Para comer e para curar


Desde a Antiguidade houve preocupação de evitar ou intensificar o consumo de certos alimentosquando se usavam medicamentos; hoje se sabe que excesso ou falta de sódio podem interferir no tratamento do transtorno bipolar; já os queijos amarelos interagem mal com alguns antidepressivos.

Revista Scientific American - por Rosane Gomez e Carina Duarte Venturini

Um dos primei­ros aprendiza­dos do homem pré-histórico foi selecionar na natureza os elementos que o mantinham mais saudável, e ao longo dos séculos essa prática se perpetuou. O reconheci­mento da importância dos alimentos para a manutenção e recuperação da saúde aparece no século 5 a.C., nas palavras de Hipócrates, o precursorda medicina: "Que o alimento seja teu medica­mento e que o medicamento seja teu alimento". Naquela época, os preparados usados para curar ou amenizar o sofrimento eram constitu­ídos por minerais, tecidos de origem animal, chás, in­fusões, unguentos. Embora o conhecimento a respeito de fisiologia humana fosse escasso e não houvesse informações sobre farmacologia, alguns escritos forneciam instruções de como a medicação deveria ser ad­ministrada, devendo ser evitado ou intensificado o consumo de determinados produtos - pois se previa que essa interação trouxesse consequ­ências. Além disso, alguns alimentos e bebidas eram utilizadas como antídotos para intoxicação por medicamentos. Um exemplo relatado na literatura especializada é o emprego de chá preto, bem forte, para reverter os efeitos do excesso de estricnina e metais pesados no organismo, ou o emprego do leite para certos tipos de envenena­mentos - conhecido, aliás, até os dias de hoje.

No século 11, os livros de medicina eram divididos em duas partes: a primeira descrevia os sintomas das doenças e a segunda relacionava as prescrições em cada caso. Muitas dessas indicações eram verdadeiras receitas de culinária. Era o caso da sopa de galinha com cebola, alho e condimentos como pimenta, mostarda, entre outros, indicada como primeira escolha no tratamento de algumas doenças. Caso os alimentos não restituíssem a saúde ao paciente, era recomendado então o uso de outros recursos, como sangria, laxantes, eméticos, minerais e plantas. Esses procedi­mentos eram levados tão a sério que os médicos da época poderiam ser processados por imperí­cia se não prescrevessem uma dieta adequada para o tratamento.

Com o avanço do co­nhecimento, a relação entre algumas doenças e a deficiência de nutrientes foi sendo esclarecida e contornada. No século 18, por exemplo, sabia­-se da necessidade de ingerir alimentos ricos em vitamina C, como lima e limão, para preve­nir sintomas como sangramento nas gengivas, inchaços, dores nas articulações e dificuldade de cicatrização (escorbuto). Esse saber foi desenvol­vido por meio da observação de um fato: após vários meses em alto-mar, marinheiros ingleses apresentavam tais sintomas, associados à dieta pobre em frutas cítricas.

Novas áreas da ciência, como a fisiologia, tentavam explicar como os órgãos funcionavam e qual era a relação entre eles. Perturbações no funcionamento do organismo eram correlacio­nadas com doenças. Concomitantemente, os primeiros farmacologistas tentavam encontrar na natureza plantas, minerais ou secreções de animais que pudessem restabelecer o equilíbrio. Nos tempos modernos, a rápida recuperação da saúde promovida pelos medicamentos deixou em segundo plano a ideia de que alimentos estariam implicados diretamente na manutenção do bem­ estar. Mais recentemente, porém, a importância do que comemos vem ganhando força quando se fala na manutenção e recuperação da saúde. Inúmeras pesquisas têm demonstrado que nutrientes podem realmente prevenir doenças e aliviar sintomas. Muitas substâncias presentes nos alimentos estão associadas à redução do risco de câncer, doenças cardíacas e Alzheimer.

Se ambos, nutrientes e medicamentos, são capazes de interagir com determinados sistemas fisiológicos e interferir no funcionamento do orga­nismo, faz sentido considerarmos a possibilidade de interação entre alimentos e medicamentos. Tais influências, porém, nem sempre são bené­ficas. Também é esperado pensarmos que, se a maioria dos medicamentos é administrada por via oral e sua absorção se dá principalmente no intestino, a simples presença de alimentos no aparelho digestório pode interferir na taxa e na velocidade de sua absorção.

• Salvos pela barra de cereal

O que comemos pode evitar a sobrecarga emocional, e há fortes indícios de que alimentos crus afastam sintomas de demência e até mesmo a síndrome de burnout (o esgotamento por estresse). Uma barrinha de cereais no meio da manhã, por exemplo, ajuda o cérebro a funcionar melhor. E nesse processo, nem só flavonoides têm sua importância.

O neurotransmissor serotonina, por exemplo, participa de todos os processos cognitivos, intelectuais, afetivos - influencia o que pensamos, sentimos, a memória e a imaginação. Nessa abundância de atuações, uma delas se destaca. A "substância da felicidade" ajuda a melhorar o humor e a reduzir o estresse. Esse processo se inicia logo de manhã, ao acordarmos. Quando há serotonina abundante no corpo, o dia já costuma começar bem. A pessoa saudável começa seu dia de trabalho com entusiasmo e consegue tomar decisões de forma objetiva, sem que esse processo seja excessivamente desgastante, pois com suficiente serotonina no sangue, em vez de ver principalmente problemas e dificuldades, o indivíduo imediatamente se volta para as soluções possíveis. A atitude básica corresponde mais a um decidido "afinal, por que não!?" em vez de um "mas ... ".

O déficit do neurotransmissor não é sentido apenas como uma queda desagradável na produção e no ânimo. A longo prazo, provoca sintomas psíquicos e fisicos desagradáveis, variações de humor até a depressão, dores de cabeça constantes, distúrbios de sono, enfraquecimento do sistema imunológico, falta de libido, impotência, assim como a temida síndrome de burnout. Segundo estudos recentes, mesmo doenças como Alzheimer e diabetes podem estar, ainda que parcialmente, associadas à baixa produção de serotonina.

Para prevenir o problema um caminho talvez seja tomar nossos ancestrais filogenéticos como modelos para a composição de nossos cardápios! Pois se comêssemos como nossos ancestrais, há milhões de anos - assim como nossos parentes geneticamente mais próximos, os macacos -, o corpo humano conseguiria produzir sensivelmente mais serotonina e, mesmo em um caso de necessidade elevada, sob forte estrese, o organismo não chegaria a sofrer em razão de deficiência do neurotransmissor. O gargalo decisivo para a síntese desse "hormônio chefe" é o aminoácido triptofano, que o corpo não consegue produzir sozinho. Por isso, precisamos adicioná-Io ao metabolismo por meio da dieta, recorrendo a alimentos crus. Considerando que patologias como Alzheimer e diabetes podem estar associadas à baixa produção de serotonina, a ingestão frequente de grãos aumenta a produção da substância.

• Perigosa combinação

O marco histórico para o estudo das interações entre alimentos e medicamentos aconteceu na década de 1960, quando pacientes deprimidos, tratados com antidepressivos inibidores da mo­noaminoxidase (MAO) ingeriram alguns tipos de queijos, vinho tinto ou peixe e apresentaram crise hipertensiva grave, seguida de acidente vascular cerebral e morte. As investigações sobre o fato culminaram com a descoberta da incompatibili­dade. Desde então tem crescido o interesse pelo tema. Em 1964, foi publicado o seguinte artigo de J. M. Cuthill, no periódico científico Lancet : "Em 3 de setembro de 1963, um homem de 40 anos foi tratado para depressão com tranilcipromina. Um mês depois, ele se queixou de dor de cabeça leve, mas jantou normalmente com sua família. Na ocasião, ele consumiu bife, queijo cheddar e biscoitos. Durante a noite, sentiu-se mal, queixou-se de náusea, tontura e uma dorde cabeça insuportável. Pela manhã, porém já se sentia suficientemente bem a ponto de tomar o café com sua família e consumir dois ou três pedaços grandes de queijo. Após a refeição, ficou agitado, agressivo e confuso, seu nariz começou a sangrar e apre­sentou confusão mental. Levado ao hospital, continuava confuso, e sua temperatura era alta, seu pulso e pressão sanguínea estavam elevados. Ele morreu às 20h30 daquele dia. Na autópsia, seu cérebro estava aumentado e apresentava sintomas de congestão vascular intensa. Os médicos concluíram que a morte fora resultado da combinação do queijo e da tranilcipromina.

Além do cheddar, outros exemplos de queijos maturados como o emental, o roquefort, o pro­volone, a mussarela e o parmesão apresentam elevado teor de tiramina - e consequente risco de interação com antidepressivos. Além dos laticí­nios, também são ricos em tiramina frutas como abacate, banana bem madura e figo maduro ou enlatado os laticínios, os peixes conservados em picles, salgados ou defumados, camarão, caviar, salame, carnes concentradas em molho, sopa industrializada, bem como fígado bovino ou de aves, principalmente se armazenados por longo tempo ou na forma de patês. Fava de feijão, suplementos proteicos, pimenta e molho de soja devem ser consumidos com moderação. Entre as bebidas, fica proibido o vermute, o vinho tinto e a cerveja. Além da restrição de alimentos ricos em tiramina, recomenda-se a redução da ingestão de estimulantes como guaraná, café, chocolate e chimarrão.

Alguns cuidados especiais em relação à dieta devem ser adotados para pacientes que tratados com sais de lítio, uma medicação bastante efi­caz para transtorno bipolar. Produtos ricos em sódio e outros eletrólitos costumam aumentar a excreção da substância, reduzindo seu efeito - ao contrário, as dietas muito pobres em sódio, reduzem a eliminação do iítio, aumentando o risco de intoxicação. A dieta, portanto, deve ser normossódica (com quantidades moderadas de sódio). O uso de drogas diuréticas ou chás com essa propriedade - como o de carqueja, chapéu­ de-couro, cavalinha, quebra-pedra e alcachofra - também costuma acelerar a eliminação de lítio e por isso devem ser evitados.

Não é possível deixar de lado as evidências de que a alimentação, por si só, tem um papel importante na regulação do humor, pois muitos nutrientes são precursores de neurotrans­missores ou fazem parte de sua produção. O tratamento da depressão, por exemplo, merece cuidados nutricionais não apenas porque há muitas interações entre medicamentos e ali­mentos, mas também porque variações neuro­químicas dependem da nutrição adequada.

A serotonina, um neurotransmissor respon­sável pela regulação de emoções e determinan­te na propensão à depressão (no caso de baixa concentração), necessita das vitaminas C, B6, B 12, ácido fólico e zinco para sua síntese a par­tir do triptofano. Este aminoácido está no leite e em seus derivados, na aveia, nos produtos à base de soja, no arroz, nos grãos integrais, na carne branca, nos ovos, no mel, na ameixa, na banana, no abacaxi, nas frutas secas, no amendoim, nas nozes e na castanha, entre outros alimentos.

Alguns estudos indicam que dietas ricas em carboidratos aumentam a concentração de triptofano, o precursor da serotonina, no sistema nervoso central (SNC). Dietas ricas em proteína, ao contrário diminuem a captação desse aminoácido pelo SNC. Isso se justifica porque proteínas contêm, além do triptofano, aminoácidos básicos como metionina e alanina, que competem com o triptofano pelo transporte ao SNC, realizado por transportadores "especializados" contidos na barreira hematoencefálica. Portanto, dietas equilibra­das em que a proporção de carboidratos em relação a proteínas é maior podem aumentar a concentração de triptofano no sistema nervoso central e, c nca, nos ovos, no mel, na ameixa, na banana, no abacaxi, nas frutas secas, no amendoim, nas nozes e na castanha, entre outros alimentos.

Alguns estudos indicam que dietas ricas em carboidratos aumentam a concentração de triptofano, o precursor da serotonina, no sistema nervoso central (SNC). Dietas ricas em proteína, ao contrário diminuem a captação desse aminoácido pelo SNC. Isso se justifica porque proteínas contêm, além do triptofano, aminoácidos básicos como metionina e alanina, que competem com o triptofano pelo transporte ao SNC, realizado por transportadores "especializados" contidos na barreira hematoencefálica. Portanto, dietas equilibra­das em que a proporção de carboidratos em relação a proteínas é maior podem aumentar a concentração de triptofano no sistema nervoso central e, consequentemente, de serotonina, popularmente conhecida como a "substância da felicidade", melhorando assim o humor e reduzindo o risco de depressão.

Além disso, dietas ricas em carboidratos aumentam a liberação de insulina após as refeições, intensificando a captação de outros aminoácidos básicos para o tecido muscular e facilitando ainda mais a absorção de triptofano pelo SNC. A insulina liberada pelo aumento de glicose pós-prandial (após as refeições) também aumenta a captação desses aminoá­cidos básicos para o tecido muscular. Além do triptofano, outros aminoácidos, como tirosina, colina, histidina e taurina, obtidos por meio da dieta, são precursores de neurotransmissores. Minerais como manganês (presente no aba­caxi e em leguminosas), cromo (encontrado em carnes, grãos integrais, germe de trigo, queijo, pimentão verde, espinafre e pimenta­ do-reino etc.) , cobalto (disponível no amen­doim, ervilha, sardinha, salmão etc.) , iodo (no sal iodado, alho, cebola e alimentos de origem marinha em geral) e selênio (comum na castanha-do-pará, carnes e aves), assim como os ácidos graxos e ômega 3 (EPA e DHA) - encontrados em óleo de peixe, abacate, li­nhaça e abóbora - também funcionam como importantes combustíveis cerebrais. 

• Glicose para voar

As fibras alimentares retardam a absorção de glicose. Elas são formadas por carboidratos complexos de origem vegetal que não podem ser digeridos pelas enzimas do trato gastroin­testinal humano. Assim, alimentos ricos tanto em amido quanto em fibras, como os produtos integrais, legumes, leguminosas e frutas não muito doces (como a maçã), mantêm o nível de glicose plasmática estável por mais tempo, pro­porcionando, portanto, as condições ideais para altos e longos voos intelectuais.

• A importância de manter o eqilíbrio

É ainda na fase da gestação e até aproximadamente os 6 meses que o cérebro humano é mais sensível aos alimentos. Nesse período é importante que o organismo seja abastecido com quantidade suficiente de matérias-primas (principalmente proteínas e lipídeos), para que os neurônios se desenvolvam adequadamente. Alimentando-se de forma equilibrada, a mãe fornece à criança, durante a gravidez e a amamentação, tudo de que ela necessita. Do contrário, o feto e, mais tarde, o bebê sentirão as consequências. Está comprovado, por exemplo, que problemas nutricionais nos primeiros anos de vida podem reduzir significativamente o quociente de inteligência.

O cérebro adulto também precisa de boa comida no prato. A deficiência de ferro, por exemplo, não se caracteriza apenas pela palidez da pele, mas também por cansaço e déficit de atenção. Anemia é causa frequente de problemas de leitura, raciocínio e linguagem. Como o déficit crônico nos primeiros anos de vida compromete o desenvolvimento cerebral, supõe-se que, mais tarde, as consequências sejam irreversíveis. No entanto, adultos que consomem dietas pobres em ferro também sofrem
prejuízos mentais significativos.

Para que nossos neurônios possam disparar a qualquer momento, incontáveis mecanismos consomem energia. É por isso que apesar de representar apenas 2% do peso corporal, o cérebro precisa de aproximadamente 20% de toda a energia que consumimos. Ele queima 120 g de glicose diariamente, e essa pequenina molécula tem de ser trazida via circulação sanguínea, já que, diferentemente dos músculos, o sistema nervoso central não é capaz de estocar glicose (na forma de glicogênio). Isso explica por que a glicemia é tão importante para a aptidão mental: quando ela cai, a concentração diminui. Estudo coordenado pelo bioquímico Daniel J. Cox, da Universidade de Virgínia, revelou que também a concentração muito alta de glicose reduz a capacidade mental. Os voluntários que participavam de sua pesquisa cometeram mais erros ao fazer cálculos depois de se esbaldar comendo doces. Atualmente, os cientistas acreditam que nada melhor para o cérebro do que uma glicemia moderada e estável; e isso se consegue ingerindo os carboidratos adequados. Mas é bom lembrar: seu efeito dura apenas algumas horas. O melhor mesmo é manter diariamente uma dieta diversificada. Seu cérebro agradece.

Para sabre mais

Interação entre alimentos e medicamentos. Rosane Gómez e Carina Duarte Venturini. Letra&Vida, 2009.

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