Os donos do tempo


Pela primeira vez uma geração está consegindo manter-se jovem e bela por muito mais tempo do que o metabolismo humano parecia permitir.

Revista Veja - por Fábio Altman

As Viagens de Gulliver; um dos grandes clás­sicos da literarura, es­crito em 1726 pelo ir­landês Jonathan Swift, ganhou fama eterna com o charme dos bizarros mo­radores de Lilliput, pessoas minúsculas de 15 centímetros de altura. Muito me­nos conhecido - até porque ficou fora de algumas edições - é o capítulo destinado a contar a saga dos struldbrugs, ou imortais. Eles fazem parte do reino de Luggnagg. Quando um dos anfitriões do médico Lemuel Gulliver pede a ele que imagine como seria a vida de um struldbrug, o aventureiro inventa um mundo maravilhoso. "Que espetáculo nobre e encantador não seria ver com os seus próprios olhos as decadências e as revoluções dos impé­rios, a face da terra renovada, as cida­des soberbas transformadas em cidades burguesas ou tristemente amortalhadas nas suas vergonhosas ruínas." Ao fim da prédica de Gulliver, uma das autori­dades de Luggnagg pede a palavra e faz o relato real, e amargo, do cotidia­no da turma que não morre. Revela que, aos 80 anos de idade, eles são iso­lados em um lugar chamado hospital dos imortais pobres. "Quando, porém, atingem 90 anos, é ainda pior: todos os dentes e cabelos caem; eles perdem o paladar e bebem e comem sem prazer algum; perdem a noção das coisas mais fáceis de reter, e esquecem o nome dos amigos e às vezes o próprio." Viram párias. São imortais biológicos, mas já morreram para a vida civil e para o convívio social.

Um struldbrug é o avesso do que a medicina do metabolismo humano es­tá conquistando em um ritmo cada vez mais intenso. A promessa agora não é a de imortalidade com decadência, mas a da saúde, do vigor físico, men­tal e emocional esticados para as qua­dras da vida que, em gerações passa­das, eram sinônimo de decrepitude e doença.

"Vivemos num tempo em que é ótimo ser mortal", diz o americano Jo­nathan Weiner, autor de The Strange Science of lmmortality (A Estranha Ciência da Imortalidade), minucioso levantamento dos avanços da medicina nesse campo. "Durante muito tempo, tratamos o envelhecimento do mesmo modo que a I Guerra Mundial, uma ­ tragédia histórica sobre a qual há inú­meras teorias e argumentos. Nenhum deles, obviamente, pode ajudar a evitá­-Ia", diz o geneticista inglês Aubrey de Grey, um dos nomes de vanguarda da gerontologia de resultados. Eles são espetaculares. Em 1900, a expectativa média de vida nos Estados Unidos era de 47 anos. Hoje é de 78 (no Brasil, está em 73). Em um século, o XX, o ganho foi de trinta anos. Pelo ritmo atual de desenvolvimento da medicina do metabolismo, não seria espantoso que, no decorrer do século XXI, a so­brevivência humana com saúde fosse acrescida de mais sessenta anos - o que levaria a idade média para bem mais de 100 anos. Isso é possível? Do ponto de vista puramente biológico, existe um limite quase intransponível para o horizonte final da vida humana, Quando se colocam na equação a na­notecnologia e a possibilidade real de transferir certos processos bioquími­cos do corpo humano para microscópi­cos engenhos digitais irnplantáveis, aquele horizonte se pulveriza e abrem­-se fronteiras hoje inimagináveis para a espécie humana. Mas isso fica para uma consideração posterior. À luz ape­nas do que atualmente é absolutamen­te factível, pode-se afirmar com certe­za que, dentro de uma década, a cada ano vivido será acrescentado um ano na expectativa de vida das pessoas. É extraordinário.

Mas o que é factível hoje? É justa­mente o que se vai ler nas próximas páginas desta reportagem, que narra a formidável história de sucesso de cientistas e experimentadores que es­tão reprogramando as células de seu próprio corpo para imitar o único mé­todo comprovado de aumento da ex­pectativa de vida em mamíferos: a pri­vação calórica. Isso mesmo: comer menos, muito menos, mas muito me­nos mesmo, do que o mínimo exigido de calorias diárias. Animais de labora­tório submetidos a esse método vive­ram com saúde até um terço a mais do que outros alimentados normalmente. Em seres humanos, essa abordagem teoricamente funciona. Quem já a pra­tica relata ter se livrado das doenças comumente associadas ao envelheci­mento. Em contrapartida, as cobaias humanas da dieta hipocalorica sofrem fraqueza, frio constante nas exrremi­dades, pouca disposição física e quase nenhuma para o sexo. Os cientistas desta reportagem estão conseguindo obter os mesmos benefícios da dieta hipocalórica sem os inconvenientes que, convenhamos, tornam a vida in­suportável. A seguir, VEJA traça o perfil e revela os estilos de vida, as dietas, os exercicios e os suplementos de três dos mais ousados e bem-sucedidos experimentadores da Iongevida­de com saúde: o inglês Aubrey de Grey e os americanos Raymond Kurz­ weil e Timothy Ferriss.

 • "O homem que terá 1000 anos já nasceu"

O biólogo inglês Aubrey de Grey tem uma ideia fixa: enfrentar a velhice e a morte.

Para um sujeito com ambições alinhadas às de Matusalérn, o personagem bíblico que teria vivido 969 anos, avô de Noé, o biólogo e gerontologista in­glês Aubrey David Nicholas Jasper de Grey tem um jeito de ser para lá de adequado: imensa barba, tão vasta e cultivada que toma imperceptíveis o rabo de cavalo e o par de pulôver e jeans surrados. De Grey tem 48 anos, ar de riponga e uma ideia fixa escondida por trás do imenso nome - chegar aos 1000. Se não ele, ao menos alguns dos seres h humanos que andam por aí, bene­ficiados pelos extraordinários e cada vez mais velozes avanços da medicina. "A primeira pessoa a viver até os 1 000 anos é provavelmente apenas dez anos mais nova que a primeira a chegar aos 150 anos", disse a VEJA. De Grey pa­ra, pensa e enriquece o cálculo demo­gráfico. "Acredito sinceramente que o primeiro a chegar aos 1000 anos não só já nasceu, como está na casa dos 65, 70 anos". E mais: "Temos 50% de chances, com os avanços dos estudos a respeito da degenerescência das célu­las, de estender a vida humana a 200 anos até 2030-2040". De Grey trabalha dezesseis horas por dia, come pouco e dorme menos ainda. Sua vida é dedicada a erradicar os obstáculos que, em sua opinião nada modesta, são os dois maiores males da humanidade: a velhice e a morte. Para ele, o progresso exponencial dos cuida­dos com o organismo humano permitirá em breve "curar" a velhice, rebaixando­-a, na escala humana, de imperativo bio­lógico íncontornável a mero inconve­niente. "Curar" o envelhecimento será tão simples, tecnologicamente falando, raciocina, quanto tratar uma infecção urinária ou uma gripe hoje em dia.

O plano de um futuro avesso à seni­lidade foi traçado por Aubrey de Grey sob o título de Sens - sigla em inglês para Strategies for Engineered Negligi­ble Senescence, algo como "estratégias para a engenharia de senescência irrisória". Senescência é o processo narural de envelhecimento celular. "Mas é cru­cial distinguir entre envelhecer e morrer", ressalva De Grey. O processo de decadência do corpo possui três está­gios, na concepção do barbudo. Em pri­meiro lugar, há o fluxo de processos químicos no organismo - o metabolismo - que causa danos graduais aos 100 trilhões de células do nosso corpo. O segundo estágio é o da deterioração celular. Por fim, essa deterioração leva ao desenvolvímentode patologias. O Sens é um plano detalhado de ação para consertar os estragos feitos às células e moléculas do organismo durante a vida.

Mas atenção: a morte não será abo­lida, como faz questão de frisar De Grey, "No futuro, ainda morreremos, mas não de pneumonia, ou câncer", diz ele. Afinal, não estaremos livres de aci­dentes de carro, picada de cobra, homi­cídio e suicídio. Os processos bíotecno­lógicos do Sens também terão um efeito rejuvenescedor. "No futuro, todos nós teremos a aparência física oscilan­do entre 20 e 25 anos", diz o cientista, com entusiasmo de visionário. Como comentou em tom divertido um jorna­lista inglês, é condição que mudará tu­do na cultura humana, até a paquera: não saberemos se a atraente pessoa no balcão do bar terá 25 ou 250 anos. Aubrey de Grey é autodidata. Ex­-pesquisador de inteligência artificial na Universidade de Cambridge, na Ingla­terra, mergulhou obsessivamente na pesquisa do envelhecimento em 1992, depois de conhecer sua mulher, a espe­cialista em genética Adelaide Carpen­ter, dezenove anos mais velha que ele (três maços de cigarros por dia; dentes estragados, ainda mais desleixada que o marido). Ela se tornou sua mentora, trata-o como filho e gênio incompreen­dido. Em 1997, De Grey publicou uma tese sobre a relação entre a destruição das moléculas de DNA no interior das rnitocôndrias e o envelhecimento hu­mano. O trabalho impressionou os pró­ceres de Cambridge, e De Grey rece­beu da instituição o reputado Ph.D. em biologia, em 2000.

Não demorou, claro, para que aque­le homem de visual esquisitão, magro e pálido, como alguém que tivesse che­gado a pé da Idade Média. chamasse atenção no sisudo, antigo e viciado cir­cuito acadêmico da gerontologia. "Meu único paletó, acho que foi comprado no Exército da Salvação", confessa. O pesquisador tem colecionado desafetos em decorrência de suas posturas radi­cais. Tratam-no como um místico, algo como um Rasputin desmiolado dado a influenciar ingênuos - e eles já não são tão poucos assim. "As ideias de De Grey são cientificamente absurdas e perigosamente irresponsáveis", diz o especialista britânico em envelheci­mento Tom Kirkwood, da Universida­de Newcastle. Nas últimas décadas, argumenta Kirkwood, o esforço dos cientistas e terapeutas foi emender o envelhecimento, proporcionaraumento gradativo de anos de vida às pessoas e melhorar paulatinameme o cotidiano da chamada terceira idade. De Grey es­taria temando transformar a gerontologia numa tábua rasa, apagando todos esses esforços, trocando-os pela sedu­tora promessa de um upgrade biológi­co humano. A reticência acadêmica ao seu trabalho irrita De Grey, cada vez mais irascível. "Lembro-me do Aubrey doce e curioso dos primeiros tempos, nos anos 90. Ele era bem diferente do sujeito zangado de hoje. Sinto falta do velho Aubrey", diz Jay Olshansky, professor de saúde pública da Universida­de de Illinois, nos EUA. "Sou uma mistura de cientista e tecnologo. Cien­rístas querem testar hipóteses. Eu que­ ro mudar o mundo pela tecnologia", rebate De Grey.

Para implantar o futuro já, De Grey roda o mundo em busca de financia­mento. Ele é diretor de uma fundação que leva o nome de sua criação, a Sens, dedicada ao desenvolvimento de bio­tecnologias do rejuvenescimento. É di­fícil apanhá-lo em casa, no fíat que di­vide em Cambridge com Adelaide Car­penter, No dia originalmente marcado para a entrevisra com VEJA, ele estava gripadíssimo e não pôde falar ao tele­fone. Na tarde seguinte, ainda conva­lescente, embarcou para uma palestra na Alemanha. No Vale do Silicio, é fi­gura carimbada O investidor Peter Thiel, cofundador do PayPal e finan­ciíador do Facebook, tornou-se contri­buinte regular da fundação, além de evangelista do Sens Aubrey não tem carro e circula.em Cambridge numa velha bicicleta de dez marchas. Tam­bém não usa telefone celular, mas sem­pre leva a tiracolo um laptop MacBook Pro da Apple, no qual checa e-mails. Os momentos de descanso são raros. Apesar de admitir não ter tempo para obras de ficção, mergulhado em estudos científicos, leu todos os setevolumes da saga Harry Potter. Também gosta de tomar cerveja (e muito) no pub Eagle, perto de seu apartamento (frequentado nos anos 50 pelos biólogos James Watson e Francis Crick, descobridores da estrutura do DNA, que numa das mesas do bar anunciaram o mítíco avanço). O maior trabalho de De Grey, porém, não é incentivar bilionários do Vale do Silício a abrir a carteira, como fazem com novas em ontri­buinte regular da fundação, além de evangelista do Sens Aubrey não tem carro e circula.em Cambridge numa velha bicicleta de dez marchas. Tam­bém não usa telefone celular, mas sem­pre leva a tiracolo um laptop MacBook Pro da Apple, no qual checa e-mails. Os momentos de descanso são raros. Apesar de admitir não ter tempo para obras de ficção, mergulhado em estudos científicos, leu todos os setevolumes da saga Harry Potter. Também gosta de tomar cerveja (e muito) no pub Eagle, perto de seu apartamento (frequentado nos anos 50 pelos biólogos James Watson e Francis Crick, descobridores da estrutura do DNA, que numa das mesas do bar anunciaram o mítíco avanço). O maior trabalho de De Grey, porém, não é incentivar bilionários do Vale do Silício a abrir a carteira, como fazem com novas empresas de tecnologia. É convencer os outros gerontologistas de que o Sens é exequível, tal qual um profeta prestes a alcançar seu objetivo final. "Quando atingir essa meta, a de fazer com que simplesmente acreditem no que defendo, meu trabalho estará concluído", afirma. "Aí, sim, poderei me aposentar." Aos 48 anos - e com 952 pela frente, se tudo der certo -, essa perspectiva parece improvável.

• "Nunca falei de imortalidade. Desejo apenas não adoecer". 

O senhor fez 48 anos (em 20 de abril). Como é a vida de alguém que planeja viver 1000 anos?

 Não penso nisso. Vivo no presente, com senso de urgência diante dos desafios a vencer, como na questão do envelhecimento. Sinceramente, não planejo nada a tão longo prazo (risos).

Quem ainda tem chance, hoje, de se beneficiar das biotecnologias propostas pelo senhor com o Sens (Estratégias para a Engenharia de Senescência Irrisória)?

 Todo mundo, numa certa medida. Imagine alguém cuja vida seja estendida em dez anos. Ao fim dessa "década adicional", tal pessoa vai se beneficiar de novas tecnologias de extensão de vida surgidas no período. Os benefícios aumentam progressivamente.

Sua mãe (a poetisa Cordelia de Grey) já tem quase 90 anos. O que ela acha do Sens?

Acha uma grande novidade. Mas não creio que ela pense que isso pode acontecer durante sua vida. É algo, creio, remoto para ela. Na verdade, nunca conversamos a esse respeito.

Por quê?

Com ela, eu sou "filho", e não "cientista", ou algo que o valha. Conversamos sobre outros assuntos.

O senhor já foi chamado de "mercador da imortalidade". Incomoda?

Não, não de fato. Aliás, acho irônico insistirem sempre nisso. Afinal, nunca falei de "imortalidade". Desde o início trato de rejuvenescimento e de reversão do envelhecimento. A extensão da vida é uma consequência. Com perdão, essa mania surgiu sobretudo dos seus colegas, jornalistas. Uma matéria com o título de "Profeta da imortalidade" vende mais que a do "Cientisra do antienvelhecimento", creio (risos).

Mas o senhor quer ser imortal?

Não necessariamente. O que eu realmente desejo é não adoecer.

No entanto, uma gripe severa o pegou na semana passada, não? Doenças não minimizariam o nosso esforço de extensão da vida?

 Aí é que está o ponto. As biotecnologias propostas entram para consertar problemas. Como se fosse uma manutenção do organismo. Imagine um carro. A maioria dos automóveis dura cinco, dez anos. Porém, existem carros de colecionadores com oitenta, noventa anos em perfeito estado. Somos como máquinas. Portanto, potencialmente consertáveis, o que é extraordinário.

Alguns cientistas dizem que isso é uma utopia...

Muitos dentistas se inibem diante da.crença arraigada de que envelhecer é "narural" e "inevitável". Eu me dei coma de que, para intervir no processo do envelhecimento, não é necessário entender a cadeia inteira de fenômenos relacionados a ele. Basta entender as lesões celulares e moleculares que enfraquecem os tecidos do corpo humano. É um atalho parcial, porém necessário. E suficiente.

Alguns também levantam objeções de que o senhor estaria tentando "brincar de Deus".

Aha! Pois bem, olhe só, desde que o ser humano descobriu o fogo, a nossa história tem sido uma crônica de tentativas de consertar o que nos desagrada na narureza. Se a inconformidade é algo inerente ao ser humano, se mudar o mundo é "brincar de Deus", então essa seria só uma maneira pela qual Deus nos teria criado à Sua imagem e semelhança.

Bem, outros ainda, na tentativa de denegrir o seu trabalho, chegaram a criticar a sua barba. (risos)                 

Cambridge é possivelmente o lugar com mais excêntricos por metro quadrado na Inglaterra. Usar esse fato para minar a qualidade do trabalho científico de alguém é ridículo. Mas já dizia Gandhi: "Primeiro te ignoram, depois te ridicularizam, depois te combatem, e por fim você ganha".

E, nessa escala, onde o senhor aparece?"

Já tentaram me combater. Não conseguiram. Agora eu quero ganhar.

• Os 7 trabalhos pela saúde eterna

Aubrey de Grey apontou os principais problemas que nos levam a envelhecer - e como corrigi-Ios. São temas já tratados pela medicina, mas ainda em fase inicial.

1 - Mutação cromossômica

Algumas transformações celulares resultam em tumores malignos.

Como consertar: terapia genética. Ela impedirá que as células produzam uma enzima chamada telomerase, responsável pela proliferação das células cancerígenas.

2 - Gordura nas células

As células acumulam um resíduo de gordura chamado lipofuscina ­quanto mais lipofuscina, mais velha é a formação celular.

Como consertar: enzimas especialmente modificadas por terapia genética podem agir como rejuvenescedores celulares, impedindo o acúmulo da gordura indevida.

3 - Enrijecimento

À medida que envelhecemos, as moléculas começam

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