Os sete Pecados


Neurocientista de Harvard compara erros mnêmicos com transgreções apontadas pela Bíblia; distorções e equívocos são mais frequentes do que nos damos conta.

Revista Scientific American - por Daniel L. Schacter

Em "Yumiura", conto de Yasunari Kawabata, um escritor recebe a visita inesperada de uma mulher que diz tê-lo conhecido há 30 anos. Ela afirma que os dois se encontraram quando ele visitou a cidade de Yumiura, mas o escritor não se lembra dela. Atormentado por outros lapsos recentes de memória, ele interpreta o incidente como mais um sinal do seu declínio mental. Da aflição ele passa ao pânico quando a mulher revela o que aconteceu num dia em que ele foi ao quarto dela. "Você me pediu em casamento", lembra ela, melancólica. O escritor vacila ao refletir sobre a importância daquilo de que se esqueceu. Depois que ela sai, bastante abalado ele procura mapas para localizar Yumiura, na esperança de despertar alguma recordação. Mas nenhum mapa ou livro a cita. O escritor se dá conta então de que ele não poderia ter estado lá naquela época. Apesar de a mulher acreditar em suas memórias, tão detalhadas, emocionadas e precisas, elas eram totalmente falsas.

O conto de Kawabata ilustra como a memória pode causar problemas. Às vezes nós esquecemos o passado outras, nós o distorcemos. Recordações perturbadoras podem nos atormentar por anos. Mas também dependemos da capacidade para realizar um número impressionante de tarefas cotidianas.

Em muitos casos, só nos damos conta de sua importância quando um incidente provocado por um esquecimento ou distorção exige a nossa atenção.

Com o envelhecimento da população, tem se tornando cada vez mais comum a preocupação com a memória. Em 1998, uma reportagem da revista Newsweek revelou que o assunto se tornou a principal preocupação no que se refere à saúde dos atarefados, tensos e desmemoriados cinquentões. Esquecer reuniões, guardar óculos ou chaves no lugar errado e não recordar o nome de conhecidos vêm se tornando ocorrências corriqueiras para muitos adultos ocupados, que tentam conciliar a vida profissional e a familiar - e ainda lidar com tantas tecnologias e informações que a cada dia chegam até nós. Afinal, de quantas senhas e códigos precisamos nos lembrar? Raramente menos de seis...

Além das frustrações causadas pelas falhas da memória, precisamos lidar com o fantasma da doença de Alzheimer. À medida que o público se familiariza com os horrores da patologia - graças a casos de pessoas famosas, como o ex-presidente Ronald Reagan -, aumenta a inquietante perspectiva de uma vida dominada pelo esquecimento catastrófico.

Embora a magnitude da distorção das lembranças da personagem do conto "Yumiura" pareça exagerada, há casos equivalentes ou até piores na vida real. Podemos pensar, por exemplo, no livro de memórias Fragmentos - Memória de uma infância, 1939-1945, lançado no Brasil em 1998. O autor, Benjamin Wilkomirski, recebeu elogios no mundo inteiro por seu retrato da infância vivida num campo de concentração. Ele apresenta ao leitor cenas chocantes e vívidas dos horrores da guerra. Mais impressionante ainda é que Wilkomirski teria passado grande parte da vida adulta inconsciente dessas lembranças traumáticas, somente se reconciliando com elas com ajuda de terapia. Ele transformou-se numa espécie de herói para sobreviventes do Holocausto. Mas a história começou a se esclarecer pouco depois, quando o jornalista suíço Daniel Ganzfried, também filho de um judeu sobrevivente da Segunda Guerra, publicou um artigo atordoante em Zurique. Ele revelou que Wilkomirski é, na verdade, Bruno Dossekker, nascido em 1941 e entregue por sua mãe, a então jovem Yvone Berthe Grosjean, a um orfanato para adoção. O menino passou todos os anos da guerra com seus pais adotivos, os Dossekker, rodeado pela segurança de sua terra natal, a Suíça. Quaisquer que tenham sido os fundamentos para as suas "memórias" traumáticas dos horrores do nazismo, elas não se originaram em experiências num campo de concentração. Será que Dossekker/Wilkomirski é simplesmente um mentiroso? Talvez não: ainda hoje ele acredita veementemente em suas memórias. Afinal, todos somos capazes de distorcer o passado.

  • Ação e omissão erros de memória, esquecimento e distorções podem ser fascinantes. Acredito que essas falhas podem ser classificadas como: transitoriedade, distração, bloqueio, atribuição errada, sugestionabilidade, distorção e persistência. Exatamente como os sete pecados capitais, esses equívocos ocorrem com frequência e podem ter consequências desastrosas.

    Os três primeiros são transgressões de omissão da recordação de um fato, um acontecimento ou uma idéia (mesmo quando queremos lembrar). A transitoriedade está ligada ao enfraquecimento da memória com o passar do tempo. Você provavelmente não teria dificuldade de lembrar o que andou fazendo nas últimas horas. Mas, se alguém lhe perguntar o que fez há seis semanas, seis meses ou seis anos, é provável que não se recorde de muita coisa.

    A distração envolve uma ruptura na interface entre a atenção e a memória - como esquecer o lugar onde colocamos objetos pessoais ou um encontro para um almoço. Ocorre, em geral, porque estamos preocupados com outros assuntos e não nos concentramos no que precisamos lembrar. A informação se perde com o tempo, pois nunca foi registrada na memória ou não fo oi resgatada no momento necessário porque nossa atenção estava focalizada em outro assunto.

    O bloqueio refere-se a uma busca sem resultados de uma informação que queremos muito recuperar. Todos nós já fracassamos ao tentar lembrar o nome de uma pessoa conhecida. Essa experiência frustrante acontece mesmo quando o nome parece estar "na ponta da língua" -, em geral, só nos recordamos da informação bloqueada inesperadamente, horas ou dias depois. Já a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a teimosia são pecados de ação. O primeiro, que ocorre de forma muito mais frequente do que as pessoas se dão conta, envolve confusão entre fantasia e realidade e vinculação de uma memória a uma fonte equivocada (quando acreditamos, por exemplo, que um amigo nos contou um fato inconsequente que, na verdade, ficamos sabendo pelo jornal). O pecado da sugestionabilidade refere-se a lembranças criadas como resultado de perguntas tendenciosas, comentários ou sugestões feitas quando a pessoa tenta se lembrar de uma experiência.

    Já a distorção reflete influências poderosas do nosso conhecimento atual e opiniões sobre o modo como nos lembramos do passado. Com frequência, "editamos" ou reescrevemos inteiramente nossas vivências (de forma consciente ou não) com base no que sabemos e acreditamos no presente. O resultado pode ser a representação distorcida de um incidente específico ou de períodos inteiros de nossa vida. O sétimo pecado, a persistência, refere-se à recordação, geralmente deformada e camuflada, de informações ou acontecimentos perturbadores que gostaríamos de eliminar. Em casos extremos, de depressão ou experiências traumáticas, a persistência - que surge como uma defesa psíquica - pode deflagrar ou agravar transtornos psíquicos.

    Para conhecer mais

    Os sete pecados da memória - Como a mente esquece e lembra. Daniel L. Schaeter. Rocco, 2001.
    Funes, o memorioso. Ficções. J. L. Borges. Companhia das Letras, 2007.
    • Leitura Dinâmica e Memorização

      Preencha aqui seus dados

    © Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus