Palavras perdidas


Pessoas com os hemisférios cerebrais separados por doença ou trauma podem reconhecer o alfabeto e compreender o sentido geral das palavras, mas não conseguem pronunciá-Ias; o enigma se explica, em parte, pela interrupção da ponte formada pelo corpo caloso.

Revista Scientific American - por Patrick Verstichel

Conceitos-chave

- A incapacidade de ler (alexia) está, muitas vezes, associada aos casos de incapacidade de falar (afasia). A leitura se desenvolve por meio de longo aprendizado. No começo, a criança decifra as letras e Ihes atribui sons correspondentes. Depois, aprende as sílabas. A seqüência de letras em uma palavra equivale a uma sucessão de sons, que constitui a palavra cujo significado pode ser reconhecido.

- Com o passar do tempo, o processo de decodificação das palavras se acelera e sua pronúncia em voz alta exige apenas uma fração de segundo, provavelmente porque a leitura não é mais feita letra por letra, mas sim por grupos de letras. Intervém aí o hemisferio direito, que, dotado da capacidade de leitura global, parece também associar às palavras um conjunto de conceitos e estabelecer conexões semânticas, ou seja, de significado. Cabe a esse lado do cérebro estabelecer conexões.

A senhora R. tinha 52 anos, estava em boa forma física e habituada a longas camihadas. Para as férias, havia programado uma viagem ao campo. Certa manhã, sentiu uma violenta dor de cabeça que a impedia até de ficar em pé. Minutos depois, perdeu os sentidos e entrou em coma. Uma tomografia indicou hemorragia cerebral provoca da pelo rompimento de uma artéria. As imagens mostraram que uma lesão no hemisfério esquerdo atingiu os centros responsáveis pela capacidade lingüística. De fato, ao despertar, alguns dias depois, a paciente manifestava graves transtornos de linguagem: balbuciava e tinha dificuldade para encontrar palavras para se expressar.

Parecia tratar-se de um caso comum de afasia, transtorno provocado por hemorragia cerebral. A paciente recuperou suas habilidades lingüísticas após dois meses de terapia. Mas a singularidade de seu problema surgiu no momento em que se percebeu que ela era incapaz de se dedicar a uma de suas atividades favoritas: a leitura. Quando foi encaminhada à seção de neurologia, os médicos constataram que não conseguia decifrar palavras escritas, nem as mais simples. Com exceção de alguns vocábulos que pronunciava com dificuldade (como as palavras "animal", "cebola", "fuzil", "chimpanzé", "carro", "piano"), as palavras eram enigmáticas para ela. Isso valia para todas as categorias léxicas testadas (termos concretos ou abstratos, regulares ou irregulares, curtos ou longos, raros ou comuns), ainda que R. fosse capaz de reconhecer as letras do alfabeto.

Seria um fenômeno singular? Não, pois a alexia (incapacidade de ler) está, muitas vezes, associada aos casos de afasia. Casualmente, porém, descobrimos, nessa senhora apaixonada por caminhadas, algo de extraordinário. Quando mostramos a palavra "movimento" a paciente não foi capaz de lê-Ia, mas começou a mover os braços como se estivesse levantando pesos ou exercitando os músculos! Era como se tivesse captado parte do sentido da palaavra. Com o termo circo aconteceu a mesma coisa. "Sei o que é, são coisas divertidas, engraçadas, com dança ... ", afirmou ela, embora fosse incapaz de dizer qual era a palavra escrita. Afinal, ela era capaz de ler ou não? Compreendia significados sem reconhecer palavras?

  • Leitura ou adivinhação?

Verificamos que o problema não derivava de um defeito de pronúncia, já que a senhora R. repetia sem dificuldade as palavras "movimento" ou "circo" quando ditas por outras pessoas. Na realidade, ela se comportava como se não soubesse que sons permitem pronunciar certos vocábulos escritos, mas conservava a idéia correta dos significados.

O que teria ocorrido em seu cérebro? Os resultados do imageamento cerebral mostravam lesões no lóbulo parietal do hemisfério esquerdo, parte do cérebro que funciona como uma espécie de zona de transição, na qual informações são transferidas das regiões de decodificação visual para as responsáveis pela linguagem, em particular para a de área de Broca, que permite a pronúncia de palavras - dessa forma, durante a leitura, os sinais visuais são convertidos em sons. Além disso, a senhora R. tinha problemas com os testes, em razão de sua dificuldade de leitura: tentava decifrar as letras uma por uma, como se isso pudesse ajudá-Ia a identificar a palavra, mas jamais conseguia. Decidimos então mudar de método.

Mostramos a ela uma palavra por um tempo muito breve (250 a 500 milésimos de segundo), mas sufiiciente para ser identificada por uma pessoa saudável. Também nesse caso, a paciente reagiu citando imagens ou sensações associadas às palavras. Diante da rápida exposição do vocábulo "professor", por exemplo, disse: "Me faz pensar em um livro, pessoas que escrevem ... Não me agrada muito, me faz pensar na escola. É a palavra "escola´?".

Em outra apresentação, reagiu à palavra "generosidade": "Não me diz nada, vi algo e depois desapareceu... Não sei por que, mas penso em "ajudar". É isso? Também em "coragem"". Já "casa" suscitou uma forte emoção - que ela não soube explicar. Quando lhe perguntamos o que havia lido, respondeu que não tivera tempo de ver de que palavra se tratava. Porém, questionada sobre o que lhe vinha à mente, descreveu cenas de sua infância, em particular a imagem do pai: "Em casa, meu pai fazia bricolagem e gostava de jardinagem; vivíamos em uma casa ampla, com jardim e muitas flores". Mas, ao indagarmos se a palavra era "casa", ela não sabia.

  • Sons com sentido

Incapaz de pronunciar a palavra escrita, a senhora R. captava seu significado ou seu sentido geral. Quando os termos eram rapidamente projetados, ela dizia não as ter visto, ainda que suscitassem emoções e imagens mentais. Isso mostra que, mesmo não conseguindo ler ou ver as palavras, elas despertavam em sua mente associações razoáveis, em geral ligadas a sua história pessoal. "Professor" gerou emoção negativa, pois não gostava de ir à escola e, automaticamente, evocou imagens: livros, um homem que escreve e uma escola. "Casa" desencadeou uma forte emoção, ligada a recordações da infância e ao pai falecido. Essa modalidade de leitura, incomum, é denominada "implícita", pois o paciente não se dá conta de que tem uma capacidade residual de leitura.

Embora o caso da senhora R. permanecesse enigmático, sabíamos, por exemplo, que casos de leitura implícita ocorrem em pessoas s que passaram por cirurgia. Na maioria das vezes, os pacientes são epiléticos tão graves que é preciso separar os hemisférios cerebrais, cortando a conexão do corpo caloso que os liga. Esses pacientes passam a ter dois hemisférios quase independentes. Em tais casos, estudamos as tarefas de cada hemisfério e vimos que o direito "lê" de modo implícito: quando uma cena é percebida visualmente, a parte esquerda da retina de cada olho envia informações ao hemisfério direito do cérebro; assim, quando se projeta uma palavra na zona esquerda da retina, ela é enviada seletivamente ao lado direito.

Quando a palavra é projetada muito rapidamente, o paciente afirma que nada viu. Mas, se é solicitado que escolha um objeto correspondente à palavra, é capaz de fazê-Io com a mão esquerda (comandada pelo hemisfério direito). A pessoa que realiza a tarefa, contudo, tem a impressão de que a seleção do objeto foi casual.

  • Letra por letra

Da mesma forma, consegue indicar, pressionando uma tecla com a mão esquerda, se a palavra escrita é verdadeira ou fictícia ou se pertence a uma categoria particular, como a de nomes de animais. Tais situações evocavam a da senhora R., que lia provavelmente com o hemisfério direito e entendia o sentido das palavras que via sem poder decifrá-Ias nem pronunciá-Ias.

Essa interpretação é compatível com o que sabemos sobre o modo como o cérebro lê. A capacidade de leitura é adquirida após um longo aprendizado. No início, a criança decifra cada letra e lhe atribui o som correspondente e, depois, aprende as sílabas. A seqüência de letras em um termo corresponde a uma sucessão de sons, que constitui a palavra reconhecida pela criança como provida de significado.

Como primeiro passo, o córtex visual esquerdo visualiza as letras que constituem a palavra e define sua sucessão. A seqüência de letras ativa, em seguida, uma pequena região da parte inferior do córtex temporal esquerdo, especializada na identificaação das palavras, independentemente do modo como as letras são escritas (à mão ou à máquina, maiúscula ou minúscula) e de sua dimensão.

Com o passar do tempo, o proocesso de decodificação das palavras se acelera e sua pronúncia em voz alta exige apenas uma fração de segundo, provavelmente porque a leitura não é mais feita letra por letra, mas sim por grupos de letras. Intervém aí o hemisfério direito, que, dotado da capacidade de leitura global, parece também associar às palavras um conjunto de conceitos e estabelecer conexões semânticas, ou seja, de significado. Cabe a esse hemisfério estabelecer conexões com palhaço ou elefante quando a pessoa lê circo. A palavra circo deixa um traço na memória que permite reconhecê-Ia mais rapidamente em uma nova leitura.

Parecia que a senhora R. usava o hemisfério direito para reconhecer rapidamente a forma geral da palavra. Mas, como no caso de pacientes que têm os dois hemisférios dissociados, não podia transferir para o esquerdo a informação que lhe permitiria pronunciar os termos. Em compensação, o direito pode transferir informações relativas ao sentido, que se manifestam nos conceitos associados às palavras. Restava, porém, identificar aquilo que, na senhora R., equivaleria a uma secção do corpo caloso ou a uma separação dos hemisférios.

  • O lugar da semântica

Em 1981, o neurologista americaano John Sidtis e seus colegas da Universidade Cornell, Nova York, descreveram o caso de um paciente operado, inicialmente, apenas na parte posterior do corpo caloso. Após a intervenção, a equipe de Sidtis projetou palavras no hemisfério direito do paciente, cujos comentários foram similares ao da senhora R. Por exemplo, diante da palavra cavaleiro, ele disse: "Tenho uma imagem na cabeça, mas não consigo dizer qual é ... Dois homens que combatem em um círculo ... Antigos uniformes e elmos ... Estão a cavalo ... Cada um tenta desarmar o outro ... Cavaleiros!". Vendo "cebola", descreveu o jardim de uma casa.

Depois de uma segunda operação, na qual seccionaram a parte restante do corpo caloso (a anterior), o homem deixou de emitir comentários, o que levou os médicos a acreditar que a parte anterior do corpo calooso veicula informações semânticas ligadas às palavras lidas. Podem ser transferidos ao hemisfério direito somente o sentido da palavra e suas associações com outras. Mas a palavra não é pronunciável se as informações fonológicas não passam pela parte posterior do corpo caloso.

  • Tempo perdido

O enigma da senhora R. estava essclarecido. Em seu caso, a lesão estava na área de junção entre os lóbulos occipital e parietal, indispensável para a correta transposição do sinal visual associado ao som correspondente. A senhora R. era incapaz de fazer essa mediação, ou a fazia muito lentamente, de tal modo que não podia elaborar nenhuma forma de enunciação quando o vocábulo lhe era apreesentado por um breve intervalo. O hemisfério direito, porém, percebia a palavra instantaneamente, suscitando imagens mentais ou estados emotivos, ou evocava recordações de infância que tinham com ela um vínculo mais ou menos estreito.

Por analogia com o que observamos nos pacientes operados no corpo caloso, consideramos que as frases da senhora R. traduziam informações que o lado direito do cérebro transmitia ao esquerdo. Mas os sons enviados ao hemisfério esquerdo eram bloqueados na área visual, sem que fossem transcritos, já que a área responsável pela transcrição estava lesionada. Descobrimos assim uma propriedade insuspeita do hemisfério direito, o que nos faz pensar que a faculdade de criar associações de sentido para uma palavra talvez explique por que nas obras literárias - como Em busca do tempo perdido, de Proust - uma frase ou palavra evocativa faz surgir na consciência um universo de aromas, recordações, jardins, casas circos e movimentos.

Para conhecer mais

Distúrbios na aquisição da linguagem e da aprendizagem. Carolina R. Schirmer. Denise R. Fontoura e Magda L. Nunes. Jornal de Pediatria, vol. 80, nº 2, 2004.
O cérebro nosso de cada dia. Suzana Herculano-Houzel. Vieira & Lent, 2002.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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