Os Segredos da Vida Longa


Pela primeira vez, cientistas identificaram o conjunto de genes que nos faz viver mais. Seremos capazes de retardar nosso envelhecimento?

Revista Época - por Marcela Buscato e Aline Ribeiro

A gaúcha Olivia Franco da Silva faz questão de manter os costumes nutridos ao longo de seus 101 anos. Assim que acorda em sua casa em Alvorada, região metropolitana de Porto Alegre, acende um cigarro. A úni­ca diferença é que ela trocou há 15 anos o fumo enrolado em palha, igual ao que roubava da mãe desde os 8 anos, pelos cigarros industrializa­dos. Torresmo, ovo frito e linguiça fazem parte do seu café da manhã. "Se não tiver isso, ela não come", diz Hevelin Ferreira, de 28 anos, uma de suas mais de 20 netas. Olivia não gosta de comidas "finas" - como chama o arroz e feijão feito com pouco óleo. Para ela, os alimentos devem ser preparados em
banha de porco, como seus pais faziam quando moravam na roça. Nos finais de semana, Olivia não recusa uma dose de cerveja preta. Caipirinha só se for de cachaça artesanal, porque a industrializada "parece água de tão fraca". Com seus costumes simples Olivia cruzou a fronteira dos 100 anos, o que só acontece com uma em cada 6 mil pessoas. Mais. Ela fez isso contradizendo a fórmula da vida longeva prescrita pelos médicos: alimentação equilibrada, atividade física e uma exis­tência livre de vícios. Apesar de seus hábitos pouco saudáveis, Olivia nunca foi internada nem toma remédios (diz se prote­ger com reza e chá caseiro). Não tem sequer colesterol.

A vida longa e saudável de Olivia não inspira só aqueles que não conseguem abdicar de seus pequenos pecados coti­dianos. Para muitos cientistas, gente como ela guarda o segredo da longevidade. Por que essas pessoas, com tantos anos a mais, parecem ter menos problemas de saúde do que a maioria de nós - que, já no meio
da vida, sofremos com hipertensão, coles­terol alto, diabetes e doenças cardíacas? "Os centenários são um modelo de como envelhecer porque conseguem postergar o
aparecimento de doenças", diz o geriatra Thomas Perls, pesquisador da Universida­de de Boston, nos Estados Unidos. "Cerca de 90% permanecem sem problemas de
saúde pelo menos até os 93 anos."

Na semana passada, Perls levou um grupo de cientistas ao mais próximo que a ciência já esteve de revelar o segredo da longevidade. Sua equipe publicou na re­vista científica Science, uma das mais im­portantes do mundo, uma análise da ge­nética de 1.055 idosos entre 95 anos e 119 anos. Os cientistas investigaram o genoma dos centenários de Boston e arredores que integram um dos mais importantes pro­jetos de pesquisa sobre envelhecimento, o New England Centenarian Study. Tam­bém participaram da análise genética idosos recrutados por uma empresa de biotecnologia americana.

Frente a frente com um gru­po tão singular, os cientistas tiveram a chance de avaliar se a receita para uma vida longa estava escondida entre as le­tras químicas do nosso código genético. Eles compararam os genes encontrados nesses voluntários centenários aos genes de filhos de pessoas que morreram com menos de 73 anos. O resultado da pes­quisa mostrou que o grupo de centená­rios compartilha cerca de 150 variações de genes, que seriam os responsáveis pela longevidade fora do comum - ou excep­cional, como chamaram os pesquisadores.

Trata-se da vida longa, sem grandes problemas de saúde, experimentada pela brasileira Olivia e por vários velhinhos ou velhinhas que andam por aí. Se houver um desses em sua família, há bons motivos para comemorar, segundo o estudo lide­rado por Perls. A descoberta de genes mais frequentes entre as pessoas longevas mostra que, nesses casos, os fatores genéticos são mais importantes na determinação da duração da vida do que os ambientais (o tipo de alimentação e a prática de atividades físicas). Mas atenção: esses casos são exceção. Para a maioria dos mortais, os ge­nes determinam apenas 30% da extensão da vida. Os outros 70% ficam a cargo de nossas escolhas, de como nos cuidamos.

Os cientistas descobriram que não exis­te uma só configuração genética associada à vida longa. Eles constataram que há 19 tipos de combinações possíveis entre os 150 genes encontrados nos centenários americanos. Cada um dos voluntários se encaixava em um desses 19 perfis ge­néticos. Uma das configurações conferia maior resistência na velhice a doenças car­diovasculares. Outra diminuía as chances de sofrer de demência. Uma terceira prote­gia contra o desenvolvimento de tumores. "É como se nós ganhássemos um bilhete de loteria ao nascer", diz a bióloga Ivana da Cruz, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referên­cia brasileira no estudo dos mecanismos biológicos do envelhecimento. "Ganha o prêmio da longevidade excepcional quem tirar uma dessas 19 combinações."

A pesquisa é um marco na ciência que estuda o envelhecimento humano. Pela primeira vez conseguimos um retrato tão abran­gente dos fatores genéticos que influenciam na longevidade. O mapeamento ge­nético dos centenários dá aos cientistas a chance de bisbilhotar por entre os vãos dos intrincados processos que resultam no colapso de nosso organismo. Os pes­quisadores acreditam que, ao entender os mecanismos que fazem nossas célu­las se degradar, será possível desenvolver tratamentos para retardar esse processo. E, quem sabe, atuar para congelar nossa idade biológica, acrescentando algumas dezenas de anos à vida de quem não tirou o bilhete genético premiado dos cente­nários. "Acredito que em um futuro não muito distante muitos de nós teremos a c chance de adicionar uma década ou duas de vida saudável a nossa existência", afir­ma o geriatra americano Bradley Willcox, pesquisador da Universidade do Havaí.

A convicção de Willcox se deve em par­te a sua contribuição na pesquisa sobre o envelhecimento. Ele coordena um dos maiores projetos do tipo, o Okinawa Cen­tenarian Study. O programa acompanha moradores que chegaram aos 100 anos nas ilhas que compõem a província de Okinawa, no sul do Japão. A população de lá tem características peculiares: uma das menores taxas de mortalidade por doen­ças crônicas do mundo e uma das maiores concentrações de velhinhos centenários. Só o projeto já estudou mais de 900 de­les. Ao analisar seus genes, Willcox des­cobriu que os homens que apresentavam uma determinada variação em um gene do processamento do hormônio insuli­na tinham até três vezes mais chances de se tornar centenários. É com base nessas descobertas que os pesquisadores sonham com a possibilidade de desenvolver drogas que prolonguem a vida.

As populações mais isoladas, como a de Okinawa, são vistas pelos cientistas como a chave para chegar até os genes que ren­dam tratamentos para retardar o envelhecimento. Por causa das limitações impostas pela geografia, haveria menos mistura dos genes dos habitantes desses locais com pessoas de outros lugares, o que facilita­ria a preservação das sequências genéticas associadas à longevidade. Isso explicaria por que há tantas pessoas de 100 anos em ilhas como Okinawa, Sicília, na Itália, e na Islândia. Ou em Maués, uma cidadezinha brasileira de 47 mil habitantes que já des­pertou a curiosidade de pesquisadores.

Localizada a 267 quilômetros de Ma­naus, Maués tem o dobro da média na­cional de pessoas com mais de 80 anos: 1% contra 0,5%. O município até criou um centro de convivência e atendimen­tos médico e odontológico exclusivos para atender ao perfil inusitado de seus mora­dores. São pessoas como João Rocha Go­mes, que nasceu e cresceu na zona rural de Maués. Em fevereiro, ele completou 100 anos. Como vários de seus conterrâ­neos centenários, Gomes tem uma dispo­sição difícil de encontrar em gente com 30, até 40 anos a menos. Acorda perto das 3 da manhã. Às 7 horas, já está na roça. Assim ele ajudou a sustentar cinco filhos, três bisnetos e uma quantidade de netos que o fez perder as contas. Numa manhã de domingo, de sol a pino e sob o calor escaldante do Norte, ele trabalhava na lavoura de guaraná. "Não sinto fra­queza", diz, instantes antes de colocar nas costas um saco com 30 quilos de guaraná e sair andando a passos largos. "Estou sempre forte."

Maués só ganhou fama de terra da Ion­gevidade há três anos, quando o número elevado de aposentadorias no município chamou a atenção do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Havia a sus­peita de que as pessoas forjavam a idade para receber o benefício. Por dois anos seguidos, os auditores da Previdência fo­ram até lá investigar. Bateram de casa em casa para visitar os idosos e constataram que todos estavam bem vivos. O episódio atraiu a curiosidade dos pesquisadores de universidades do Amazonas, do Rio Grande do Sul e de León, na Espanha, que estão estudando o caso desde 2008. "Ainda não sabemos as causas, mas os idosos de Maués, além de viver mais, têm menos diabetes, hipertensão, câncer e obesidade", diz o coordenador da pes­quisa, o médico Euler Ribeiro, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade.

Os cientistas não descartam a contribuição preciosa do estilo de vida dos moradores de Maués. Eles não con­somem produtos industrializados, ricos em gordura e pobres em nutrientes. Abu­sam do guaraná, fruto com componentes estimulantes do sistema nervoso central. A alimentação é baseada em hortaliças, legumes e raízes plantadas pelos pró­prios moradores, para quem também não faltam exercícios físicos. Lavrado­res em sua maioria, eles vão para a roça, caminham pelas florestas carregando a colheita, sobem e descem morros. Mas, se as hipóteses ambientais ainda são va­gas e não comprovadas, o componente genético da longevidade dos habitantes de Maués pode estar perto de ser des­vendado. "Os habitantes de lá são frutos de um mistura de 60% de índios, 20% de europeus e 20% de árabes, judeus e negros", diz Ribeiro. "São populações ri­cas em genes associados à longevidade."

Graças a pesquisas como a de Ribeiro, os cientistas estão conseguindo reunir as pe­ças do complexo quebra-cabeça do nosso processo de envelhecimento. Essa área de pesquisa permaneceu dormente até o iní­cio da década de 1990, quando a medicina antienvelhecimento ainda era considerada por muitos um assunto para curandeiros. Com a descoberta em 1993 de um gene que aumentaria a duração de vida de um ver­me, o interesse pelo tema floresceu. Desde então, os cientistas anunciaram a existên­cia de pelo menos uma dúzia de genes da longevidade. Era o que se tinha de mais avançado na área, até a semana passada.

Os pesquisadores ainda não tiveram tempo de analisar cuidadosamente cada um dos genes encontrados no novo estu­do. A função de alguns é conhecida. Já a associação de outros à longevidade é uma novidade. No geral, eles parecem corro­borar as teorias existentes sobre como os genes influenciam nosso envelhecimento. Eles teriam um papel importante nas rea­ções químicas que produzem energia para nosso corpo. Essas transformações geram compostos químicos que vão se acumulando nas células - os radicais livres, que podem se ligar a nosso DNA e causar er­ros de funcionamento. Nosso organismo conta com genes encarregados de fazer faxinas periódicas no DNA para livrá-Ia dos radicais livres. Mas, com o passar do tempo, esses genes deixam de funcionar.

As pessoas com uma das 19 versões da genética premiada teriam variações desses genes mais eficientes na produção de ener­gia. Elas manteriam as células funcionando como se estivessem no modo de economia, gerando menos radicais livres. Os cente­nários também contariam com genes que promoveriam a faxina no nosso DNA por mais tempo, mantendo seu funcionamen­to perfeito. "O que faz essas pessoas viver muito mais não é a ausência de genes cau­sadores de doenças"; afirma a pesquisadora italiana Paola Sebastiani, coautora do es­tudo publicado na Science. ""As chances de ter genes causadores dos de fazer faxinas periódicas no DNA para livrá-Ia dos radicais livres. Mas, com o passar do tempo, esses genes deixam de funcionar.

As pessoas com uma das 19 versões da genética premiada teriam variações desses genes mais eficientes na produção de ener­gia. Elas manteriam as células funcionando como se estivessem no modo de economia, gerando menos radicais livres. Os cente­nários também contariam com genes que promoveriam a faxina no nosso DNA por mais tempo, mantendo seu funcionamen­to perfeito. "O que faz essas pessoas viver muito mais não é a ausência de genes cau­sadores de doenças"; afirma a pesquisadora italiana Paola Sebastiani, coautora do es­tudo publicado na Science. ""As chances de ter genes causadores de doenças é quase a mesma entre os centenários e a população normal. A diferença é que os centenários têm variações de genes que parecem anular a ação dos genes que causam doença."

A ciência ainda precisa decifrar essa intrincada rede de ação dos genes do en­velhecimento para alcançar tratamentos capazes de interferir na duração da vida. "A pesquisa mostra que há genes demais desempenhando pequenos papéis na lon­gevidade", afirma o biólogo americano Leonard Guarente, pesquisador do Ins­tituto de Pesquisas Tecnológicas de Mas­sachusetts, responsável pela descoberta, na década de 1990, de um dos primeiros genes da longevidade.

Os pesquisadores já pensaram ter che­gado perto de controlar uma das variáveis genéticas que afetam o envelhecimento. Eles descobriram que uma substância encontrada nas sementes das uvas, nas cascas de uvas pretas e no vinho tinto, chamada resveratrol, seria capaz de ativar o gene que coloca a célula no modo de economia de energia. A descoberta causou sensação no meio científico. Um grupo de cientistas chegou a fundar em 2004 uma empresa de biotecnologia, a Sirtris, para desenvolver uma droga baseada no resveratrol.

Em 2008, a empresa foi vendida por US$ 720 milhões para o gigante farmacêutico GlaxoSmithKline, mas os avanços das pes­quisas não seguiram no mesmo ritmo de valorização da empresa. Em janeiro, cien­tistas de uma farmacêutica concorrente divulgaram não ter conseguido compro­var em um novo estudo em laboratório os efeitos antienvelhecimento do resveratrol. Em maio, a própria Glaxo suspendeu uma de suas pesquisas com a molécula em razão possíveis efeitos colaterais.

Mas ainda há esperança de que esse seja caminho para alcançar um tratamento que retarde os efeitos do envelhecimento. ""A tendência mais atual é pesquisar for­mas de colocar o organismo nesse modo de economia de energia", afirma Maria Luisa Tagliaro, professora de gerontolo­gia biológica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

A tarefa é complicada. Além de enten­der como a ação de cada gene reflete nos demais, os pesquisadores também terão de descobrir como fatores ambientais desencadeiam reações em nosso organismo capazes de alterar o funcionamento dos genes. "Poluição, alimentação, estresse influenciam no funcionamento dos genes", afirma Sang Won Han, professor da Universidade Federal de São Paulo, especialista em terapia gênica. Por isso, quem não nasceu com o bilhete premiado precisa dar uma forcinha à própria ge­nética. "Uma dieta saudável, a prática de atividades físicas e o controle do estresse ainda são o verdadeiro elixir da juventu­de", diz Ivana, da UFSM.

O paulista José Aparecido Rodrigues Prado, de 94 anos, pode até ter ganhado na loteria genética da longevidade, como a idade avançada permite supor. Mas ele preferiu não pagar para ver. Nunca gostou de beber nem de fumar. Sempre comeu de tudo, mas em quantidades moderadas e com uma preocupação: "Se a comida me fez mal uma vez, nunca mais como", diz. Com a idade, o zelo com o corpo aumen­tou. Hoje Prado come pouca carne ver­melha, aboliu a margarina, adora frutas e não chega perto de doces e refrigerantes. Todos os dias, com assiduidade religiosa, caminha mais de 2 quilômetros.

Aqueles que não têm a disposição de Prado podem sonhar com o dia em que a ciência chegará a tratamentos que confi­ram as benesses de uma genética privile­giada. Bem antes desse dia, é provável que os mais ansiosos possam ter uma ideia da sorte que tiraram no balão genético - pelo ritmo da evolução tecnológica nessa área, não deverá tardar até que la­boratórios estejam prontos para oferecer testes acessíveis para rastrear os 19 perfis genéticos associados à longevidade. Mas os próprios pesquisadores avisam: o me­lhor modo de chegar bem à terceira (ou quarta) idade ainda é, e continuará sendo, cuidar bem da própria saúde.

• Por que envelhecemos

O envelhecimento do organismo está relacionado com a progressiva deterioração das células. Quanto mais uma célula se reproduz, maiores as chances de haver erros na cópia de seu material genético. Isso aumenta a probabilidade de que essas novas células deixem de funcionar corretamente. Com o passar dos anos, os mecanismos encarregados de corrigir essas possíveis falhas também deixam de funcionar.

- Fatores que influenciam no envcelhecimento

1) Telômeros

- Nos extremos de cada cromossomo existem porções de material genético que não exercem nemhuma função ativa no organismo. São os telômeros.
- Cada vez que uma célula se reproduz, ela perde um pedaço do telômero. Durante anos, esse corte não afeta as funções dos genes porque não atinge o corpo do cromossomo.
- Mas, após anos de duplicação, os telômeros ficam tão curtos que os cortes podem afetar o material genético, o que pode alterar a ação dos genes.
- Por isso à medida que os telômeros vão ficando mais curtos, o organismo retira da célula sua capacidade de se reproduzir.

2) Mutações

- Fatores externos:

Poluentes, nicotina, raios solares podem agredir o material genético, quebrando as sequências e provocando mutações ruins. Há mecanismos que reparam danos, mas eles nem sempre resolvem tudo.

- Fatores internos:

A&

    Administração do Tempo

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