida­des diferentes. "Não dá para unifor­mizar a gestão", diz Gianfrancesco Ghiurghi, de 31 anos, gerente de ven­das da Sadive, concessionária de ca­minhões de São Paulo, que se tornou gestor há menos de dois anos. "Uma das principais dificuldades que tive foi aprender a trabalhar a individua­lidade", diz Gianfrancesco.

A SOLUCÃO

Estude sua equipe

Um bom gestor, acredita Germano Glufke Reis, professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV­ Eaesp), sabe identificar e ressaltar os pontos fortes e amenizar as falhas de seus subordinados. "É obrigação do gestor estudar a equipe e saber com quem está trabalhando", avalia Germano. Para evitar injustiças, conheça o que cada membro de seu time tem a oferecer e monitore a evolução de cada um deles.

10 - Não saber delegar

"Eu queria abraçar o mundo, mas fiquei sobrecarregada e estressada", conta a administra­dora Crisleine Pereira, de 30 anos, diretora da Comunika, empresa de negócios por celular, de Porto Ale­gre, que passou de analista de mar­keting a diretora em três anos. Os primeiros meses como líder, lembra ela, foram difíceis. "Os meus maio­res desafios eram priorizar e apren­der a delegar." A dificuldade de dis­tribuir tarefas é erro comum entre os mais inexperientes, que acabam centralizando e realizando as ta­refas dos subordinados com medo de perder o poder. "A pessoa acaba fazendo sozinha, com receio de que os outros não façam direito", afirma o coach Silvio Celestino.

A SOLUÇÃO

Confie na sua equipe

A consequência de não delegar é en­tregar um trabalho atrasado e com erros. Por isso, a solução é ir expe­rimentando aos poucos até adquirir confiança nos profissionais. "Esta­ belecer relação de confiança e com­prometimento com a equipe exige equilíbrio emocional", afirma Janaí­na, do Ibmec. "E isso leva tempo."

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus