Papo Cabeça


Reptiliano, límbico ou cortical? Descubra qual é a do seu cérebro nesta entrevista com o médico Eugênio Mussak.

Revista Você S.A. - por Otávio Rodrigues

O médico e biólogo Eugênio Mussak, de Curitiba, viaja pelo Brasil falando de algo que todo mundo tem, mas nem todo mundo usa - e, quem usa, conhece muito ouco: o cérebro. Formado em medicina e biologia pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em fisiologia humana pela Universidade da Califórnia,Ucla, em Los Angeles, e mestrado em fisiologia do exercício pelo Instituto Biosystem, de Rosario, na Argentina, Mussak mistura seus conhecimentos para explicar o que ocorre em nosso dia-a-dia, especialmente no trabalho. Por causa disso, suas palestras têm chamado mais e mais a atenção de estudantes e profissionais, e vão abrindo caminho para o lançamennto do seu segundo livro, Darwin e Eu. O doutor Mussak afirma que a maioria das pessoas luta apenas para sobreviver, o que é comparável ao comportamento dos répteis. E que todos os que não se adaptarem aos "novos ambienntes" (incluindo aí os do mundo corporativo) desaparecerão para sempre. Leia com atenção esta entrevista e descubra se há, ou não, um Jurassic Park funcionando no seu proprio cérebro.

  • O cérebro humano tem mesmo similaridades com o cérebro dos lagartos?

    Sim, tem. Os répteis surgiram no período Carbonífero, há cerca de 350 milhões de anos. Se pudésssemos dissecar o cérebro de um desses primeiros lagartos, identificaríamos componentes cerebrais que nós, humanos, temos até hoje: o hipotálamo e os núcleos da base. Isso explica por que o comporrtamento de um ser humano tem algo do comportamento de um lagarto - e também o contrário.

  • Soa um tanto estranho comparar o cérebro mais sofisticado do planeta com o dos répteis. N

    ão tanto, se você pensar sobre o que faz um lagarto no dia-a-dia. São apenas três coisas, todas relacionadas diretamente à sobrevivência: ele come, repousa e se reproduz. Bem, nutrição é básico, ele precisa comer, e isso é óbvio. Depois ele tem de repousar. Por quê? Porque não pode gastar a energia que obteve comendo, para não ter de ir à caça novamente - pelo menos não tão cedo. Para esses bichos, comer é algo complicado. Para nós é fácil ir ao supermercado, à lanchonete ou abrir a geladeira.

    Um lagarto precisa sair para caçar e isso é perigoso, porque ele pode virar caça. Repousar, portanto, é também um ato de sobrevivência. A reprodução, isso também é muito claro, tem a ver com a manutenção de toda a espécie, o que inclui cada indivíduo. Pois bem, o cérebro humano é dividido em três partes. A primeira é o Sistema R, formado pelo hipotálamo e pelos núcleos da base, onde estão os componentes neurológicos que controlam nossa sobrevivência, tal como nos répteis: alimentação, repouso e reprodução. Esse é o chamado cérebro animal ou cérebro reptiliano dos seres humanos, porque é de onde emana nosso comportamento instintivo.

  • Não temos livre-arbítrio em relação a essas atividades?

    Pergunte-se por que nós comemos ... Porque é meio odia? Não, comemos porque estamos com fome. Ninguém planeja ter fome daqui a 5 minutos. O repouso também não é intencional nem pode ser administrado como uma conta corrente - o corpo pede descanso. E com a reprodução é a mesma coisa, já que ninguém decide sentir uma atração sexuaL Essas três funções existiam há 350 milhões de anos no cérebro dos répteis e existem hoje em nós também. Mas é claro que podemos planejar esse nosso comportamento animal, de maneira a tornar nossa existência mais prática, mais inteligennte. Para isso, utilizamos outras partes do cérebro, que entretanto não são tão antigas quanto o hipotálamo.

  • Onde entra a decantada massa cinzenta?

    Apareceu por último. Antes surgiu uma segunda parte do cérebro, que é o sistema límbico, responsável pelas emoções, pelos sentimentos. Entre o cérebro reptiliano e o cérebro límbico há uma distância monumental- eu não sei, ninguém sabe ao certo, mas o primeiro teria 350 milhões de anos e o outro apenas 10 milhões de anos. A terceira parte do cérebro é o córtex cerebral, a que chamamos também de massa cinzenta, que é onde funciona o pensamento. Quantos anos tem o córtex cerebral? Talvez uns 50 000 anos, quando muito. Reveja a idade aproximada de cada uma dessas partes do cérebro e então pense na diferença e na influência que elas têm em nosso comportamento. É natural que nosso cérebro mais antigo, o reptiliano, comande muitas de nossas atitudes.

  • Então o instinto ainda prevalece?

    Há um predomínio, uma tendência em favor do instinto. E a dura verdade é que a maioria das pessoas é controlada por essa parte do cérebro. É evidente que há graus e qualidades muito dispares de intelectualidade, mas há quem seja capaz de realizar apenas coisas muito simples, as tarefas mecânicas. Essas pessoas praticamente não discutem, fazem sempre o que lhes pedem. Nesses indivíduos não existe discussão existencial, pois o nível de sofisticação deles é pequeno. Eles agem e pensam hipotalamicamente.

  • Isso pode ser modificado? P

    ode. Em verdade, todos nós, e em maior ou menor medida, desejamos ser hipotalâmicos, e, assim, só transar, comer e descansar - que tal? Mas é preciso obedecer a duas palavras mágicas para se entregar a isso: hora e local. Para tudo o que fazemos além dessas três coisas básicas, dependemos de decisão, que acontece no córtex cerebral. Se uma criança pequena não faz a lição de casa alegando que "não está com vontade" ela está dizendo a verdade e nós tendemos a aceitá-la. Mas, se você não declara o imposto de renda porque "não está com vontade", está frito. Por isso temos de fazer o que precisa ser feito, decidindo sobre isso, porque, se fizermos apenas o que estamos com vontade, vamos nos limitar àquelas três coisas na vida. Bem, isso pode até parecer muito agradável num primeiro instante, mas será preciso ter o cérebro limbico e o córtex bem pouco desenvolvidos para não achar uma vida dessas extremamente tediosa.

  • Podemos acreditar, então, que gostar de desafios é um traço das pessoas inteligentes?

    A idéia corporativa de inteligência mais disseminaada reúne três itens: 1) capacidade de compreender; 2) capacidade de aprender; 3) capacidade de adapptar-se. Compreender o quê? O que está acontecendo a seu redor. É a percepção. Você precisa, portanto, primeiro entender o mundo à sua volta para, depois, aprender. Os dois primeiros estágios devem funcionar combinados, caso contrário você estará apenas decorando e amanhã ou depois esquecerá tudo. Você pode até passar num exame, mesmo sem entender, só que não se trata de uma compreensão verdadeira, efetiva. Mas o conceito mais importante dos três, na minha opinião, é a capacidade de adapptação, algo que Darwin explicou bastante bem. Ele não disse que venceu o mais forte, mas sim o mais adaptável, que resistiu aos desafios e às mudanças ambientais, que sobreviveu e gerou descendentes. Aquele que não se adaptou simplesmente morreu. Isso vale para a natureza selvagem, para a espécie humana, e vale também para a vida corporativa.

  • Mas atitudes conservadoras ainda são bem comuns, t anto nas pessoas quanto nas corporações.

    Pegue um jornal e você vai ver notícias de empresas que estão falindo. Na mesma edição, com certeza, lerá sobre outras que estão começando e se dando bem. Em Curitiba, quando eu era mais jovem, se alguém me pedisse exemplos de grandes empresas, citaria as Lojas Hermes Macedo. Para mim, não existia nada maior e mais sólido que essa corporação. Em São Paulo, há 60 anos, as Indústrias Matarazzo eram modelo de poder e riqueza. Onde estão essas empresas hoje? Desapareceram, porque não se adaptaram às "mudanças ambientais". O mesmo acontece com o cérebro: hoje, a inteligência está muito mais ligada à capacidade de adaptação do que em outros tempos. Só que essa é uma característica que você encontra em algumas pessoas, em outras não. É só olhar ao redor para identificar os que não estão no lugar certo - e que, provavelmente, não vão estar nunca no lugar certo, seja onde for, porque não têm capacidade adaptativa.

  • É possível dar um exemplo?

    No último filme de Woody Allen, Reconstruindo Harry (que eu recomendo, já existe em vídeo), há uma cena antológica. Há um diretor de cinema regulando a câmera, e o ator, Robin Williams, está ali, pronto para ser filmado. Mas o homem não consegue acertar o foco e chama o técnico para ajudar. O outro cara mexe, mexe e também não descobre o problema. De repente, pára tudo, cai a ficha: o problema não está na câmera. É o ator, ele é que está fora de foco! Então a cena fecha no Robin Williams e ... é mesmo, está todo mundo bem na foto, mas ele está desfocado - só ele. O diretor se aproxima, conversa e sugere que ele vá para casa ver se acha o foco. Depois o filho comenta que ele está meio apagado, a mulher leva um susto, deixa cair o copo ... Isso é a realidade: tem muita gente por aí fora de foco. Por isso não se adapta e às vezes nem consegue ser percebida pelos outros. Eu conheço muita gente assim. É um pouco a história do "Eu sou um homem de opiniões firmes, faz 20 anos que eu tenho essas opiniões aqui". Desculpe-me, mas esse cara é um idiota, porque de 20 anos para cá tudo mudou. Essa atitude, que é até bastante comum, não tem nada a ver com firmeza de caráter ou de personalidade. Tem a ver com ser ou não ser adaptável.

  • Não é importante saber o que queremos e gostar do que queremos?

    Esse é outro ponto fundamental. Há pessoas que se deixam dominar pelo límbico, pela emoção. Elas não têm a menor idéia do que é melhor para si mesmas, mas sabem exatamente o que é mais agradável. Porque o sistema límbico do cérebro as empurra para o prazer na mesma medida em que as afasta do desprazer. Isso, de certa forma, acontece com todo mundo, em maior ou menor medida. Por exemplo, há muitas coisas que temos de fazer, mas que não agradam o sistema límbico. E existem pessoas que, a partir do momento em que o límbico é afetado, já não fazem mais nada Todo mundo conhece alguém assim. Se acontece alguma coisa, uma briga com a namorada, já não consegue produzir direito, não rende, não dorme, não come, não toma banho. E, se continuar centrado em seu sistema limbico, isso acontecerá de novo e de novo e de novo ...

  • Sufocar nossos sentimentos é uma boa saída?

    Não, eu não estou dizendo que devemos sufocar o emocional. Quando vamos ao futebol, por exemplo, nós damos chance ao límbico, xingando o juiz ou o atacante que perde um gol. Você vai com seu córtex cerebral ver A Múmia, por exemplo, e sai dizendo que é um filme totalmennte estúpido. Mas, se assistir com o sistema límbico, achará que é bem legal. Você fica até com medo da múmia. Como no Titanic, quando muita gente chora. Ou seja, você não pode racionalizar tudo, e a graça é exatamente essa: paga-se para rir ou para chorar. Mas repito: você não pode participar de uma reunião com o sistema límbico. No filme, você tem de usar o sistema límbico; na reunião, tem de usar o córtex cerebral. E muita gente confunde isso. Aliás, o que a maioria das pessoas faz é confundir os comportamentos gerados pelas três partes do cérebro. E assim não há paz int ando vamos ao futebol, por exemplo, nós damos chance ao límbico, xingando o juiz ou o atacante que perde um gol. Você vai com seu córtex cerebral ver A Múmia, por exemplo, e sai dizendo que é um filme totalmennte estúpido. Mas, se assistir com o sistema límbico, achará que é bem legal. Você fica até com medo da múmia. Como no Titanic, quando muita gente chora. Ou seja, você não pode racionalizar tudo, e a graça é exatamente essa: paga-se para rir ou para chorar. Mas repito: você não pode participar de uma reunião com o sistema límbico. No filme, você tem de usar o sistema límbico; na reunião, tem de usar o córtex cerebral. E muita gente confunde isso. Aliás, o que a maioria das pessoas faz é confundir os comportamentos gerados pelas três partes do cérebro. E assim não há paz interna, porque há uma tendência em cada uma dessas partes em querer prevalecer sobre os outras.

  • Há uma guerra surda acontecendo em nossas cabeças?

    Infelizmente, sim. O hipotálamo quer ser o mais forte porque é o mais antigo, é a essência, a sobrevivência. O sistema límbico, porque busca o prazer, e daí nos compele a sentimentos do tipo "a emoção é o prazer": "o prazer é tudo" ou "sem prazer não vale a pena viver". Por último, o córtex querendo dominar, porque é ele que sabe das coisas, que conhece hora e local apropriados. Só que, como já vimos, o córtex é uma parte do cérebro que tem apenas 50 000 anos! Do ponto de vista da evolução, o pensamento é a última das funções cerebrais que apareceu, por isso é que nós ainda não o dominamos muito bem.

  • Para os lagartos, a vida deve ser bem mais fácil...

    A palavra-chave é gerenciar essas três diferentes forças do cérebro. E para aprender a gerenciar é preciso treinar, enfrentando situações reais. Minha teoria é: temos de ser racionais. Mas só conseguiremos ser totalmente racionais se formos, ao mesmo tempo, tremendamente emocionais e também muito instintivos, desde que obedecendo àquelas duas palavras mágicas - hora e local. O ideal é conseguir um certo equilíbrio entre o hipotálamo, o sistema límbico e o córtex cerebral.

  • Suponhamos que uma gerente esteja em dúvida sobre fazer ou não um mestrado, mas resista à idéia por causa da família e do lazer. Como é que o cérebro funciona numa situação assim?

    Se o córtex entrar em ação, ficará claro para ela que, com esse investimento, será mais respeitada na empresa, terá mais oportunidades, mais convites para dar aulas e até mais dinheiro no fim do mês. Mas, se ela deixar que as outras partes do cérebro predominem, perceberá a situação de maneira diferente. Vai imaginar o transtorno de fazer a faculdade à noite, as aulas aos sábados, o porre que é defender uma tese e, no fim, achará bem mais confortável ficar em casa lagarteando. O mais razoável, a meu ver, é aferrar-se na primeira hipótese, a de que o mestrado contará pontos em sua qualificação profissional, de que ela ganhará mais dinheiro e de que, no futuro, seus filhos terão muito mais orgulho dela. Mas é preciso, portanto, passar por cima do que se apresenta como obstáculo a essa decisão.

  • E onde encontrar esse Santo Graal?

    A motivação. É uma vontade gerada intelectualmennte, pelo pensamento, e não por uma vontade biológica. E eu acredito apenas na automotivação. Um verdadeiro líder, por exemplo, deve dar elementos para que cada um na equipe encontre sua própria motivação. Porque, se para agir motivada a equipe depender da presença dele, esse líder está perdido - talvez nem seja um líder mesmo. Portanto, basta recapitular a respeito de como o cérebro funciona e ter sempre em vista algo que se processa como na química. Há um princípio que trata da energia de ativação - tempo de reação versus energia gasta. Quando uma reação começa, o gasto energético é imenso. Mas, à medida que a reação vai ocorrendo, o gasto energético decai. É como um avião, que gasta centenas de litros de gasolina para decolar, mas muito menos quando já está lá em cima. Ou seja, a energia gasta para começar alguma coisa é bem maior do que a necessária para fazê-la.

  • Nosso problema, então, é o que fazer para conseguir esse energia inicial.

    Na química existe o catalisador, uma substância que provoca um tipo de reação e abaixa esses níveis admiravelmente. E seu equivalente mental é a motivação. Quando motivado, você faz qualquer coisa mais rápido e mais bem feito. E é seu córtex que deve determinar esse processo.

  • De que maneira uma pessoa sem motivação conseguirá acionar essa porção mais inteligente do cérebro?

    Acho que o segredo de tudo é a adaptação, o que exige ter os sentidos bem abertos. Nós temos apenas cinco sentidos - e tem gente que os têm bastante embotados. Quanto mais alta é nossa ciclagem cerebral - quando estamos nervosos, por exemplo - menos nós vemos, ouvimos, sentimos etc. O controle da ciclagem cerebral, portanto, é fundamental. Temos de manter a serenidade, e cada um precisa identificar em si mesmo a forma de consegui-la. Até porque, com a ciclagem baixa, permitimos que surjam outros sentidos além dos cinco conhecidos - a intuição, por exemplo. Enfim, a serenidade exacerba os sentidos que já dominamos e nos aproxima de nossos sentidos adormecidos.

  • O desafio, enfim, ficaria reduzido a "manter a serenidade"?

    De certa forma, sim. Para ir bem na vida, você precisa de adaptação, que por sua vez depende da percepção do ambiente, o que exige manter sentidos atentos, algo que só se consegue com serenidade. E aí a cobra morde o próprio rabo. Porque estar sereno depende de adaptação, pois quanto mais adaptado, mais sereno você está. Estamos numa maravilhosa roda-viva.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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