Os magros são mais saudáveis?


Nem sempre. As surpreendentes descobertas sobre as razões e conseqüências da obesidade que avança no Brasil e no mundo. 

Revista Época - po Cristiane Segatto

Qual das duas pessoas desta página você acha que tem mais saúde? A gordinha Mherielen Silva Dias, de 25 anos, ou o esbelto Fábio de Moraes, de 35? Na cintura de Mherielen, as dobras de gordura sugerem que ela seja uma pessoa pouco disposta, que tem as artérias cheias de colesterol e mil razões para frequentar consultórios médicos. Fábio parece ser um rapaz ativo, que seleciona muito bem o que põe no prato e consegue ser aprovado em qualquer check-up de saúde. Essa leitura superficial, baseada apenas na aparência física, é a mesma que leva algumas empresas a preterir candidatos obesos por achar que eles necessariamente têm baixa autoestima, provocam mais despesas médicas e faltam muito ao trabalho. É uma generalização preconceituosa.

Se você apostou que Fábio é o mais saudável, errou. Sim, acredite. Mherielen, com seus 100 quilos, pode ser considerada uma obesa com perfil metabólico de pessoa magra. Não tem hipertensão, diabetes nem colesterol alto - desequilíbrios frequentemente provocados pelo excesso de gordura, que podem ter consequências trágicas como infarto, derrame cerebral e morte. "Não sei como meus exames são todos normais se eu tenho esse peso todo", diz. A história de Mherielen é ainda mais surpreendente quando se analisa sua pouca disposição para a atividade física. "Caminho de vez em nunca:" Isso significa uma caminhadinha suave de uma hora a cada 15 dias. Sua alimentação, no entanto, não é das piores. Arroz, feijão, salada e carnes na maioria das refeições. Mas não resiste aos chocolates. É capaz de devorar quatro barrinhas de uma só vez. O que explica a saúde da moça? "Uma pessoa pode ser muito gorda, mas ter genes que não favorecem a elevação dos níveis de colesterol e triglicérides (outro tipo de gordura que também ameaça a saúde carrdiovascular)", diz Raul Dias dos Santos Filho, do Instituto do Coração, em São Paulo."Um magro pode ter os genes que fazem esses níveis aumentar muito. Em obesidade, as coisas não são tão simples como as pessoas imaginam."

Talvez Fábio seja um desses indivíduos com genética favorável ao acúmulo de gorduras no sangue. Ele é um magro com metabolismo de gordo. Tem 1,73 metro e 68 quilos, peso considerado normal em relação à sua altura. Não engorda, embora seus hábitos alimentares assustem qualquer nutricionista. Gosta de batata frita, carne gorda, churrasco, fast-food. Pula refeições e torce o nariz para as saladas. Trabalha o dia todo, estuda à noite e diz que não tem tempo para atividade física. Os maus hábitos fizeram os níveis de colesterol e triglicérides subir muito acima do normal. Há quatro meses, Fábio está tomando remédio para tentar baixá-Ios. Diz que em 2009 vai mudar de vida. "Quero voltar a nadar para me livrar do remédio e deste perfil metabólico obeso:"

Gordos e magros podem sofrer da chamada síndrome metabólica, caracterizada principalmente por colesterol elevado e resistência à insulina. Nesses casos, o corpo não consegue usar de forma adequada a insulina produzida pelo pâncreas. A pessoa se torna diabética. O principal sinal da síndrome metabólica é o acúmulo de gordura na região abdominal.

Histórias como a de Fábio e Mherielen demonstram que a obesidade é uma condição mal compreendida. Ela não pode ser explicada apenas como fruto de escolhas pessoais inadequadas. Nem pela preguiça ou pela falta de amor-próprio. É resultado de uma intrincada combinação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais.

Entender as novas teorias sobre a obesidade é importante sobretudo em países em desenvolvimento como o Brasil, onde a proporção de pessoas acima do peso normal cresce a cada década, mas ainda não atingiu proporções catastróficas como nos países ricos. Nas últimas três décadas, o Brasil viveu uma complicada transição nutricional. Saiu da desnutrição para o sobrepeso (um pouco acima do normal) e a obesidade (bastante acima do normal). Em 1975, o índice de desnutrição na população acima de 20 anos era de 9,5%. Em 2003, havia caído para 4%.

Isso seria uma ótima notícia se boa parte dos brasileiros não tivesse migrado para o outro extremo - a população com excesso de peso ou obesidade aumentou de 16% para 40%. Uma projeção mais recente, realizada em 2007 pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, também chegou a números impressionantes: 63 milhões de pessoas a partir de 18 anos têm peso acima do normal. Desse total, 15 milhões são obesos e 3,7 milhões são obesos mórbidos. Se o crescimento continuar no mesmo ritmo, em 2030 o Brasil terá 33% de obesos (hoje são 13%).

Assim como nos Estados Unidos (onde 65% da população está acima do peso, e 35% dessa parcela são obesos), a causa mais evidente do problema no Brasil são as condições de vida criadas pela industrialização e urbanização. Um processo relativamente recente. Faz apenas 50 anos que o país começou a mergulhar na era da abundância alimentar e do sedentarismo exacerbado. Mas esse processo é apenas um dos fatores que explicam a obesidade. 

  •  As razões sociais e econômicas

A vida ficou mais sedentária e confortável quando o trabalho braçal foi substituído por máquinas, os controles remotos deixaram de ser um luxo e a as pessoas deixaram de percorrer grandes distâncias a pé. O barateamento de alimentos ricos em gordura e carboidratos (fast-foods e biscoitos recheados, por exemplo) permitiu que a camada mais pobre os consumisse com frequência e engordasse. A violência urbana - que desestimula a atividade física ou a simples locomoção a pé - contribui para o problema. Assim como a tríade televisão-videogame-computador. É fato que as pessoas vivem num mundo que favorece a obesidade, onde a regra é comer mal e se movimentar pouco. Esses fatores, no entanto, explicam apenas parte da equação. "É muito simplista achar que as pessoas são obesas só porque comem demais e não fazem atividade fíísica", diz o endocrinologista Marcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndroome Metabólica (Abeso). "Muitos magros comem a mesma coisa, são sedentários e não engordam." Uma das explicações desse fenômeno seria a programação metabólica que ocorre antes mesmo do nascimento.

  • As razões biológicas e evolutivas

Quando uma população sofre grave desnutrição, uma grande parcela dos indivíduos morre. Sobrevivem as pessoas que têm genes mais poupadores de energia. Como, durante a evolução, a humanidade passou por vários períodos de fome, somos os descendentes daqueles que tinham organismos capazes de estocar o máximo de energia. Quando uma criança sofre desnutrição ainda no útero da mãe ou nos primeiros anos de vida, é bastante provável que se torne obesa no futuro - pois seu organismo se programou para viver com pouco e, quando ela tem mais alimento à disposiição, ele vira excesso.

"Não vai demorar muito para vermos um aumento expresssivo da obesidade em Estados do Nordeste que sofreram graves secas nos anos 70 e 80", diz Mancini. Esse cenário já começou a se concretizar. Entre 1989 e 2003, o índiice de obesidade entre os homens nordestinos aumentou 60%, segundo a pesquisa do IBGE. A explicação: aumentou o acesso a alimentos de baixo valor nutricional. "O Brasil também vive um paradoxo: 8% dos lares têm obesidade e desnutrição ao mesmo tempo", diz Mancini. Isso ocorre mais frequentemente entre os pobres. Em geral, o filho é desnutrido e a mãe é obesa. Ambos consomem muitos carboidratos baratos (como biscoitos e macarrão) que, sozinhos, não garantem uma nutrição adequada. Como a mãe costuma ter menos atividade físiica que a criança, ela engorda. Nem por isso está bem nutrida. É a prova de que gordura, hoje em dia, não é sinal de saúde.

O avanço do conhecimento sobre os horrmônios envolvidos no ganho de peso também lançou novas luzes sobre o problema. Obesos podem ter maiores concentrações do hormônio grelina, produzido pelo estômago. Quanto mais elevadas as doses dessa substância, mais fome sentimos. Outro hormônio, a leptina, produzido nas células de gordura, avisa o cérebro que as reservas de gordura do corpo já são suficientes. Nos obesos, a sinalização da leptina parece não funcionar corretamente. Um conjunto de receptores presentes nas células regula o consumo de energia. Nutrientes em excesso são estocados em forma de gordura. Quanto mais ativo for esse sistema, mais gordura a pessoa queima. Nos gordinhos, ele parece funcionar muito lentamente.

  • As razões culturais

Qual avó não fica satisfeita quando aperta as bochechas salientes do netinho? Para muitas pessoas, um rosto redondo e um duplo queixo ainda são sinal de saúde - apesar de todo o conhecimento disseminado sobre os riscos da obesidade. Nos Estados Unidos, poucas características unem tanto o país quanto o fetiche pela comida. O espírito dos pioneiros que deixaram as privações da Europa para construir a abundância no Novo Mundo está na raiz da cultura americana. A sociedade lida com a comida com o mesmo entusiasmo dos antepassados que encontraram terra fértil para plantar e colher de tudo. Isso lhe soa familiar? A cultura brasileiira também relaciona comida a poder. ""A forma que a maioria das pessoas usa para demonstrar poder é exibir o fácil acesso à comida", diz Mancini.

  • As razões psicológicas

Num mundo profissional cada vez mais competitivo e estressante, muita gente afoga as mágoas e pressões num pacote de biscoitos. Em vez de expressar as angústias, faz do ato de comer um momennto de conforto. As emoções contribuem para a obesidade também de outras formas. Muitos obesos inventam encontros, reuniões, confraternizações infindáveis - sempre ao redor de uma mesa. O motivo do evento pouco importa. A real motivação, geralmente inconfessável, é comer muito além do necessário.

Quaisquer que sejam as explicações para a obesidade, ela representa uma enorme ameaça. Foi reconhecida em 1997 pela Organização Mundial da Saúde como um grave problema de saúde pública. Além dos temíveis males cardiovasculares, o excesso de peso pode acarretar desequilíbrios hormonais, asma, cirrose hepática, insufiiciência renal, artrose de joelhos e coluna, câncer, infertilidade etc. Podem ocorrer também problemas psicológicos como o isolamento social.

Os impactos econômicos são fortes. Nos Estados Unidos, estima-se que os custos médicos relacionados à obesidade sejam de US$ 75 bilhões, cerca de 7% de todos os gastos com saúde. Custos indiretos - como absenteísmo, queda na produtividade e aposentadoria precoce - alcançariam pelo menos mais US$ 48 milhões. Prejuízos menos evidentes afetam a popuulação inteira. Um exemplo: o preço das passagens aéreas subiu para compensar os gastos com combustível. Como a população engordou, os aviões ficaram mais pesados e passaram a consumir mais gasolina.

O crescimento da obesidade pode reduzir os ganhos de longevidade comemorados nos últimos anos. Alguns especialistas acreditam que a atual geração de crianças americanas pode se tornar a primeira na história do país a ter uma expectativa de vida menor que a dos pais. A obesidade já subtrai um ano da expectativa média de vida nos Estados Unidos, segundo um estudo realizado por Stuart Jay Olshansky, da Universidade de Ilinois, em Chicago. ""A redução poderá se tornar muito mais acentuada nas gerações futuras, se a obesidade infantil continuar a crescer", escreveu o professor Frank B. Hu, da Universidade Harvard, no livro Obesity epidemiology, lançado recentemente.

O aumento do número de p combustível. Como a população engordou, os aviões ficaram mais pesados e passaram a consumir mais gasolina.

O crescimento da obesidade pode reduzir os ganhos de longevidade comemorados nos últimos anos. Alguns especialistas acreditam que a atual geração de crianças americanas pode se tornar a primeira na história do país a ter uma expectativa de vida menor que a dos pais. A obesidade já subtrai um ano da expectativa média de vida nos Estados Unidos, segundo um estudo realizado por Stuart Jay Olshansky, da Universidade de Ilinois, em Chicago. ""A redução poderá se tornar muito mais acentuada nas gerações futuras, se a obesidade infantil continuar a crescer", escreveu o professor Frank B. Hu, da Universidade Harvard, no livro Obesity epidemiology, lançado recentemente.

O aumento do número de pessoas acima do peso em várias partes do mundo (1,6 bilhão, cerca de 25% da população mundial) leva as autoridades a se referir ao problema como uma epidemia. Há quem discorde do termo. "Há muito mais casos de obesidade hoje que nos anos 70, mas não se trata de epidemia", disse a ÉPOCA a socióloga Abigail C. Saguy, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Ela não está se espalhando rapidamente como um vírus da gripe." Abigail avaliou mais de cem livros, reportagens e estudos científicos sobre o tema publicados nos últimos dez anos. Acredita que a maioria superestima as consequências da obesidade. "Fortes evidências demonstram que uma pessoa pode ser gorda e saudável ao mesmo tempo", diz Abigail. "Dar tanta importância ao peso só aumenta o estigma que os obesos sofrem." Num mundo onde o padrão de beleza magro é supervalorizado, os obesos viraram cidadãos "anorrmais". Estudos revelam que mulheres obesas ganham menos e raramente atingem os melhores postos nas empresas.

Depois de tanto ser barrada nas entrevisstas de emprego, a paulista Thays de Paiva Alves, de 23 anos, 1,67 metro e 110 quilos, decidiu prestar concurso público. Hoje trabalha na Secretaria Estadual de Educação, em Hortolândia, no interior de São Paulo. Ficaram no passado os constrangimentos que sofria durante os processos seletivos. "Uma vez o entrevistador disse que lamentava, mas a aparência física da outra candidata (magra) era mais adequada", diz. Thays, que há anos desistiu de fazer dieta, é saudável e se diz feliz. Namora há três anos (um magro). "Tenho amigas magras que não entendem por que eu recebo tantas cantadas", diz. ""A verdade é que muitos homens preferem as gordas."

O preconceito contra os obesos - assim como vários outros - é uma estupidez. Eles não são necessariamente menos saudáveis que os magros. Para manter a saúde, no entanto, qualquer pessoa (independentemente de seu Índice de Massa Corpórea) precisa movimentar o corpo e alimentá-Io com qualidade. Um obeso que faz atividade física costuma ser mais saudável que o magro sedentário. É preciso também reeducar o paladar. "Não é só o valor calórico que influencia na alimentação", diz a nutricionista Fernanda Pisciolaro, da Abeso. "Se uma pessoa come muita gordura saturada (bacon e linguiça, por exemplo), corre risco mais elevado de adoecer do que uma pessoa que come a mesma quantidade de gordura polisaturada (peixes e frutos do mar)." Perpetuar hábitos saudáveis é muito mais fácil quando o treino é adquirido na infância. O governo paulista decidiu ensinar noções de alimentação saudável a 500 crianças carentes de 6 a 14 anos que passam parte do dia em duas casas de apoio. Elas aprendeeram a combinar os alimentos, e as famílias foram informadas sobre como aproveitar melhor as folhas e os caules de legumes que antes eram desperdiçados. Em fevereiro de 2007, 20% das crianças tinham obesidade. Em novembro, elas passaram por novos exames, inclusive de sangue. Para garantir que estariam em jejum durante a coleta, a equipe organizou uma "Noite do Pijama": as crianças dormiram na escola e fizeram os exames logo cedo. Os resultados ainda estão em análise. Mas a equipe notou uma mudança. "Quando se servem no bandejão, elas já montam pratos mais coloridos e variados", diz Sergio Sarrubbo, diretor-técnico do Hospital Infantil Darcy Vargas, que participa do projeto.

O excesso de peso na infância costuma programar o organismo para uma vida inteira de saúde frágil. Os médicos estão enfrentando o desafio de combater colesterol alto, hipertensão e doenças do fígado - problemas tipicamente de adultos - em crianças cada vez mais novas. Como esse é um fenômeno recente, há muitas dúvidas sobre como tratar esses pacientes. De todas as complicações futuras provocadas pelo excesso de peso na infância, as mais graves parecem ser o mau funcionamento do fígado e do pâncreas. Isso leva ao comprometimento de sistemas vitais que determinam como o corpo absorve e usa energia. As consequências podem ser extensas . Para evitá-Ias é preciso agir cedo. Algumas ações ao alcance de todos nós:

- ensinar a noção de porção

Em vez de entregar um pacote inteiro de biscoitos à criança, ofereça três unidades. A família deve ensinar que existem limites;

- a família inteira deve se reeducar

O consumo de guloseimas deve ser eventual. Crianças imitam o comportamento dos pais à mesa. Se os adultos comem salada com prazer, é provável que os pequenos queiram experimentar;

- reduzir as tentações

Se você quer que seu filho coma de forma saudável, não encha os armários de salgadinhos e biscoitos. Também não faça chantagem. Dizer que ele só vai ganhar sobremesa se comer a verdura é o pior caminho. Ele vai odiar ainda mais os vegetais;

- jamais pular refeições

Crianças (e adultos) devem tomar o café da manhã, almoçar, jantar e fazer dois pequenos lanches entre as principais refeições. Eles não devem ser substituídos por guloseimas. As preparações não precisam ser insosas. Use a criatividade.

O desafio é imenso. Mas é possível aprender desde cedo que o saudável também pode ser gostoso. 

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