Os primeiros sintomas


Revista Galileu

Os primeiros sintomas começaram a aparecer quando Virgínia de Ferrante, 22, ainda estava na adolescência. Na época, chegou a ser gótica, daquelas que cultuavam a tristeza. A crise, no entanto, veio quando se mudou para Nova York para estudar teatro, aos 19 anos. Quando o curso acabou, três meses depois, viu-se sozinha, perdida e sem perspectivas na cidade mais badalada e famosa do mundo. “Foi aí que entrei em parafuso”, diz ela. Uma angústia brutal tomou conta de sua vida, tornando quase impraticável a rotina de estudante e garçonete. Não tinha ideia de que rumo tomar, muito menos o que queria fazer dali para frente. Buscou ajuda na terapia, tomou remédios, ficou sabendo que estava com depressão. Sofreu horrores, mas também fez grandes descobertas. Chegou à conclusão de que não queria ser atriz, mas, sim, diretora de cinema. Voltou ao Brasil, começou a estudar cinema e, aos poucos, foi conseguindo se entender melhor. “Foi um período de grandes mudanças”, afirma. Apesar da dor terrível, foi naquele momento que conseguiu parar para pensar em soluções e ser mais autocrítica. “Para mim, existiu uma Virgínia antes e depois de Nova York. Foi essa crise que me levou a estudar aquilo que realmente me faz feliz, que é direção de filmes.” Intuitivamente, ela entendeu o que a ciência vem se esforçando para demonstrar: que a depressão tem seu lado bom e que dela podemos tirar proveito se percebermos seu potencial transformador.

É o que defendem dois pesquisadores evolucionistas norte-americanos, em um estudo recente publicado no periódico Psichological Review no qual tentam desvendar o que chamam de “o paradoxo da depressão”. Guiados pela teoria da seleção natural de Charles Darwin (1809-1882), o psiquiatra J. Anderson Thomson, da University of Virginia, e o psicólogo Paul W. Andrews, da Virginia Commonwealth University, passaram anos tentando entender por que doenças mentais como a esquizofrenia afetam apenas de 1% a 2% da população mundial, enquanto a depressão já atinge mais de 20%. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde divulgadas em setembro de 2009, essa será, em duas décadas, a doença mais comum do planeta, à frente do câncer. Residiria aí o tal paradoxo: por que uma disfunção tão sofrida também é tão comum?

Segundo Darwin — ele próprio um notório deprimido, como explicitou em várias cartas ao longo da vida —, as espécies passam por um inexorável processo de adaptação em que características mais favoráveis a sua existência acabam sendo passadas de geração a geração. Trata-se de um afinadíssimo mecanismo de seleção e especialização que garante a permanência de traços que nos deixam mais aptos a encarar os obstáculos. Adeptos da psicologia evolucionista acreditam que a seleção natural não envolve apenas o corpo. As características da mente humana também seriam o resultado de uma longa jornada de depuração em nome da sobrevivência e reprodução.

Se a teoria de Darwin é amplamente aceita até hoje no meio científico, argumentam Thomson e Andrews, então a depressão não pode ficar de fora. Em outras palavras, a depressão seria uma adaptação humana que chegou até nós com tamanha incidência não por acidente, mas porque precisamos dela como indivíduos.

De acordo com essa perspectiva, a depressão nada mais é do que uma resposta radical da mente para que encaremos nossos dilemas mais profundos. “Como a dor física, ela serve para sinalizar que existe um problema a ser resolvido”, afirma Thomson. “Seria maravilhoso se a gente não tivesse de sentir dor. Só que não é assim. A depressão, como a dor, é um mal necessário.” Esse mecanismo seria tão poderoso que nos faria parar e olhar na marra para dentro de nós mesmos, ainda que de forma muitas vezes caótica, nem sempre consciente e invariavelmente sofrida. Tamanha concentração da mente tem um preço, exigindo muitas vezes terríveis sacrifícios. Por causa dela, alguns param de comer, de trabalhar, de ver os amigos e de sentir prazer.

Integrante da mesma corrente de pesquisa que tenta mostrar que a doença não é apenas uma disfunção qualquer, Edward Hagen, psicólogo evolucionista da Washington State University, costuma compará-la a uma greve geral. “Por que os trabalhadores entram em greve? Porque não estão satisfeitos. Acontece o mesmo com nossa mente. Trata-se de um ultimato, um pedido de socorro para que mudemos o que está nos prejudicando.”

Uma crise de choro no meio de uma festa foi o alerta que fez a servidora pública Mariana Carpanezzi, 30, desabar. Sempre às voltas com o trabalho e o mestrado, achava que sua aparentemente inexplicável tristeza passaria com mais horas no escritório ou na universidade. O preconceito em relação à depressão a impedia de investigar melhor a razão daquele imenso vazio que sentia. Mas um dia veio o sinal vermelho. Teve de aceitar que estava doente. “Quando entendi o que tinha, foi libertador”, diz ela, que penou, porém conseguiu “ajustar os parafusos da vida”. Procurou um psiquiatra, que lhe receitou remédios — outro preconceito que teve de superar para conseguir dar a volta por cima. Associou a psiquiatria com psicanálise duas vezes por semana, o que foi fundamental para dar sustentação ao que classifica como um processo radical de mudança que perdura até hoje. Com a ajuda do tratamento, percebeu, por exemplo, qual o espaço que o trabalho deve ocupar em sua agenda e constatou que não é possível se sentir plena o tempo todo. “É claro que a depressão em si não é uma coisa boa, mas o modo como lidamos com ela pode ser algo benéfico. Acho que reli a vida de uma maneira positiva e me tornei uma pessoa melhor depois disso tudo.”

• Ruminação positiva

Ao estudar as raízes evolucionistas da depressão, Andrews e Thomson focaram-se num tipo de pensamento que costuma ser comum em portadores da doença, chamado de ruminação. O nome deriva do hábito que as vacas têm de continuar mastigando por horas alimentos que já tinham engolido e voltaram do estômago. “O pensamento ruminante faz com que a pessoa pense continuamente em seus problemas”, diz a psicóloga Susan Nolen-Hoeksema, da Universidade de Yale. Até recentemente, havia um consenso científico de que a ruminação não passava de um tipo inútil e improdutivo de pessimismo. A própria professora defende, em parte, essa ideia: “Em alguns casos a ruminação analítica leva o doente a remoer seus problemas de forma tão passiva e repetitiva que acaba ficando ainda mais deprimido”.

Uma ala da psicologia evolucionista passou recentemente a ver a questão sob um prisma bem diferente. Andrews e Thomson acreditam que a ruminação envolve afiados processos analíticos que, se bem orientados, de preferência com a ajud da de especialistas, podem ser produtivos, ainda que dolorosos. Por meio da ruminação, pessoas deprimidas tendem a quebrar um problema complexo em questões menores, com as quais é mais fácil de lidar. “Isso leva a melhores chances de resolvê-los”, diz Andrews. Estudos apontam ainda que a depressão aumenta a atividade cerebral de uma área do córtex pré-frontal importante para manter a atenção. Isso contribuiria para a mente permanecer mais focada em um problema, minimizando distrações. No processo, o doente pode ter insights sobre sua vida que não seriam possíveis se estivesse são.

O escritor Osíris Reis, 30, enfrentou duas fortíssimas crises de depressão. A primeira começou em 2000, durante o curso de medicina. Apesar de perceber que não tinha nada a ver com a área, não conseguia largar os estudos. Ficou na faculdade um ano e meio, tempo durante o qual começou a perder a capacidade de sentir prazer em tudo. Na tentativa de recuperar a alegria, foi aumentando o ritmo da vida: fazia compras enlouquecidamente, ia a festas quase todas as noites. “Demorei a me tocar que isso era depressão. Só me dei conta quando larguei a medicina, fiz inscrição para o curso de mecatrônica em Brasília e, três meses antes do vestibular, não tinha vontade de levantar da cama — só encontrava ânimo para ir até a cozinha e pegar uma faca para me matar”, afirma. “Foi aí que percebi que a coisa era séria e decidi procurar ajuda médica.” Consultou-se com psiquiatras, mudou-se por um tempo para a casa dos avós, começou a escrever livros, entrou para um curso de audiovisual. Em 2004, uma nova crise apareceu, mas, desta vez, Osíris já sabia como se cuidar: aliou tratamentos psiquiátrico e psicológico e tomou medicamentos até melhorar. “Na hora em que você está mal, esse papo de que a depressão tem lado bom não faz sentido. Só pude ver pontos positivos quando comecei a me tratar”, diz. “Hoje sei que, se não fosse pela doença, eu teria mantido escolhas que fariam da minha vida uma porcaria.”

• Patologização da tristeza

A depressão, ou melancolia, como era citada no passado, atinge muita gente faz milênios — há menções a ela que remontam aos tempos de Aristóteles, no século 4 a.C. Mas só recentemente passou-se a aventar que a doença tenha aspectos positivos. Novos estudos tentam jogar luz ao tema, como o recém-lançado livro Manufacturing Depression: The Secret History of a Modern Disease (Fabricando a Depressão: a História Secreta de uma Doença Moderna, sem tradução no Brasil). Nele, o psicoterapeuta Gary Greenberg, que também sofre de depressão, faz um relato franco do que classifica de patologização da melancolia. A partir do século 20, tristeza profunda passou a ser tachada de doença grave. Virou tema de pesquisas científicas, ganhou vocábulos cada vez mais extensos em livros de medicina e psicologia e, a partir dos anos de 1950, transformou-se em mal a ser combatido por remédios. Co-autor de The Loss of Sadness: How Psychiatry  Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder (A Perda da Tristeza: Como a Psiquiatria Transformou Tristeza Normal em Disfunção Depressiva, inédito no País), outro interessante livro sobre o assunto, Allan Horwitz defende que isso acontece porque a psiquiatria contemporânea tende a deslocar os sintomas de seu contexto, classificando de disfunções mentais reações normais que temos diante de situações de estresse. Isso, segundo ele, tem sérias implicações não só para a medicina, mas para a sociedade em geral. “Diante dessa indústria da felicidade, que alardeia ser possível sentir-se bem o tempo todo, a gente se torna incapaz de ver a tristeza como parte natural da vida”, diz. “Isso leva pessoas que estão apenas tristes ou que têm quadros mais leves de depressão a buscar saídas rápidas para sua dor por meio de antidepressivos.”

Horwitz salienta, no entanto, que é preciso separar reações depressivas, que são respostas normais a situações difíceis, dos transtornos graves de depressão. “Quadros complicados, como depressão bipolar, precisam, claro, ser tratados com cuidado especial, muitas vezes de forma multidisciplinar, combinando medicamentos e terapias.” A própria pesquisa de Andrews e Thomson focou-se em tipos leves e moderados da doença — gente que, na opinião dos dois pesquisadores, acaba tomando antidepressivos sem necessidade, perdendo a chance de refletir sobre sua existência e tomar decisões que poderiam ser de grande valia. Culpa, segundo eles, da banalização no uso desses medicamentos.

No Brasil, os antidepressivos já são a quarta classe de remédios mais comercializada de anti-inflamatórios, analgésicos e contraceptivos. Em cinco anos, segundo levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a venda desse tipo de medicamento cresceu 48%. Pulou de 17 milhões de unidades vendidas em 2003 para 25,9 milhões em 2008, “Hoje antidepressivos são prescritos por médicos de todas as especialidades, mesmo quando não têm certeza do diagnóstico”, diz Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). “No entanto, há casos de depressão mais graves em que os antidepressivos são imprescindíveis. Já em situações leves, o acompanhamento psicológico é, muitas vezes, suficiente para que a pessoa se restabeleça”, diz, É importante salientar que distinguir um quadro grave de um leve ou moderado não é tarefa fácil. Cada caso precisa ser avaliado individualmente por especialistas na área.

O fotógrafo Ernesto, 30, teve o primeiro contato com a doença quando tinha 15 anos. O gatilho foi a postura instável do pai. Primeiro, vieram ataques de raiva, seguidos de profunda tristeza que o levou a se afastar dos amigos. Ao longo da vida, teve algumas crises, que, com a ajuda de intenso tratamento, resultaram em importantes descobertas sobre si mesmo. Passou a ter consciência de que havia questões que precisava resolver consigo mesmo se quisesse ficar bem. Graças à doença, aprendeu a desenvolver sua autoconfiança. “Saí fortalecido e mais resistente a problemas. Aprendi a me respeitar, a me perdoar e a me dar valor”, diz. “Entendi que também mereço ser feliz, sem culpa, como todo mundo.”

Defender que depressão tem seu lado bom não significa dizer que seus portadores não precisam de tratamento. Muito menos que devam sofrer indefinidamente à espera de supostos benefícios da doença. Afinal, aí reside outro grande paradoxo da evolução: mesmo quando temos consciência de que a dor pode ser útil, a urgência em escapar dela é um de nossos mais emblemáticos instintos. Remédios, psicanálise, psicologia, cada um deve procurar o tratamento que julgar melhor para aliviar o sofrimento. Mas as recentes teorias sobre depressão trazem uma inovação preciosa ao nos mostrar que a tristeza e o pessimismo podem não ser de todo ruim, ajudando- nos a compreender nossas reações humanas de uma maneira mais natural. E a entender melhor aquele velho ditado que diz, sabiamente, que há males que vêm para bem.

• Debate

A convite da Galileu três especialistas encontraram-se para uma conversa sobre a doença.

A revista Galileu, em parceria com a Livraria da Vila, convidou três renomados especialistas em doenças mentais para debater o tema da depressão. O encontro foi realizado no dia 9 de abril, em São Paulo. Participaram do evento o psiquiatra Geraldo Possendoro, o psiquiatra e médico do trabalho Duifio Antero de Camargo e o psicólogo José Roberto Leite. Em uma conversa franca, eles mostraram suas visões sobre tristeza, melancolia e depressão, entre outros assuntos. Leia a seguir os principais trechos do debate:

Galileu: A depressão pode ter um lado bom?


• Debate

A convite da Galileu três especialistas encontraram-se para uma conversa sobre a doença.

A revista Galileu, em parceria com a Livraria da Vila, convidou três renomados especialistas em doenças mentais para debater o tema da depressão. O encontro foi realizado no dia 9 de abril, em São Paulo. Participaram do evento o psiquiatra Geraldo Possendoro, o psiquiatra e médico do trabalho Duifio Antero de Camargo e o psicólogo José Roberto Leite. Em uma conversa franca, eles mostraram suas visões sobre tristeza, melancolia e depressão, entre outros assuntos. Leia a seguir os principais trechos do debate:

Galileu: A depressão pode ter um lado bom?

José Roberto Leite: Tenho sérias dúvidas sobre isso, principalmente vendo o prejuízo que a depressão causa em meus pacientes. A única visão que eu poderia ter a respeito de algo útil na depressão seria que ela provoca um impacto de tamanha grandeza na vida do indivíduo que poderia motivá-lo a buscar recursos para, talvez, modificar aquele estado.

Duílio Antero de Camargo: É difícil ver o lado bom da depressão, especialmente para o paciente depressivo, O sofrimento psíquico no trabalho é muito grande. A depressão chega a ser a terceira causa de incapacidade no trabalho no Brasil. De lado positivo mesmo, só consigo ver que a depressão trouxe, para nossa legislação trabalhista, leis de proteção à saúde do trabalhador.

Geraldo Possendoro: Parece que os autores das teorias que dizem que a depressão tem um lado bom confundem depressão com tristeza. A tristeza tem a função de recolher o indivíduo, de fazer com que ele reflita, pense onde erraram com ele, onde errou com as pessoas. Tudo isso faz com que ele tente se adaptar melhor a uma situação futura semelhante. Qual é o limite entre a tristeza funcional e a depressão? Os americanos, em seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, falam em 15 dias. Se você tem a vida prejudicada por mais de 15 dias, já pode ser medicado. Não acredito que a maior parte dos clínicos use rigorosamente essa marca. Para o luto patológico, por exemplo, em que o paciente perde um ente querido e acaba desenvolvendo uma depressão, os tratados mais antigos falam em seis meses para essa avaliação. Acredito que esse limite é uma questão de bom senso.

Galileu: Na reportagem, citamos novos livros que dizem que houve uma patologização da melancolia, que a sociedade transformou tristeza profunda em doença que precisa ser tratada. Os senhores concordam?

Geraldo: Pessoas que têm parentes de primeiro grau com depressão unipolar têm três vezes mais chance de ter depressão. veja o caso de gêmeos idênticos: se um deles tiver depressão, o outro tem 40% de chance de ter também a doença, mesmo se forem separados ao nascer e criados por famílias diferentes. O ser humano é biopsicossocial, claro. Os dados que citei, no entanto, trazem a ideia irrefutável de que há uma base biológica, não só para a depressão, mas para várias outras doenças.

José Roberto: O mundo moderno propicia o que chamamos de pseudoprogresso: em vez de beneficiar o homem, o progresso começa a se tornar um fator de extremo estresse a tal ponto que começa a manifestar um potencial patológico. Nesse sentido, esses livros podem ter uma parcela de razão.

Duilio: A depressão sempre existiu. Vale lembrar que a melancolia é um termo grego de 3.000 anos antes de Cristo. Na Idade Média, virou problema religioso: as pessoas deprimidas eram colocadas na fogueira. Só a partir da década de 1950, quando surgiram os antidepressivos, é que a depressão passou a ser vista como um problema médico.

Galileu: Entrevistamos pessoas que disseram ser muito exigentes e perfeccionistas. Isso é uma característica comum a quem desenvolve a doença?

José Roberto: Acredito que seja uma característica comportamental que pode
levar o indivíduo a manifestar algo que ele já tem em potencial. Até a própria criação da pessoa pode influenciar nisso. Os pais, muitas vezes, fazem uma barganha entre desempenho e afeto. Com isso, a criança acaba crescendo pleiteando o afeto e sempre se exigindo um maior desempenho. E isso gera um estresse para o resto da vida, ainda mais quando não se consegue alcançar o desempenho desejado. Esse estresse é de tamanha magnitude que pode levar o indivíduo a manifestar um quadro depressivo em alguma etapa da vida.

Galileu: As pessoas que entrevistamos reconhecem que a depressão foi sofrida, mas importantíssima para fazê-las prestar atenção em certos aspectos da vida. O que vocês acham disso?

José Roberto: Acredito que o indivíduo não precisa entrar em um estado depressivo patológico para, de repente, dar importância à vida e alcançar um estado de bem-estar. É óbvio que um período de sofrimento, mesmo que seja uma simples tristeza, serve de alerta para a pessoa modificar alguma coisa na vida. Não diria que uma depressão genuína possa beneficiar um indivíduo em relação a isso.

Geraldo: É importante frisar que essas pessoas afirmaram que o período de tratamento da doença foi horrível. No processo, que geralmente alia psicoterapia e psicofarmacologia, eles podem, sim, ter aprendido uma série de coisas sobre seus limites e capacidades.

Galileu: Na opinião de vocês, quando se trata de um quadro grave de depressão, não há como a pessoa tirar algo de bom da doença, mesmo após superá-la?

José Roberto: Jamais. Se a depressão foi grave, desconheço alguém que tenha falado que foi útil. Os pacientes se recordam do episódio com muito sofrimento. Lembram que não tinham energia para fazer absolutamente nada, com uma dor muito grande. Dizer que, em um quadro desses, a pessoa tem capacidade intelectual de tirar alguma coisa boa da situação é muito difícil. Impossível, acredito.

Geraldo: Em uma depressão moderada, o paciente muitas vezes não consegue nem se concentrar no que o psiquiatra está dizendo. Como psicoterapeuta, não trato um paciente antes de tirá-lo da depressão. Primeiro tiro-o da doença, com remédios, para que volte a viver tristezas funcionais, e não disfuncionais. Os remédios não são para abolir a tristeza, mas para abolir a depressão. Depois que ele sai da depressão, aspectos da personalidade dele surgem e são trabalhados. Assim é até compreensível que a pessoa tenha aprendido durante esse processo de melhora.

• “É o câncer da alma, não traz nenhum benefício”

Para Leonardo Gama Filho, chefe do serviço de saúde mental do Hospital Lourenço Jorge, no Rio, a depressão é como a tuberculose ou hipertensão: não traz benefícios e precisa ser combatida. Leia abaixo por que ele acredita que não exista um lado bom na doença.

Galileu: A depressão pode ter um lado bom?

Depressão é uma doença devastadora que leva o indivíduo a perder o prazer em tudo. Prejudica as funções fisiológicas, compromete a memória, o raciocínio e a concentração. Depressão é o câncer da alma. O pior é que ela não atinge só seu portador, mas toda a familia do paciente. Todos

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